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Em 1970, meses depois de decretado o AI-5, o crítico literário e sociólogo de orientação marxista Roberto Schwarz escreveu um ensaio intitulado “Cultura e política, 1964-1969”, inicialmente uma comunicação proferida na França e reeditada em diversas compilações de ensaios e artigos do autor. No texto, Schwarz demonstra que, naquele espaço de tempo determinado com clareza no título, “apesar da ditadura de direita”, do ponto de vista cultural e artístico havia “uma relativa hegemonia (...) de esquerda no país” (2009: 8). Isso não significava, todavia, que a esquerda saia-se vencedora no debate de difusão de ideias para a população em geral, pois essa produção de livros, cinema e teatro era elaborada e consumida por e para “grupos diretamente ligados à produção ideológica”, ou seja, um campo que se retroalimentava.

O poder de alcance dessas obras estava limitado em função das restrições político-policiais. As cassações nas universidades em 1969, o recrudescimento da repressão nos anos Médici e o estabelecimento de um sistema de censura prévia, além da eficiência dos meios de contrainformação e propaganda do governo (vide o ufanista slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o” e as canções e marchas de teor nacionalista) combateram com virulência o “terrorismo cultural de esquerda” (Idem: 17) 36. Dessa forma, peças teatrais, exposições de arte e, acima dessas manifestações estéticas, novelas, filmes, notícias e a crescente indústria fonográfica (isto é, os produtos culturais de massa) passaram a sofrer cortes violentos e, por vezes, intervenção direta e interna.

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Integrante dos “Seminários Marx”, Roberto Schwarz recorda que a caça aos membros do Partidão fez com que o “estudo acadêmico” das obras de “Lênin e Marx” ganhasse respiro e “vitalidade” dentro do ambiente intelectual (2009:18), apesar das aposentadorias compulsórias. A densidade teórica do marxismo praticado em ambiente acadêmico, combinado ao estruturalismo, ao existencialismo e a outras referências teórico-metodológicas confundiam de certa forma aqueles que pretendiam combater a ameaça comunista da militância armada.

Segundo Sandra Reimão, no tocante à censura aos livros durante os primeiros anos da ditadura civil-militar, “entre o golpe militar de 1964 e a decretação do AI-5, em 1968”, vigorava uma “atuação confusa e multifacetada, pois, além de apresentar ausência de critérios, mesclava batidas policiais, apreensão, confisco e coerção física” (2010:271-272). Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, era o “alvo predileto dessa atuação aleatória das forças de repressão”. (Idem: 272). Silveira foi preso várias vezes, mas é preciso lembrar que ele era um veterano de outras batalhas contra o arbítrio. Renato Ortiz (2014:117) faz um brevíssimo comentário a respeito dos títulos censurados nesse período atabalhoado da censura aos livros. Títulos como A universidade

necessária, de Darcy Ribeiro, A revolução brasileira, Caio Prado Jr., e História militar do Brasil, de Nelson Werneck Sodré (1911-1999) foram “interditados” 37. A fama do

trio de autores com certeza contribuiu para a perseguição, enquanto outros títulos, de teor similar ou até mais radicais, passaram incólumes.

Reimão, porém, demonstra que apesar dessas ações pontuais, não se consolidou “um sistema único de censura a livros”. (Idem: 272). O decreto-lei número 1077/70 regulamentava a censura prévia a livros (em especial os artigos 1º e 2º) em que se batia na tecla do atentado à “moral e os bons costumes”. Ainda assim, quando comparado ao cerco realizado aos veículos de massa, o controle à publicação de livros era um tanto quanto relapso nos anos mais duros do regime (1968-1974) e tornou-se, veja só, mais atento quando se iniciou o processo de abertura “lenta e gradual”, isto é, nos anos em que a Ática lançou suas coleções Ensaios e GCS (1975 a 1979), como demonstrado em tabela compilada por Reimão (2010:280), com índices de “livros vetados” que ficaram na casa dos 82% (1975), 61% (1976 e 1977), 73% (1978) e 80% (1979). Essa situação,

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Utilizo-me aqui de um artigo do autor, “Revisitando o tempo dos militares”, que condensa ideias trabalhadas com maior vigor em outras obras mais conhecidas, entre elas Cultura e identidade nacional (1985) e A moderna tradição brasileira (1988), resultados de uma autodeclarada “inquietação intelectual” de Renato Ortiz (2014:112).

evidentemente, vai ao encontro das premissas desta pesquisa, pois o aumento da censura prévia nesse período se deve a uma melhor estruturação do mercado editorial brasileiro, sobretudo no referente a livros voltados ao meio universitário.

No entanto, esse crescimento deve ser matizado, pois muitos livros com fortes elementos de militância foram liberados, o que demonstra aleatoriedade e lacunas do regime, que estava mais preocupado com as grandes produções – daí porque novelistas como Dias Gomes (1922-1999) transformaram-se em campeões no quesito perseguição e retaliação. O livro é tido como um produto destinado ao consumo de uma elite letrada, detentora de elevado capital cultural, este conceito-chave na obra bourdiana.

Andreucci (2006), quando relata a situação dos intelectuais em outra ditadura brasileira [1930-1945], apresenta, como faz Reimão sobre a ditadura civil-militar, um número relativamente pequeno de livros apreendidos, mas mostra que o governo Vargas preocupava-se muito com obras que fizessem referência ao comunismo – eram consideradas “prova de crime” (Andreucci, 2006: 225). Em certo momento, até os livros de autores da extrema-direita, como os integralistas Miguel Reale (1910-2006), Gustavo Barroso (1888-1959) e Plínio Salgado (1895-1975) passaram a ser vigiados e recolhidos, embora em menor índice (36% contra 9,8%). Já no levantamento de Sandra Reimão sobre os anos de 1964 a 1985, percebe-se que romances e peças teatrais publicadas em formato livro, e que apresentavam violência e promiscuidade (critérios mais morais do que propriamente políticos) eram objetos de análise e apreensão, às vezes posteriores ao lançamento, por meio da denúncia de leitores indignados.

À parte a autocensura das editoras, não muito diferente do ocorrido nas redações de jornais e revistas, conclui-se que os livros não eram o problema principal para a ditadura. Alguns antigos combatentes de esquerda ironizam os censores ao dizer, em tom de galhofa, que eles tinham preguiça de ler. O certo, porém, é que mesmo os

volumes de Política da GCS conseguiram convencer a vigilância – alguns sequer foram avaliados – possivelmente por sua aparente proposta didática. E, para um governo que expandia seu sistema universitário, talvez as vistas grossas não fossem de todo mal. 1.5 Ciência e política: a difusão de livros e revistas de conhecimento durante a Abertura Política.

A efetiva aproximação da ciência com os movimentos políticos teve uma espécie de marco inicial. Em julho de 1977, a 29ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) recebeu a presença de estudantes organizados. Juntos, pesquisadores e estudantes criaram o Comitê 1º de Maio (Cancian, 2010: 84). No ano seguinte, entre os dias 9 e 15 de julho, foi realizada na Universidade de São Paulo a 30ª Reunião da SBPC. O tema do encontro, “Os dilemas da produção científica no Brasil”, teve participação ativa de cientistas sociais, incluídos na SBPC desde o início dos anos 1970, apesar das pressões do governo autoritário. Na época o presidente da organização era o físico Oscar Sala (1922-2010), nascido em Milão, mas que construiu sua carreira acadêmica no Brasil como docente do Instituto de Física da USP. Sala comandou a SBPC entre 1973 e 1979 e foi presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) entre 1985 e 1995. A participação de acadêmicos das Humanidades ainda era tímida no corpo diretivo da SBPC no ano de lançamento da coleção GCS, mas as preocupações com a relação ciência e política eram debatidas.

Afinal, como conciliar um país sob a custódia da ditadura, ainda que em fase inicial de abertura, com os deveres de cidadania dos pesquisadores de alto nível? Qual deveria ser o modo de agir do cientista em face à realidade? Ele deveria ou não se abster desse debate? A homenagem feita ao médico e jornalista José Reis (1907-2002), que por décadas manteve uma coluna de divulgação científica na Folha de S. Paulo, era um dos indicativos de que a SBPC estava disposta a se aproximar dos anseios de popularização da ciência e, subjacente a isso, a uma vontade de agir em prol da democracia.

No entanto, a guinada para uma maior articulação entre ciência e sociedade se sucedeu a partir da 34ª Reunião da SBPC, organizada no campus da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp entre os dias 6 e 14 de julho de 1982. O presidente da associação era o biólogo Crodowaldo Pavan (1919-2009), professor na USP e na Unicamp. A participação de cientistas sociais na composição do corpo diretivo da SBPC ficou mais expressiva, com a presença de José Albertino Rodrigues como secretário- geral da organização. Nessa reunião, segundo Luiz Rosalvo Costa (2010), foi lançada a revista Ciência hoje. Segundo o autor,

Ciência hoje é interpretada (...) como expressão de um marco dialógico por meio do qual a SBPC, articulando determinações de sua própria história com as injunções da realidade histórico-social, busca afirmar ante o grande diálogo travado na sociedade brasileira do período uma posição concernente tanto à divulgação científica no país quanto às relações da ciência e dos cientistas com o cidadão comum e a população em geral, refletindo e refratando, nesse processo, as mais importantes posições ideológicas em interação e disputa no panorama discursivo no país. (2010:17).

Costa identifica quatro posições ideológicas em franco embate naquele momento de transição política (quais sejam, a autoritário-tutelar; a legal-representacionista; a basista-diretista; e a revolucionária) e examina como a revista Ciência hoje adota uma linha editorial segundo a qual o povo38 se torna não meramente um “objeto”, mas “sujeito” da história. (2010:88-92). Essa intencionalidade da Ciência hoje, porta-voz da SBPC, de estar atenta aos movimentos sociais e às novas configurações históricas, está nitidamente presente nos editoriais da publicação, analisados minuciosamente por Costa em sua dissertação transformada em livro, e também na histórica entrevista concedida por Florestan Fernandes, publicada em 1983.

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Para uma visada histórica do pensamento sociológico sobre as “classes populares”, recomendo a leitura do artigo de Sader & Paoli (1986).

O projeto acima destacado é uma espécie de marco simbólico de uma atitude propositiva dos pesquisadores brasileiros, e que se expressa em outras iniciativas editoriais, notadamente coleções de livros como a Primeiros passos, da editora Brasiliense, que conta com a colaboração de vários acadêmicos, e da GCS, que de maneira alguma está excluída desse contexto de luta política em que a divulgação científica exerce função primordial.

A academia vê-se na contingência de abrir as portas dos laboratórios e salas de aula e, enfrentando ameaças da linha-dura do regime, falar a uma população para eles capaz de transformar a História. Não é por coincidência que uma firme aliança entre acadêmicos, políticos, jornalistas, figuras públicas (atores, músicos, radialistas, jogadores de futebol) e os ditos “cidadãos comuns” sairá às ruas pelas “Diretas Já” em gigantescos comícios entre 1983 e 1985, até que, após a rejeitada Emenda Dante de Oliveira, o Colégio Eleitoral, pela via indireta, elegeu o primeiro presidente civil desde 1964, Tancredo Neves (1910-1985).

[Capítulo 2]

A História da coleção Grandes Cientistas Sociais (1978-1990)

“[As editoras] Ática e Moderna criaram o livro didático da nova era”. A frase de Fernando Paixão, em depoimento para esta pesquisa, não contém nenhum exagero retórico, como comprovam os escritos de Hallewell (2012) e Borelli (1996). Para Hallewell, a Ática foi um “dos mais conspícuos exemplos de sucesso entre os que se iniciaram no campo do livro didático após a “revolução” de 1964” (2012: 618). Testemunha do exponencial crescimento da editora paulistana, na qual ingressou em 1972 e da qual se desligou em 2007, Paixão, poeta, editor e professor do IEB/USP admitiu a este pesquisador que, apesar de ideologicamente conservadora, as reformas educacionais promovidas pela ditadura contribuíram para a ampliação da rede de ensino e, por consequência, aumentaram a procura por livros didáticos.

Impulsionadas pelo golpe de 1964, a Ática (1965) e a Moderna (1968), como outras editoras do segmento de didáticos e paradidáticos, aproveitaram com inteligência os subsídios provenientes do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), cuja Comissão Nacional do Livro Técnico e Didático (Colted), instituída pelo decreto número 59.355, assinado a 04 de outubro de 1966, ficara incumbida de analisar, aprovar e selecionar para a aquisição as obras do PNLD (Hallewell, 2012:613) 39. O financiamento do governo era distribuído a partir das prerrogativas do MEC-USAID, acordo considerado pelos críticos, muitos deles associados à campanha em defesa da escola pública entre os anos 1950 e 1960, uma negociação altamente nociva à soberania

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Em novembro de 1966, o governo publicou o decreto-lei n. 74, instituindo o Conselho Federal de Cultura (CFC). A tarefa do comitê composto por 24 membros nomeados pelo presidente da República seria de “formular a política cultural nacional”, dentre as quais as diretrizes para o setor livreiro. O Conselho tomou posse em fevereiro de 1967 e tinha entre seus primeiros integrantes Gilberto Freyre, Raquel de Queiroz (1910-2003) e João Guimarães Rosa (1908- 1967). O CFC foi extinto em 1990. O decreto-lei pode ser acessado no site da Câmara, por meio do link <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1960-1969/decreto-lei-74-21-novembro- 1966-375931-republicacao-35524-pe.html> Acesso em: 13 jul. 2013.

nacional. A interferência do USAID era uma forma de “imperialismo cultural”, nos dizeres do jornalista e deputado federal pelo MDB Márcio Moreira Alves (1936-2009).

Hallewell apresenta em seu livro uma estimativa, publicada na edição de maio/junho do Correio do Livro, informando que em 1968 aproximadamente 2.500 livros didáticos estavam à venda no Brasil, dos quais 80% foram lançados por 16 editoras. Ática e Moderna ainda não constavam nessa lista (2012:612). Em 1969, relatório do Sindicato dos Editores de Livros (SNEL), à época presidida pelo fundador da Ed. Agir, Cândido Guinle de Paula Machado (1918-2000), demonstrou uma extraordinária elevação no número de publicações de didáticos: 5.986. Os números mais do que dobraram em menos de um ano. A propósito, a presença de Cândido Guinle como ator estratégico do mercado editorial naquele período de afirmação do ramo didático/ paradidático é revelador das intenções do governo. Ao contrário de outros ex- presidentes da SNEL, conhecidos pelos perfis intelectualizados e combativos, casos emblemáticos de José Olympio (1902-1990) e Ênio Silveira (1925-1996) 40, Cândido Guinle estava ligado ao mercado financeiro, tendo atuado como diretor do Banco Boavista. Era, portanto, um nome confiável para o regime ditatorial.

Existem duas justificativas para essa explosão de títulos. A primeira é oferecida por Hallewell e diz respeito às traduções de obras “universitárias e técnicas” estimuladas pela Colted. Hallewell cita a opinião do sociólogo franco-belga Armand Mattelart, conselheiro do governo de Salvador Allende (1908-1973) no Chile e consultor da Organização das Nações Unidas (ONU). Para Mattelart, a intenção da Colted era favorecer a publicadora americana McGraw-Hill (Hallewell, 2012: 614). A segunda explicação, a meu ver, está no surgimento da Moderna e na consolidação da Ática, pois estas editoras trouxeram inovadoras técnicas produtivas, como esclarece

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Paixão. Em 1971, a Colted foi substituída pelo Instituto Nacional do Livro, de modo que a difusão de didáticos em nível primário e secundário terminou, segundo Hallewell, suplantada por um modelo com supostas características de livre-mercado proposto por Jarbas Passarinho, ministro da Educação do governo Médici e um dos signatários do AI-5. Essa visão de mercado ampliava a força e a lucratividade das maiores editoras, pois, além de não cessar as compras do poder público, logrou potencializar as vendas para famílias com condições de arcar com os custos do material didático.

É indiscutível que a Editora Ática beneficiou-se dessa circunstância propícia à realização de ótimos negócios com governos e instituições particulares, mas é curioso pensar que tanto seus fundadores como parcela nada desprezível de seus diretores e funcionários tinham inclinações à esquerda ou, no mínimo, antiautoritárias. Este é um dos “paradoxos” das reformas educacionais realizadas pela ditadura. Vinte e dois anos transcorreram entre o surgimento do embrião da empresa – a abertura do Curso de Madureza Santa Inês em 1956, no alvorecer dos anos desenvolvimentistas de Juscelino Kubitschek (1902-1976) – e o lançamento, em 1978, dos primeiros volumes da coleção Grandes Cientistas Sociais. Eis a história que este capítulo pretende narrar.

2.1 – Editora Ática, do mimeógrafo ao parque gráfico

Brasil, décadas de 1940 a 1960. As perspectivas de oportunidades de emprego em um país em processo de industrialização e modernização institucional encontrava barreira no difícil acesso à matrícula escolar. O sistema de ensino brasileiro permanecia insuficiente para atender aos anseios de uma população urbana em busca de formação básica e instrução técnica para assumir os postos de trabalho à disposição. Para não deixar de fora aqueles que pretendiam retomar o ciclo escolar surgiram os cursos de Madureza41, ainda desprovidos de regulamentação, o que só aconteceria por meio do

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art. 99 da LDB de 1961, mas já com a aquiescência do poder público. Um dos mais famosos beneficiários desse expediente, Florestan Fernandes obteve seu diploma em 1941, após realizar madureza no Ginásio Riachuelo, habilitando-se depois dos exames a ingressar no curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. (Garcia, 2002; Sereza, 2005).

Nesse vácuo do ensino público, os irmãos Anderson e Vasco Fernandes Dias, descendentes de portugueses, juntaram economias com Antônio Narvaes Filho, colega de Anderson na Faculdade de Medicina da USP, e fundaram em São Paulo, no dia 15 de outubro de 1956, o Curso de Madureza Santa Inês. O trio de sócios-professores escolheu a data comemorativa do Dia dos Professores para o início de suas atividades. É, porém, improvável que imaginassem que aquele negócio, inaugurado com uma classe de alunos e na esteira dos anos JK, tornar-se-ia uma das maiores editoras do ramo educacional no Brasil. Aliás, a ideia de elaborar apostilas didáticas, escritas pelos docentes do Santa Inês e rodadas “num “paleolítico” mimeógrafo a álcool” (Paixão et. al., 1995: 213) era somente uma maneira de reduzir os custos dos alunos.

A pedagogia adotada pelo professorado, e a necessidade de ampliação da rede escolar estadual, foram fatores decisivos para o sucesso do empreendimento. Em poucos anos, o Curso de Madureza Santa Inês saltou para três mil alunos matriculados, e o processo de edição das apostilas passou a ser feito por funcionários equipados com mimeógrafos elétricos. Logo os sócios-professores perceberam que havia se prenunciado um nicho de mercado tão ou mais lucrativo que a escola. Em 1962, nascia a Sociedade Editora Santa Inês Ltda. – Sesil, departamento criado “exclusivamente para a publicação e aprimoramento das apostilas” (Idem, 1995: 213). Em curto espaço de tempo a Sesil já conseguia produzir material didático para outras instituições de ensino, apoiada pela reputação de excelência dos seus professores-autores.

Ciente das necessidades geradas pela LDB de 1961, e da promessa de expansão educacional após o golpe civil-militar, Anderson F. Dias, empreendedor de origem modesta, nascido no ano do Manifesto dos Pioneiros, professor e médico infectologista, encabeçou o projeto de uma editora de livros didáticos, gestado no interior do Curso Santa Inês e concretizado em 1965. Borelli (1996:94) afirma que a editora nasceu no dia 3 de junho de 1965; na obra coordenada por Paixão (1995:214), porém, o dia não é especificado, mas os leitores são informados de que o marco inicial seria agosto daquele ano. Hallewell, por sua vez, comete um deslize ao escrever que a editora foi “fundada em 1964” (2012: 616). Após o encaminhamento do projeto, seguramente firmado em 196542, restava batizar a empresa de Anderson, Vasco e Antônio43.

De acordo com a obra Momentos do livro no Brasil, a sala de professores do Santa Inês era palco de “discussões acaloradas em torno de sugestões” (1995:214). Em uma dessas reuniões, os debatedores chegaram a um primeiro consenso de que o nome da editora deveria fazer referência à Grécia Antiga. Teria partido de um professor de História a proposta, aceita prontamente pelos sócios, de batizá-la como “Ática”, em referência à Península Ática, região na qual se localiza Atenas, cidade-símbolo do conhecimento por sua importância para a história do pensamento ocidental.

Todavia, a ideia de uma editora denominada Ática não era sacada original do docente. Em 1930, Luiz de Montalvor, pseudônimo do cabo-verdiano radicado em Lisboa Luis Filipe de Saldanha da Gama da Silva Ramos (1891-1947) fundou em Portugal a Editora Ática, detentora dos direitos sobre os livros de Fernando Pessoa (1888-1935) de 1942 até a entrada em domínio público das obras do poeta lisboeta. Não