A grande marca da administração petista em Santos foi a ousadia, capacidade de romper com valores pré-existentes, enfrentar resistências morais, culturais e mesmo religiosas. Ousadia de enfrentar a questão da exclusão social e da pobreza através da adoção de políticas públicas voltadas, prioritariamente, para a população mais pobre do município, ou para os setores mais vulneráveis, como soropositivos, prostitutas, usuários de drogas e portadores de doenças mentais. Nessa perspectiva, a saúde foi a política prioritária, adquirindo visibilidade e projeção nacional e internacional. Segundo relato obtido através das entrevistas, pela primeira vez na história de Santos houve preocupação em colocar o serviço público de saúde funcionando nas áreas mais pobres da cidade. Essa marca foi impressa desde o início do governo Telma de Souza, quando Santos fez a opção política de assumir as diretrizes e princípios do Sistema Único de Saúde, recém-criado pela Constituição Federal de 1998, interferindo e participando ativamente no processo de viabilização do sistema. Essa marca pode ser vista também na organização de uma rede municipal de saúde, através das policlínicas, assim como na intervenção da Casa de Saúde Anchieta e no pioneiro programa de combate às doenças sexualmente transmissíveis e Aids, primeiro do gênero implantado por uma prefeitura em todo o país.
A saúde em Santos perdeu visibilidade em termos nacionais e internacionais no governo Mansur. Tornou-se mediana, comum, nenhuma grande inovação foi apresentada e a coragem demonstrada por Telma de Souza e David Capistrano não existia mais. Sobre isso, passagem da entrevista com Marco Manfredini, coordenador do Programa de Saúde Bucal no governo David Capistrano, aponta que “hoje, as pessoas participam de conferências estaduais
e nacionais de saúde e não se houve falar de Santos. Isso que eu acho que é emblemático. Então, você não vê, passados aí oito anos, já no fim da gestão do David. Quer dizer... Você não vê nesses oito anos qualquer referência à saúde
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de Santos em canto nenhum... Numa conferência nacional de saúde, num congresso de secretários municipais de saúde”.
Além disso, segundo relatos dos entrevistados próximos a Beto Mansur, o prefeito não teve na Saúde uma área de ação prioritária em seu governo. Isso foi mencionado na entrevista concedida por Edmon Atik: “se você me perguntar
se o Beto tinha um plano como prioritário de Saúde? Não. Era o secretário que dava isso. Como estes que se elegeram agora. No caso, o meu amigo João Papa. Também ele não elencou a prevenção como seu fator fundamental e sem a medicina curativa. Infelizmente”.
Dessa maneira, se houve alguma política ou êxito na administração da saúde durante a administração Mansur, isto ocorreu muito mais em decorrência de iniciativas dos próprios secretários municipais de saúde ou então pelo trabalho dos servidores da rede municipal, do que pelo fato de a Saúde ser uma prioridade de governo. Pelo contrário, deixou de ser prioritária em detrimento de uma política de estética urbana, com ênfase no embelezamento da região da orla e da criação de praças ou mesmo da ciclovia, que atravessa quilômetros da cidade. O bom-senso não permite criticar esse tipo de realizações. Certamente são boas, elevam a auto-estima da cidade, atraem turistas, geram empregos e melhoram a qualidade de vida. Ruim é quando a administração pública enfrenta períodos de escassez de recursos, como amiúde acontece no Brasil em todas as esferas públicas, e a decisão governamental prioriza obras de estética e embelezamento urbano, ignorando a possibilidade de implantar uma política que radicalize no enfrentamento da questão da desigualdade, da pobreza e da proteção aos setores minoritários, marginalizados e excluídos.
Outra diferença significativa é que, na administração petista, a saúde era considerada uma questão política, um princípio ideológico fundamentado na possibilidade de utilizar a política pública como ferramenta de combate às desigualdade. Ao serem politizadas as questões, promoveu-se, mesmo que de maneira institucionalizada, a criação do Conselho Municipal de Saúde e a participação da comunidade como, por exemplo, através da revitalização de
antigos espaços comunitários existentes em Santos, chamados de “Sociedades de Melhoramentos”, que permitiram as comunidades pressionar o poder público e fortalecer iniciativas, como aquelas que visavam construir unidades de saúde nas regiões mais pobres da cidade. Essa participação da comunidade é ilustrada em relato de Jocelene Batista Pereira, médica que atuou na rede municipal de Saúde durante os governos Telma de Souza, David Capistrano e Beto Mansur, sobre a construção de uma unidade de saúde na Zona Noroeste da cidade durante a administração Telma de Souza. Esse relato aponta que a unidade “foi
desde o início muito diferente, porque a Comissão de Saúde ficou ativa durante todo esse período (da sua construção). A administração tinha muita dificuldade com recurso financeiro, herdou também uma dívida grande, a infra-estrutura da cidade era extremamente precária, e, então, as reformas demoraram. A população fez reforma, fez balcão, fez a recepção na frente, fez uma cobertura tudo em regime de mutirão. O David foi várias vezes ver os nossos mutirões. As mulheres iam para cozinhar e os homens na construção, iam marceneiros... A administração comprava material e eles construíam. Eu me lembro que na festa de inauguração teve um grande forró. Foi muito interessante, foi bem legal. A gente não tinha móvel para inaugurar. Pegamos móveis de outra unidade e levamos para lá. No outro dia teve que tirar tudo...”.
Beto Mansur promoveu o inverso, diminuindo a tensão política das políticas sociais, uma vez que seu compromisso com os pobres e as parcelas minoritárias da sociedade não foi além do discurso eleitoral. Em Santos, os pobres são minoria, pois a cidade é majoritariamente composta pela tradicionalmente chamada classe média, o que facilita tornar invisível a questão da pobreza e da exclusão social. A capacidade de tensionamento do Conselho Municipal de Saúde e das comunidades foi drasticamente reduzida no governo Mansur, adquiriu “invisibilidade”, sendo substituída pela fragmentação da chamada “opinião pública”, que se mostrou satisfeita com as melhorias desenvolvidas pelo prefeito na cidade. Nesse clima de despolitização, as pessoas pobres acabam aceitando o seu lugar, por falta de articulação e canal político para demonstrar sua insatisfação, ou mesmo um desalento que, quando
134 muito, ocupa espaço nos periódicos e na imprensa local no formato de queixas sobre falta de medicamentos na rede pública, longas filas para realização de consultas e de exames e a crônica carência de leitos hospitalares.
Os avanços obtidos na administração petista foram neutralizados durante o governo Beto Mansur. Houve um esvaziamento dos serviços públicos pela falta de funcionários e deterioração física dos prédios. Segundo relato da presidente do Conselho Municipal de Saúde, “acaba com o serviço não o
prestando. Não precisa fechar a porta. Se fechar a porta você consegue uma manifestação da população. Então, você começa a dificultar os serviços. Eles fecham o horário noturno e as pessoas reclamam, mas não têm uma manifestação concreta. Com exceção do Conselho que bateu e bateu. A pessoa que ia à unidade porque tinha qualidade, mas tem condições de ter um Plano de Saúde, deixa de usar ali, não vai mais. Hoje não tem médico, não tem medicamento. O pessoal acaba não indo mais. O serviço vai se desmontando e deixando de existir. Fechou a Policlínica no noturno porque teve uma diminuição significativa dos profissionais. E então, vai desmontando. Não precisa fechar a porta, basta não ter a procura”.
O que realmente a população de Santos perdeu com a derrota do modelo petista para a saúde? Esta é uma pergunta instigante. É certo que diversas experiências de sucesso na construção do SUS municipal foram relatadas em todo o Brasil e, hoje, com a obrigatoriedade de gastos municipais em saúde imposta pela Emenda Constitucional 09, as cidades devem manter, pelo menos, um sistema mínimo de atendimento às demandas de saúde sua população. Deixou de existir um modelo corajoso, ousado e inovador, realmente de vanguarda e que ajudou a estruturar o que hoje é o SUS, restando em seu lugar um formato de política pública que desloca a saúde do centro da agenda pública e administrativa para uma posição marginal, submetida à lógica fiscal e ao equilíbrio das contas públicas. Foi isso que Santos perdeu. Não que o equilíbrio das contas públicas e a boa gestão dos recursos arrecadados junto à população não sejam importantes, muito pelo contrário. Tanto é que o grande salto na construção de um sistema de saúde desencadeado no governo Telma
produziu dificuldades financeiras que, em certa medida, impuseram restrições à administração de David Capistrano. Porém, Santos é uma cidade rica e nela seria possível a continuidade de um modelo que estava avançando na subversão da lógica da exclusão social, marca brasileira. Essa era uma possibilidade concreta e Santos a perdeu. Uma possibilidade de inverter a lógica de que se deve dar aos pobres uma assistência pobre e acreditar que um sistema de saúde possa ser para todos, igualitário, e que promova a eqüidade.
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