É possível associar a formação cultural do indivíduo à sua capacidade de estabelecer processos comunicacionais próprios, individuais ou coletivos, e de construir diferentes meios de expressão das suas crenças e de seus valores. Tais processos comunicacionais adquirem significados e tornam-se eficientes quando são compartilhados entre indivíduos com estilo de vida semelhante e que dividem valores e interesses comuns. O respectivo conceito de compartilhamento é extensivo às manifestações culturais, tais como música, dança e demonstrações artísticas de uma maneira geral, dessa forma, é possível considerá-las com formas de interação social e de construção e fortalecimento de comunidades sociais de baixa renda. Conforme Athayde e Meirelles (2014, p. 113):
Se a proposta era radiografar a favela, a pesquisa que inspirou este livro procurou justamente mapear e conhecer o espaço das interações culturais. Nas lajes das residências, algumas dotadas de piscinas, encontrou o lócus de importantes interações nas comunidades. O churrasco que também pode ser realizado em local público, em um bar ou na sede de uma entidade filantrópica, é fundamental na manutenção e no fortalecimento dos laços sociais. Serve para manter unida a família, para estabelecer relações de amizade com o vizinho e até mesmo para selar negócios.
Com relações sociais consolidadas, o indivíduo pertencente a classes sociais de baixa renda traduz, de maneira peculiar, sua realidade social através das respectivas manifestações culturais como forma de expressão e de fortalecimento da autoestima. Desta forma, é possível perceber, além da transformação social, a disseminação de uma linguagem estética com elementos próprios que buscam promover o sentimento de superação e de alegria de pessoas que estão sempre em movimento na busca de uma realidade melhor. É possível observar em Hollanda (2012, p. 23).
Ainda que este, como em geral todos os processos culturais que surgem com força substantiva, já viesse dando sinais esparsos de atividade desde os anos 1980, foi realmente a partir do início dos anos 1990 que a cultura da favela começa a se definir e, principalmente, a se auto nomear com mais clareza. A rápida expansão desse processo consolida as práticas do uso da cultura como recurso, no sentido de promover a autoestima, a geração de emprego e renda e a inclusão social nas periferias e populações de baixa renda das grandes cidades.
Conforme Toretta (2009), para a classe social de baixa renda a estética apreciada, aquela na maioria das vezes exploradas pelas suas manifestações culturais, é a que corresponde ao seu meio social. Os indivíduos pertencentes à respectiva baixa renda costumam apreciar a estética que reflete a realidade do meio em que vivem. É no coloridos da arte do grafismo e na beleza da estética corporal do seu semelhante que estes indivíduos buscam inspiração para desejos de consumo. Sendo assim, é relevante considerar que o consumo aspiracional pode ser diretamente relacionado ao que está ao seu alcance, ao que pode de fato ser conquistado, ou seja, ao universo cultural e social ao qual os respectivos indivíduos integram. Observa-se em Torretta (2009, p. 160):
A população da BoP não acha feio o que é espelho. Ao contrário do que nós mesmos imaginamos, o mundo da BoP – majoritariamente na periferia – vê beleza onde mora, onde vive. Porém, obviamente, essas pessoas veem beleza em um espectro bem maior. Veem beleza no possível consumo.
De acordo com Athayde e Meirelles (2014), atualmente no Brasil é possível observar o surgimento de novas tendências culturais e de novos padrões de consumo provenientes da classe social de baixa renda. É possível citar, como exemplo de surgimento de uma nova tendência de consumo a partir do estilo de vida de consumidores de baixa renda, o
hábito de compra compartilhada. As compras compartilhadas, hábito de consumo dos indivíduos de baixa renda, que objetivava negociação de preços mais baixos, foi disseminada em toda a sociedade, notadamente através do surgimento de diferentes sites de compras coletivas.
Os indivíduos pertencentes a classe social de baixa renda são grandes formadores de opinião e influenciadores das tendências mercadológicas em vários segmentos de consumo. Segundo Athayde e Meirelles (2014), os indivíduos pertencentes a classe social de baixa renda costumam promover as principais mudanças culturais do Brasil, como exemplo os movimentos musicais das periferias, lançar tendências de comportamento de consumo, estimular o surgimentos de programas sociais e aprovar novas linhas de produtos e serviços.
De acordo com Barki et al. (2008), os indivíduos de baixa renda apresentam um perfil de consumo significativamente diferente quando comparados aos pertencentes a outras classes sociais. Ainda segundo o autor, as estratégias de marketing direcionadas a esses consumidores baseiam-se no conceito aspiracional. Compreendendo o conceito aspiracional como uma busca por um padrão social acima do qual se pertence, é possível perceber que o mesmo corresponde, parcialmente, à realidade de consumo dos indivíduos de baixa renda. Estes, ao mesmo tempo que buscam, a partir do consumo aspiracional, diminuir o preconceito do qual são submetidos, procuram exibir através do vestuário símbolos de ascensão social. Segundo Barki et al. (2008), esse cenário vem se modificando através da legitimidade de novas tendências culturais, sociais e econômicas originadas da classe social de baixa renda, que, em movimento contrário, passam a influenciar o estilo de vida das outras classe sociais, entusiasmando padrões culturais vigentes e construindo estilos de vida e costumes.
Os indivíduos pertencentes a classe social de baixa renda estão sempre reinventando seu estilo de vida, buscando novas soluções para suas demandas e construindo uma identidade cultural sempre dinâmica e fiel às suas origens e crenças. É importante compreender que para estes indivíduos a construção de uma identidade cultural revela- se como um instrumento de transformação social. Conforme se observa em Athayde e Meirelles (2014, p. 117):
A favela se agita e se desloca. Aprimora-se e transforma-se. Empenha-se em exercícios estéticos e educativos, no beco, na viela, na laje da qual observa o mundo. Por vezes, tão rapidamente que se torna ainda mais invisível aos olhos do asfalto. Por vezes, devagar, mas num movimento de volume, em que os passos, ainda que curtos , fazem avançar ao mesmo tempo o coração e a mente de milhões de pessoas. Se a favela se reinventa, empurra o novo – inexoravelmente – para o resto da cidade. Ela aprende e ensina.
Segundo Hollanda (2012), a produção cultural proveniente das periferias, áreas onde habitam indivíduos pertencentes a classe social de baixa renda, começa a ser percebida ao final dos anos 80, porém define-se mais profundamente nos primeiros anos da década de 90. É possível perceber nas manifestações culturais contemporâneas da periferia uma herança estética proveniente das principais festividades brasileiras observadas ao longo da história social e cultural do país, como o carnaval, o samba e as comemorações juninas. Assim, percebe-se a importância dessas manifestações e festividades históricas vivas, pulsantes e inacabadas na formação cultural da classe social de baixa renda.
O senso estético dos consumidores de baixa renda deriva das diferentes manifestações culturais brasileiras, conforme apresenta Hollanda (2012). A estética circundante na periferia é originalmente menos regrada e menos comportada, quando comparada a outras classes sociais, pois, comumente, surge como resposta às dificuldades impostas pela condição social, como os excessos e a fartura em resposta à escassez de outrora. Os indivíduos de baixa renda ressignificam espaços públicos comuns com interferências inovadoras, atuando como agentes legítimos e multiplicadores de uma produção cultural em constante movimento.
Ainda observando o que apresenta Hollanda (2012), é possível compreender que as manifestações culturais da classe de baixa renda ultrapassaram os limites geográficos das periferias e legitimaram-se em novos espaços urbanos em diferentes trajetos e percursos da cidade.