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2.3. RİSKLİ BEBEKLERDE DEĞERLENDİRME
Não queremos ser mais a traducção literal da nostalgia do negro. A terra é quente. Circulação larga. Tudo se desdobrando em força sobre força. Menos o homem. Sempre nostalgico. Lerdo até. Nostalgia que nos torna
apathico. Resultado da má formação da nossa raça. Erro de uma aberração. Erro que vivia dizimando a alma da nossa gente. Herança danada que nos legou o preto saudoso da patria. Precisamos nos curar desse grande mal. Molestia grave como que defesa da alegria contra seus inimigos. Isto é que é [...]
Achilles Vivacqua31
Virabosta é o criolismo. É a preguiça secular do caráter brasileiro. É a superstição que ressoa oblonga e interminável feito urucungo na alma encachaçada do Brasil.
João Dornas Filho32
Em 1929, especificamente no dia 13 de maio (dia em que se comemorava a redenção negra no Brasil), três jovens modernistas de Belo Horizonte realizaram uma publicação na qual pudessem tratar, oficialmente, pela primeira vez, sobre a questão do negro no país. Os idealizadores eram João Dornas Filho, Guilhermino César e Achilles Vivacqua. Como nos diz Miguel de Ávila Duarte (2008), leite criôlo só pode ser visto como uma “revista” na mesma medida em que a segunda “dentição” da Revista de Antropofagia, já que ambas consistiam em partes semanais de jornais diários de aspecto comercial: Estado de
Minas, no caso de leite criôlo, e Diário de São Paulo, no caso da Revista de Antropofagia,
publicação paulista.
O suplemento leite criôlo teve sua primeira aparição no formato de um tabloide. Ainda segundo Duarte (2008), as características editorais da publicação eram semelhantes às de outras revistas modernistas, como a Verde, publicada pelo núcleo modernista de Cataguases de 1927 a 1929, e a primeira “dentição” da Revista de Antropofagia, publicada pelos modernistas de São Paulo entre meados de 1928 e começo de 1929. Entretanto, ainda com base nas reflexões de Duarte, leite criôlo diverge um pouco das publicações modernistas, pois apresentava vontade, ainda que marcada por contradição, de alcançar um público maior que o da rede modernista, de ultrapassar os limites da literatura “estrito senso” “em nome dos ideais nacionalistas, impulso expresso não apenas pela sua presença em um jornal de grande circulação, mas também pela distribuição gratuita da única edição avulsa em praça pública” (DUARTE, 2008, p. 15).
De acordo com Duarte, o interesse do suplemento em aproximar-se do universo público, que antecipa a atitude de vários integrantes da geração modernista a partir dos anos 1930, é marcado por uma contraditoriedade, já que o que era divulgado em leite criôlo estava
31
VIVACQUA, Achilles. Convite. leite criôlo, ano 1, n. I, 13 maio 1929.
associado essencialmente aos temas e questões “colocados no âmbito da rede modernista nacional e, em especial, pelas várias revistas modernistas” (DUARTE, 2008, p.15), que consistiam na mais importante forma de manifestação do movimento, já que apenas uma pequena parcela daquela produção literária recebia o enquadramento de livro.
Acerca das revistas publicadas no Brasil nos séculos XIX e XX, o estudioso faz as seguintes colocações:
No Brasil, a publicação de revistas literárias remonta ao século XIX . No contexto, porém, da aparição das revistas literárias modernistas nos anos 1920, a literatura era principalmente veiculada em revistas ilustradas e de variedades, disputando espaço com caricaturas, fotografias, textos humorísticos etc. O paradigma deste tipo de publicação é a longeva revista carioca Fon-fon, fundada em 1907 e ainda em circulação na década de 1920, à qual se somam inúmeras revistas na então capital do Brasil como Careta, Don Quixote, Paratodos e várias outras. Também em outros locais foram publicadas revistas nos mesmos moldes e no próximo capítulo trataremos de duas delas, publicadas em Belo Horizonte nos anos 1920 e em estreita conexão com a trajetória do grupo que publicou leite criôlo.
Símbolos da relativa profissionalização dos literatos nas trincheiras da imprensa que caracterizou as três primeiras décadas republicanas, as revistas de variedade, na medida em que implicavam uma relativa submissão da produção literária ao gosto de um público mais amplo, não satisfaziam o desejo dos escritores de produzir “literatura pura” nos padrões vigentes então no campo literário francês, referência hegemônica em termos de produção cultural naquele momento. Desta forma, no mesmo período foram publicadas várias revistas focadas principalmente em questões literárias, do conjunto das quais se destaca o ciclo das revistas simbolistas na década de 1900. O problema básico do ponto de vista editorial destas revistas – e a principal razão pela qual deixavam, via de regra, de circular rapidamente – era o fato de não se sustentarem economicamente: não conseguiam cativar o relativamente restrito público leitor de então da forma que as revistas de variedades, o que significava, além de vendas baixas, pouco interesse dos anunciantes. Segundo Tania de Luca, a primeira revista comercialmente bem sucedida a romper com o modelo das “variedades” naquele contexto foi a Revista do Brasil, publicada em São Paulo a partir de 1916, que poderia ser definida como uma revista de cultura, e na qual a literatura estrito senso ocupava uma posição relativamente secundária (DUARTE, 2008, p. 16-17).
Tratando especificamente sobre as publicações modernistas, afirma o seguinte:
Pode-se afirmar que neste quadro as publicações modernistas foram empreendimentos quase sempre deficitários, posto que circulavam em uma conjuntura na qual o “futurismo” era, para o público leitor mais amplo, sinônimo de absurdo e ultraje. Assim, tais revistas, feitas muito mais de crença na literatura do que de tino comercial, recorriam muitas vezes ao mecenato (é o caso da primeira “dentição” da Revista de Antropofagia, e provavelmente da maior parte das publicações do modernismo paulista), à cotização entre os escritores (é caso da revista Festa do Rio de Janeiro), ou mesmo a publicação enquanto suplemento no interior de um jornal de circulação garantida (o caso de leite criôlo e da segunda “dentição” da Revista de Antropofagia), o que implicava no beneplácito das pessoas responsáveis por tal órgão de imprensa.
A citada renúncia a atender as demandas da ampla maioria do público leitor disponível é expressa na idéia corrente no período de que não existe público para a literatura no Brasil, ou seja, não existe um público “à altura” da produção de vanguarda veiculada pelos modernistas. Se o público tal como ele se apresenta
deseja o formato das revistas de variedade, a literatura “para mulheres” de Julio Dantas ou mesmo a poesia parnasiana, ele deve ser ignorado até que se forme um novo público “à altura” da produção modernista. É neste sentido que a rede nacional modernista é a referência de público, o universo do leitor modelo, que se manifesta implicitamente nas publicações modernistas. As próprias publicações encenam a rede, seus fios, seus nós: quem publica o que, onde, o que diz a resenha de fulano da obra de sicrano na revista X etc. Revistas se resenham umas às outras, definem suas posições, suas afinidades, diferenças e divergências. No terreno volátil da vanguarda literária é ali que se define, no calor da hora, publicação a publicação, número a número, o quem-é-quem da província rebelde da “República das Letras” brasileira. Concretamente, as revistas são distribuídas nacionalmente através de redes de correspondência e seus exemplares ou recortes deles são colecionados por membros dos múltiplos núcleos modernistas espalhados pelo país.
A expansão máxima da rede modernista se dá até 1929 e tem por símbolo maior a primeira “dentição” da Revista de Antropofagia que circulou entre meados de 1928 e início de 1929. As desavenças que puseram fim à primeira fase da revista paulista e presidiram o surgimento da sua segunda “dentição” [...] marcam o começo da fragmentação e das transformações da rede, que se recomporia sobre bases bastante diferentes na década seguinte. Paradoxalmente, é neste momento que as articulações da rede quase chegam a ser nomeadas enquanto tal por seus próprios integrantes: na segunda “dentição” da Revista de Antropofagia, os núcleos modernistas espalhados pelo país que se correspondem com a publicação paulista são denominados “clubes de antropofagia” e são descritos em artigos apropriadamente denominados “Expansão Antropofágica” e “desde o Rio Grande até o Pará”. Nestes textos não se trata da geografia da rede modernista, mas da geografia de uma facção desta, dado o conflito que a segunda encarnação da publicação antropofágica estabelece com a maior parte dos escritores e tendências estabelecidos do modernismo de então. Mas, como veremos em maior minúcia no próximo capítulo, tal facção não possui a solidez de que se arroga: o grupo de leite criôlo, descrito na publicação paulista como “clube de antropofagia de Minas Gerais”, não pode ser compreendido como uma filial da antropofagia, ele constitui, na verdade, mais um núcleo relativamente independente no interior da rede modernista, chegando em determinado ponto a romper com a publicação paulista (DUARTE, 2008, p. 17-19).
Apontando o rompimento de leite criôlo com a Revista de Antropofagia, Duarte prossegue dizendo:
É nesse sentido que o rompimento de leite criôlo com a Revista de Antropofagia se faz presente no primeiro ciclo de literatura secundária sobre a publicação de Belo Horizonte: textos dos próprios protagonistas do suplemento rememorando por motivos diversos suas experiências décadas depois dos eventos. É o caso das notas freqüentemente citadas e republicadas do João Dornas a respeito do movimento. Publicado originalmente no jornal Diário de Minas de 19/10/1952 e em seguida republicado na Revista da Academia Mineira de Letras, Vol. XXI, de 1959 como parte das suas “Notas para a história da literatura mineira”, o texto originalmente intitulado “Para a história do modernismo brasileiro” transcreve a famosa carta de Carlos Drummond de Andrade a Oswald de Andrade na qual o poeta mineiro rompe com a antropofagia e seu diretor. No final da carta Drummond afirma que João Dornas Filho fundaria o “crioulismo”, deixando implícita a adesão do escritor itaunense à antropofagia (DUARTE, 2008, p. 19-20).
Discorrendo sobre esta carta, Duarte cita, na íntegra, comentário de João Dornas Filho. Por trazer reflexões importantes sobre leite criôlo, consideramos de extrema importância também citá-lo aqui:
Quero explicar que o “crioulismo” a que se refere Drummond foi um sarampo romântico de 1928, que Guilhermino César, Achiles Vivacqua e eu contraímos no ambiente carregado de indianismo paulista. Seria a vacina africana contra a antropofagia que ameaçava comer (e comeu) os próprios pagés que a criaram... Fundamos então um jornal – o “Leite Crioulo” [sic], que saiu intencionalmente a 13 de maio e por ele pretendíamos combater o romantismo paulista com o romantismo Bantu...
Do que se que o romantismo afro-brasileiro é anterior de dez anos [sic] à Casa Grande e Senzala... (DORNAS FILHO apud DUARTE, 2008, p. 20).
O primeiro texto do suplemento que vamos analisar é um texto de Achilles Vivacqua, publicado no primeiro número do suplemento, intitulado “Convite”, no qual o objetivo e as ideologias dos “criolistas” aparecem de forma bem clara.
Convite
Não queremos ser mais a traducção literal da nostalgia do negro. A terra é quente. Circulação larga. Tudo se desdobrando em força sobre força. Menos o homem. Sempre nostalgico. Lerdo até. Nostalgia que nos torna apathico. Resultado da má formação da nossa raça. Erro de uma aberração. Erro que vivia dizimando a alma da nossa gente. Herança danada que nos legou o preto saudoso da patria. Precisamos nos curar desse grande mal. Molestia grave como quê. Defesa da alegria contra seus inimigos. Isto é que é.
Voltando, porém, atraz. Porque o inimigo, aqui, anda de tráz do toco. Pega a gente pelas costas. E não é só contra elle não. Tambem contra o portugues. Por ser culpado. Contra elle cheio de cubiça quando veio pra qui ser parasita da terra nova. E inventou o mal. Só conseguiu ser parasita do indio, escravizando-o. Mas o indio não foi besta. Se fez de fraco. Precizava, então, de tronco. Correu pra africa. Negros em pencas chegando. Negocião. E o negro ficou mesmo sendo tronco grosso. Porém preso. E cobria de luxo os dias compridos de farturas dos senhores de engenho, das Yayas e dos Yoyos. Agora elle está ahi que não vale nada. Nem tronco, nem parasita da boa. Vive espalhado pela terra criola. Como mata-pasto. Mas está. Estigma que perdura no caracter da nacionalidade.
Vamos mudar de marca. Vamos?
Achiles Vivacqua
No texto, conforme podemos ver, Achilles Vivacqua aponta um problema que eles, os adeptos do suplemento, queriam resolver: trata-se de ser a “tradução literal da nostalgia do negro”. O sentimento de nostalgia apontado por Achilles seria decorrente de um povo (os africanos) ser forçado a sair de sua terra para servir de mão de obra escrava em outra, desconhecida. E esse sentimento é algo que, como nos diz o autor, ele não quer ter mais. Essa postura, a nosso ver, simboliza um rompimento com tal realidade, desfaz a identificação que antes existia.
Esse sentimento de nostalgia apontado pelo autor do texto nos torna, segundo ele, apáticos. E, também, é responsável pela má formação da nossa raça. É “erro de uma
aberração”. É “herança danada” que nos legou o “preto saudoso da patria”. E prossegue apontando seus malefícios.
Critica também a figura do português. Mostra-se contra ela, pois, de acordo com ele, o europeu foi o culpado. O europeu que “cheio de cubiça quando veio pra qui ser parasita de terra nova. [...] inventou o mal”. Afirma que o europeu conseguiu ser parasita do índio, mas que este, por sua vez, não foi “besta” e se faz de fraco. E o europeu, precisando de “tronco”, foi até a África buscar “negros”. Daí, “negros em pencas chegando” e, assim, o “negro ficou mesmo sendo tronco grosso. Porém, preso”. Com o olhar que temos hoje, conseguimos nos sentir até mesmo um pouco incomodados com tais declarações, marcadas por pensamentos críticos, severos e até mesmo preconceituosos. Porém, no período em questão, tais palavras “passaram”, chegando a ser publicadas no jornal, como vemos.
Achilles diz que o negro, devido aos maus tratos sofridos pela escravidão, “esta ahi que não vale nada. Nem tronco, nem parasita da bôa. Vive espalhado pela terra criôla. Como mata-pasto. Mas está”. E classifica o negro como “estigma que perdura no caracter da nacionalidade”. E diante de tudo que expôs, dos “problemas” que abordou em seu texto, o autor convida todos a mudarem de postura.
Prosseguindo com a análise dos textos de Achilles Vivacqua publicados no suplemento em foco, trabalharemos agora uma nota intitulada “Criolo”, publicada na edição de leite criôlo do dia 2 de junho de 1929 (p. 5).
O criolismo tem como característica o super-nacionalismo. Combate a cultura extra- nacional do nosso povo. Povo que ainda vive a pensar, a sentir, a escrever, e... até a morrer, em plena terra brasileira.
O negro physicamente é o que menos nos interessa. Não o combatemos sob esse ponto. Seria desumano. Queremos é apagar o que ele poz no caracter da nacionalidade: a alma encachaçada que ainda perdura pro nosso grande tormento. Ainda que, como a cultura européa implantada e naturalmente deformada em nosso meio, criou pro nosso organismo social, político e religioso, grande atrazo, e de cujo reflexo precisamos nos libertar.
Tambem é criolismo ir de encontro às tradições da nossa primeira geração – cuja cultura herdada dos velhos espíritos educados nas universidades peninsolares – ainda forma, infelizmente, parte dos nossos centros intellectuaes.
O velho público letrado não nos interessa. Não o fazemos entrar em conta quando tratamos de criolismo. Já não pensa. É, hoje, a imagem de um mundo [spleenetico?]. Farto já de todas as excitações que a ferrugem do velho romantismo das obras imperiadas puzeram nos seus sentidos...
Bem sabemos que na nossa physionomia se reflecte muito mais o índio do que o negro. O que porém do índio tomamos de bom ou de mao, veio da propria terra em que vivemos. Guardamos, por isso, como bons filhos que somos, o que é legitimamente nosso. Do negro não. Elle era completamente estranho ao nosso meio. Veio pra nossa formação como genero importado. Como o européu transviado dos presídios. E com esse mesmo européu cheio de defeitos, gerou no Brasil, dentro de
uma luxuria desenfreada e da sede sensual do gozo, a anestesia que ainda vive no organismo da terra moça – a preguiça.
Dahi porque não podemos mais ficar com a herança dos seus habitos e das condições de vida que aqui levavam.
Condições e hábitos que não sendo nossos, devemos, como gente honesta que presumimos ser, devolvel-a, porque não precisamos mais dellas. Só assim é que podemos afastar do nosso espírito esse traço disforme que synthetisa a fecunda nostalgia do negro transviado pro Brasil...
Achilles Vivacqua
Aqui, conseguimos perceber de maneira mais clara o “modernista” Achilles Vivacqua. Ou melhor, conseguimos ver fortes traços das ideologias e das propostas modernistas no escritor.
Em seu texto, Achilles mostra um lado fortemente nacionalista. Afirma que o que eles, os idealizadores do leite criôlo, desejam é combater o negro, mas não em seu aspecto físico, o que, conforme ele, seria crueldade, mas, sim, em seu sentido ideológico, isto é, no que eles trouxeram ao entrarem em terras brasileiras. Querem, segundo ele, apagar “o que ele poz no caracter da nacionalidade: a alma encachaçada que ainda perdura pro nosso grande tormento”. Não podemos deixar de perceber o forte tom de crítica e preconceito em tal declaração. A influência do negro na formação da identidade do brasileiro é, aqui, colocada de forma altamente pejorativa, como um mal a ser combatido. Mais à frente, voltaremos a essa questão, mas, antecipando um pouco a reflexão a ser feita, não podemos esquecer que, na época em questão, a ideia do preconceito não estava, ainda, fundamentada. Apesar de problemática, a visão exposta no texto não causou a reação que causaria em nós leitores, com o olhar que temos hoje, tanto tempo depois. Era, sim, um pensamento comum na época.
Não é só a herança negra que é colocada como um mal a ser vencido e como algo que atrapalha a formação da identidade do brasileiro. O europeu também é posto no mesmo lugar. Achilles diz que a cultura europeia, implantada e “naturalmente deformada em nosso meio”, criou para a nossa organização social, política e religiosa um grande atraso e que, por isso, precisamos nos libertar de tal reflexo.
Outra realidade que o autor também diz ser “criolismo”, usando, aqui, o termo no sentido de ação, de reação ideológica, é “ir de encontro às tradições da nossa primeira geração – cuja cultura herdada dos velhos espíritos educados nas universidades peninsolares – ainda forma, infelizmente, parte dos nossos centros intellectuaes”. Afirma que eles não têm interesse no “velho público letrado”. Quando pensam sobre criolismo, não os levam em conta, não os considera, pois, segundo eles, esse grupo não pensa mais. “É, hoje, a imagem de um
mundo [spleenetico?]”. E prossegue dizendo que esse grupo se encontra cansado “já de todas as excitações que a ferrugem do velho romantismo das obras imperiadas puzeram nos seus sentidos...”.
Adiante, retoma a questão da herança negra. Ao questionar e colocar a herança do negro como um problema, o autor da nota, em contrapartida, afirma e defende a herança indígena, o que mostra a simpatia que apresentava, no período, pela proposta romântica. O índio, ao contrário do negro, é defendido e exaltado, pois ele, sim, representa brasilidade, pois o que dele assimilamos veio da própria terra em que vivemos. Em decorrência disso, segundo Achilles, conservamos “como bons filhos que somos, o que é legitimamente nosso”, ou seja, a herança indígena. Por outro lado, afirma novamente, não devemos conservar a herança do negro, pois ele não era familiar, mas sim totalmente estranho ao nosso meio. “Veio pra nossa formação como genero importado. Como o européu transviado dos presídios”, afirma. E, prossegue o autor, o negro, juntamente a “esse mesmo européu cheio de defeitos, gerou no Brasil, dentro de uma luxuria desenfreada e da sede sensual do gozo, a anestesia que ainda vive no organismo da terra moça- a preguiça”.
É por meio das problematizações que expõe que Achilles Vivacqua reforça e justifica sua batalha, dizendo que é devido a elas que uma mudança é necessária e que não podemos mais manter a herança dos hábitos e das condições de vida que o negro e o europeu nos legaram.
Finaliza seu manifesto dizendo que, uma vez que as condições expostas não serem nossas, devemos, “como gente honesta que presumimos ser, devolvel-a, porque não precisamos mais delas”. Segundo as próprias palavras de Achilles, é somente dessa maneira “que podemos afastar do nosso espírito esse traço disforme que synthetisa a fecunda nostalgia