Observou-se nas entrevistas uma quase unanimidade quanto à politização da questão saúde na cidade de Santos. Entretanto, em linhas gerais, para o petismo, essa politização é salutar, enquanto para os entrevistados identificados com a administração Beto Mansur é ruim. Essa politização não significa necessariamente “partidarização”, ou seja, associar a saúde a um partido político, mas sim uma concepção política de políticas públicas, que significa constante tensão, um processo que envolve disputa por recursos limitados, cuja partilha será decidida pela capacidade de influenciar o aparato estatal a fazer essa ou aquela opção de investimento, prática com conotação notadamente ideológica.
Segundo relato de Fábio Mesquita, coordenador do Programa de DSTs/Aids no governo Telma de Souza, a saúde não seria a questão central da política de Santos. Ela teria se tornado um tema político relevante porque foi um dos carros-chefes da administração da Telma de Souza e, em certa medida, garantiu a eleição do David Capistrano. Entretanto, ela não teria sido suficiente para manter o PT no governo e nem para devolver o governo ao PT na segunda eleição do Beto Mansur. O entrevistado afirma, para lustrar essa hipótese, que “a principal crítica que o João Papa sofreu no processo eleitoral recente foi sobre
as péssimas condições de saúde, faltava remédio, faltava isso, faltava aquilo. Não foi o tema suficiente para derrotá-lo na eleição. Por isso, não acho que é o tema central da cidade. Embora fosse um tema politicamente muito sensível,
muito relevante, não teria o impacto suficiente para garantir uma vitória eleitoral”. Com a vitória de Mansur, os setores conservadores da cidade procuraram esvaziar politicamente a questão da saúde e do governo, conforme aponta passagem da entrevista com Roberto Tykanoti Kinoshita, interventor na Casa de Saúde Anchieta nos governos Telma de Souza e David Capistrano:
“não só a saúde, mas na verdade a estratégia da direita na cidade de Santos é despolitizar tudo. Transformar tudo em cenário natural, em que não há diferenças. No máximo dizer que o cara é um pouco mais técnico. Nesse sentido eles fazem uma menção a essa idéia de governo de engenheiros. São todos engenheiros. Essa idéia de que são todos positivos. Tentam colocar a discussão do governo do PT como um governo de confusão. Esse discurso acaba colando, porque é um governo que induz ao debate e à tensão, expõe contradições, gera insegurança, gera reação. Acho que é difícil para a população compreender e aceitar isso”.
Os entrevistados que são próximos ao petismo avaliam que a saúde é um tema político e a população conhece as diferenças entre as gestões petistas e Mansur, na saúde. Entretanto, a organização da sociedade em defesa da saúde não foi tão robusta para garantir a manutenção dos avanços alcançados pela administração petista ou assegurar que ela fosse um tema decisivo nas últimas eleições, conforme demonstram as derrotas eleitorais de Telma de
144 Souza, candidata mais associada à defesa das políticas sociais e da saúde. Verifica-se que o envolvimento político da população na saúde, em Santos, se manteve restrito à atuação do Conselho Municipal e à organização popular, que ainda existe, nos bairros mais pobres da cidade, ou à atuação dos vereadores oposicionistas perante a administração Mansur.
A cidade tornou-se dividida politicamente em torno do tema da saúde pública. Os pobres mantiveram-se na sua defesa, enquanto os setores mais abastados encontraram abrigo nos planos e convênios médicos, excluindo, assim, da sua agenda a preocupação com as políticas sociais, uma vez que esse tema só elegeu um único prefeito na história recente da cidade, David Capistrano, em 1992, conforme será discutido posteriormente nesse capítulo. Dessa maneira, a força política que pode desequilibrar o jogo na cidade é a classe média, ou seja, os setores médios que se dividem em depauperados e equilibrados financeiramente. Este segmento, que tradicionalmente se interessa por política enquanto componente partidário e eleitoral, sem uma prática de organização ou participação em movimentos sociais, foi atraído eleitoralmente por Beto Mansur e tornou-se o fiel da balança no equilíbrio das forças políticas em Santos, isolando os setores mais pobres.
Para Jocelene Batista Pereira, médica que atuou na rede municipal de Saúde, tendo passagens ao longo dos três governos, Mansur foi muito hábil: “ele
conseguiu um feito porque, em apenas uma gestão, apagou a marca da saúde que o PT havia deixado. A saúde não era mais uma questão política, pois houve uma mudança de eixo. Se na época do PT era a questão social, incluir as pessoas, diminuir as diferenças entre a praia e a Zona Noroeste, os morros e a orla, na gestão do Beto Mansur não. Era deixar a cidade bonita para desenvolver o turismo. Ver a questão do porto para se tornar um pólo turístico. Também são coisas importantes, mas enfim... Retomar o desenvolvimento da cidade. Era essa a linha mais voltada mesmo para quem tinha poder econômico na cidade. O que interessava para quem tinha poder econômico”. Esvaziar o
caráter prioritário da saúde foi também esvaziá-la de caráter político, remetendo- a para a margem desse processo.
A partidarização da saúde, ou seja, a tomada da saúde como bandeira partidária foi criticada nas entrevistas. Realmente, existem muitas diferenças entre defender a saúde como uma questão política e defendê-la como partidária, até porque a defesa da saúde é uma agenda mais ampla, sendo uma visão sectária afirmar que qualquer partido no Brasil tenha sido, nos últimos anos, o único a defender a saúde pública. O mais correto seria, apenas em termos analíticos, afirmar que esta questão vem sendo defendida pelos partidos situados mais à esquerda do espectro político-partidário brasileiro. Sobre a inadequada partidarização da saúde, Odílio Rodrigues Filho, Secretário de Saúde no governo Beto Mansur, manifestou-se da seguinte forma: “acho que a
partir do momento que a gente partidariza a saúde a gente presta um desserviço à saúde pública. A saúde pública está inscrita, o SUS tem normas, o SUS tem definições. Está definida a forma de financiamento, a forma de gestão. Acho que em Santos, a partir do momento que a gente começou a partidarizar, e eu luto contra isso, a gente permite que a saúde tenha mudanças à medida que se mude o governo. Quando você tem um SUS com uma definição constitucional, o SUS é igual para todo mundo – seja prefeito, secretário – tem obrigação de fazer o SUS acontecer, porque é lei e a lei tem que ser aplicada”. Sem dúvida, o
secretário se posiciona contra a partidarização da saúde por dois motivos: a defesa do SUS, que é presente no seu discurso; e a tentativa de esvaziar a principal bandeira eleitoral do PT na cidade.
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