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Rızanın Geri Alınması

O primeiro contato oficial com o grupo, já na condição de pesquisadora, deu-se em sala de aula. Cheguei ao local acompanhada das professoras Merli e Dora, diretoras do Instituto Brava Gente, entidade que acolhia o curso. Logo, porém, ambas se envolveram em outras atividades

nas salas anexas e, não restando outra alternativa, dirigi-me à sala onde o grupo já se encontrava em aula.

Já nesse encontro reconheci minhas primeiras dificuldades como pesquisadora. As diretoras da instituição, que deveriam me apresentar e expor o objetivo da minha presença no grupo, não o fizeram oficialmente e tive que lidar sozinha com essa tarefa. Como os alunos e a professora ainda não sabiam qual o motivo da presença de uma estranha no grupo, assim que surgiu uma oportunidade solicitei ao docente a oportunidade de me apresentar formalmente. Dirigi-me à frente da turma e expliquei que estava fazendo um trabalho etnográfico para uma disciplina do Mestrado da Pontifícia Universidade Católica – PUC, esclarecendo que minha presença fora permitida pelas professoras Merli e Dora.

Esclareci, então, a intenção de fazer o trabalho sobre aquele grupo ao qual me dirigia e, assim, solicitei licença para que pudesse acompanhá- los. Alguns se manifestaram positivamente, já outros pareceram desconfiados com a proposição. Uma das alunas apresentou-se como Bruna, foi acolhedora em sua saudação e, imediatamente, se colocou à disposição para auxiliar no que fosse necessário. Percebi, porém, que a maioria dos alunos permaneceu impassível. Naquele momento tive certeza que deveria ter muito cuidado ao me colocar junto ao grupo.

Bruna foi escolhida desde o primeiro contato, como minha principal informante.

Nesse primeiro encontro detive-me a observar o grupo. Poucas interações com os demais foram oportunizadas. Estava interessada, naquele momento, com questões relacionadas ao comportamento e também no que diz respeito à interatividade dos alunos com os temas e com os professores.

Um aspecto destacou-se já no primeiro instante: a informalidade das suas posturas. Pareceu-me que todos tinham algum tipo de relação extra sala de aula. Havia um ambiente de amizade. Levavam chimarrão e lanches que os alunos distribuíam entre si, enquanto o professor dava sequência à aula. O relacionamento com a professora foi outro ponto interessante. Apesar de tratarem pela denominação formal, havia certo grau de proximidade e falta de cerimônia que jamais percebi em outra sala de aula, especialmente em outros ambientes acadêmicos.

Causou-me estranhamento algumas situações ocorridas durante a aula. Apesar de manifestar grande envolvimento com os temas apresentados, os alunos demonstravam que as regras ali instituídas diferiam daquelas já reconhecidas em outros ambientes escolares. Ao longo da aula eram feitas várias interrupções, ora para atender ao celular, ora para tomar cafezinho. A conversa entre o grupo era constante, assim como a naturalidade de expressões e intervenções junto ao professor.

Tal comportamento despertou, desde os primeiros contatos com o grupo, a impressão de que os alunos reproduziam comportamentos sociais de suas rotinas fora do ambiente escolar, ou seja, não havia a formalidade natural para tal situação. A hipótese que se formulou é a de que aquele contexto da Especialização, que eles próprios organizaram e gerenciavam, era uma extensão de suas práticas cotidianas. Havia, no conjunto analisado, diferenças comportamentais e estruturais (ambiente) marcantes com relação à outras classes universitárias de pós-graduação. Essa percepção acompanhou todo o trabalho, manifestando-se em várias oportunidades que serão demonstradas ao longo do texto.

Em determinado momento pôde-se investigar algumas informações com Bruna. A informante relatou:

Eu tenho dois filhos. Trabalho de segunda a sexta, das 8h às 18h e estudo todos os dias. Faço 3 dias de aluna especial na UFRGS, 1 dia com grupo de estudo no IPA, 1 dia de grupo de estudo na PUC e a Especialização aos sábados.

A conversa com a aluna demonstrou que há claramente o cultivo de um projeto, orientado por uma forte intenção de buscar a educação. A interlocutora, que apresenta uma retórica e segurança incomuns naquele contexto, admite que, em determinadas circunstâncias se sente “deslocada” entre os colegas das universidades que frequenta como aluna especial. Segundo ela, os demais alunos parecem ter uma formação mais consistente que a sua, o que, de acordo com a própria análise, advém da frequência em escolas consideradas melhores do que as que ela mesma estudou. Pondera que tem dificuldade para acompanhar as atividades por não ter uma sólida base teórica.

Surpreendi-me pelo fato de que a aluna faz parte de um grupo de pesquisa em uma das universidades mais conceituadas do Estado e, no entanto, não se sente segura quanto ao conhecimento a ser acessado. Desprovida de um histórico que pudesse sedimentar conceitualmente seus conhecimentos e, consequentemente, sem a desenvoltura necessária para atuar em ambientes de pesquisa, era possível perceber o esforço significativo empreendido para conseguir acompanhar os grupos dos quais faz parte. Nesse caso, a intencionalidade deve dar conta de aparar as carências nela presentes.

Nas conversas com a informante evidenciou-se o grande esforço realizado em busca do “conhecimento”. Essa identificação levou-me a questionar qual o fim, qual o objetivo de tanto empenho. As hipóteses invariavelmente tangenciavam a questão da ascensão social. O que se constatou, no entanto, é que esse item era de longe o mais relevante para

a informante. Havia um outro aspecto que se evidenciaria com grande relevância: a busca de constituir-se, dentro da sua comunidade, como referência de alguém que dera certo, ou seja, como um exemplo.

Em determinado momento os alunos foram conduzidos ao estudo de um texto de Kant: “Aquilo que a pessoa é, é aquilo que a sociedade entende e quer formar...”. Entusiasmados eles interagiam e demonstravam interesse sobre as questões. No entanto, apesar de evidenciar-se em suas manifestações a importância dada à oportunidade de ter contato com tão reconhecido autor, eles não pareciam envolvidos, ou concentrados, ou mesmo reflexivos quanto às questões profundas que estavam emergindo do estudo.

A informalidade continuava a evidenciar-se nas suas falas e atitudes, pautadas por expressões simples e populares, carregadas de senso comum. Foi inevitável a comparação com outros ambientes acadêmicos conhecidos, especialmente em situações em que a aula exigia determinado rigor metodológico. Kant foi lido e discutido, naquela aula, junto à toda sorte de intervenções e dispersões do grupo.

As situações presenciadas nesse primeiro contato com os alunos indicaram que eles podem fazer da sua dificuldade em ter acesso aos bens materiais e a uma vida financeiramente mais estável, a força que os move em busca de mais qualificação intelectual. Mas, além disso, eles têm a intenção de dividir esse conhecimento com a comunidade em que estão inseridos, sendo a educação o grande diferencial para os distinguir e fortalecer.

Em uma oportunidade com Bruna, indaguei se a educação adquirida até então havia promovido alguma transformação pessoal importante. Ela acenou positivamente e sua resposta foi instigante:

Aprendi a ouvir, a entender o outro como pessoa, a pesquisar o silêncio do outro. Me tornei uma pessoa mais humana, que respeita o processo do outro. Deixei de ter uma prática ativista e passei a fazer a práxis. A prática sem a reflexão não tem qualidade.

A explicação deixou-me satisfeita apenas por um curto espaço de tempo. Ao refletir sobre isso considerei a possibilidade de que a resposta fosse uma construção artificial ou mesmo a reprodução de um discurso. Discurso este engendrado, provavelmente, pela distância ainda existente entre pesquisador e pesquisado. Oportunamente eu retornaria a essa questão.