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Raporlama Döneminden Sonraki Olaylar

A doutrina eclesiástica católica no âmbito social, em fins do século XIX, apresenta dentre outras reflexões, o pensamento sobre a propriedade no pontificado de Leão XIII (1878-1903) por meio da Carta Encíclica Rerum Novarum (Coisas Novas), publicada em 1891, no qual está claramente demonstrada a aversão às ideias socialistas do coletivismo e a defesa de uma perspectiva jusnaturalista que coloca ênfase no valor do trabalho e no direito natural da propriedade:

De fato, como é fácil compreender, a razão intrínseca do trabalho empreendido por quem exerce uma arte lucrativa, o fim imediato visado pelo trabalhador, é conquistar um bem que possuirá como próprio e como pertencendo-lhe; porque, se põe à disposição de outrem as suas forças e a sua indústria, não é, evidentemente, por outro motivo senão para conseguir com que possa prover à sua sustentação e às necessidades da vida, e espera do seu trabalho, não só o direito ao salário, mas ainda um direito estrito e rigoroso para usar dele como entender. Portanto, se, reduzindo as suas despesas, chegou a fazer algumas economias, e se, para assegurar a sua conservação, as emprega, por exemplo, num campo, torna-se evidente que esse campo não é outra coisa senão o salário transformado: o terreno assim adquirido será propriedade do artista com o mesmo título que a remuneração do seu trabalho. Mas, quem não vê que é precisamente nisso que consiste o direito da propriedade mobiliária e imobiliária? Assim, esta conversão da propriedade particular em propriedade coletiva, tão preconizada pelo socialismo, não teria outro efeito senão tornar a situação dos operários mais precária, retirando-lhes a livre disposição do seu salário e roubando-lhes, por isso mesmo, toda a esperança e toda a possibilidade de engrandecerem o seu patrimônio e melhorarem a sua situação. 5. Mas, e isto parece ainda mais grave, o remédio proposto está em oposição flagrante com a justiça, porque a propriedade particular e pessoal é, para o homem, de direito natural.

[...]

É, pois, com razão, que a universalidade do gênero humano, sem se deixar mover pelas opiniões contrárias dum pequeno grupo, reconhece, considerando atentamente a natureza, que nas suas leis reside o primeiro fundamento da repartição dos bens e das propriedades particulares; foi com razão que o costume de todos os séculos sancionou uma situação tão conforme à natureza do homem e à vida tranquila e pacífica das sociedades. Por seu lado, as leis civis, que recebem o seu valor, quando são justas, da lei natural, confirmam esse mesmo direito e protegem-no pela força. 276

276 LEÃO XIII. Rerum Novarum. Disponível em:

<http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_l- xiii_enc_15051891_rerum-novarum_po.html>. Acesso em: 30 out. 2010.

Na sequência da Carta Encíclica Rerum Novarum, dentre várias determinações, Leão XIII recomenda aos mais favorecidos materialmente que pratiquem a caridade para com os necessitados, advertindo as classes sociais para que vivam em harmonia e ao Estado para que, por meio de leis adequadas, proteja as propriedades particulares.

Em 1931, Pio XI (1922-1939) leva ao conhecimento público a Carta Encíclica

Quadragesimo Anno (Quadragésimo Ano), na qual são relembradas as manifestações de descontentamento motivadoras da elaboração da Carta Encíclica Rerum Novarum de Leão XIII, resultante dos efeitos do capitalismo liberal e defendo a realização de uma reforma para solucionar a questão social:

Com efeito ao fim do século XIX, em consequência de um novo gênero de economia, que se ia formando, e dos grandes progressos da indústria em muitas nações, aparecia a sociedade cada vez mais dividida em duas classes : das quais uma, pequena em número, gozava de quase todas as comodidades que as invenções modernas fornecem em abundância; ao passo que a outra, composta de uma multidão imensa de operários, a gemer na mais calamitosa miséria, debalde se esforçava por sair da penúria, em que se debatia.

Com tal estado de coisas facilmente se resignavam os que, nadando em riquezas, o supunham efeito inevitável das leis econômicas, e por isso queriam que se deixasse à caridade todo o cuidado de socorrer os miseráveis; como se a caridade houvesse de capear as violações da justiça, não só toleradas, mas por vezes até impostas pelos legisladores. Ao contrário só a duras penas o toleravam os operários, vítimas da fortuna adversa, e tentavam sacudir o jugo duríssimo: uns, levados na fúria de maus conselhos, aspiravam a tudo subverter, os outros, a quem a educação cristã demovia d'esses maus intentos, estavam contudo firmemente convencidos de que nesta matéria era necessária uma reforma urgente e radical.

O mesmo pensavam todos os católicos, sacerdotes ou leigos, que, impelidos por uma caridade admirável, já de há muito trabalhavam em aliviar a miséria imerecida dos operários, não podendo de modo nenhum persuadir-se de que uma diferença tão grande e tão iníqua na distribuição dos bens temporais correspondesse verdadeiramente aos desígnios sapientíssimos do Criador. 277

Porém, segundo Pio XI, a solução dos problemais sociais que envolvem a questão do exercício do direito de propriedade, não pode advir do socialismo que, conforme explica, dividiu-se em duas correntes: uma radical, designada comunismo, e a

277 PIO XI. Quadragesimo Anno. Disponível em:

<http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/documents/hf_p- xi_enc_19310515_quadragesimo-anno_po.html>. Acesso em: 30 out. 2010.

outra mitigada que conservou a denominação de socialismo:

[...] comunismo, que ensina duas coisas e as procura realizar, não oculta ou solapadamente, mas à luz do dia, francamente e por todos os meios ainda os mais violentos: guerra de classes sem tréguas nem quartel e completa destruição da propriedade particular.

[...] Mais moderada é a outra facção, que conservou o nome de socialismo: porque não só professa abster-se da violência, mas abranda e limita de algum modo, embora não as suprima de todo, a luta de classes e a extinção da propriedade particular. 278

O motivo, pelo qual as representações ideológicas do socialismo não podem ser a resposta para solucionar os desajustes existentes na estrutura social, é a adoção das concepções de luta de classes e abolição da propriedade, contrárias aos preceitos do catolicismo cristão, que defende a harmonia na sociedade e a propriedade privada como direito natural, mas, há que se observar que o pensamento liberal também não é a resposta que efetua o desenlace do problema, devido ao individualismo que não considera o bem comum, conforme constata-se pelas palavras de Pio XI:

[...] a natureza ou o próprio Criador deram ao homem o direito do domínio particular, não só para que ele possa prover às necessidades próprias e da família, mas para que sirvam verdadeiramente ao seu fim os bens destinados pelo Criador a toda a família humana: ora nada disto se pode obter, se não se observa uma ordem certa e bem determinada. Deve portanto evitar-se cuidadosamente um duplo escolho, em que se pode cair. Pois como o negar ou cercear o direito de propriedade social e pública precipita no chamado “individualismo” ou dele muito aproxima, assim também rejeitar ou atenuar o direito de propriedade privada ou individual leva rapidamente ao “coletivismo” ou pelo menos à necessidade de admitir-lhe os princípios.

[...]

Efetivamente, que deva o homem atender não só ao próprio interesse, mas também ao bem comum, deduz-se da própria índole, a um tempo individual e social, do domínio, a que nos referimos. Definir porém estes deveres nos seus pormenores e segundo as circunstâncias, compete, já que a lei natural de ordinário o não faz, aos que estão à frente do Estado. E assim a autoridade pública, iluminada sempre pela luz natural e divina, e pondo os olhos só no que exige o bem comum, pode decretar mais minuciosamente o que aos proprietários seja lícito ou ilícito no uso de seus bens.

[...] E realmente o regime da propriedade não é mais imutável, que qualquer outra instituição da vida social, como o demonstra a história e Nós mesmo notámos em outra ocasião : «Que variedade de formas concretas não revestiu a propriedade desde a forma primitiva dos povos selvagens, de que ainda há hoje vestígios, até à forma de propriedade dos tempos patriarcais, e depois sucessivamente desde as diversas formas tirânicas (usamos esta palavra no seu sentido clássico), através das feudais e logo das monárquicas, até às formas existentes na idade moderna»! 279

Pio XI considera a mutabilidade histórica do instituto jurídico da propriedade através dos tempos, pela citação um trecho de uma alocução aos membros de Ação Católica italiana, em 16 de Maio de 1926, e observa que é necessário para resolução dos problemas sociais, ir além da caridade, defendendo uma teoria social com relação à propriedade, com um "caráter revestido de autoridade", conforme observou Gustav Radbruch280, pela conciliação, necessária e benéfica, entre o interesse individual e o bem comum, cabendo ao Estado disciplinar por meio da legislação a utilização da propriedade privada.

Benzer Belgeler