O conceito de autonomia remonta ao processo dialógico de ensino na Filosofia grega, que postulava a busca, pelo aluno, de resposta às suas próprias questões, exercitando sua formação autônoma.
Essa autonomia do educando, condição indispensável para a estruturação da aprendizagem colaborativa, deve ser percebida em um contexto mais amplo, em função do projeto pedagógico e da visão de mundo dos educadores que concretizam uma ação educativa.
A autonomia implica, numa rápida articulação, o exercício da capacidade de alunos e professores de assumirem, eles próprios, a responsabilidade pelo seu desenvolvimento e aprendizagem.
Ao postular a prática educativa como ação formadora, Paulo Freire (1996, p. 47) destaca que ensinar não é transferir conhecimentos, mas criar possibilidades para a sua produção.
Para ele, o ensino exige respeito à autonomia do ser do educando. Nas palavras de Freire (1996, p. 59) “ o respeito à autonomia e à dignidade de cada um é imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros”. Configura-se, dessa forma,
como uma condição indispensável a um projeto pedagógico emancipatório, direito inalienável na aprendizagem.
Para a promoção da autonomia, faz-se necessária a compreensão da estrutura de poder do grupo, de forma que se possa redimensionar esse fluxo de poder, ampliando, assim, as possibilidades de ação dos indivíduos. Sem que se abandone a rigidez dos sistemas de valores tradicionais da sala de aula, torna-se inviável a transformação do modelo educacional vigente em direção a uma dinâmica onde os sujeitos se manifestem de forma crítica e autônoma.
Nesse sentido, Siqueira & Pereira (1998), ao tratarem da sedimentação da autonomia na economia globalizada, advertem:
A autonomia como condição de autodeterminação para conviver com os riscos, incertezas e conflitos passa a ser considerada hoje na escala de valor como um bem necessário gerador de decisões e criador de possibilidades no manejo com o conhecimento. É a única alternativa aberta para orientar nossa capacidade de relacionamento com a "superprodução" da sociedade contemporânea.(P. 3).
Para os autores, somente um indivíduo autônomo possui condições para entender e questionar as contradições dos modelos vigentes. Sob este aspecto, acrescentam: “autonomia é rompimento com as políticas instituídas do passado e que ainda perduram, manifestadas na dependência, na submissão, no conformismo e na alienação.” (SIQUEIRA & PEREIRA, 1998, p. 3).
O aluno desenvolve, nesse contexto, o sentido de autor e sujeito do seu conhecimento. Se o professor se recusa a escutar seus alunos, se fecha às inúmeras possibilidades de desenvolvimento que a autonomia viabiliza. Para Freire (1996), essa autonomia se faz na experiência das inúmeras decisões que são tomadas ao longo da vida. Segundo ele,
Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém. Por outro lado, ninguém amadurece de repente aos 25 anos. A gente vai amadurecendo todo dia, ou não. A autonomia enquanto amadurecimento do ser para si é processo, é vir a ser. Não ocorre em data marcada. É neste sentido que uma pedagogia da autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas de liberdade. (FREIRE, 1996, p. 107).
Acrescenta ainda:
É por isso que o ensino dos conteúdos criticamente realizado envolve a abertura total do professor ou da professora a tentativa legítima do educando para tomar em suas mãos a responsabilidade de sujeito que conhece. (FREIRE, 1996, p. 125).
O papel dos professores e alunos consiste, portanto, em se ajudarem no reconhecimento de si próprios como sujeitos autores de seus processos de aprendizagem. Essa construção autônoma, aliada à interdependência positiva e à interação dos indivíduos, possibilita um movimento próprio que legitima e identifica o grupo.
A auto-regulação, no sentido mais amplo do termo, está presente em todos os processos de aprendizagem, na medida em que toda ação educativa, como tal, deve ser percebida, interpretada e assimilada por um sujeito. Dessa forma, toda aprendizagem é auto- aprendizagem e a regulação da aprendizagem, por conseqüência, é auto-regulação.
A dimensão que pretendemos destacar do termo auto-regulação, entretanto, pressupõe uma compreensão diferenciada do vocábulo. Envolve escolhas e tomada de decisão autônoma de alunos e professores que compartilham objetivos e estratégias, observando a heterogeneidade do grupo.
Apostar na auto-regulação, segundo Perrenoud (1999, p. 97), “consiste em reforçar as capacidades do sujeito para gerir, ele próprio, seus projetos, seus progressos, suas estratégias diante das tarefas e dos obstáculos.”
Considerar a diversidade do grupo nesse processo de estimular a auto-regulação da aprendizagem viabiliza a individualização e diferenciação de atividades e percursos, ao tempo em que possibilita uma articulação não hierárquica entre os membros do grupo.
Perrenoud (1999) adverte, contudo, para o fato de que a auto-regulação pode não ser um movimento natural do grupo, tornando necessária uma ação educativa que a promova. Para ele,
Uma pedagogia e uma didática que desejem estimular a auto-regulação do funcionamento e das aprendizagens não se contentam em apostar na dinâmica espontânea dos aprendizes. É necessário, ao contrário, contratos e dispositivos didáticos muito engenhosos, estratégias de animação e construção do sentido muito sutis para manter o interesse espontâneo dos alunos, quando existe, para suscitar um interesse suficiente quando a experiência de vida, a personalidade ou o meio familiar não predispõem a isso. (PERRENOUD, 1999, p. 98)
Esse estímulo à auto-regulação e à autonomia fundamenta a proposta de aprendizagem colaborativa que consideramos mais adequada ao contexto das tecnologias digitais. A definição que propomos baseia-se nas teorias que recuperamos durante este trabalho e nas diferenças estabelecidas com relação ao termo cooperação. Não é uma definição acabada e estanque. Ela envolve, pela natureza da temática abordada, uma re-elaboração, a fim de dar conta do que as possibilidades de pesquisas futuras possam oferecer. Será utilizada, ao longo
desta pesquisa, como base para a compreensão dos fenômenos observados no trabalho de campo e para o estabelecimento de conexões com os demais campos tratados na pesquisa. A aprendizagem colaborativa se caracteriza, portanto, por uma ação educativa orientada no sentido de desenvolver saberes colaborativos em co-autoria, a exemplo da interdependência, negociação, auto-regulação e autonomia entre os agentes do processo de ensino e aprendizagem que promovem a comunicação, o engajamento grupal e o suporte mútuo para a produção de conhecimentos, a busca de objetivos compartilhados e o desenvolvimento pessoal.
Nessa definição, procuramos situar em perspectiva os aspectos da aprendizagem colaborativa que consideramos mais relevantes para as práticas educativas mediadas por ambientes virtuais, especialmente aqueles que utilizam os recursos da Web 2.0. Torna-se imprescindível considerar esses aspectos na EAD que utiliza tecnologias digitais, visto que se trata de uma modalidade de ensino cada vez mais centrada nos protagonistas da aprendizagem, aqui entendidos como professores e alunos. As tecnologias da Web 2.0, especialmente wikis, blogs e fóruns, por sua natureza radicalmente colaborativa, promovem interações autônomas, solidárias e democráticas e, conseqüentemente, o desenvolvimento de saberes colaborativos.
Assim, ao lado de questões habitualmente consideradas, como a interdependência positiva dos agentes, a interação e a comunicação, procuramos destacar o status de um elemento que consideramos essencial para a implementação da aprendizagem colaborativa em todo o seu potencial: o desenvolvimento de saberes colaborativos, especialmente a autonomia e a auto-regulação, que possam ser utilizados, a posteriori, em situações de convívio social e aprendizagem.