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2. SİGARA ALEYHİNE YAZILAN ESERLER

2.2. Mükeyyifat ve Müskirattan Tütün

Ainda que correntes divergentes de historiadores apontem o início da Idade Moderna em vários momentos do século XV, o que parece certo é que esse período de transição entre os modos de produção feudal e capitalista inicia-se naquele século. Um

33 (POMIAN 1984, 59)

dos símbolos dessa época é a incorporação territorial da América ao mundo “conhecido” até a época. E pensar que na antiguidade o Estreito de Gibraltar era conhecido como o “fim do mundo.”

Vários fatores contribuíram para a espetacular expansão ocorrida no século seguinte. Peter Hugill, em seu livro World Trade since 1431, tem um capítulo dedicado ao “Triunfo do Navio,” (HUGILL 1995, 105-158) e suas tecnologias que, segundo ele, estão no centro do grande desenvolvimento – não apenas em seu aspecto econômico - dos séculos posteriores ao século XV. O autor atribui a uma instituição fundada pelo Infante Dom Henrique, nas primeiras décadas do século XV, na cidade de Sagres, na costa portuguesa34, o aprimoramento da técnica de construção de navios a partir de um “esqueleto” ou estrutura interna – o que propiciou construir navios maiores e mais resistentes – e o uso de três mastros para suportar as velas com seus sistemas de cordames – o que dava maior mobilidade e empuxo para o navio batizado de caravela. Há ainda a incorporação de canhões aos navios, conferindo-lhes a capacidade de se defender de ataques (HUGILL 1995, 107). Esses desenvolvimentos e avanços tecnológicos possibilitaram que navios empreendessem viagens mais longas e para além da navegação por cabotagem. Em uma estatística da Organização para Desenvolvimento e Cooperação Econômica35 baseada em dados de Magalhães Godinho citados em Brujin e Gaastra (1993)36, de um total de 770 navios viajando para a Ásia entre os anos de 1500 e 1599, 705 eram portugueses. O século seguinte assistiu a um assombroso

34A existência da chamada “Escola de Sagres” é contestada por vários autores, mas o que é incontestável

é o resultado para as navegações, nos séculos XV e XVI, dos avanços tecnológicos tanto na construção de navios quanto nas técnicas de navegação que os portugueses introduziram.

35

Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD)

aumento do número de navios rumando para a Ásia a partir da Europa: 3161. Mas desses somente 371 eram portugueses.

Esse grande aumento do comércio faz parte de todo um conjunto de acontecimentos que marcaram a transição da Idade Média para a Idade Moderna. Pomian e Blom nos dão relatos diferentes desse período, mas um fator os aproxima: a ampliação das fronteiras do mundo também ampliaram as fronteiras do conhecimento. Novas descobertas pareciam materializar seres e objetos que antes somente existiam na imaginação de artistas ou no delírio dos loucos.

Datado do período situado entre os anos de 1500 e 1505 – segundo as informações sobre a obra que constam no Museu do Prado37 –, o Jardim das Delícias Terrenas ou a Pintura do Madronho de Hieronymus Bosch (Figura 14), é um tríptico que representa em seu painel central o jardim que dá título à obra, ladeado pelos painéis que representam, à esquerda, o Paraíso, e à direita, o Inferno.

Figura 14 O Jardim das Delícias Terrenas Hieronymus Bosch 1500-1505 (Detalhe do painel esquerdo) - Museu do Prado, Espanha

Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/73/Bosch%2C_Hieronymus_- _The_Garden_of_Earthly_Delights%2C_left_panel_-_Detail_Amphibia_and_fish.jpg

A pintura é toda povoada de criaturas fantásticas que segundo Pomian, como já citado anteriormente, colocam num mesmo plano “o real e o fabuloso inextrincavelmente misturados nas representações medievais do mundo habitado”38

. No

37 http://www.museodelprado.es/coleccion/galeria-on-line/galeria-on-line/obra/el-jardin-de-las-delicias-o-

la-pintura-del-madrono/?no_cache=1 07/04/2012 08:56

centro do painel da esquerda há uma espécie de lago do qual se ergue no meio uma ilha como uma fonte, uma planta com simetria bilateral em tons de rosa com bicos dos quais jorra um líquido branco. À direita desta fonte, na margem do lago, criaturas – umas reconhecíveis, como os sapos, outras não – nadam e depois rastejam em direção à terra. Há desde um lagarto de três cabeças até uma criatura branca, com o corpo em forma de cabaça, com pernas de rã e cabeça negra. Um pouco mais acima, à esquerda do mesmo detalhe há uma representação perfeita de um cisne branco. Só nesse pequeno mundo à

parte, criaturas fantásticas e conhecíveis convivem lado a lado. Um pouco mais abaixo no mesmo painel (Figura 15), há outra representação de massa de água, não na forma de lago, mas parecendo mais um buraco inundado onde uma criatura chama a atenção: com corpo escuro, bico de pato e braços que seguram um livro aberto. Em sua parte submersa podemos ver um rabo de peixe. Essa figura imaginária que tem no corpo as características de aves, peixes e mamíferos – de um ser humano –, encontrará eco cerca de 200 anos depois na figura do Ornitorrinco, nativo da Austrália e Tasmânia que é o

Figura 15 Hieronymus Bosch O Jardim das Delícias Terrenas 1500-1505 (Detalhe do painel esquerdo: lagoa com criaturas ficcionais) - Museu do Prado, Espanha

que se pode chamar mamífero de transição, pois põe ovos e, ainda hoje nos causa estranhamento. A pintura foi feita nesse período de transição de que nos falam os autores referidos e nos dá uma dimensão dos impactos que estavam por vir com as descobertas.

Blom, por sua vez, coloca esse grande afluxo para a Europa no centro de um movimento de aumento do número de coleções. Ele se pergunta sobre as razões da Europa do século XVI ter vivido seu primeiro surto de atividade colecionadora desde dos tempos romanos, posto que naquela época, ainda que houvesse colecionadores, seu número era muito restrito.

A resposta, aparentemente, está um pouco neste mundo e um pouco no outro. A explicação mundana é que a expansão do conhecimento no século XVI exigia novas respostas, novas abordagens para os novos fenômenos. Estudiosos em toda a Europa exploraram o macrocosmo através do telescópio, e as pequenas coisas pelo microscópio. Inovações tecnológicas, como a imprensa, e progressos na construção naval e na navegação facilitaram o comércio em todo o mundo e trouxeram artigos mais baratos para a Europa. No continente, um sistema bancário mais sofisticado acelerou a troca de bens. Com os impérios comerciais como as repúblicas holandesa e veneziana, surgiu uma riqueza sem precedentes, outro fator crucial para uma florescente cultura de colecionador. Para tirar objetos de circulação, ou para se dedicar à procura de coisas inúteis, era preciso dispor de tempo e recursos. De fato, as coleções progrediram em toda parte onde o comércio floresceu (BLOM 2002/2003, 37).

Outro importante fator que ocorreu na mesma época foi, segundo Pomian, o surgimento de novos grupos sociais baseados na posse do monopólio de conhecimentos e de habilidades, tais como o domínio de línguas antigas, que conferiu aos humanistas o conhecimento da latinidade; o saber a respeito dos objetos e da vida dos antigos era de prerrogativa dos antiquários; os cientistas tinham o domínio das ciências e os artistas os saberes necessários para produzir obras de arte.

Novos semióforos entram em circulação e acumulam-se em coleções : manuscritos e diversos outros vestígios da Antiguidade, curiosidades exóticas e naturais, obras de arte, instrumentos científicos, são para os membros destes grupos ao mesmo tempo objetos que permitem a elaboração dos conhecimentos ou o tirocínio das capacidades (assim, um artista estuda as obras dos seus predecessores) e insígnias de pertença social, do lugar que ocupam na hierarquia (POMIAN 1977-1984/1984, 78-79)

Faço a seguir uma breve descrição de importantes coleções da época que foram institucionalizadas e se encontram abertas a visitação.

Figura 16 Ulisse Aldrovandi. Figura #50 com quatro braços, uma cabeça de cão e outra de mulher. Pranchas vol. 006-2 Animais. Volume é composto por 37 figuras de peixes, 32 monstros humanos, 15 de aves e 17 de quadrúpedes. Universidade de Bolonha, Itália.

Fonte:

A Coleção Ulisse Aldrovandi – iniciada em meados do século XVI – compreendia exemplares da fauna e da flora. Uma coisa de interesse para nossa pesquisa é o fato de que “Aldrovandi ordenou em seu testamento que o museu e toda a herança científica que acumulou durante sua vida como uma herança deveria ir para o Senado de Bolonha, e que ‘muitos de seus trabalhos seguiriam após sua morte, em honra e proveito da cidade.’”39 Esta coleção incluía, além de grande número de ilustrações científicas, outras imagens de plantas e criaturas onde realidade e fantasia se misturam (fig. 16).

A Coleção de Felippe II de Espanha – ainda que as obras de arte que ele amealhou ao longo da vida no século XVI não possam ser configuradas como uma ação de colecionismo, sua ação contribuiu para a preservação de importantes pinturas de Hyeronimus Bosch que foram levadas para a Espanha e hoje se encontram no museu do Prado em Madri.

A Coleção de Hans Sloane (1660-1753) – incluía desde exemplares de Naturalia até de artefatos de qualquer lugar do mundo, que ele comprava diretamente dos marinheiros ou comerciantes. Sua impressionante coleção deu origem aos Museus de História Natural e Britânico, na Inglaterra.