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SÂMĠHA AYVERDĠ’NĠN HĠKÂYE VE ROMANLARININ AKTÜEL ZAMANINDA PSĠKOLOJĠK/TASAVVUFÎ EĞĠTĠM ALAN KADINLAR

Figura 3 - Charge publicada no jornal Tribuna do Norte, no dia 15 de maio de 2012.

A charge mostra dois personagens homens, conversando em uma parada de ônibus. Um personagem diz: “O senhor sabe me dizer se a linha “respeito ao usuário” passa por aqui?”. A expressão “respeito ao usuário” já remete a uma crítica, como se o indivíduo já estivesse procurando por “esse respeito” há algum tempo e ainda não tivesse encontrado. O outro personagem em tom irônico diz: “Vixi... faz tempo que o “respeito ao usuário” não dá as caras...”. Podemos inferir, pela fala dos personagens, que não havia respeito aos usuários (cidadãos), e que o segundo personagem já está “conformado”, pois em determinas situações,

algumas pessoas não conseguem valer-se de seus direitos nos dias atuais (transporte público de qualidade, por exemplo). A charge sugere o descaso para com a população não só pelo poder público, mas também por outros órgãos competentes (SETURN).

A charge acima foi produzida durante a greve dos ônibus na cidade do Natal, em 2012. O acontecimento se deu a partir do momento em que os motoristas e cobradores de ônibus de Natal iniciaram no dia 14 de maio de 2012 a greve dos transportes públicos, que perdurou por quatro dias, o que gerou um verdadeiro caos na vida de muitas pessoas que dependem desse serviço para se deslocarem. As entidades ligadas ao transporte coletivo, para além dos motoristas e cobradores, pareciam querer se eximir da responsabilidade, como mostra a fala do diretor de comunicação do SETURN Augusto Maranhão em entrevista concedida ao portal UOL Notícias14: “Essa greve não ataca apenas a nós, donos de empresas de ônibus, mas sim uma sociedade que precisa do transporte para se locomover ao trabalho, a escola e realizar todos os compromissos. A população não pode ser prejudicada com o transtorno que essa greve ocasionou hoje”.

A greve teve como principal reivindicação o aumento salarial dos trabalhadores, os motoristas e cobradores de ônibus pediam um reajuste salarial de 14,13% e aumento no vale- alimentação de R$ 150,00 para R$ 200,00, ou seja, eles reivindicavam melhores condições de trabalho. Contudo, com o término da greve, os trabalhadores conseguiram junto às Empresas de ônibus um aumento de apenas 6%. Diante da crise que a greve causou em toda a cidade, pois pessoas faltaram a seus trabalhos e estudantes faltaram às aulas, a prefeita Micarla decidiu interferir nas negociações entre o SINTRO-RN e SETURN e se posicionou contra o reajuste da tarifa, que era de R$2,20 e subiria para R$2,30. Segundo a prefeita de Natal, não existe vínculo entre a prefeitura e o Sindicato dos trabalhadores de Transporte Rodoviário (Sintro), e sim, com o Sindicato das Empresas Transportadoras de Passageiros do Município do Natal (Seturn). “A prefeitura não autoriza o aumento, porque ficou acertado num termo de ajustamento de conduta assinado em 2011, que a tarifa só seria reajustada a cada dois anos, ou seja, em 2013. À prefeitura cabe agir como mediadora entre os empresários e os trabalhadores”, disse Micarla de Sousa15.

14 Disponível em: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/05/14/motoristas-e-cobradores-de-

natal-entram-em-greve-cinco-onibus-sao-depredados.htm. Consultado em: 20/05/2012.

15 Disponível em: http://www.robsonpiresxerife.com/notas/caos-em-natal-micarla-de-sousa-descarta-aumento-

É preciso refletir a respeito dessa tomada de posição da Prefeita em relação ao não aumento da tarifa. Pode-se supor que, já com certo índice de animosidade da população contra ela (considerada como “inseto”, ver figura 5), a prefeita pretendeu uma adesão do público nesse episódio de “quebra-de-braço”, tentando amenizar sua rejeição, que vinha crescendo desde o movimento #FORAMICARLA16. Tanto que, em uma das mobilizações, ocorrida na noite do dia 16 de maio, nas proximidades do shopping Midway Mall foram vistas faixas com a hashtag17 “#VETAAUMENTOMICARLA”. Apreende-se com isso, que a intenção desses indivíduos era pressionar uma aliança entre a decisão da prefeita e a dos manifestantes, sugerindo uma imagem de Micarla menos negativa (mais como aliada do que como opositora).

Figura 4 – Mobilização “Veta aumento Micarla”18.

Essas mobilizações – tal como se observou ao longo das inúmeras manifestações que se seguiram até o ano de 2013, não só em Natal, mas em todo o país – se utilizaram fortemente das redes sociais para organizar e expandir diversos protestos, como o já citado #FORAMICARLA e o “#REVOLTADOBUSÃO”. Este último reuniu cerca de 500 estudantes universitários, munidos de cartazes e apitos, fechando os dois cruzamentos mais movimentados da cidade de Natal. Sua convocação foi feita através do twitter, como podemos observar nos posts abaixo:

16 O movimento #FORAMICARLA foi uma onda de protestos que tiveram início no dia 25 de maio de 2011

contra a prefeita do Natal, Micarla de Sousa. Realizado majoritariamente por jovens de classe média, o movimento tomou um caráter plural, horizontal e apartidário, culminando com a ocupação da Câmara Municipal de Natal no dia sete de junho. O objetivo era pedir a investigação dos contratos firmados pela prefeitura.

17 Hashtags são palavras-chave antecedidas pelo símbolo "#", que designam o assunto ao qual está se discutindo

em tempo real no Twitter. As hashtags viram hiperlinks dentro da rede e indexáveis pelos mecanismos de busca.

Figura 5 – Postagens no Twitter.

Compreende-se essa relação entre os manifestos como um efeito interdiscursivo, que acontece quando se recorre a algo já existente, ou seja, a um “já-dito”. A esse respeito, Maingueneau (1997) afirma que por trás de um elemento há sempre um movimento de enunciação – um já-dito (passado) que comporta um dizível (futuro). Maingueneau, sobre a noção de interdiscurso, afirma ainda que “um discurso não nasce de um retorno às próprias coisas, mas de um trabalho sobre outros discursos” (1997, p. 120), e é isso o que se observa na charge: uma relação constitutiva entre acontecimentos históricos e enunciativos.

Nesse caso, o já-dito diz respeito ao movimento #FORAMICARLA ocorrido no ano passado, em que manifestantes revoltados com a administração da atual prefeita resolveram sair às ruas e pedir o seu impeachment. Mas, como mostra a reportagem veiculada no Jornal Online Diário de Natal, a Câmara Municipal de Natal rejeitou a abertura do processo de

impeachment da prefeita Micarla de Sousa: para a abertura seriam necessários onze votos

favoráveis, no entanto, apenas oito vereadores concordaram com o pedido19.

A charge foi produzida durante um momento histórico e socialmente situado (uma greve de ônibus, em meio à crise na gestão de Micarla), por isso, ela se constitui em um momento de embates discursivos entre grupos (grevistas/ população/ prefeitura/ vereadores). De acordo com Pêcheux (1997, p.82), “um discurso é sempre pronunciado a partir de condições de produção dadas”, e com esta afirmação podemos concluir que as condições de produção são constitutivas do discurso e consequentemente da charge. É importante buscar o

contexto (amplo e específico) em que as charges foram produzidas, tendo em vista que essas informações são necessárias para o entendimento dos textos.

No que diz respeito às técnicas de humor que foram utilizadas, podemos observar a presença da “ambiguidade”, procedimento que ocorre quando há o duplo sentido em uma palavra, expressão ou frase. Possenti (1998) afirma que essa técnica é o equívoco que a linguagem pode produzir. No caso da charge em análise, a ambiguidade está presente na expressão “respeito ao usuário”, uma vez que podemos entender o enunciado tanto correspondendo ao nome de uma determinada linha de ônibus que ainda não passou (e nem vai passar porque todas estavam em greve), assim como fazendo menção ao próprio sentimento “respeito” que não estaria sendo praticado para com os usuários das linhas dos ônibus. O chargista opera assim com sentidos indiretos e implícitos.

Observamos simultaneamente a presença da técnica do “deslocamento”: a cena apresentada sugere um raciocínio – alguém perguntando sobre uma linha de ônibus em frente a uma parada – que é quebrado com o nome da linha apresentado: “Respeito ao usuário”. Quando é proferido pelo segundo indivíduo “Vixi... faz tempo que o “respeito ao usuário” não dá as caras...” há uma espécie, também, de autorrebaixamento (a população admitindo que não é respeitada).

Dessa forma, o efeito de humor se dá devido às essas estratégias, pois são elas que geram os efeitos de humor presentes na charge.

Benzer Belgeler