• Sonuç bulunamadı

2. HĠTĠT DEVLETĠ’NDE VEBA SALGINININ ORTAYA ÇIKIġI

3.1. RĠT ELLERĠN AMAÇLARI

Para que se possa realizar qualquer análise acerca das repercussões jurídicas da transexualidade na ordem jurídica, é de bom alvitre que, diante do já mencionado fato de que o direito brasileiro se apoia nas diretrizes estabelecidas pela medicina para avaliar as demandas dos indivíduos trans, analise-se o papel da cirurgia de redesignação sexual na experiência transexual.

A cirurgia de transgenitalização, segundo Benjamin, que é aquele que deu as bases para o atual “tratamento” do transexual, seria a única terapia eficiente para auxiliar os transexuais ditos como verdadeiros23. No Brasil, a regulamentação desses procedimentos

cirúrgicos tem sua origem no Parecer e Proposta de Resolução PC/CFM/Nº 39/97, da relatoria dos membros da Comissão de Estudos sobre Transexualismo. O documento explica que a ação cirúrgica se faz a partir da adaptação da morfologia genital à autoidentificação psíquica, e fundamenta sua importância nos princípios da beneficência, da autonomia e da justiça:

O motivo essencial da cirurgia é a intenção da beneficência, princípio basilar da ética, a busca da integração entre o corpo e a identidade sexual psíquica do interessado, enquanto outros princípios envolvidos no exame ético da questão são a autonomia e a justiça: a autonomia porque contempla o direito da autodeterminação, inclusive em dispor do próprio corpo, configurando o preceito da não-sacralidade da vida e, portanto, o direito de dispor de todo ou parte do próprio corpo; a justiça porque envolve a cidadania, o direito de a pessoa não ser discriminada no pleito à cirurgia, já acessível à população de classe média e média alta.

23 Estes, por sua vez, seriam aqueles que preenchem certos requisitos tidos como essenciais para o diagnóstico de transexualidade, os quais são determinados pelo Conselho Federal de Medicina, por meio da resolução nº 1955/2010, e os quais já foram citados no presente trabalho. Tais requisitos devem ser obedecidos para que o indivíduo seja reconhecido como transexual e para que faça jus à cirurgia de transgenitalização.

Do referido parecer, nasceu a Resolução nº 1.482/97, a primeira a dispor explicitamente acerca dos procedimentos de redesignação sexual. Ela foi revogada pela Resolução nº 1652/2002, a qual por sua vez, foi revogada pela Resolução nº 1955/2010, atualmente vigente. O Conselho Federal de Medicina parte da premissa que o procedimento possui fim terapêutico e que, portanto, está em consonância com a Constituição Federal de 1988, visto que, de acordo com seu art. 199, § 2º, é possível a “remoção de órgãos, tecidos e substâncias humanas para fins de transplante, pesquisa e tratamento” (CHOERI, 2004).

A atual resolução estabelece que deverá ser feita uma seleção dos pacientes que desejem realizar as operações de readequação por uma equipe multidisciplinar. Esta será composta por diversos profissionais da saúde, os quais terão como objetivo avaliar, pelo período mínimo de dois anos, se os candidatos à cirurgia se encaixam nos critérios estabelecidos pela resolução, quais sejam, o diagnóstico médico de transgenitalismo, ser o paciente maior de 21 (vinte e um) anos e a ausência de características físicas inapropriadas para a cirurgia.

O acesso gratuito aos procedimentos cirúrgicos, no Brasil, se dá pelo Sistema Único de Saúde, os quais são regulados pela Portaria nº 2.803/2013, que revogou a Portaria nº 457/2008, a qual tratava de forma superficial o assunto. Um dos motivos da criação de uma nova portaria deu-se em vista da Ação Civil Pública nº 2001.71.00.026279-9/RS, por meio da qual requeria-se que a cirurgia de transgenitalização fosse incluída na lista de procedimentos do Sistema Único de Saúde. Extremamente coerente a decisão de apelação do referido processo, proferida pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região24, segundo a qual foi

entendido que a não inclusão das cirurgias de transgenitalização e seus procedimentos complementares na lista de procedimentos médicos realizados gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde constituiria discriminação de gênero, bem como afrontaria os direitos fundamentais à liberdade, ao livre desenvolvimento da personalidade, à privacidade, à proteção à dignidade humana e à saúde

Com a nova portaria, passou-se a admitir a terapia hormonal e as cirurgias de redesignação para os transexuais masculinos, procedimentos estes que não estavam inclusos no documento anterior. Passou-se a incluir, também, o acesso, às transexuais femininas, de

24 EMENTA: DIREITO CONSTITUCIONAL. TRANSEXUALISMO. INCLUSÃO NA TABELA SIH-SUS DE PROCEDIMENTOS MÉDICOS DE TRANSGENITALIZAÇÃO. PRINCÍPIO DA IGUALDADE E PROIBIÇÃO DE DISCRIMINAÇÃO POR MOTIVO DE SEXO. DISCRIMINAÇÃO POR MOTIVO DE GÊNERO. DIREITOS FUNDAMENTAIS DE LIBERDADE, LIVRE DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE, PRIVACIDADE E RESPEITO À DIGNIDADE HUMANA. DIREITO À SAÚDE. FORÇA NORMATIVA DA CONSTITUIÇÃO. (TRF4, AC 2001.71.00.026279-9, Terceira Turma, Relator Roger Raupp Rios, D.E. 22/08/2007).

cirurgia de implante de silicone mamário, bem como a previsão de atendimento a travestis. No que tange aos procedimentos cirúrgicos em si, tem-se que, nas transexuais femininas, a operação consiste na castração do pênis e na construção da neovagina. Esta, os grandes e pequenos lábios, e o clitóris, são produzidos mediante o aproveitamento dos órgãos originalmente masculinos. Esta cirurgia tem um bom resultado cirúrgico do ponto de vista estético e funcional, e por isso não mais é realizada em caráter experimental.

O mesmo não pode ser dito da neofaloplastia, procedimento de construção do pênis nos transexuais masculinos. Ele ainda é realizado em caráter experimental, e existem dificuldades técnicas na obtenção de um resultado satisfatório. Dentre as principais complicações, estão “a incontinência urinária, necrose do neofalo, podendo chegar à perda ou à morte do pênis, cicatrizes no local doador e urina residual” (BENTO, 2006, p. 50). É comum que diversos transexuais masculinos optem por apenas fazer a histerectomia e a mastectomia, seja devido ao risco que a neofaloplastia ainda representa, seja porque acreditam que a cirurgia mais importante é a de remoção dos seios.

Isso gera, imediatamente, indagações interessantes: como classificar uma pessoa transexual que não realizou a cirurgia de transgenitalização? Ela é menos homem ou menos mulher pela ausência ou presença de um pênis ou de uma vagina?

O Conselho Federal de Medicina coloca, como exigência ao diagnóstico, que o paciente deve desejar modificar seus genitais para adequá-los ao seu gênero. O Judiciário, por sua vez, autoriza a retificação do nome e do sexo para os indivíduos que hajam sido diagnosticados como transexuais. Dessa forma, se um transexual se recusa a fazer a cirurgia de readequação (por considerar perigosa, no caso do trans-homem) ou mesmo por não sentir repúdio da sua genitália, já estando satisfeito com as alterações físicas proporcionadas pelo tratamento hormonal, isso autoriza que lhes seja negado o direito a serem reconhecidos como homem ou mulher? Um homem só o é se possuir um pênis e a mulher só o é se possuir uma vagina?

É nesse azo que Sanches (2011, p. 437) suscita um questionamento pertinente: “relativamente às pessoas com as quais convivemos hoje, de quantas delas se verificou a genitália para definir a que grupo sexual pertence? ”. Poder-se-ia inferir que existe certa superestimação da genitália em detrimento da própria pessoa trans, reduzida há um órgão sexual, e que vê seu direito à intimidade e à vida privada relativizados, com a obstacularização do pleno exercício de sua identidade.

3.4 A transexualidade no Direito Comparado e o acesso à retificação do nome e do