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3. SİGARA HAKKINDA TARAFSIZ OLARAK YAZILAN ESERLER

4.1. Risaletün fi’ş-Şây ve’l-Kahve ve’d-Duhân

Agora, eu não me incomodo de a obra estar aqui, do meu lado. Aqui ou no museu. Tudo bem, não me incomodo, mas eu preciso ter acesso. Aqui eu tenho acesso diário, não é?! Você perguntou se eu visito... Na hora que eu quiser. E no museu não é sempre que você consegue, não é?! Quantas vezes você bate com a porta... bate com a cara na porta Ricardo Giannetti 273

"Uma coleção só serve para ser mostrada; se não for mostrada, não serve para coisa nenhuma" João Sattamini 274

Em entrevista a nós concedida em setembro de 2011, Ricardo Giannetti fala que um grande problema com relação às obras de arte é o acesso. Quando se tem vontade ou necessidade (para se fazer pesquisa iconográfica, por exemplo) de se ver uma obra de arte, muitas vezes o acesso não é possível. Aqui entram várias limitações, das mais comuns, como o fato da obra em questão estar sendo restaurada, e portanto, não estar em exposição; até algumas mais extremas, como a obra ter sido destruída, como muitas pinturas de Joaquin Torres García foram perdidas para o fogo no incêndio do MAM do Rio de Janeiro em 1978. Há ainda obras conhecidas cujo paradeiro não se conhece: o “Retrato do Dr. Gachet, 1ª Versão” de Vincent Van Gogh está em local ignorado desde a morte em 1996 do sr. Ryoei Saito, que adquiriu a obra em leilão em 1990 por 82,5 milhões de dólares. Especula-se que a obra já trocou de mãos duas vezes, mas não há confirmação por parte do suposto novo proprietário. Ela encontra-se na posse de um colecionador que não deixa que ninguém a visite!275

273 Colecionador. (GIANNETTI, Entrevista 2011) 274

Colecionador. http://masp.art.br/exposicoes/2007/sattamini/ 13/06/2013 20:00

Para Giannetti, no caso das obras de sua coleção, seu acesso pessoal é irrestrito. As obras em sua posse podem ser vistas quando ele quer ou necessita. Por oposição Giannetti cita sua própria experiência de tentativa de ter acesso a obras de determinado artista para efeito de pesquisa276 o que foi frustrado pela negativa do museu que detinha a posse da obra.

A institucionalização de uma coleção teria a dupla função de guarda/conservação e perenização do acesso às obras. Aqui cabe uma diferença com relação ao acesso para o grande público e para especialistas e pesquisadores. Resta evidente que, ainda que nenhum (me arrisco a afirmar isso sem medo de errar e baseado no fato de que todo museu, minimamente estruturado, tem um acervo e uma reserva técnica onde ficam obras não expostas) museu possua espaço expositivo suficiente para mostrar todo seu acervo, quando um especialista ou pesquisador necessita ter acesso a uma obra, os museus cuidam para que esse acesso ocorra. Para não falar também em aspectos de conservação, pois obras gráficas, por exemplo, devido à fragilidade intrínseca do material em que são executadas, quase nunca são exibidas a não ser em mostras temporárias. Em maio de 2000, durante estágio junto ao Serviço Cultural do Museu do Louvre, em Paris, fazia eu uma pesquisa sobre técnicas de desenho que caíram em desuso, tais como as que se utilizam de pontas de metal (chumbo, ouro, prata e paládio). Para conhecer desenhos originais, solicitei ao Departamento de Artes Gráficas do museu autorização para consultar as obras. Depois de devidamente autorizado fui

276 Ricardo é um colecionador muito peculiar. Dotado de grande erudição, já tendo sido concertista de

violino com formação no Brasil e no exterior, tem o hábito de escrever um texto sobre cada obra de arte que adquire. O texto, muitas vezes, é resultado de extensa pesquisa iconográfica ou histórica.

encaminhado à Sala de Consulta do departamento (fig.20) onde pude ter

Figura 47 Vista interna da sala de consulta do Departamento de Artes Gráficas. Museu do Louvre. Paris Fonte: (C) RMN (Musée du Louvre) / Gérard Blot

ter acesso aos desenhos previamente selecionados na consulta à base de dados. Foi uma experiência profissional incrível. A pesquisa sobre a arte do desenho foi enriquecida e muito pelo contato direto com a obra (fonte primária de informações), uma delas especificamente era de autor desconhecido, datada do século XV e representava uma cena bíblica executada com ponta de chumbo sobre um fragmento de papel azulado. O museu ali cumpria sua função de tornar acessíveis as obras de arte sob sua guarda.

A colecionadora Dominique de Menil também nos fala desse mesmo acesso ao se referir à obra de Domenico Veneziano que não pertencia à sua coleção citada anteriormente, mas que ela a considerava como tal, pois sempre que quisesse poderia ir

ao museu onde ela estava localizada, sentar-se à sua frente e apreciar a obra. Ela não tinha a posse do trabalho, mas ela tinha o acesso a ele!

Certos meios artísticos, acadêmicos e intelectuais têm privilegiado e dado mais importância ao acesso ao discurso sobre a obra de arte, por oposição ao acesso à obra propriamente dita. Mas para o interesse de nossa pesquisa, o acesso que nos interessa é o acesso à obra propriamente dita, ao objeto.

Raymundo Ottoni de Castro Maya, nascido no final do século XIX em Paris, veio para o Brasil na virada do século. Tendo herdado a coleção de seu pai, ele deu continuidade à atividade colecionista imprimindo sua marca pessoal a ela que passou a incluir desde arte modernista brasileira à arte ingênua e popular, possuindo à época um “conjunto significativo de esculturas de ceramistas nordestinos, em que se destacam Mestre Vitalino e Zé Caboclo, dentre outros.”277

Mas no que tange à institucionalização, além de ter fundado dois museus, o do Açude e o da Chácara do Céu, conhecidos como os Museus Castro Maya, o colecionador esteve no cerne da fundação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1948, tendo sido seu primeiro presidente. Quase que fechando um ciclo, em 1993, – como já dito anteriormente – a esse mesmo museu recebe em regime de comodato uma das maiores coleções de arte do Brasil, a Coleção Gilberto Chateaubriand.

Fato relativamente recente na América Latina é a abertura de museus por colecionadores particulares. Especificamente, só na região metropolitana de Belo

277 (HERKENHOFF e GODOY 1996)p.162

Horizonte foram abertos três museu desse tipo, a saber (em ordem cronológica): Museu de Artes & Ofícios (2005), Museu Inhotim (2006) e Museu Inimá de Paula (2008)

Em São Paulo, o colecionador Oswaldo Corrêa da Costa inaugura seu Museu Privado de Arte Contemporânea, ou Coleção Particular, em 2010.

Na Argentina, em 2001 foi inaugurado o Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires para abrigar a Coleção Costantini, e em 2008 abriu-se o Museo Fortabat que abriga as obras da colecionadora Amalia Fortabat. “O [Museu] Fortabat tem atraído tanta atenção porque em Buenos Aires, ao contrário de Londres ou Nova York, não existe tradição de longa data de colecionadores particulares que colocam as suas coleções em exposição pública.”278

No México em 2001 a Colección Jumex abre suas portas à visitação pública. Em 2011 foi a vez de Carlos Slim inaugurar seu Museo Soumaya.

As coleções particulares supririam carências das instituições públicas como denota declaração da representante da galeria Gagosian nas feiras de arte brasileiras

Um grande problema da história da arte brasileira, assim como do mercado contemporâneo nacional, é que os limitados fundos públicos para aquisições criaram hiatos gigantes nas coleções dos museus públicos, então há uma escassez de apresentações abrangentes e críticas de obras prontamente disponíveis ao público. Acrescente aí a rigidez da legislação e as regras governamentais de importação e exportação, que potencializam a situação.279

278

http://latineos.com/en/articles/visual-arts/item/83-the-idea-of-the-21st-century-latin-american-art- collection.html?tmpl=component&print=1 21/03/2012 18:08

279 http://br.blouinartinfo.com/news/story/886910/galeria-gagosian-fala-sobre-sua-primeira-participacao-

na-sp 08/08/2013 11:57 procurar em paginas da web consultadas “Galeria Gagosian fala sobre sua primeira participação na SP Arte BLOUIN ARTINFO”

Por fugir ao escopo de nossa pesquisa não prosseguiremos no tema da institucionalização de coleções - que merecem pesquisas específicas sobre o tema - mas não poderíamos ter deixado de tocar nessa questão, na medida em que três colecionadores entrevistados por nós já têm, integral ou parcialmente, as suas coleções institucionalizadas: Ângela Gutierrez – nos museus do Oratório e de Artes e Ofícios; João Carlos de Figueiredo Ferraz – no Instituto Figueiredo Ferraz e Oswaldo Teixeira da Costa – no espaço Coleção Particular.