O objetivo de nossa tese, como já evidenciamos em sua Introdução, era compreender atribuições - muitas vezes destinadas a mulheres e encaradas como algo natural nos discursos daqueles representados, em alguns casos, por mãe, pai, filha, filho, esposa, dona de casa, trabalhador/trabalhadora doméstico(a).
O que analisamos é que praticamente todos os sujeitos pesquisados encaram o direcionamento das meninas e mulheres para as atribuições domésticas e de cuidado como algo natural. Portanto, aceitam com naturalidade que se destinem a elas esses
50 Após a conclusão do 1º Segmento do Ensino Fundamental, Irene deixou o emprego e mudou-se para
afazeres, assim como gerações anteriores também fizeram e as ensinou a fazer. Trata-se, pois, de uma herança transferida de geração para geração nas famílias dos sujeitos desta pesquisa.
Nessa perspectiva, como vimos, Irene, João e Nina deixam clara a divisão de tarefas em suas infâncias: os filhos homens ajudavam o pai na roça, ou na construção, e as filhas mulheres ajudavam as mães nos afazeres domésticos.
a) Júlia ajudava a sua mãe a servir almoço para fora e os irmãos ajudavam o pai.
b) No caso de Maria Emília, o pai era sapateiro. Mas a divisão permanecia, pois ela aprendeu a cuidar dos afazeres domésticos com a sua mãe.
c) Lúcia é filha e neta de empregadas domésticas. Segundo ela, isso é coisa que passa de mãe para filha. Afirma que quebrou a tradição familiar por ser mãe de um menino.
d) Rose afirma, em sua narrativa, que era a única filha mulher dos sete filhos que sua mãe teve. Por conta disso, com muita naturalidade e aceitação, afirma que por ser a única mulher, assumiu as tarefas domésticas e cuidados com os irmãos mais novos, não podendo, assim, frequentar a escola.
e) Maria do Rosário é filha única. Por conta disso, ajudava a mãe nas tarefas de casa e o pai, na roça desde muito jovem. Nota-se que ajudava pai e mãe porque eles já eram mais velhos e ela era a única opção de auxílio, não porque a família acreditasse que não havia uma divisão sexual de tarefas. f) Tina viveu sua infância em uma situação de vulnerabilidade social. Desde
muito cedo, fazia pequenos trabalhos de limpeza em casas de família em troca de comida. Tina tinha um irmão que compartilhava a mesma situação financeira, mas apenas ela trocava o seu trabalho em casas de família por dinheiro ou comida.
Vale lembrar que Tina é a única colaboradora desta pesquisa que questiona as tarefas atribuídas a homens e mulheres. Quando Tina se casa e tem sua própria família, vemos que afirma ensinar a todos os membros (marido, filha e filho) que as tarefas domésticas devem ser divididas entre todos, independentemente do sexo. Afirma que perguntou aos seus familiares onde estava escrito que, pelo fato de ser mulher, a responsabilidade com os afazeres domésticos seria dela. Explicou-nos que defende a ideia de que, assim como eles, trabalha fora, paga contas, tem uma profissão. Sendo assim, as tarefas domésticas não poderiam ser responsabilidade somente dela. Ensinou
aos filhos e ao marido a pensar dessa forma; logo, essa organização é bem resolvida em sua residência segundo ela nos conta.
E, então, afirma que, quando voltou a estudar, trabalhando o dia todo, sua família reorganizou-se para que ela não se sentisse muito cansada, e sua contribuição nos afazeres domésticos ficou restrita aos finais de semana. Mas, para cuidar do neto, abandona a escola, e vemos uma contradição nessa atitude.
Como observamos nos relatos das entrevistadas, apenas uma questiona as atribuições muitas vezes destinadas às mulheres. As demais encaram como algo natural essa divisão de tarefas. Ainda assim, ela deixa a escola para cuidar do neto.
João, por exemplo, nosso único participante do sexo masculino, relata que, além de suas tarefas habituais, precisa consertar tudo que quebra ou estraga, por ser o único homem adulto morando na casa. Percebemos na entrevista a naturalidade com que disse que, por ser homem, precisava dar conta de reparos.
Outra situação que nos chamou a atenção envolvendo João diz respeito à sua carteira profissional assinada como trabalhador doméstico. Ele identifica-se para as pessoas como caseiro, porque já sofrera muitos preconceitos associando sua profissão à sua sexualidade. Isso mostra o estranhamento de muitas pessoas, ao verem um homem trabalhando no âmbito doméstico.
Dessa forma, a participação de João nesse estudo possibilitou-nos comparar as situações profissionais e trabalhistas enfrentadas por ambos os gêneros quando nos reportamos ao trabalho doméstico, como veremos a seguir.
Quando João recebeu a proposta de deixar a construção civil e trabalhar como empregado doméstico ganhando um salário fixo (maior do que o que ganhava como ajudante de pedreiro) e um lugar para morar (uma casa pequena separada da casa principal), não precisando pagar aluguel, resolveu aceitá-la. Além dos motivos mencionados acima, outro fator que ajudou muito a decisão de João, foi o fato de acreditar que esse trabalho seria menos pesado do que o de ajudante pedreiro.
Contudo, no decorrer deste estudo, vimos que o entrevistado afirma se encontrar muito cansado devido à sobrecarga de serviço. Além das atividades sob sua responsabilidade, conforme tratado na sua contratação, atualmente, na casa não há mais uma empregada fixa, somente uma diarista duas vezes por semana para limpar toda a residência e deixar a maior parte da comida preparada no freezer. Isso fez com que as tarefas de João aumentassem, pois além das atividades descritas acima, passou a fazer
café e preparar o lanche para os filhos da patroa. Também faz pequenos reparos e pequenas reformas na residência.
Percebemos um alargamento de sua jornada de trabalho para 12 horas ao dia, pois sua rotina diária começa às 6 horas da manhã e só se encerra na hora de ir para a escola, por volta das 18 horas. Além disso, quando necessário, o horário se estende e, com isso, muitas vezes, deixa de ir para a escola.
O efeito da empatia, como mencionado anteriormente, atua, segundo ele, para que não questione a sobrecarga de atividades e nem o alargamento de sua jornada de trabalho.
Porém, assim como outras entrevistadas, um dos objetivos de João em relação à escola é mudar de emprego, devido ao cansaço oriundo de suas tarefas. Cansaço esse que também se configura como uma das maiores dificuldades para se manter na escola. O que analisamos é que João foi para o emprego doméstico remunerado, pois acreditava que esse serviço, geralmente desenvolvido por mulheres, era um serviço mais leve. Porém, ao se deparar com a sobrecarga de tarefas, ele pensa em mudar novamente de profissão.
De fato, ele se encontra em uma situação de maior sobrecarga ainda em relação às entrevistadas do sexo feminino. Isso ocorre porque, o fato de ser homem, de ter experiência profissional anterior e a existência de estereótipos levam João a assumir, além das tarefas domésticas, as tarefas de reparos, consertos e manutenção da casa.
No que diz respeito à situação trabalhista, como vimos, ele não se encontra em desvantagem financeira em relação às mulheres. Do ponto de vista salarial, encontra-se em igualdade com Maria do Rosário que, no entanto, é cozinheira, e afirma que apenas eventualmente assume outras tarefas. Todas as outras entrevistadas recebem menos que ela.
Das mulheres que atuam como empregadas domésticas como ele, apenas Maria do Rosário e Maria Nina possuem acesso aos mesmos direitos. Porém Maria do Rosário, mesmo recebendo três salários mínimos é registrada com apenas um. Maria Nina só passou a ter acesso aos direitos trabalhistas após a promulgação da PEC das domésticas, tratada anteriormente nessa tese.
As demais, como Irene, Maria Emília e Rose, não possuem acesso a nenhum direito trabalhista, como no caso das duas primeiras, ou possuem acesso parcial a esses direitos, como no caso da última.