B. Uluslararası Mevzuat
III. RÜÇHAN HAKKI KAVRAM
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XVII na forma da busca pela melhoria definitiva da vida e escape da morte, e a de uma Revolução Industrial que modificava essencialmente a vida cotidiana, com o êxodo do campo e a vertigem populacional nos grandes centros industrializados. Assim, como aqui não cabe resolver uma discussão acirrada entre críticos e admiradores sobre a gênese e principais influências da Ficção Científica43, entendemos que Roberts (2000) serve melhor aos propósitos aqui delineados, pois, de certo, conjuga a obra de Shelley como emergência do gênero e forma cultural, sem desconsiderar que o caráter utópico já fazia parte do imaginário literário, científico e filosófico. Amaral (2006) vai nos balizar no sentido de que este gênero, primeiramente literário, é herdeiro do romantismo e isso se “manifesta principalmente através da idéia de utopia, da nostalgia de se retornar a valores perdidos; pela estetização do presente; pela rejeição e euforia em relação à modernidade e, principalmente, pela idéia de maquinização do mundo” (AMARAL, 2006, p.52). Roberts (2000) ainda concluiria revelando que a principal característica da Ficção Científica é o encontro com o outro, com o diferente, colocando assim, finalmente, uma conjugação definitiva entre o romantismo gótico e os utopistas que os influenciaram – como Milton e seu Paraíso Perdido (1667), onde Lúcifer aparece como a mais radical forma de alteridade possível: “um alienígena que é tão radicalmente Outro perante Deus que não pode ser contido no universo que Deus criou” (ROBERTS, 2000, p.56).
43Em Roberts (2000) encontramos uma longa discussão que coloca dois pontos: o primeiro seria de que é no
princípio do século XIX, com autores como Shelley, Verne e Wells, que se inaugura o estilo de ficção científica, reforçando seu caráter de novidade ligada aos desenvolvimentos tecnológicos posteriores à Revolução Industrial. “Reforçar a relativa juventude deste modo é argumentar que a Ficção Científica é uma resposta artística específica a um conjunto de fenômenos culturais e históricos muito específicos: [...] a Revolução Industrial” (ROBERTS, 2000, p.47). O segundo seria o de que vemos épicos com heróis desbravando mundos desconhecidos e fantásticos há pelo menos quatro mil anos – um exemplo seria o épico sumério Epic of Gilgamesh (Roberts também referencia a Bíblia como fonte imaginária de histórias sobrenaturais ou fantásticas) – e, a pelo menos quatro séculos, desde o surgimento do pensamento técnico- científico, com Descartes e Leibniz, vemos isso também exposto através da literatura. “Reforçar a antiguidade da Ficção Científica é argumentar, ao contrário, que este gênero é um fator comum em diversas culturas e períodos históricos” (ROBERTS, 2000, p.48). Para este trabalho, contudo, nos debruçaremos sobre as proposições de Clute e Nichols (1993) e de Aldiss (1986), citadas por Roberts (2000), que versam, anteriormente ao séc. XIX não haveria realmente um gênero Ficção Científica que se compreendesse como tal e que a obra de Mary Shelley seria necessariamente a primeira obra deste gênero, a despeito de sua clara influência do romantismo e dos utopistas.
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Portanto, traçando-se a localização histórica dessas germinações da Ficção Científica, calcada, como dito, no romantismo gótico influenciado pelos utopistas, a materialização dessa nova forma de narrativa não só como gênero, mas como produção cultural válida se dá na obra do autor que Isaac Asimov (1986) considera como o primeiro verdadeiro autor deste gênero: Júlio Verne (1828-1905). Com obras como Viagem ao
centro da Terra (1864), Vinte Mil Léguas Submarinas (1870) e Da Terra à Lua (1865),
entre tantas outras, Verne é o primeiro escritor a ganhar fama e subsistir apenas de suas obras que versavam sobre a fantasia maquinística de vitória sobre a natureza e sobre a fraqueza das condições humanas. Numa era que engatinhava em teares e indústrias têxteis, o célebre autor francês previu, debruçado sobre as proposições científicas de sua época, submarinos e ônibus espaciais, sempre de forma otimista. Seu contemporâneo mais próximo, e, fundamentalmente, também essencialmente um autor de Ficção Científica, é o britânico H.G. Wells (1866-1946). “Especulativo e pessimista” (SODRÉ, 1973, p.43), foi o criador de A Máquina do Tempo (1895), A Ilha do Dr. Moreau (1896) e Guerra dos
Mundos (1898), que influenciou toda a produção do gênero de Ficção Científica com
fantasias espaciais, de modificação genética (reconhecidamente chamados de mutantes) e viagens no tempo. Assim como Verne, Wells se dedica a tratar do estranhamento do encontro do homem com seu outro, seja ele monstro ou alienígena e, no séc. XIX, ambos autores vão alçar “o real crescimento da Ficção Científica como uma categoria importante” (ROBERTS, 2000, p.59). Percebe-se, porém, que Verne, muito mais que Wells, foi, com bastante clareza, uma das principais influências dos primeiros expoentes da Ficção Científica, como o jovem Hugo Gernsback que, “em 1926, criou a primeira revista popular de Ficção Científica: Amazing Stories” (AMARAL, 2006) consolidando um mercado editorial do gênero e formatando o que vai ser conhecido como Era Gernsback da Ficção Científica. Gernsback era engenheiro, e, segundo Sodré (1973), possuidor de pretensões revolucionárias quanto ao gênero, - para ele, todos deveriam ler Ficção Científica, pois, assim, apreciariam melhor a utilidade da ciência em suas vidas cotidianas – entretanto, suas obras mais célebres (como Ralph 124C41) não passavam de “listagem de invenções técnicas” (SODRÉ, 1973, p.34), sendo inclusive publicadas em periódicos técnico- científicos, “ao lado de artigos instrutivos sobre eletricidade, telégrafos-sem-fio, fotografia,
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etc.” (Ibid., p.35). Tem-se, portanto, que “a Ficção Científica nascente tinha como projeto ideológico inicial a socialização dos significados veiculados no discurso da ciência”, e, de certo, um “retorno de uma escritura educativa ou formativa” (SODRÉ, 1973, p.35). Para Sodré (1973) e para a formatação de fases históricas do gênero (AMARAL, 2006, ROBERTS, 2000), apenas em 192644, quando Gernsback efetivamente lança a publicação
Amazing Stories, é que começa o que pode ser chamado de Fase Clássica, onde o gênero de
Ficção Científica começará a se compreender como tal, sendo caracterizada essencialmente pela fantasia de cunho espacial. Ela se estenderia até 1938-1939 e durante este tempo um grande número de autores se prontificou a seguir os ditos de Gernsback, como E. E. ‘Doc’ Smith (1980-1965), criador do termo Space Opera, e Edgar Rice Burroughs (1875-1950), criador de Tarzan, Lord of the Jungle e da seqüência de Barsoom, sobre aventuras em Marte. Esta fase também ficou marcada pela primeira transposição: da literatura pulp45 para as histórias em quadrinhos, com Buck Rogers in the 25th Century, de 1926, e seu similar,
Flash Gordon, de 193446. Foi finalmente encerrada quando um grupo de cientistas,
liderados pelo General do Exército norte-americano, Leslie R. Groves, e pelo físico, também norte-americano, J. Robert Oppenheimer, conseguem pela primeira vez a fissão de urânio, mote da bomba nuclear, que modifica fundamentalmente, além do próprio