Fonte: http://www.flickr.com/photos/narceliogrud/5585207515/in/photostream/. Acesso em: 12 abril 2012.
O grafite ilustrado na imagem acima teve como objetivo retratar a ditadura militar e fazer uma homenagem em memória às vítimas desse triste período. O personagem deitado é a figura do estudante Edson Luis que foi morto com um tiro à queima-roupa pela polícia do Departamento de Ordem Política Social (DOPS) na cidade do Rio de Janeiro. Para refletir o que representou essa violência, Grud pintou vários rostos de soldados lembrando o período em que o Brasil vivia sob as leis do AI-5 (Ato Institucional nº 5) que correspondeu a fase mais repressiva desse regime que se estendeu até meados da década de 1970. Na pintura ainda encontramos a frase “ordem e progresso” com letras grandes e invertidas que soam com sarcasmo e ironia a ação violenta dos militares que torturaram muitas pessoas em nome do desenvolvimento do país. Sobre o tema desse grafite Grud, fez até uma poesia:
Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura. Se é verdade tanto horror perante os céus. Ó mar, por que não apagas de tuas vagas de teu manto este borrão? Astros! Noite! Tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão!51
Os diferentes conteúdos dos grafites demonstram que esse tipo de produção é inquestionavelmente, uma arte que liberta o artista de seu estado de conformação frente a estrutura social da cidade que doutrina, controla e vigia. O grafite não se acomoda às normas do engajamento da arte, ao contrário ele amplia essa discussão. Quando acreditamos numa obediência ele se mostra subversivo e se desvia por caminhos inusitadamente desconhecidos.
3.2 Das ruas às galerias e museus
O grafite ganhou fama e espaço nas ruas da cidade, no entanto, também passou por outros processos de reconhecimentos ao entrar em espaços consagrados e institucionalizados como galerias52 e museus. Não estamos com isso afirmando que o grafite precise dessas validações para ser reconhecido e entendido como arte. Defendemos, aqui que o discurso musicológico como produção de linguagens pode ser sincronizado com a dinâmica do contexto cultural dos acontecimentos urbanos. Maffesoli (1998, p.54) já anunciava que “o que nos ensina a história da arte não deixa de encontrar repercussão em outras situações mais profanas, onde se exprime uma ligação não menos importante.”
Para discutirmos sobre essa problemática se faz necessário refletirmos a visão museológica sobre a arte. Pesquisadores como Lazzarin (2007), questionam porque apenas um grupo do círculo de apreciadores se denomina como os “únicos capazes” de compreender a fruição e a profundidade da experiência contemplativa. Para ele, o objeto de arte passou ser artefato de cobiça, em que as pessoas colecionam obras de arte da mesma forma que acumula ações na bolsa de valores.
Não podemos negar que os conservadores do museu atribuem à arte um papel superior elitizante devido à institucionalização compartimentada que as belas-artes impuseram e oficializaram a si própria. Sobre esse pensamento Lazzarin (2007) afirma que:
51Fonte:http://www.facebook.com/photo.php?fbid=422128514469691&set=at.233513779997833.78876.100000 176392733.100000900723490&type=1&theater. Acesso 12/04/2012.
52 No ano de 2006 foi inaugurada no Brasil a primeira galeria de arte dedicada inteiramente ao grafite no bairro
da Lapa na cidade do Rio de Janeiro. É a Galeria “Severo 172”, uma antiga garagem adaptada pelos grafiteiros
da Nação Crew para exposições, shows, oficinas, lançamentos de discos e livros, além das festas ao som dos ritmos do hip hop, reggae, black music, rock e outros.
As obras de arte, cuja coleção é consagrada e representada no museu, servem de sinais de gosto e certificado de uma cultura especial. Contudo, a determinação daquilo que pode ou não ser aceito como arte passa, a meu ver, mais do que por uma questão de relações de classe social, por sistemas simbólicos, que associam, por exemplo, qualidade artística a refinamento intelectual, sensibilidade desenvolvida e boas maneiras. Entram em jogo alguns valores românticos burgueses, como a figura do talento genial, único capaz de dar expressão perfeita ao sentimento individual e coletivo. (2008, p.3).
Refletindo as palavras de Lazzarin (2007) compreendemos que nossa relação com a arte não é espontânea. Não estamos livres quando julgamos o que gostamos, pois esquecemos que estamos sob o domínio de instrumentos que rodeiam nossa cultura que determinam nosso gosto. Sobre isso Coli (2003, p.117) afirma que:
O “gostar” ou não “gostar” não significa possuir uma “sensibilidade inata” ou ser
capaz de uma “fruição espontânea” – significa uma relação do complexo de
elementos culturais que estão dentro de nós diante do complexo cultural que está fora de nós.
Barbosa (1995, p.40) nos lembra que “a leitura da obra de arte (que recentemente tem sido chamada de apreciação) propõe uma leitura do mundo e de nós neste mundo, uma leitura que é, na verdade, uma interpretação cultural.” Ainda nessa perspectiva, Santos (2010) defende que:
A arte é uma expressão muito subjetiva, que pode ser recebida das mais diversas formas. Podemos formular um exemplo: uma flecha de um índio brasileiro para ele não é arte, mas dentro de um museu relacionado a povos indígenas a mesma flecha exerce um poder de admiração no público, um sentimento de obra de arte, de beleza primitiva e artesanal. Para outra pessoa, a flecha pode ser lida como um artefato utilizado para caça e que sua única utilidade é atingir o alvo. (p.33).
Mas o que significa mesmo o grafite como uma prática de rua entrar num espaço identificado como local de acervos das elites? Significa dizer que o museu como local de visibilidade e de diferentes manifestações culturais, vem cumprindo uma importante função na mudança de certas representações reiteradas pelos discursos dominantes. Ou seja, o movimento do grafite além de desburocratizar e dessacralizar a arte ao trazer do subterrâneo da cidade a “teatralidade da desordem” (MAFFESOLI,1985) ainda participa desse universo discursivo explorando suas potencialidades formativas e pedagógicas. Nesse contexto, a representação comum do museu como depósito de coisas antigas ou como lugar de objetos consagrados, dá espaço para as novas técnicas e linguagens artísticas onde o ambiente museológico se deixa infiltrar pelas artes de ruas, dos “meninos distantes”, ressignificando os sentidos da vida e das relações sociais.
A fronteira entre a arte de rua e a arte de museu, torna-se fluida. Seria como deslocar a pergunta: “o grafiteiro é um artista?” ou “quais as condições para o grafiteiro se tornar artista ou ser considerado como tal?” O fato é que herdamos uma visão de arte que cristalizou e consagrou alguns padrões que, mesmo com a velocidade das transformações sociais, parecem persistir fixos em determinar o que deve ser considerado artístico. Para tanto, achamos relevante discutir alguns aspectos sobre o conceito de artista.
Na Idade Média, o artista era aquele que coroava o conhecimento de um oficio em que as pessoas testemunhavam a competência de sua autoria. O artista era o carpinteiro, o ourives, o tecelão, entre outros. Não se tratava de uma realização inovadora, era com frequência um produto utilitário, um objeto saído das mãos de artesãos como uma cama, uma mesa entre outros objetos. Segundo as observações de Rodrigues (2011, p.99) “o artesão é todo aquele que cultiva o domínio de si por meio do desenvolvimento da chamada mão inteligente.” Dessa origem que se liga a condição de produções específicas, o artista passou a elaborar o produto com mais perfeição, seguindo critérios mais precisos, dominando com facilidade as técnicas necessárias para sua produção que, por sua vez, passou a seguir um estilo próprio. Sobre isso, Lacoste (2011, p.8) afirma que:
A palavra “artista” designa primeiramente um homem hábil numa arte mecânica difícil (o relojoeiro, por exemplo); depois, aquele que trabalha numa arte em que o gênio e a mão deve conjugar-se. As belas-artes, por outro lado, são filhas do gênio; têm a natureza por modelo, o gosto por mestre, o prazer por objetivo [...] somente no século XVIII é que se fará de modo preciso a distinção entre artista e artesão, e as belas-artes passam a ser autônomas.
Na contemporaneidade, o artista continua sendo aquele que produz conhecimentos específicos. A ideia do grande gênio (aquele que criava) foi descartada quando o artista passou a produzir a imitação de uma ideia, ou seja, o artista que antes era percebido por aquele que fabricava um objeto agora pode representá-lo em pinturas ou esculturas como também em projeções de imagens por meio de outros recursos como a fotografia.
Voltando a questão sobre a presença dos grafites em galerias e museus, percebemos que essa ocupação além de provocar uma reflexão sobre o sentido desses espaços, ainda contribui para que essa arte tenha mais visibilidade, pois a mídia se encarrega de fazer a cobertura desses trabalhos divulgando muitas vezes até mesmo em rede nacional. Sem contar que os grafiteiros utilizam diversos recursos como fotografias e vídeos que geralmente acompanham a proposta da exposição onde essas imagens ficam disponíveis em
seus blogs e redes sociais da Internet de forma que seus trabalhos podem ser divulgados também em muitos países do mundo.
O deslocamento dos grafites para o museu pôde ser observado na trajetória exemplar da exposição “Entregue as Moscas” realizada no Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. De iniciativa do coletivo Acidum, a exposição aconteceu durante os meses de fevereiro e março de 2008, cujo objetivo refletiu o museu como um espaço de trânsito para torná-lo mais discursível e compreensível. Para tanto, os integrantes desse coletivo levaram a ambiência das ruas para dentro desse espaço.