Segundo o Relatório final da CNV (Brasil, 2014a), os anos compreendidos entre 1946 e 1964 representaram, para o Brasil, uma época de fragilidade e instabilidade democrática, onde já se delineava uma polícia política, herança do Estado Novo (1937-1945), caracterizada pela violência e abuso de poder. No governo Dutra (1946-1951), o discurso da ameaça comunista já pairava no ar. Em 1947, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi posto na ilegalidade, os funcionários públicos que eram membros do PCB foram demitidos, as atividades da Juventude Comunista foram suspensas, os mandatos dos eleitos pelo PCB foram cassados e o Brasil estreitou os laços com os Estados Unidos.
Em 1951, Getúlio Vargas retornou ao poder. Ao ter sua eleição contestada, dois generais influentes do Clube Militar manifestaram publicamente a sua vitória. De acordo com Brasil (2014a), a influência militar na política data da proclamação da república, mas é na quarta república brasileira que as Forças Armadas ganham espaço no cenário político. O nacionalismo, as relações com os Estados Unidos, o anticomunismo e a relativa autonomia institucional foram elementos importantes para a consolidação da politização militar que desencadeou no posicionamento das Forças Armadas como interlocutoras do poder executivo.
Vargas manteve as decisões relativas ao PCB. Em 1953, criou uma nova Lei de Segurança Nacional, a Lei nº 1.802, que delegava à Justiça Militar o julgamento dos crimes contra a segurança externa e à Justiça comum os crimes contra a segurança interna. Em junho de 1953, Getúlio nomeou Jango, como era conhecido João Goulart, como Ministro do Trabalho. Segundo Brasil (2014a), a gestão de Jango foi atacada exaustivamente pela oposição, que usava a imprensa para fazer acusações e propagava que ele era um representante dos sindicalistas, admirador do peronismo, etc. Em fevereiro de 1954, Jango propôs um aumento de 100% no salário mínimo. A notícia apavorou os empresários e a classe média. Dois dias depois da declaração de Jango, um grupo de militares divulgou o Memorial dos coronéis, que denunciava as carências da instituição, reclamava por aumento salarial e acusava o governo de descaso com a classe militar. A repercussão foi tão grande e negativa, que Vargas decidiu retirar Jango do ministério.
O clima político era de constante questionamento e deslegitimação do regime. Segundo Brasil (2014a), a aliança entre as Forças Armadas e a classe conservadora brasileira, oriunda desse período, produziu uma narrativa que mais tarde desencadeou, em 1964, o golpe civil-militar. Mesmo vencendo um pedido de impeachment, Vargas não resistiu à pressão militar, da grande imprensa e dos opositores para a sua renúncia e suicidou-se. Com a eleição de Juscelino Kubitschek, em 1955, e o questionamento de seu resultado, a ameaça de golpe ganhou voz e força por meio da oposição e dos militares. Apesar de ter passado por, ao menos, duas pequenas rebeliões e ter convivido, ao longo de todo o seu governo, sob contestações, tensões e ameaças, Juscelino conseguiu concluir o seu mandato de forma bem- sucedida, inclusive economicamente. Durante o seu governo, foi criada a primeira Liga Camponesa, em 1955, no Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão, na zona da mata de Pernambuco.
Jânio Quadros assumiu a presidência em janeiro 1961. Como na época era legal a concorrência de chapas independentes para os cargos de presidente e vice, Jango foi eleito vice. Em agosto do mesmo ano, enquanto estava em uma missão comercial na China, Jango soube da renúncia de Jânio Quadros. Segundo Brasil (2014a), sucederam-se dois movimentos ao fato da presidência passar para Jango. Primeiramente, foi criada a Campanha da Legalidade, que teve como um dos apoiadores Leonel Brizola e consistiu numa mobilização civil-militar em prol da posse de Jango, que estava sendo contestada por um grupo de oposição também civil-militar. O outro movimento manifestou-se logo no dia seguinte à renúncia e consistiu na tomada do poder pelo Ministro da Guerra, Ministro da Aeronáutica e Ministro da Marinha. Os três ministros militares declararam estado de sítio e tiveram apoiadores como Carlos Lacerda, governador da Guanabara, que censurou a imprensa do Rio de Janeiro para impedir que a Campanha da Legalidade fosse veiculada no estado.
A Campanha da Legalidade acabou ganhando a batalha e Jango foi empossado. Porém, Jango não teve paz durante o seu governo, pois as articulações e difamações só aumentaram e se fortaleceram. O episódio acima relatado ficou conhecido como o golpe de 1961, considerado o ensaio maior para o golpe de 1964, que deu origem ao regime ditatorial brasileiro.
Jango governou com um apoio pequeno, mas significativo da classe política que repudiava os golpistas. O que também se observava nos movimentos sociais, principalmente no movimento sindical que se fortaleceu, através da organização e de sucessivas greves, e se expandiu, indo para as áreas rurais, onde foi levantada a bandeira da reforma agrária pelos camponeses. Segundo Brasil (2014a), a economia passou por um período difícil, o crescimento deslumbrante do período JK (Juscelino Kubitschek) entrou em decadência e as consequências foram sentidas na inflação, na dívida externa e na baixa das importações. A conjuntura mundial era de pós Revolução Cubana e Guerra Fria. Os Estados Unidos cortaram
relações diplomáticas com Cuba e passaram a ficar atentos aos movimentos políticos da América Latina.
De acordo com Brasil (2014a), em março de 1964 uma sucessão de fatos culminou no golpe que deu início à ditadura militar. Em meio às ameaças internas e externas, em 13 de março, Jango discursou publicamente, na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, sobre as reformas de base previstas em seu governo, como a desapropriação de terras e a estatização de refinarias privadas de petróleo. Em 19 de março, ocorreu a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, no Rio de Janeiro. Em 25 de março, marinheiros e fuzileiros navais desobedeceram às ordens do Ministro da Marinha num episódio conhecido como Revolta dos Marinheiros. Os revoltosos receberam anistia de Jango, o que inflamou ainda mais a relação entre o governo e os militares. Em 30 de março, Jango participou de uma reunião com sargentos, na qual solicitou o apoio das Forças Armadas nas reformas propostas por ele, que culminou, em 31 de março, no envio de tropas de Juiz de Fora (MG) para o Rio de Janeiro, chefiadas pelo comandante da 4ª Região Militar. Jango considerou impossível resistir à investida militar e foi deposto. Horas depois da tomada do governo pelos militares, o presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson reconheceu o novo governo. Esse episódio ficou conhecido como o golpe civil-militar de 1964.