O género, como foco do nosso estudo é, muitas vezes perspectivado, em função do estereótipo a ele associado. Segundo Barracho e Martins (2010) “os estereótipos são ideias demasiado simplificadas, imagens colectivas, partilhadas por determinado grupo, em relação a outro grupo, ou a si próprio, com relativa estabilidade ou rigidez” (p.122).
Enquanto os “papéis de género são definidos por comportamentos, os estereótipos de género são crenças e atitudes sobre a masculinidade e feminilidade. Mas não deixam de estar os dois relacionados entre si” (Ibid., Ibidem.).
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Associado ao género e ao papel de género encontra-se sempre o respectivo estereótipo que, no caso concreto do masculino, se traduz na opinião amplamente partilhada de um indivíduo possuidor de assertividade, firmeza, ambição, competitividade, independência, apetência pelo risco, objectividade e afirmação pessoal e no caso do feminino na timidez de carácter, passividade, dependência, emotividade, inapetência por situações de risco e inclinação para cuidar dos outros (Correia, 2009, p.32). Vecchio (2002) acrescenta que, a partir de pesquisas recentes sobre os estereótipos, se comprovou que as mulheres são percepcionadas como sendo «mais emocionais» que os homens. Para precisarmos melhor a questão notemos que o «estereótipo emotividade» sustenta que as mulheres são mais emocionais dentro de certos domínios afectivos, como por exemplo, amor, tristeza, culpa, vergonha, compaixão, enquanto os homens tendem a ser mais emocionais dentro de outros domínios específicos, por exemplo, a raiva e o orgulho/ego (p.658).
A questão não se vislumbra linear e torna-se pertinente reflectir acerca do processo de socialização de homens e mulheres desde a infância dado que, evidentemente, ambos passam por experiências distintas. Por um lado, os “rapazes aprendem a competir desde cedo”, enquanto as “raparigas são incentivadas a desenvolver actividades onde o espírito de cooperação e a entrega pessoal são vulgarmente invocados, pretendendo-se com isso prepará-las para o papel de mães” (Loureiro & Cardoso, 2008, pp.222-223). É também através do contacto com os seus pares, pais, escola e os mass media, que as crianças apreendem os estereótipos de género e os traços que o membro de cada sexo é esperado possuir, e procura-se que assumam os papéis de género: as actividades e comportamentos que são apropriados para cada sexo (Powel & Graves, 2003, p.60).
Afonso (2009) relata-nos que aos “três anos de idade as crianças afirmam que metade dos seus amigos são do sexo oposto, aos cinco anos de idade esse valor desce para 20% e aos sete anos de idade nenhum rapaz ou rapariga afirma ter um melhor amigo do sexo oposto” (p.33). Com o passar dos anos, rapazes e raparigas aprendem diferentes lições, “os pais, por exemplo, discutem o tema emoções – exceptuando a ira – mais com as filhas do que com os filhos, levando a que as raparigas sejam expostas a mais informação a respeito das emoções do que os rapazes” (Ibid., Ibidem.). As raparigas fazem uso mais precoce das capacidades verbais, o que permite a utilização de palavras em substituição de reacções emocionais, colando-as em vantagem em relação aos rapazes. “Aliás, a diferença entre rapazes e raparigas é bastante visível nas brincadeiras. As raparigas quando brincam
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fazem-no em pequenos grupos, dando especial ênfase ao relacionamento. Já os rapazes brincam em grupos maiores dando ênfase à competição entre si” (Ibid., Ibidem.).
Barracho e Martins (2010) concluem que “uma vez que as expectativas de género operam ao longo de toda a vida, mesmo as pessoas que conscientemente rejeitam estereótipos de género, acabam por ser influenciados por eles” (p.124). Os autores acrescentam que se torna necessário, “que homens e mulheres assumam diferentes papéis sociais, a sociedade considera conveniente acreditar que cada género tem as características necessárias ao desempenho eficaz das funções atribuídas” (Ibid., Ibidem.). Não nos esqueçamos que a “componente aparência física assume-se como a mais influente, afectando as outras componentes mais fortemente” (Ibid., p.125). Em consonância com afirmações expostas por Barracho e Martins (2010), Frankel, (2007) adverte que “ainda em pleno século XXI, as mulheres são treinadas desde o nascimento para serem, sobretudo, assessoras e companheiras e não líderes” (p.13).
Sem descurar os estudos anteriores apresentados e suas asserções do estereótipo associado ao género, direccionemos a nossa atenção agora para uma outra perspectiva da nossa temática: o estudo de Saavedra (2001), cujo ponto de partida consistiu em “verificar se as raparigas são, efectivamente, melhores alunas que os rapazes” (p.69). Os pressupostos teóricos da investigação prenderam-se com a verificação da existência de “estereótipos associados às disciplinas escolares”, com a homogeneidade das “categorias sociais, nomeadamente de género e classe social” e se o “insucesso escolar está associado, predominantemente, às classes sociais mais baixas” (Ibid., Ibidem.). Concluiu nessa investigação que “a escola continua a ser um espaço de desigualdade social, tanto no que diz respeito ao género como ao nível socioeconómico” (Ibid., Ibidem.). No entanto, as raparigas, mesmo das classes mais baixas, “parecem tender a igualar-se aos seus pares, e até por vezes a superá-los, em disciplinas consideradas tipicamente masculinas” (Ibid., Ibidem.). Tomando as palavras da autora, notemos a seguinte constatação: “as raparigas conseguem ultrapassar melhor que os rapazes as desvantagens do seu nível socioeconómico” (Saavedra, 2001, p.89).
Mendonça (2009) desenvolveu uma investigação semelhante à acima mencionada, sobre a supremacia feminina no desempenho académico, cuja análise decorreu no concelho do Funchal entre 1994 e 2000. Concluiu que a “confluência de factores genéticos, económicos, culturais, sociais e ambientais, influencia de forma mais significativa os
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rapazes, pelo que não é de estranhar que o insucesso e o abandono escolar se assumam cada vez mais como fenómenos predominantemente masculinos” (p.15). Este facto, segundo a investigadora, deve-se à identificação acrescida das raparigas com a aprendizagem escolar. Por outro lado, as “entrevistas permitiram apurar que no sexo masculino o desinteresse académico se manifestava desde cedo e que o absentismo era uma situação comum e vivenciada em grupo” (Ibid., p.14).
Loureiro e Cardoso (2008) associam os estereótipos de género à liderança e indicam que ambos os géneros “possuem estilos de liderança distintos e que o masculino é o mais adequado para situações de controlo e chefia organizacionais” o que assume particular relevância no estudo da discriminação das mulheres na gestão (p.222).“Acredita-se que a interiorização desta norma social leva a que as mulheres nos processos de recrutamento, de selecção e de promoção sejam preteridas em favor dos homens” (Ibid., Ibidem.). Os autores acrescentam que “parece legítimo concluir-se que a discriminação só se extinguirá quando desaparecem os estereótipos associados ao género feminino e, portanto, quando as mulheres passarem a ser encaradas como indivíduos” (Ibid, p.225).
Custódia Rocha concorda com a ideia apresentada, pois subjacente à problemática da liderança estão associados, inevitavelmente, determinados estereótipos – “Os actores sociais percepcionam a liderança como sendo um papel masculino, percepcionam ainda as qualidades de liderança como fazendo essencialmente parte da forma de ser, de estar e de actuar dos líderes masculinos” (Rocha, 2000, p.116). Dado que as mulheres deixaram de ter um papel passivo na sociedade, paradoxalmente, perceber uma líder feminina como similar em termos de comportamento ou estilo, a um líder masculino pode ser desvantajoso” (Barracho & Martins, 2010, p.123).
Ao longo da história da humanidade surgiram afirmações de superioridade do género que, como assegura Vecchio (2002), foram baseadas em estereótipos de género exagerados, ou seja, a «vantagem masculina», perspectiva que pressupõe que os homens são inerentemente melhor qualificados para a liderança devido a focalizarem-se mais na tarefa, serem menos emotivos e mais directivos. Indiscutivelmente, afirmações recentes da vantagem do sexo feminino constituem uma reencarnação modificada (ou ressurgimento) de um debate antes adormecido. Segundo o mesmo autor, em vez de confiar em suposições estereotipadas favorecendo um ou outro sexo são necessários testes empíricos para determinar se as reivindicações de superioridade relativa são válidas (p.648).
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