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GAZZÂLÎ: HAKİKAT ARAYIŞIYLA GEÇEN BİR HAYAT Bölüm Hakkında İlgi Oluşturan Sorular

Belgede 1. İBN SÎNÂ NIN HAYATI (sayfa 35-39)

Esta tese trabalhou com a hipótese de que, nos grupos sociais que correspondem aos estudantes da EJA na etapa do Ensino Fundamental, ocorre a naturalização de funções e a atribuição de exclusiva responsabilidade às mulheres, no que diz respeito às tarefas de cuidado, ou tarefas domésticas.

Verificamos que praticamente todos os sujeitos pesquisados encaram o direcionamento de meninas e mulheres para as atribuições domésticas e de cuidado como algo natural. Portanto, aceitam com naturalidade a responsabilidade pelos afazeres, assim como gerações anteriores também fizeram e os ensinou a fazer. Trata-se de uma herança transferida de geração para geração nas famílias dos sujeitos desta pesquisa.

Observamos que os entrevistados têm origem em comum, vindos, em sua maioria, de cidades do interior ou de bolsões de pobreza presentes em metrópoles (Aglomerado da Serra e Rocinha). Alguns continuam a residir nessas periferias onde os índices apontam elevado grau de ausência de acesso à escolarização.

Observamos também que as famílias de origem, assim como eles, não tiveram acesso à escola e a alternativas de profissionalização mais especializadas. Ressaltamos, porém, que a situação de miserabilidade em que nasceram e cresceram e a ausência de acesso a políticas públicas que os atendessem adequadamente fizeram com que essas pessoas integrassem o mundo do trabalho tão cedo, ainda na infância.

Constatamos que o grupo analisado, apesar das dificuldades que enfrentam, faz planos, mas seus projetos giram ou parecem girar, na maior parte, em torno do outro: dos filhos, principalmente, mas, em muitos casos, também em torno dos patrões e suas necessidades.

Constatamos, também, que, tanto no caso das diaristas quanto no caso das empregadas domésticas que residem ou não no local de trabalho, a confiança dos patrões na empregada é algo essencial. Essa confiança geralmente vem da recomendação de outros empregadores ou de outros empregados. Em nenhum dos casos, a empregada ou o empregado começa a trabalhar sem alguma referência positiva, sem alguma recomendação. O que mostra como são necessárias, para eles, as boas relações sociais dentro de uma rede de conhecidos que possa indicá-los.

Percebemos, nas entrevistas, que o cansaço decorrente da extensão da jornada de trabalho situa-se em seus discursos como a maior dificuldade apontada para

permanecerem na escola. Grande parte afirmava faltar às aulas dado o cansaço, já que não contam com horário de trabalho definido, nem com folga e nem com férias. Ou, quando têm esses direitos, não os usufruem.

Nenhum desses sujeitos questiona a sobrecarga de tarefas com os patrões. Aparentemente aceitam a situação ou por “sentirem-se” como parte das famílias para as quais trabalham; ou, ainda, por verem-se, de certa forma, coagidos a atender a qualquer necessidade dos patrões, já que residem na casa deles, numa ambígua relação de dependência. Dona Irene, que aparentemente mostrava-se cordata, assim que concluiu o 1º Segmento do Ensino Fundamental, rompeu com a situação em que se via e deixou o emprego e a casa de sua patroa.

Vislumbramos que todos os colaboradores que residem no emprego manifestam desejo de ter a própria casa. Percebemos nos relatos dos entrevistados que residir no emprego impõe limites à subjetividade dos sujeitos, pois, assim, o trabalho não lhes concede direito a espaço de intimidade. Restringe sua autonomia, seu direito de ir e vir, de fazer suas próprias escolhas, receber pessoas, etc.

Os entrevistados sinalizam buscar na escola a oportunidade de concretizar seus desejos de um futuro diferente, seja através de outras oportunidades de trabalho, da carteira de motorista, ou mesmo da recuperação de um processo de escolarização interrompido ou nunca antes iniciado.

Verificamos que, apesar da base de vida aparentemente comum (pessoas oriundas de famílias extensas, com poucos recursos financeiros, sem estudo ou com pouca escolarização, em grande maioria, negras ou pardas), os pesquisados apresentaram características próprias, que os distinguem e os tornam únicos como sujeitos. Sendo assim, cada um vai lidando, a seu próprio modo, com as dificuldades do percurso, construindo a forma como enfrentou e enfrenta os desafios impostos pela vida, seus sonhos e prioridades.

Trabalhou-se, também, com a hipótese de que um homem, atuando em uma profissão maciçamente feminina, teria vantagens, principalmente financeiras, em relação às mulheres que também exercem a mesma profissão. A participação de João nesse estudo possibilitou-nos comparar as situações profissionais e trabalhistas enfrentadas por ambos os gêneros quando nos reportamos ao trabalho doméstico. Porém vimos que o entrevistado se encontrava em uma situação de maior sobrecarga em relação às entrevistadas. Isso porque o fato de ser homem, de ter experiência profissional anterior e os estereótipos existentes levaram-no a assumir, além das tarefas

domésticas, as tarefas de reparos, consertos e manutenção da casa. No caso das mulheres, nenhuma delas assume tais funções.

Com essa tese, vimos que nossos entrevistados são pessoas que trabalham desde a infância, seja em casa, seja na casa dos outros ou ajudando os pais em seus ofícios. São pessoas que não estudaram quando jovens por necessitarem trabalhar e, hoje, quando voltam para a escola na EJA, mais uma vez, vivenciam uma concorrência entre trabalho e escola.

Concluímos que a vida desses sujeitos está estruturada no e pelo trabalho. Uma das evidências encontradas nessa tese é o papel do trabalho na vida deles, estruturando suas formas de ser e estar no mundo, suas pretensões e disposições. O trabalho é a família, é a casa, é a escola e o lazer deles. Invade todas as dimensões de sua existência. Mas ainda assim resistem, criam estratégias, projetos, buscam alternativas. Não são sujeitos sujeitados e procuram na escola o suporte necessário para a superação dessa realidade.

Vimos que, de todas as pessoas que participaram dessa pesquisa, apenas uma mulher se autodeclarou branca. E é justamente essa mulher, jovem e branca, a única a romper com a situação que não lhe agradava. Os demais entrevistados declaram-se negros. Levando em consideração raça/cor, não encontramos diferenças salariais entre esses sujeitos. Porém acreditamos que a questão racial é mais um obstáculo à ascensão social de negros no mercado de trabalho.

Por fim, concluímos que as pessoas que participaram desse estudo não questionam os lugares ocupados por eles e nem fazem associações com as cores de suas peles. Percebemos, na forma como são tratados pelos empregadores e na pouca quantidade de direitos trabalhistas aos quais têm acesso, que vivem situações que remetem a um continuísmo da escravidão. Constatamos ainda que processo de inferiorização de mulheres negras se mantém ao longo da história como resultado de herança cultural, e faz com que situações de exploração de mão de obra doméstica sejam tratadas com certa naturalidade por empregados e empregadores.

Posto isso, concluímos que o racismo permeia as estruturas da sociedade, mesmo que de forma velada e, para as pessoas participantes dessa tese, se configurou como mais um obstáculo à ascensão social no mercado de trabalho e naturalidade para a aceitação de servidão em seus ofícios. Principalmente as mulheres, conjugando as categorias raça e cor, verificamos que são vistas como seres para servir e cuidar do outro, no caso deste estudo, a família empregadora.

Entretanto conclui-se, por fim, que há uma diferença entre a situação de alguns trabalhadores participantes desse estudo e os escravos. Os escravos conheciam sua condição e tinham consciência de como o sistema em que estavam inseridos funcionava. No caso de nossos entrevistados, não se pode afirmar a mesma coisa. Eles não demonstram ter clareza sobre as situações vivenciadas em seus cotidianos de exploração, privação de oportunidades e de direitos.

Observamos ainda que esta tese foi desenvolvida e redigida em um contexto político e social diferente do que vivenciamos em 2017. Sendo assim, estudos futuros poderão analisar possíveis efeitos e alterações na situação social e trabalhista das empregadas domésticas, diaristas ou mensalistas, decorrentes das reformas trabalhistas recentemente aprovadas. Estudos futuros poderão, ainda, aprofundar-se sobre como o racismo estrutural é invisibilidade, e como a EJA pode trazer para seu cotidiano discussões acerca dessa temática.

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