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Trata-se de Peças de Informação nº 0013046-06.2009.403.6181207, distribuídas pelo Procurador Regional da República Marlon Weichert e pela Procuradora da República Eugênia Fávero, ambos da área cível, à Procuradora da República Cristiane Bacha Canzian Casagrande, membro do Ministério Público Federal com atribuição criminal para atuar perante a 7ª Vara Criminal Federal de São Paulo, requerendo que essa determine as providências que considerar cabíveis para a persecução penal dos responsáveis pelos crimes de sequestro, homicídio com meio cruel (tortura) e falsidade ideológica contra Flávio de Carvalho Molina.
De acordo com o exauriente estudo dos Procuradores da República, da área cível, Flávio de Carvalho Molina foi militante político do Movimento de Libertação Popular (MOLIPO), um dos diversos grupos clandestinos que se insurgiram contra o governo ditatorial militar. O militante desapareceu, em 4 de novembro de 1971, supostamente detido por dois agentes do DOI/CODI do II Exército em São Paulo.
Na data de 29 de agosto de 1972, os jornais “O Globo” e “Jornal do Brasil” noticiaram que Flávio Carvalho Molin teria sido morto de 01 de novembro de 1971 em confronto com a Polícia, embora a 2ª Auditoria da Marinha da 1ª Circunscrição Judiciária Militar tenha declarado extinto o respectivo processo somente em 21 de setembro de 1972, reconhecendo o relatado óbito como ocorrido em 07 de novembro de 1971.
Por outro lado, a família de Flávio Carvalho Molina somente teve conhecimento seguro da morte da vítima, que sempre foi negada, em julho de 1979, quando teve acesso a documentos oficiais, em especial um ofício assinado pelo então Delegado Romeu Tuma informando ao Juiz Auditor que Flávio Carvalho Molina foi morto, por tentativa de fuga, quando conduzido por agentes de repressão a um local de encontro com outro militante. Restou constatado, ainda, que o atestado de óbito de Flávio Carvalho Molina foi elaborado em nome de “Álvaro Peralta”, fato este que resultou em seu sepultamento no cemitério de Perus em São Paulo/SP com o espúrio nome.
A família da vítima requereu judicialmente a retificação do assentamento de óbito, a qual foi concedida em 07 de julho de 1981.
E, em dezembro de 1990, a vala do cemitério de Perus foi aberta e diversos despojos foram exumados e encaminhados para identificação, sendo que apenas em setembro de 2005 logrou-se êxito em identificar os despojos de Flávio Carvalho Molina.208
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Peças de Informação. Ministério Público Federal. Procedimento Investigatório do MP nº 0013046-
06.2009.403.6181. Disponível em: <http://www.prr3.mpf.gov.br/arquivos?func=select&id=145>.
Acesso em: 16 mai. 2013. 208
Promoção de Arquivamento. Ministério Público Federal. Procedimento Investigatório do MP nº
0013046-06.2009.403.6181. Disponível em: <http://www.prr3.mpf.gov.br/arquivos?func=select&id=
No dia 11 de maio de 2010, a Procuradora da República, da área criminal, requereu a promoção de arquivamento das peças informativas, por entender que:
a) Não havia indícios suficientes de autoria contra o, então, Senador da República Romeu Tuma, que à época dos fatos chefiava o DOPS da Polícia Civil do Estado de São Paulo;
b) Havia ocorrido a prescrição da pretensão punitiva estatal, uma vez que o prazo máximo de vinte anos, previsto no art. 109, I, do Código Penal, há muito fora ultrapassado, já que o lapso temporal entre a data dos fatos e o início da persecução penal era superior a trinta e oito anos;
c) Também havia ocorrido a prescrição, quanto ao crime de ocultação de cadáver, posto que a permanência da conduta delitiva cessara em data anterior ao ano de 1981, pois já era conhecido o local em que o corpo da vítima fora enterrado.
Em 25 de maio de 2010, o juiz federal Ali Mazloum, da 7º Vara Federal Criminal de São Paulo, decidiu rejeitar o pedido de arquivamento promovido pelo MPF/SP, quanto ao crime de ocultação de cadáver, e determinar, por conseguinte, a remessa dos autos ao STF e o encaminhamento da rejeição do pedido de arquivamento ao Procurador-Geral da república, para que esse nos termos do art. 28 do CPP ofereça denúncia, designe outro órgão do MPF para oferecê-la ou insista no arquivamento, tendo em vista a existência de questão afeta à competência originária do STF, uma vez que o investigado seria o Senador Romeu Tuma. Os fundamentos do magistrado federal foram os seguintes:
a) O conhecimento do local onde os restos mortais de Flávio de Carvalho Molina estavam enterrados não teria o condão, por si, de fazer cessar a permanência do crime de ocultação de cadáver, cuja consumação só findou, no ano de 2005, com a efetiva identificação das ossadas da vítima, pelo IML de São Paulo, e o posterior sepultamento, pelos familiares em lugar definitivo;
b) os fatos investigados amoldam-se à hipótese constitucional de imprescritibilidade prevista no art. 5º, inciso XLIV da CR/88209, visto que, embora a consumação do delito de ocultação de cadáver tenha se iniciado sob a égide
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Constituição Federal de 1988.
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
XLIV - constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático;
constituição anterior, permaneceu em curso quando sobreveio a nova ordem constitucional, tornando-se imprescritível, conforme consignado na súmula 711210 do Supremo Tribunal Federal.
Em 17 de junho de 2010 os autos foram encaminhados para o Supremo Tribunal Federal, cuja Relatora Ministra Cármen Lúcia, abriu vistas para que a Procuradoria Geral da República se manifestasse.
No dia 11 de novembro de 2010, a Subprocuradora-Geral da República Cláudia Sampaio Marques manifestou-se no sentido de ser declarada a extinção da punibilidade do agente, nos termos do art. 107, inciso I, do Código Penal, visto que o investigado, Senador da República Romeu Tuma, havia falecido em 26 de outubro de 2010.
Em 8 de maio de 2013, a Ministra Cármen Lúcia acolheu o parecer da Procuradoria Geral da República e declarou extinta a punibilidade do agente.
Infelizmente, devido à morte de Romeu Tuma, não foi possível determinar, no âmbito do STF, se a tese de que o crime de ocultação de cadáver seria, de fato, imprescritível e, além disso, escarpar-se-ia da incidência da Lei nº6.683/79 (Lei de Anistia).