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A Proposta de Emenda à Constituição Federal nº. 66, popularmente conhecida como PEC das Domésticas, pode ser uma esperança para desfazer as mazelas dessa categoria

17 Jurisprudência é “a ciência da lei”. Conjunto de decisões tomadas de forma convergente por um ou mais tribunais a partir de casos reais similares sobre um assunto que dá margem a mais de uma interpretação. Com base nesse acordo, outros juízes podem seguir o mesmo entendimento na aplicação de determinada norma jurídica, embora não sejam obrigados a fazê-lo.

18 A continuidade ou não das atividades domésticas é avaliada em cada caso concreto (pela Justiça do Trabalho),diversificando-se em cada residência.

profissional. No dia 2 de abril de 2013, o Senado Federal aprovou a promulgação da Emenda Constitucional nº 72, que altera redação do parágrafo único do Art. 7º da Constituição Federal para estabelecer a igualdade de direitos trabalhistas entre os trabalhadores domésticos e os demais trabalhadores urbanos e rurais. Essa Lei tem o objetivo de equiparar o trabalho doméstico aos dos demais setores da economia e acabar com os trabalhadores informais.

A partir da promulgação da PEC, todo trabalhador maior de 18 anos contratado para trabalhar em residências, para uma pessoa física ou família, passa a ter os mesmos direitos conquistados há décadas pelos demais trabalhadores em regime de CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Entre os trabalhadores domésticos beneficiados pela nova lei estão incluídos profissionais responsáveis pela limpeza da residência, lavadeiras, passadeiras, babás, cozinheiras, jardineiros, caseiros de residências nas zonas urbana e rural, motoristas particulares e até pilotos de aviões particulares.

A PEC das domésticas trouxe novas regras para o trabalho doméstico remunerado, tais como: jornada diária de oito horas e de 44 horas semanais e pagamento de horas extras, seguro-desemprego, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e auxílio-creche.

Quadro 1- Direitos trabalhistas das trabalhadoras domésticas antes e depois da aprovação daEmendaConstitucional n° 66/2012

Como era Como fica

Carga horária negociada entre domésticas e

patrões semanais (com limite de oito horas semanais) Empregadas só podem trabalhar 44 horas Trabalho além do horário não era remunerado Hora extra de trabaho deve ser acrescida de 50% do valor normal

Grávidas não tinham licença-maternidade

garantida Mães têm direito a quatro meses de licença após o parto Cerca de 400 mil crianças trabalhavam em

residências brasileiras É proíbido empregar menor de 16 anos (somente em casos de aprendizes maiores de 14 anos) Aumento de salário era negociado caso a caso Salário passa a ser corrigido por acordo coletivo e convenção de trabalhadores

1,8 milhão de trabalhadores domésticos

recebendo até meio salário mínimo categoria. O mínimo atual é de R$ 724,00. O salário mínimo passa a ser o mínimo da

Fonte: BRASIL, 2013

Existem algumas garantias legais que ainda dependem de regulamentação, tais como: obrigatoriedade de pagamento e saque de FGTS; demissão por justa causa (definição de casos); seguro-desemprego; pagamento de adicional por trabalho noturno; pagamento de salario-família (as domésticas receberiam um adicional por filho até os 14 anos); direito a creche e pré-escola para filhos com até 5 anos; valores de seguro contra acidentes de trabalho. Segundo a presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas

(Fenatrad), Creuza Maria Oliveira19, a aprovação da PEC das domésticas abre espaço para

reconhecimentos dos direitos trabalhistas das empregadas diaristas. Em 2010, o Senado aprovou o reconhecimento da caracterização da profissão de diarista e a definiu como a “profissional que trabalha em residência pelo menos dois dias por semana”.

O Projeto de Lei Complementar que regulamenta os novos direitos trabalhistas dos empregados domésticos (PLS 224/2013) ainda será apreciado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado. O prazo previsto era até o dia 16 de julho de 2013, mas, até o mês de janeiro de 2014, o mesmo não havia sido analisado.

De um modo geral, a sociedade tem combatido intensamente a PEC, com a justificativa das dificuldades práticas de implantação da lei, como, por exemplo, o controle da jornada de trabalho. Outra dificuldade seria a elevação do custo com as despesas com o empregado doméstico para o empregador, que é uma pessoa física, podendo chegar a até 9%. O fato real, porém, é que os avanços representados pela lei superam as dificuldades da sua implantação aumentando as despesas mensais para o empregador. As medidas procuram combater simultaneamente as discriminações sofridas pelas mulheres e pelo negro na sociedade brasileira, procurando corrigir as desigualdades vivenciadas, em termos legais, por essa categoria de trabalhadores.

Existe também dificuldade de controle e negociações dos direitos no espaço de trabalho que acontece em um ambiente privado, envolvendo afetividade e intimidade nas relações familiares,o que não é comum em outras relações de trabalho, mas que também não justifica que essas profissionais sejam deixadas de lado. Estamos em pleno século XXI e ainda temos uma categoria profissional que não é reconhecida com todos os direitos sociais legais, como, por exemplo, seguro-desemprego e Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Uma categoria cuja grande maioria dos profissionais trabalha na informalidade.

Entendemos que é de fundamental importância dar visibilidade e valorização ao trabalho doméstico remunerado e destacá-lo na categoria de uma profissão, um trabalho aprendido com características próprias. É preciso desnaturalizá-lo para ser reconhecido também nessa forma de prover o próprio sustento, tendo os mesmos princípios e concepções que constituem as demais profissões existentes no mercado de trabalho. Além disso, é necessário dotá-lo de políticas próprias e de ações sociais para que aqueles que o executam tenham condições de exercer com dignidade a cidadania plena e vencer a pobreza e as más condições de vida e de trabalho.

19 Entrevista concedida por Creuza de Oliveira ao Portal da Igualdade - Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.

Com essa evolução da legislação, qual seria a viabilidade de incluir a trabalhadora diarista nos direitos garantidos pela Emenda à Constituição Federal nº 66. O Tribunal Superior do Trabalho considera como tendo vínculo empregatício as diaristas que trabalham três vezes na semana para o mesmo empregador, no entanto, essa determinação não integra a Legislação, como dito anteriormente, e, quando direcionadas à justiça, essas decisões ficam a cargo de decisões de jurisprudência.

Em abril de 2009, a senadora Serys Slhessarenko (PT-MT) encaminhou ao Senado Federal o Projeto de Lei nº 160, que procura definir o trabalho da diarista. Esse projeto tinha o seguinte teor:

Art. 1º: Diarista é todo trabalhador que presta serviços no máximo duas vezes por semana para o mesmo contratante, recebendo o pagamento pelos serviços prestados no dia da diária, sem vínculo empregatício. Parágrafo Único: A diarista deverá apresentar ao contratante comprovante de contribuição ao INSS como Contribuinte Autônomo, ou como Contribuinte Funcional, que atualmente é de 11% (onze por cento) sobre um salário mínimo. (BRASIL, 2013)

O movimento sindical, porém, foi contrário à recomendação da senadora, reivindicando que mais de um dia de trabalho deveria caracterizar vínculo empregatício, além de se ter criticado a obrigatoriedade do pagamento ao INSS, uma vez que nenhum outro trabalhador é obrigado por lei a cumprir com essa determinação. A deputada Sandra Rosado, do PSB-RN, aceitou as sugestões e concebeu a seguinte determinação:

Dê-se ao art. 1º do projeto a seguinte redação: Art. 1º Diarista é todo trabalhador que presta serviços de natureza eventual ou no máximo 01 (uma) vez por semana para o mesmo contratante em âmbito residencial, que não tem finalidade lucrativa à pessoa ou à família deste, recebendo o pagamento pelos serviços prestados no dia da diária, sem vínculo empregatício. Art. 2º O diarista doméstico que optar em contribuir com o Instituto Nacional de Seguridade Social como contribuinte individual terá a mesma alíquota de contribuição aplicada ao segurado facultativo de baixa renda . (BRASIL, 2013).

Uma das propostas do projeto é acabar com a indefinição quanto à relação dessa categoria de trabalhador, que tem prejudicado os empregadores e as trabalhadoras, uma vez que fica a critério da sentença de cada juiz do trabalho. Outra justificativa é responder à demanda do movimento "Legalize sua doméstica e pague menos INSS", patrocinado pelas entidades organizadas das empregadas domésticas, que tem como objetivo a redução da contribuição social das contratadas e do empregador e a formalização da relação de emprego dessas mulheres.

O projeto foi enviando à Câmara dos Deputados, e transformado no Projeto de Lei (PL) 7279/2010 passou por algumas alterações, entre elas a que reduz o número de dias constante da definição de dois para um. Assim, a diarista que trabalhar mais de um dia por semana para o mesmo empregador deve ter reconhecido o vínculo de emprego.Atualmente o projeto de lei se encontra na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados, e depois seguirá para o Senado devido às alterações.

Desta forma, até o fechamento desta tese,a profissão de diarista não foi regulamentada, cabe à Justiça do Trabalho decidir sobre a existência ou não do vínculo deemprego. A jurisprudência do TST é no sentido de que o trabalho realizado pela diarista em dois ou três dias na semana não preenche o requisito da continuidade previsto no artigo 1º da Lei nº 5.859/72. Assim, as diaristas permanecem às margens da legislação que beneficiou as trabalhadoras domésticas mensalistas.

6 USOS DIÁRIOS DE SI NO DIA A DIA DO TRABALHO DOMÉSTICO

Neste capítulo, iremos apresentar as análises das narrativas das trabalhadoras diaristas entrevistadas. Evidenciar as entrevistas na integra, a partir das narrativas das trajetórias familiar e de trabalho das entrevistadas, foi a forma mais adequada que encontramos para revelar a atividade realizada, assegurando, dessa forma, a vivência de cada entrevistada.

O trabalho realizado na casa do outro, ou seja, de servir e cuidar do outro, é um fenômeno muito antigo no mundo do trabalho; está imerso nas transformações abordadas nesta pesquisa. Entretanto, para este estudo especificamente, e no que concerne às nossas questões, o seu espectro está relacionado às relações de servidão e humilhação, às relações sociais e econômicas e à ausência de reconhecimento jurídico e pela sociedade dessa categoria de trabalho.

O perfil sociodemográfico das trabalhadoras participantes da pesquisa reforça os achados que encontramos na literatura sobre o trabalho informal e o trabalho doméstico remunerado, que se caracteriza pela baixa escolaridade, a predominância da cor negra e a história de migração do interior para os grandes centros. As trabalhadoras entrevistadas ingressaram no mundo do trabalho antes da maioridade, ainda muito crianças, e todas, com vinculo informal e condições precárias de trabalho.

Permanecer na profissão de trabalhadora doméstica, talvez como a sua única alternativa, para sustento próprio e da família, procurando oferecer melhores condições de vida para os filhos, é uma realidade dessas mulheres. As trabalhadoras domésticas não se beneficiam de todos os direitos legais previstos na CLT, e ainda se encontram em tramitação no congresso algumasregras que equiparam o trabalhador doméstico a todos os demais trabalhadores.Esses profissionais ainda dependem da regulamentação dessas regras pelo Ministério do Trabalho para todos os benefícios entrarem em vigor. As tarefas das trabalhadoras diaristas não contam com uma descrição legal. As discussões parase chegar ao senso comum a respeito da elucidação da expressão “natureza contínua” criam impasses para a legalização da profissão.

Ter garantias de férias, 13º salário, aposentadoria em qualquer situação de trabalho seriam direitos legais assegurados a qualquer empregado, mesmo realizando suas tarefas em um espaço privado. Mesmo com as desvantagens que o trabalho doméstico oferece, de acordo com as trabalhadoras diaristas que nos concederam entrevistas, ele também oferece vantagens, como, por exemplo, flexibilidade de horário e de dias trabalhados, negociação de salários e recebimento de donativos (roupas, móveis, dentre outros). Na opinião das entrevistadas, essas

“ajudas” não seriam recebidas se estivessem trabalhando nas indústrias. A “opção” por realizar o trabalho de diarista mostrou-se uma forma de “realização” dessas mulheres, uma estratégia de negociação de suas necessidades.

Também constatamos nas entrevistas que a vida dessas trabalhadoras, na sociedade brasileira, é marcada por um ciclo com três momentos de mudanças relevantes, que têm significados importantes na trajetória de vida e de trabalho: uma infância marcada pelo trabalho precoce; a saída do interior para a capital para executar o trabalho doméstico na casa do outro para sustento próprio e da família; e a aposentadoria.

No primeiro momento, a condição socioeconômica de miséria em que viviam as famílias das entrevistadas faz com que, desde crianças, elas comecem a trabalhar para ajudar a família na luta diária de sustento e sobrevivência. A inserção em atividades laborais no período infantojuvenil está presente na trajetória de vida das seis entrevistadas. As crianças e os adolescentes inseridos nas atividades laborais, seja no contexto de casa ou na rua, estão expostos a riscos relacionados ao seu desenvolvimento físico, psíquico e cognitivo.

Num segundo momento, a economia e as transformações da sociedade atingem a família das entrevistadas. O desenvolvimento urbano e a oferta de empregos na capital, aliados à esperança de melhores condições de vida e de trabalho, incentivam a transferência dessas mulheres para os grandes centros urbanos. Mas, como essas mulheres não possuem qualificação suficiente para o mercado de trabalho, vão conseguir emprego nas casas de família. O nascimento dos filhos é uma fase que também marca a trajetória profissional, uma vez que a mulher precisa trabalhar mais para o sustento da família. A maioria das entrevistadas não possui um companheiro para dividir as despesas e as responsabilidades da casa e dos filhos. Portanto, permanecem trabalhando em casas de família, pela possibilidade de flexibilizarseus horários de trabalho, o que possibilita uma maior disponibilidade para cuidar da própria casa e dos filhos.

As empregadas domésticas diaristas definem sua atividade de trabalho como sendo uma atividade puramente manual, exigindo diariamente a utilização da força física; o uso do corpo é central no desempenho das tarefas. O trabalho prescrito identificado nas receitas, nos bilhetes deixados pelos empregadores, o que é visível, não antecipa tudo o que deve ser executado pela trabalhadora. Existe o jeito como a trabalhadora organiza o seu cotidiano de trabalho, originado de costumes e hábitos desenvolvidos internamente e inseridos nas rotinas; esses também são da ordem do prescrito.

Para Schwartz (2004b) os elementos que traduzem sofrimento no trabalho20, como a fadiga do corpo, a utilização de produtos químicos, fazem parte das condições de trabalho da diarista para a execução das tarefas. Na realização da atividade, há valores inseridos, orientando as escolhas a serem feitas pelo trabalhador, como, por exemplo, seguir ou não a receita deixada pelo empregador, seguir as orientações, as normas deixadas pelo empregador ou fazer as tarefas de acordo com sua experiência, com a sua vivência. São decisões e estratégias criadas pela trabalhadora para garantir a saúde e a qualidade de vida na atividade laboral. Existe um debate de normas nas escolhas realizadas, não observadas num primeiro momento, vivenciadas no cotidiano do trabalhador, como pudemos observar nas narrativas.

É possível afirmar que “toda forma de atividade em qualquer circunstância requer sempre variáveis a serem geridas, em situações históricas, sempre em parte singulares, portanto, escolhas a serem feitas, arbitragens” (SCHWARTZ, 1996). Assim, procuramos nesta pesquisa, através das narrativas das entrevistadas, desvelar os valores que orientam as atividades da trabalhadora doméstica diarista.

Pertencemos a uma sociedade que compreende o debate de normas e valores, experimentando conflitos nas relações entre os âmbitos econômicos, político e jurídico. Na dimensão micro, em que o mundo do trabalho está presente, a atividade da trabalhadora doméstica diarista, ou seja, a atividade humana constitui-se em um debate de normas e valores, as dramáticas da atividade, vividas da forma mais profunda. Em um debate em que se conformam e se confrontam, em uma relação dialética, os valores do polo mercantil e os valores do polo do direito, podemos dizer que essas esferas estão no campo da luta de classe, conforme discutimos no Capítulo 1. Segundo Schwartz (2007), existe uma “compatibilidade eminentemente problemática” entre esses dois polos, uma vez que são dirigidos por lógicas de desenvolvimento de meios de vida que não são similares, os valores de um estão sendo trabalhados pelos valores do outro. Uma relação que se estabelece “desde o mais local na atividade ao mais global na escala da sociedade: debates permanentes de normas e de valores” (SCHWARTZ, 2007, p.250). São eles o polo mercantil e o polo dos valores sem dimensão, uma vez que são valores não mensuráveis em padrões quantificáveis.

Para Schwartz e Durrive (2007), assumir, unicamente, a existência desse esquema bipolar não é suficiente para sustentar como se estabelecem as “trocas”, como funcionam suas

20O “sofrimento no trabalho”, para Schwartz (2004b), origina-se na evolução da psicodinâmica do trabalho; ao contrário da ênfase em uma psicologia do indivíduo, foca para a organização social e codificada das atividades. Para Yves Schwartz (2004b, p.144), isso significa que “[...] um espaço da realidade é dado a um mal-estar psíquico que nos obriga a considerar as imposições industriais como matriz”. É um tema extremamente rico para discutir a visão transformadora do trabalho, mas esse conceito ainda carece de desenvolvimento na ergologia.

tensões no sentido de identificar como é feita a história de homens e mulheres. Assim, o autor propõe a criação do terceiro polo, o polo das “dramáticas do uso de si”, ou do debate de normas. O polo da gestão busca apresentar que a história não acontece apenas em função do confronto direto entre o polo político e o polo do mercado, e, portanto, é necessário incluir o polo da atividade humana, uma vez que é necessária a participação do individuo; a história é vista como uma engrenagem. Esse terceiro polo também é denominado pelo autor como a gestão “do” e “no” trabalho (SCHWARTZ; DURRIVE, 2007, p.253). As dramáticas de uso de si estão presentes em todas as dimensões da vida dos sujeitos.

Os dados colhidos nas entrevistas, baseados na trajetória familiar e profissional das trabalhadoras domésticas diaristas, confirmam, em grande parte, os achados de pesquisas anteriores sobre as trabalhadoras domésticas. A maioria delas é migrante, vieram do interior de Minas Gerais, e uma das entrevistadas, do interior da Bahia. A migração é motivada quase sempre pela necessidade de encontrar melhores condições de vida e de trabalho. Os objetivos iniciais são aumentar a renda para suprir as necessidades básicas e, posteriormente, aumentar o padrão de consumo. Em alguns depoimentos, percebemos uma vontade, ainda que não revelada explicitamente, de gerir a própria vida, com mais liberdade, com mais autonomia, distante das pressões da sociedade.

As narrativas revelam que todas as entrevistadas, ainda na fase infantil, trabalhavam no campo ou em casas de família. As características da relação de trabalho já eram de informalidade, de “prestação de favores”. A remuneração era simbólica, em alguns casos,até representava um aprendizado, uma formação para o futuro e uma troca de serviços prestados por moradia e educação. Outro fato relevante é que, quando as trabalhadoras diaristas não estão satisfeitas com o tipo de tratamento dos empregadores, elas trocam de casa, trocam de empregador, o que não ocorre nas cidades do interior, pois as opções são restritas, e não é muito frequente quando o trabalho é de mensalista.

As narrativas das trajetórias familiares e de trabalho das diaristas denunciam o quanto a nossa sociedade ainda se encontra nos moldes do trabalho de servidão, da necessidade de contratar outras mulheres para cuidar dos afazeres do lar. Nos depoimentos das entrevistadas, o fato de “optarem” pelos serviços domésticos é uma consequência das situações estruturais de vida das famílias, da carência de recursos financeiros, obrigando o ingresso das mesmas no mercado informal de trabalho ainda muito jovens e, em vários casos, ainda crianças. Portanto, essa situação impossibilitou que essas mulheres ingressassem nas escolas e, até mesmo, em outras atividades laborais. Fica evidente nas falas das entrevistadas a escolha pelo trabalho em função da idade mais avançada, em alguns casos, e da possibilidade de flexibilização

dehorários, de dias trabalhados ou até de negociação da própria remuneração. A maioria das entrevistadas relata que o trabalho doméstico representa uma profissão para elas, mas nenhuma das entrevistadas recomendaria a profissão para seus filhos.

Outro aspecto observado nas narrativas das trabalhadoras domésticas é que, desde cedo (infância), essas mulheres já eram responsáveis pelas tarefas domésticas (lavar, passar, cozinhar, cuidar da casa e dos irmãos) na casa dos pais ou de outras famílias que as criaram, donde podemos verificar a reprodução da divisão sexual do trabalho produtivo para os filhos

Benzer Belgeler