Foucault identifica no decorrer dos séculos XVII e XVIII algumas transformações relativas às relações de poder e constata particularmente a multiplicação de instituições por todo o corpo social.
Reconhece-se, no interior de instituições sociais como a prisão, a escola, a fábrica, o exército e o hospital, a presença de uma técnica específica de poder comum a todas elas: a tecnologia da disciplina ou poder disciplinar.
Foucault pretende demonstrar como as instituições não representam apenas organismos administrativos neutros. Ao contrário, procura identificá- las como espaços institucionais organizados por instrumentos disciplinares sustentados por relações de saber-poder que teriam por finalidade a correção de indivíduos.
45 FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Rio de Janeiro: Vozes, 1997, p.119. 46 Idem, ibid, p. 69.
O poder disciplinar atua no interior de instituições modernas, constituindo relações específicas de poder em cada uma delas. É o que se vê, por exemplo, nas instituições penitenciárias onde o corpo do indivíduo é submetido a uma vigilância e coerção ininterruptas, a fim de mantê-lo em funcionamento normal, de acordo com um código pautado pela normalização, e não pela lei, capaz de atingir seus comportamentos, gestos e atitudes, com influência na rapidez e na eficiência da execução de tarefas. Nessas instituições, as disciplinas são caracterizadas pela obediência, coerção e utilidade.
No regime disciplinar, a arte de punir não pretende nem a expiação nem tampouco a repressão. Para Foucault, “A penalidade perpétua que atravessa todos os pontos e controla todos os instantes das instituições disciplinares compara, diferencia, hierarquiza, exclui. Em uma palavra, ela normaliza”47.
Inaugura-se, com o surgimento da tecnologia disciplinar, o exercício do poder da norma48, que substitui o papel que a lei desempenhava na
concepção do modelo da soberania. A tecnologia da disciplina é, de certo modo, veiculada por um discurso estranho ao da lei e que estabelece uma regra, uma norma, um código de normalização de conduta.
A norma, segundo a tecnologia disciplinar, mostra-se mais ampla do que o sentido da lei. A norma define um padrão aceitável de conduta marcado pela docilidade e utilidade. Portanto, normalizar é investir para que o indivíduo se conforme a um padrão preestabelecido, a uma norma preconcebida. Normalizar o indivíduo é adequá-lo a um padrão, a uma norma de conteúdo disciplinar. Foucault esclarece que:
47 FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Rio de Janeiro: Vozes, 1997, p.153.
48 É se de observar que o tema da “norma” aparece em todos os momentos da pesquisa
As disciplinas são portadoras de um discurso que não pode ser o do direito; o discurso da disciplina é alheio ao da lei e da regra enquanto efeito da vontade soberana. As disciplinas veicularão um discurso que será o da regra, não da regra jurídica derivada da soberania, mas o da regra “natural”, quer dizer, da norma; definirão um código que não será o da lei, mas o da normalização49.
A normalização concretiza-se por meio de um controle minudente sobre o corpo do indivíduo, atribuindo-se a ele uma série de competências e habilidades tendentes ao pleno desenvolvimento do trabalho e da produção. É o quanto destaca Foucault: “Já nas instâncias de controle que surgem a partir do século XIX, o corpo adquire uma significação totalmente diferente; ele não é mais o que deve ser supliciado, mas o que deve adquirir aptidões, receber certo número de qualidades, qualificar-se como capaz de trabalhar”50.
Pode-se dizer que a normalização é o núcleo de um mecanismo caracterizado por diagnósticos e julgamentos concernentes à formação e cumprimento da norma disciplinar pelos indivíduos. A normalização fabrica indivíduos e os fixa a um aparelho de controle e produção.
Assim, a instituição-prisão, como mecanismo operador de adestramento, ilustra a normalização que ela desempenha e permite a produção de saberes sobre o comportamento do indivíduo no ambiente prisional.
A disciplina, portanto, representa um tipo de poder cujo domínio é o da materialidade dos corpos com o objetivo direcionado à normalização. Por sua vez, o domínio do direito não escapa ao modelo disciplinar-normalizador. É, pois, o que levou Fonseca a identificar a imagem do direito associado à normalização, nos seguintes termos:
a disciplina não pode ser identificada como uma instituição, ou mesmo com um tipo de instituição, ela é mais precisamente um
49 FOUCAULT, M. Soberania e Disciplina. In Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p.
189.
mecanismo de poder, uma modalidade de seu exercício, que pode ser sintetizada pela palavra “normalização”. A disciplina é uma modalidade de poder que normaliza. Ela é a primeira forma de normalização descrita por Foucault. Seu domínio é aquele da materialidade dos corpos e da organicidade das instituições. E a não- independência desse poder disciplinar-normalizador em relação às estruturas jurídicas, em relação às práticas e aos saberes ditos jurídicos é que permite a caracterização da segunda imagem do direito presente em seu pensamento, a imagem de um direito normalizado-normalizador (...) Normalizado, porque investido, penetrado pelas práticas da norma e, ao mesmo tempo, normalizador, porque agente e vetor da normalização51.
Os indivíduos submetidos à tecnologia disciplinar se transformam em agentes de normalização que passam a exigir, para si e para os outros, uma adequação às normas disciplinares. Dá-se a transformação, a conformação, em agentes da relação poder-saber que os constitui como indivíduos normais. É assim que o poder perpassa o corpo, o comportamento e os sentimentos dos indivíduos.
Na tecnologia da disciplina não há um centro único de relações de poder. A disciplina é qualificada como um poder individualizante, uma vez que ela se exerce sobre o corpo de cada indivíduo, de modo que os efeitos de poder são pulverizados, distribuídos, multiplicados e materializados nos corpos dos indivíduos a ele sujeitados, mediante técnicas disciplinares capazes de, sobretudo, formarem uma relação que os torne mais obedientes e mais úteis. Segundo Foucault:
O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. Forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos52.
51 FONSECA, M.A. Michel Foucault e o direito. São Paulo: Max Limonad, 2002, p.185. 52 FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Rio de Janeiro: Vozes, 1997, p.119.
O surgimento da disciplina, como a descoberta do corpo enquanto objeto e alvo de exercício do poder, é ilustrado por intermédio da figura do soldado descrita nos séculos XVII e XVIII, como segue:
Eis como ainda no início do século XVII se descrevia a figura ideal do soldado. O soldado é antes de tudo alguém que se reconhece de longe, que leva os sinais naturais de seu vigor e coragem, as marcas também de seu orgulho; seu corpo é o brasão de sua força e de sua valentia; e se é verdade que deve aprender aos poucos os ofícios das armas – essencialmente lutando – as manobras como a marcha, as atitudes como o porte da cabeça se originam, em boa parte de uma retórica corporal da honra53.
Foucault identifica, na segunda metade do século XVIII, a transformação operada pela tecnologia disciplinar e sinaliza que:
o soldado tornou-se algo que se fabrica; de uma massa informe, de um corpo inapto, faz-se a máquina de que se precisa, corrigiram-se aos poucos as posturas; lentamente uma coação calculada percorre cada parte do corpo, se assenhoreia dele, dobra o conjunto, torna-o perpetuamente disponível, e se prolonga, em silêncio, no automatismo dos hábitos; em resumo, foi „expulso o camponês‟ e lhe foi dada a „fisionomia de soldado‟54.
A especificidade dos efeitos de poder, numa dimensão produtiva, é visível porque incide sobre o corpo do indivíduo, alvo e objeto de correção, treinamento, moldura e produção de novas aptidões.
É de se registrar, ainda, que a presença dessas novas relações de poder também não se deu apenas como produto de uma pesquisa realizada no contexto da história da penalidade. Nessa pesquisa, destacou Machado:
Apareceu então para ele o problema de uma relação específica de poder sobre os indivíduos enclausurados que incidia sobre seus corpos e utilizava uma tecnologia própria de controle. E essa tecnologia não era exclusiva da prisão; encontrava-se também em
53 FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Rio de Janeiro: Vozes, 1997, p.117. 54 Idem, ibid, p. 117.
outras instituições como o hospital, a caserna, a escola, a fábrica55.
Em suma, a disciplina registra a proposta de atingir um duplo objetivo, segundo a análise de Machado:
Objetivo ao mesmo tempo econômico e político: aumento do efeito de seu trabalho, isto é, tornar os homens força de trabalho dando- lhes uma utilidade econômica máxima; diminuição de sua capacidade de revolta, de resistência, de luta, de insurreição contra as ordens do poder, neutralização dos efeitos de contra-poder, isto é, tornar os homens dóceis politicamente. Portanto, aumentar a utilidade econômica e diminuir os perigos políticos; aumentar a força econômica e diminuir a força política56.
Trata-se de uma forma de execução de poder conduzida por procedimentos denominados disciplinares, os quais garantiriam o funcionamento dessa nova forma de poder ligada e intensificada nas instituições, tais como as escolas, as fábricas, as prisões e os hospitais.
Disciplinar um indivíduo é construí-lo como indivíduo pela ação do poder sobre o corpo desse indivíduo. Assim, a disciplina possui o caráter de algo que se situa fora do indivíduo, mas que se internaliza nele. O processo disciplinar representa o meio pelo qual o indivíduo promove o controle sobre si mesmo. Estabelece-se, à conta disso, a disciplinarização do indivíduo.
A tecnologia disciplinar por apresentar-se difusa, múltipla, relacional e anônima tende a fazer crescer e aumentar aquilo e aqueles que estão a ela submetidos, o que também sugere uma articulação com o modo de produção capitalista. Percebe-se, nesse sentido:
A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos „dóceis‟. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos e de utilidade) e diminui essas forças (em termos políticos de obediência). Em uma palavra: ela dissocia o poder do corpo; faz dele por um lado “aptidão”‟, uma “capacidade” que ela
55 MACHADO, R. Ciência e Saber: a trajetória da arqueologia de Foucault. Rio de Janeiro: Graal,
1988, p. 194.
procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potência que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita. Se a exploração econômica separa a força e o produto do trabalho, digamos que a coerção disciplinar estabelece no corpo elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e uma dominação acentuada57.
Considera-se a fabricação de indivíduos úteis como autêntica técnica de docilização dos corpos, à medida que promove o aumento da produção segundo uma concepção econômica e, também, uma perspectiva de aumento de saberes e aptidões desenvolvidas nas instituições, o que é viabilizado pelo confinamento desses corpos em espaços fechados, compactos, ante a dificuldade de disciplinar os indivíduos num campo aberto.