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“Os actos de violência contra idosos estão a aumentar em Portugal. Em 2002 chegaram à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) quase dois mil casos de violência contra os mais velhos. Mais 261 queixas do que no ano anterior. O agressor tanto é o companheiro como são os próprios filhos. O suicídio na terceira idade também é uma realidade a ter em conta. Os números reflectem o abandono por parte da família. (…) Mas há quem aguente sem falar. Vítimas de crimes, mas que escondem a cara. Preferem o silêncio a perder a família. Muitas queixas não chegam às polícias. Chegam sim, à APAV, por amigos que detectam os maus tratos dos familiares.” (Costa, 2003).

“Das 2911 queixas recebidas na PSP em 2006, apenas 139 são respeitantes a violência contra idosos. "Os idosos são vítimas silenciosas, já que não apresentam queixa por medo", garantiu fonte do gabinete do Procurador-Geral da República (PGR) ao DN.” In DN (2008).

A violência que assola os idosos, que como já vimos não é um feito novo na sociedade, mas histórico, que vem crescendo em proporções alarmantes; para muitos é motivo de silêncio, eis que poucos têm coragem de denunciá-la, e os próprios idosos, vítimas, também estão impedidos de fazê-lo, levando em consideração que são, na maioria das vezes, dependentes dos agressores, o que gera insegurança, além de serem limitados fisicamente e temerem uma represália por parte do familiar agressor.

Detectar casos de maus tratos não se antevê uma missão fácil, na medida em que as situações que envolvem esses eventos são, na sua maioria, ―resolvidas (?)‖ dentro e pela família, criando-se o que Figueiredo (cit. in Bernardo, 2007) chama de «a conspiração do silêncio», transformando esse tema em «maldito» na medida em que, ao abordá-lo, se está a desvendar uma face que a família tem todo o interesse em manter oculta. Mesmo em situações em que se pratique a violência física, a pessoa idosa pode sentir-se embaraçada e arranjar uma desculpa para as possíveis nódoas que possam visualizar-se no seu corpo. Se não existem marcas, sinais exteriores de violência, a pessoa idosa escuda-se num silêncio severo.

Uma vigilância apertada sobre a pessoa idosa que a impossibilite de se exprimir ou de manter contactos com o exterior poderá ser também considerada um forte indício de que algo poderá estar a ser escondido. As pessoas idosas, porque se encontram muito frequentemente numa situação de fragilidade e dependência, constituem um grupo particularmente vulnerável aos maus tratos. Os profissionais, na condição de prestadores de múltiplos cuidados, devem estar preparados para operacionalizar acções de prevenção, evitando-os, sempre que possível, munindo- se de todos os meios que estejam na sua órbita de forma a detectá-los em tempo útil. Importa agir habilmente e profissionalmente para os erradicar e reunir todos os esforços, no sentido de responsabilizar os seus autores.

Robert Cario (2005), investigador da Universidade Francesa de Pau, indica as causas proeminentes para a não revelação do mau trato sofrido pelo idoso, considerando-as assaz preocupantes na medida em que levam a vítima a interiorizar um sentimento de culpa. As vítimas culpabilizam-se: têm vergonha de ser velhos, de viverem tanto tempo, de não corresponderem ao modelo dominante (de juventude, beleza, produtividade, saúde, entre outros); sentem a vergonha do hipotético escândalo familiar ou na instituição; medo de represálias, da desunião familiar, do isolamento afectivo, social, a um internamento, a expulsão do centro, o orgulho de cuidar de si mesmo, de resolver os problemas da família, a renúncia de denunciar a alguém o que se passa pelo risco que julga correr de ser condenado; a presença habitual da violência na família (transversalidade do fenómeno), o desconhecimento das possíveis ajudas; os recursos disponíveis e, essencialmente, a

dificuldade em colocá-los em marcha; as perturbações da comunicação devido a problemas cognitivos.

Os próprios membros da família podem negar-se a denunciar as vitimizações por temor de ver um dos seus membros perseguido penalmente, pelo medo de que se ponham em evidência negligências no cuidado da pessoa idosa que lhes possam ser imputadas. Podem existir dúvidas no que concerne à confiança a depositar nos profissionais que intervêm no processo. Também fortemente dissuasiva é ameaça de enviar o idoso vitimizado para o internamento numa instituição.

No que diz respeito às pessoas institucionalizadas, nas quais os profissionais possam levar a cabo tais práticas inaceitáveis, em algumas circunstâncias os colegas de trabalho hesitam, ou voltam para trás, no momento da denúncia, em resultado de um equivocado respeito pela confidencialidade, ou até por medo de perder o emprego.

Quando os profissionais exercem a sua função no domicílio do idoso, podem igualmente surgir algumas dúvidas na hora de fazer a obrigatória denúncia, em algumas situações, pelo respeito nutrido pela privacidade das famílias. Esta situação é deveras preocupante, se consideramos, as indicações de Grossi e Souza (2003, p.9), segundo as quais, a atitude de não respeito à capacidade de agir, responder e opinar sobre assuntos do seu interesse, pode ser considerada um tipo de violência, que, na maioria das vezes, passa despercebida aos familiares, pelos profissionais de saúde e pelo próprio idoso.

Considerado ―rezingão, caduco, esclerosado, inválido, improdutivo‖, o idoso sofre abusos que se vão consumando através do descuido, da omissão, das ofensas, sejam elas funcionais ou físicas, bem como através da posição de abandonado que o mesmo enfrenta na sociedade. Ademais, não tenhamos dúvida de que o problema da violência doméstica contra os idosos é um tema de grande complexidade para ser investigado, e contém aspectos importantes, como as condições de vida dos familiares, os aspectos sociais e os valores e princípios morais construídos ao longo da vida, sem contar que o problema fere a dignidade das vítimas mais do que tudo ao longo de toda a vida.

Diante das considerações tecidas, sentindo o peso da responsabilidade no campo ético, no ponto de vista de cidadãos que desejam valorar a qualidade de vida dos idosos, assumimos a missão de explanar sobre o problema da violência contra os mesmos, alertando a sociedade da gravidade das consequências dos maus tratos sofridos, caracterizando os tipos de violência praticada e analisando as implicações dessa violência para o bem-estar geral dos idosos.

Benzer Belgeler