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2. HĠTĠT DEVLETĠ’NDE VEBA SALGINININ ORTAYA ÇIKIġI

2.2. VEBA SALGININDAN KURTULMAK ĠÇĠN UYGULANAN TEDAVĠ

2.2.2. Salgın Hastalığa KarĢı Yapılan Ritüeller

2.2.2.6. Dandanku Ritüeli (CTH 425.2)

A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece a transexualidade como uma desordem de identidade de gênero, estando enquadrada, no Código Internacional de Doenças (CID-10) – instrumento que apresenta as características que devem estar presentes em todos os diagnósticos de enfermidades, de modo que tenham validade legal – como um desejo de viver e ser aceito como um membro do sexo oposto, acompanhado de uma sensação de desconforto ou inadequação ao sexo biológico, bem como com o desejo de passar por procedimentos hormonais e cirúrgicos que propiciem a máxima adequação possível ao sexo psicológico.

1.955/2010, definiu como sendo transexual o “portador de desvio psicológico permanente de identidade sexual, com rejeição do fenótipo e tendência à automutilação e/ou autoextermínio”. A mesma resolução estabeleceu, ainda, em seu artigo 3º, critérios específicos para que um indivíduo possa ser enquadrado dentro do “transexualismo”, quais sejam: desconforto com o sexo anatômico natural; desejo expresso de eliminar os genitais, perder as características primárias e secundárias do próprio sexo e ganhar as do sexo oposto; permanência desses distúrbios de forma contínua e consistente por, no mínimo, dois anos; e ausência de transtornos mentais17.

Como se pode observar, a Medicina, ao ditar quem é o transexual e como este deve se comportar e se enxergar diante de si mesmo e do mundo, ignora a subjetividade inerente a cada um desses indivíduos, transformando-os em figuras estereotipadas que precisam obedecer a parâmetros pré-determinados para que sua demanda possua legitimidade. Ao passo em que os transexuais, enquanto seres humanos, sabem ser, a medicina diz que estes desejam ou creem ser. É-lhes negada, pois, sua própria existência e seu direito de expressar a própria identidade, resultando na exclusão e estigmatização social das pessoas trans, ao se conceder a terceiros, detentores de um suposto conhecimento maior, o poder de rotulá-los e dar-lhes cognoscibilidade.

Bento (2006, p. 47) problematiza esse domínio da medicina sobre a definição de transexualidade ao aduzir:

O saber médico, ao dizer “transexual”, está citando uma concepção muito específica do que seja um/a transexual. Esse saber médico apaga a legitimidade da pluralidade, uma vez que põe em funcionamento um conjunto de regras consubstanciado nos protocolos, que visa a encontrar o/a verdadeiro/a transexual. O ato de nomear o sujeito de transexual implica pressuposições e suposições sobre os atos apropriados e os não-apropriados que os/as transexuais devem atualizar em suas práticas.

Evidência da estereotipação de quem é o indivíduo transexual, bem como do reforço dos papéis de gênero masculino e feminino em sua caracterização, podem ser detectadas por meio do discurso de Szaniawski (1999, p. 57), que, ao discorrer acerca do comportamento dos transexuais, aduz:

No tocante ao comportamento dos transexuais, afirmam os estudiosos ser o agir destes delicado e feminino […]. Em uma “etapa mais madura”, o transexual pode chegar a rejeitar uma ligação íntima enquanto não se sentir realizado como mulher. O transexual percebe a relação homossexual nesta espécie de ligação, o que o agride em sua psique. […] Outro ponto que distingue as anomalias sexuais, ora em

comento, é que para os transexuais surge um desejo de maternidade, como expressão máxima da feminilidade.

Depreende-se, assim, que não basta que a mulher transexual assim se identifique. Ela deve, ainda, corresponder à ideia clássica de mulher estabelecida pela sociedade ocidental e alicerçada no patriarcalismo: deve ser feminina, delicada e maternal. Pode-se, inclusive, fazer um paralelo com Stoller, o qual atribuía à mãe a responsabilidade pela transexualidade do filho, diante de sua feminilidade desviante.18

Além disso, a transexual, sob essa ótica, pode rejeitar uma “ligação íntima” enquanto não realizada enquanto mulher por rejeitar a ideia de ter relações homossexuais com outro indivíduo. Por inferência, nota-se que a heterossexualidade é característica esperada, por refletir a “normalidade”, visão esta, inclusive, externada por Benjamin, como anteriormente se colocou.

Ao se fazer uma análise crítica acerca de tais aspectos supostamente inerentes à mulher transexual, no entanto, é de se concluir que estes não se sustentam. Mulheres biológicas, que nasceram com genitália feminina e se identificam com o gênero feminino, não raras as vezes não correspondem ao estereótipo da delicadeza e feminilidade. Muitas delas, inclusive, não desejam ser mães e não possuem a menor inclinação para a maternidade. No entanto, nenhum estudioso, de qualquer seara da ciência, questionaria se estas mulheres são “mulheres de verdade”.

Por oportuno, é relevante relembrar que a orientação sexual não se confunde com identidade de gênero. A primeira é uma manifestação de preferência sexual, e diz respeito a maneira como um indivíduo reage, sexualmente, a outros indivíduos. Já a identidade de gênero é a forma como a qual o indivíduo se enxerga e se apresenta perante a sociedade, como masculino, feminino ou mesmo como uma manifestação não-binária. A transexualidade é uma vivência interna: a identidade de gênero, nessa experiência, diverge da que a sociedade espera em virtude da genitália de nascimento.

É diante do enquadramento da transexualidade como patologia, como “transtorno de gênero”, e da marginalização de todo aquele que não se adeque com perfeição à binariedade de gênero e à heteronormatividade, que surgiu um movimento internacional pela despatologização das identidades trans.

18 Stoller oferece um exemplo de “feminilidade desviante” ao descrever uma mãe que o procurou em seu consultório, apontando-a como “eficiente, energética e dada a negócios. Veste-se de uma maneira masculina, com cabelos curtos, quase sempre usa slacks e camisas de seu marido. Ela inveja os homens e é mordaz e condescendente em relação a eles, dominando situações sociais. […] Ela é, sem dúvidas, quem toma as decisões na família” (1982, p. 99, apud BENTO, 2006, p. 137-138).

O manifesto pela despatologização das identidades trans (travestis, transexuais e transgêneros) é explícito ao afirmar que existe uma ditadura das instituições de medicina psiquiátrica, as quais detêm o controle sobre as identidades de gênero.

A prática oficial de tais instituições, motivada por interesses estatais, religiosos, econômicos e políticos, trabalha sobre os corpos das pessoas amparando e reproduzindo o binômio homem e mulher, fazendo com que esta postura excludente passe por uma realidade natural e “verdadeira”. Tal binômio, pressupõe a existência única de dois corpos (homem ou mulher) e associa um comportamento específico a cada um deles (masculino ou feminino) ao par que, tradicionalmente, tem-se considerado a heterossexualidade como a única relação possível entre eles. Hoje, denunciando este paradigma, que tem utilizado o argumento da biologia e da natureza como justificativa da ordem social vigente, evidenciamos seus efeitos sociais para por fim a suas pretensões políticas (REDE INTERNACIONAL PELA DESPATOLOGIZAÇÃO TRANS, 2012).

O movimento critica duramente a imposição de que só podem existir duas formas de ser e sentir, de tal forma que os atuais procedimentos voltados à transexualidade e intersexualidade são de normalização binária, “já que reduzem a diversidade a somente duas maneiras de viver e habitar o mundo: as consideradas estatística e politicamente ‘normais’” (REDE INTERNACIONAL PELA DESPATOLOGIZAÇÃO TRANS, 2012).

Em apoio à despatologização, tem-se, outrossim, a Declaração do Serviço Social Psiquiátrico do Cantão de Uri19 (SPD Uri), em que Horst-Jörg Haupt apresenta argumentos

extremamente lúcidos para justificar a exclusão da ideia da transexualidade como um transtorno psiquiátrico. A fundamentação apresentada é de natureza predominantemente científica e racional. Um dos principais pontos colocados é bastante curioso e entra em choque frontal com as próprias bases do método científico: o diagnóstico psiquiátrico da transexualidade não é baseado em evidências20.

Conforme HAUPT (2012), a Medicina Baseada em Evidências define três classes de resultados de estudo e pesquisa, sendo necessário que os estudos sejam de classe I ou classe II21 (este devendo ser de extrema qualidade) para que padrões de diagnóstico e terapia

sejam estabelecidos, o que, no entanto, não foi feito no campo da pesquisa com transexuais.

19 Sozial Psychiatrischen Dienst Des Kantons Uri, no original.

20A Medicina Baseada em Evidências (MBE) pode ser definida como “o emprego consciencioso, explícito e judicioso da melhor evidência disponível na tomada de decisões sobre os cuidados de saúde de um paciente. A MBE requer a integração da melhor evidência com a competência clínica e os valores e as circunstâncias do paciente” (STRAUS; RICHARDSON; GLASZIOU; HAYNES, 2005, p. 299 apud GUIMARÃES, 2009, p. 369).

21 Evidências de Classe I são aquelas em que são feitas meta-análises de estudos randomizados-controlados, sendo necessário, pelo menos, o estudo de um grupo-controle. Evidências de Classe II exigem que seja feita, ao menos, um estudo controlado bem elaborado sem randomização ou, ao menos, um estudo quase- experimental bem elaborado.

Tratando desse assunto, Haupt, citando Cohen-Kettenis, assevera que estudos dessa natureza não foram feitos, inexistindo entrevistas estruturadas que avaliem indivíduos diagnosticados com transtorno de identidade de gênero, tampouco estudos comparativos entre diagnósticos clínicos e diagnósticos baseados em entrevistas estruturadas. Conclui, por fim, que inexiste validade formal nesses estudos.

Além da falta de evidências confiáveis, também é apontado que pessoas trans não apresentam limitações em suas funções sociais e não evidenciam transtornos neuropsicológicos (HAUPT, 2012).

Poder-se-ia, assim, concluir que indivíduos trans não são diagnosticados como mentalmente transtornados porque estudos médicos e descobertas científicas assim sugerem, mas devido a motivos de natureza não necessariamente científica. Nesse sentido, poder-se-ia fazer referência à reflexão instada por Foucault, ao estudar a história da sexualidade e sua relação com as relações de poder. Em sua obra, aborda a multiplicação do discurso ao redor do sexo e da sexualidade nos últimos séculos, e questiona:

Pois essa colocação do sexo em discurso não estaria ordenada no sentido de afastar da realidade as formas de sexualidade insubmissas à economia estrita da reprodução (dizer não às atividades infecundas, banir os prazeres paralelos, reduzir ou excluir as práticas que não têm como finalidade a geração)? Através de tais discursos multiplicaram-se as condenações judiciárias das perversões menores, anexou-se a irregularidade sexual à doença mental; da infância à velhice foi definida uma norma do desenvolvimento sexual e cuidadosamente caracterizados todos os desvios possíveis; organizaram-se controles pedagógicos e tratamentos médicos; em torno das mínimas fantasias, os moralistas e, também e sobretudo, os médicos, trouxeram à baila todo o vocabulário enfático da abominação: isso não equivaleria a buscar meios de reabsorver em proveito de uma sexualidade centrada na genitalidade tantos prazeres sem fruto? Toda essa atenção loquaz com que nos alvoroçamos em torno da sexualidade, há dois ou três séculos, não estaria ordenada em função de uma preocupação elementas: assegurar o povoamento, reproduzir a força de trabalho, reproduzir a forma das relações sociais; em suma, proporcionar uma sexualidade economicamente útil e politicamente conservadora? (FOUCAULT, 1999, p. 37-38).

Ainda acerca do debate da (des)patologização da transexualidade, Butler (2009) tece interessantes considerações. Ela aponta que o conflito existe dentro da própria comunidade LGBTT22, visto que existem aqueles que apoiam a manutenção do diagnóstico,

pois ele facilita o acesso a recursos médicos – como tratamento hormonal e cirurgia de redesignação – e, por consequência, a obtenção de legitimação jurídica. Nessa ótica, o diagnóstico facilitaria um percurso economicamente viável para a transição.

Por outro lado, existem aqueles que buscam o reconhecimento da transexualidade como um exercício de autonomia, em que os indivíduos têm o direito de se autodeterminar

quanto ao seu gênero. Assim, com a despatologização, visa-se à contribuir com uma nova construção de mentalidade no seio da sociedade, de forma que pessoas trans sejam tratadas não como pessoas doentes ou aberrantes, que fogem à normalidade, mas como, simplesmente, diferentes.

Butler levanta uma importante reflexão: o diagnóstico – e, portanto, a patologização – pode ser uma forma cômoda de auxiliar o transexual a alcançar um objetivo e, em alcançando um objetivo, em exercer sua autonomia. Mas deve-se questionar se tal suporte que o diagnóstico oferece não é ambíguo. Acerca disso, Butler (2009, p. 97) coloca:

O diagnóstico reforça formas de avaliação psicológica que pressupõem que a pessoa diagnosticada é afetada por forças que ela não entende. O diagnóstico considera que essas pessoas deliram ou são disfóricas. Ele aceita que certas normas de gênero não foram adequadamente assimiladas e que ocorreu algum erro ou falha. Ele assume pressupostos sobre os pais e as mães e sobre o que seja ou o que deveria ter sido a vida familiar normal. Ele pressupõe a linguagem da correção, adaptação e normalização. Ele busca sustentar as normas de gênero tal como estão constituídas atualmente e tende a patologizar qualquer esforço para produção do gênero seguindo modos que não estejam em acordo com as normas vigentes (ou que não estejam de acordo com uma certa fantasia dominante do que as normas vigentes realmente são). É o diagnóstico que tem sido imposto às pessoas contra a vontade delas e é o diagnóstico que tem eficazmente feito vacilar a vontade de muitas pessoas, especialmente jovens trans e queers.

Dessa forma, a discussão mostra-se como complexa, mas necessária. Enquanto a patologização contribui para que as pessoas transexuais alcancem certos objetivos pessoais e certa tangibilidade social, é essa mesma patologização que intensifica a discriminação e enrijece a ideia de que estes indivíduos precisam se adequar às rígidas performances de gênero impostas.

A atual mobilização de ativistas pelos direitos trans para que a transexualidade não seja vista como enfermidade, mas como, simplesmente, uma manifestação diferente de gênero, subjetividade e sexualidade, diga-se, conquistou certo êxito no seio médico. Um exemplo disso é a atual classificação de transexualidade no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

Na década de 90, o Comitê do DSM-IV substituiu o diagnóstico de “Transexualismo” pelo de “Transtorno de Identidade de Gênero” (BENTO; PELÚCIO, 2012). Este, por sua vez, foi modificado mais uma vez, agora para “Incongruência de Gênero”, com a publicação do DSM-V, no ano de 2013. Muito embora ainda estabeleça critérios para diagnosticar crianças, adolescentes e adultos, mantendo, pois, a transexualidade como uma condição patologizante, vê-se, na mudança, que houve uma tentativa de suavizar a ideia da

experiência transexual como uma desordem psiquiátrica.

No Brasil, é certo que, tanto na seara médica como na jurídica, a única forma de se ter acesso a procedimentos hormonais ou à possibilidade de alteração registral do nome e do gênero é por meio do diagnóstico requerido pelo Conselho Federal de Medicina. Para que o indivíduo transexual que deseja fazer a cirurgia de redesignação sexual tenha acesso ao procedimento cirúrgico pelo Sistema Único de Saúde (SUS), necessário que atenda a uma série de requisitos, dentre eles que tenha o diagnóstico de transexualismo. O judiciário brasileiro, face à lacuna legislativa, apoia-se no conhecimento construído pela medicina para apreciar as demandas transexuais.