A classe dos Aspectos político e socioeconômicos apresenta um total de 97 UTs distribuídas em cinco categorias: Desigualdade social, Criminalidade, Problemas ambientais, Desenvolvimento econômico e Representação política, descritas em frequência e porcentagem na tabela 4 a seguir.
39 o discurso do turismo cultural permite organizar uma representação do mundo eficaz de um ponto
de vista político e institucional. Esta eficácia política e institucional passa por uma redefinição das identidades – culturais, locais, nacionais – à luz de valores mercadológicos e políticos que não se opõem mais, mas se mantem e se produzem mutuamente.
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Tabela 4: Classe temática: Aspectos político e socioeconômicos Uts
Categorias % Subcategorias f %
Desigualdade 52,57 Social
Favela 22 43,13
Contraste riqueza/ pobreza 17 33,33 Condições de vida desfavoráveis 12 23,52
Total 51 100 Criminalidade 14,43 Drogas 5 35,71 Gangs 5 35,71 Violência 4 28,57 Total 14 100 Problemas 9,27 Ambientais 9 Total 9 100 Desenvolvimento 18,56 Econômico 18 Total 18 100 Representação 5,15 Política Lula 5 Total 5 100 Total 100 97 100
A partir da tabela 4, observa-se que na classe temática Aspectos político e socioeconômicos predominou a categoria Desigualdade social, com 51 UTs, que corresponderam a 52,57% da classe. Essa categoria ainda conta com 3 subcategorias, a saber: Favela, Contraste riqueza/pobreza e Condições desfavoráveis. Essas subcategorias revelam uma percepção dos aspectos sociais negativos que fazem parte da realidade do país.
A categoria Criminalidade, que denota também um problema social, foi categorizada à parte tendo em vista a especificidade dos problemas ligados diretamente ao tema. Esses estão reunidos em subcategorias que apresentam praticamente a mesma frequência, perfazendo um total de 14 UTs. São elas drogas, a violência, as gangs.
Na sequência está a categoria dos problemas ambientais, com 09 UTs, compondo com as categorias anteriores um conjunto de representações sociais negativas para o país que se contrapõe às imagens positivas que foram relatadas como representativas dos aspectos culturais e naturais. Assim, em se tratando da realidade social, são enfocados
106 pelos informantes sobretudo aspectos negativos revelados através de sintagmas como “pobreza”; “favelas”; “precariedade”; “desigualdade” e através de enunciados como
Pessoas ricas que vivem no luxo, pobres que são obrigadas a viver em condições desfavoráveis (favelas – prostituições)
contraste entre as grandes cidades desenvolvidas (São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília,...) e as regiões pobres (mesmo próximas a essas cidades = exemplo das favelas)
Podemos considerar acerca das categorias Desigualdade social, Criminalidade e Problemas ambientais, que as representações sociais do Brasil correspondentes a esses aspectos estão ancoradas numa leitura atual da realidade social do país. Não se encontra para elas o respaldo de um discurso institucional produzido com a finalidade de divulgação de uma imagem que fundamente uma identidade nacional, como se observou para as representações relativas aos aspectos culturais e naturais. O que se pode presumir para esse conjunto de representações é que ele parece ser proveniente de discursos que circulam na sociedade através da mídia. Essa nossa consideração coincide com a leitura de Alfonso (2006, p. 80) quando ressalta que “ao mesmo tempo em que o turismo tenta passar uma imagem positiva do país, a mídia, por exemplo, poderá veicular outras imagens, nem sempre positivas”. Assim, os discursos portadores de uma imagem negativa do país não tem sua origem vinculada às instâncias políticas do Estado, como tem os discursos ufanistas produzidos sobre a nossa identidade cultural. Em relação à natureza, por exemplo, o discurso ufanista presente na ideia de beleza e grandiosidade perde espaço para a ancoragem num discurso de conscientização ecológica, com referência à ação destrutiva que se impõe ao meio ambiente, principalmente o desmatamento, um tema de preocupação mundial na atualidade. Exemplos desse discurso se encontram em comentários do tipo
Expansão econômica em detrimento da floresta amazônica
Muita poluição e ORG (organismos geneticamente modificados) na questão do ambiente Em contraposição a essa imagem negativa, que recobre 76,27% da classe temática, emerge uma imagem positiva do país atrelada ao aspecto econômico. A categoria Desenvolvimento econômico que recobre 18,56% dessa mesma classe temática. Os
107 comentários dos informantes a respeito da atual situação de desenvolvimento econômico do país também devem ser reveladores do interesse e acompanhamento das notícias veiculadas na imprensa sobre a economia mundial. Concorrem para essa ideia os resultados obtidos no questionário a respeito do hábito de leitura de jornais por parte dos informantes. Em resposta à pergunta 2.Você tem o hábito de ler jornais?, 37 informantes responderam afirmativamente, contra apenas 16 que responderam não ter o hábito de ler jornal. A frequência de leitura demonstrada pelos alunos que leem jornal também é significativa. 13 informantes declararam ler jornal semanalmente e onze informantes leem diariamente, de acordo com as respostas dadas à questão 3 do questionário (apêndice 1, p. 168). Também é relevante o fato de 11 informantes declararem ler jornal sistematicamente há três anos e outros 6 há cinco anos, de acordo com os dados quantificados para a questão 4 do questionário. Nesse ponto ressalta-se também o fato do jornal Le Monde, sobre o qual realizamos coleta de dados, ser apontado como um dos mais lidos pelos informantes pesquisados, como demonstrado no item 2.1.
Se nossos informantes revelam assim um perfil de leitores, levando em consideração que também declararam ler revistas, acessar internet e assistir à televisão, como demonstram os dados da figura 3, página 119, podemos então considerar que a representação social do Brasil como potência econômica da atualidade pode estar ancorada nos discursos atuais que circulam na mídia, em jornais, impressos ou televisivos, na internet etc e que por sua vez passam a circular nas comunicações do dia a dia das pessoas. Consideramos ainda que ao transporem esses discursos para seus comentários, nossos informantes atestam sua condição de um público leitor atento às questões de ordem mundial. O comentário a seguir de um aluno sobre a situação econômica do Brasil esclarece essa análise:
país emergente, o “B” de BRIC; país que emerge no cenário internacional, do qual se fala cada vez mais na mídia.
Fazendo parte também do que estamos reconhecendo como discurso da atualidade, insere-se uma referência à questão política do país, especificamente ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Esse dado é revelador de que a imagem do ex-presidente prevalece como a personalidade política representativa do Brasil para os informantes.
108 De acordo com a análise dos dados realizada seguindo a metodologia da Análise de Conteúdo como proposta por Bardin (1997), podemos afirmar que as representações sociais de estudantes universitários franceses que emergiram a partir de seus comentários ao comando Registre, por favor, as imagens que você tem do Brasil, podem ser classificadas em dois conjuntos definidos de representações.
Os conjuntos estão relacionados a dois diferentes momentos históricos do país: um passado longínquo e a atualidade. As representações cujas raízes encontram-se no passado tem nas instituições governamentais sua fonte de produção. A partir daí circulam nas diversas formas de mídia. Assim ancoradas, elas estão objetivadas em aspectos positivos da identidade brasileira produzida como projeto político de governo e permanecem cumprindo um papel na construção da imagem positiva do país, inclusive para o estrangeiro. São representações que remetem sobremaneira para uma ideia de cultura homogênea, estereotipada porque redutora, e da paisagem natural brasileira arraigada ao mito do paraíso.
Já sobre as representações sociais do Brasil que são fruto de análises da conjuntura atual do país, retratado em seus aspectos políticos, sociais, seu modo de inserção na economia globalizada, pode-se dizer que estão ancoradas no que é veiculado pela mídia, uma instância produtora de discursos que exerce o papel de respaldar um saber sobre. Vemos portanto que tradicionais e recentes representações, assimiladas conjuntamente pelo processo de objetivação e ancoragem, são meios transmissivos de uma imagem do país.