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Na obra de Euclides temos expressa pela primeira vez com toda clareza a dicotomia _____________________________________________________________________ 117- CUNHA, Euclides da. Os sertões. Op. Cit., p. 310

118- CUNHA, Euclides da. Os sertões. Op. Cit., p. 350

119- Cf. CONDORCET. Cinq mémoires sur l’instrution publique. Paris, Flammarion, 1994, p.64

120- DIDEROT, Denis. Obras. Tomo I. Filosofia e política. ( Org. ) Jacó Guinsburg. São Paulo, Perspectiva, 2000, p.377

urbano X rural, atraso X modernidade que já havia sido delineada, entre outros, por Romero, mas que, a partir de Os Sertões, tornaria-se central na cultura brasileira. E dicotomia que segue, grosso modo, a estrutura delineada por Santos: traçar a formação da

dicotomia no passado histórico nacional; propor a alternativa para a redução da dicotomia121.

Tal dualidade fundamenta a questão do atraso em sua obra. O atraso deriva, para o autor, não apenas de uma questão identitária, mas de fatos materiais que o engenheiro Euclides ressalta com vigor, por exemplo, na questão das ferrovias. Perdemos o trem da história quando, segundo ele, deixamos de implantar um forte e consistente sistema ferroviário em meados do século XIX, gerando um atraso impossível de ser superado122. Mas este lamento

por um atraso material insuperável torna-se contraditório quando Euclides, na expressão de Freyre, simboliza a chegada, no Brasil, da civilização corporificada pelo ferro em “sulcos

sanguinolentos” em terras brasileiras- as sertanejas- virgens dos sulcos de ferros construtores: arados ou tratores. Virgens das presenças positivas de ferros civilizadores123.

Freyre descreve com precisão como a civilização, em uma metáfora de fundo sexual, violenta, na perspectiva de Euclides, o Brasil ao nele instalar-se, ao mesmo tempo que o atraso desta instalação é lamentado.

_____________________________________________________________________ 121- SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Ordem burguesa e liberalismo político. São Paulo, Duas Cidades, 1978, p.44

122- Cf. MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira. São Paulo, T.A. Queiroz, Editor, 1996, v. V, p.429

123- FREYRE, Gilberto. Ferro e civilização no Brasil. Rio de Janeiro/Recife, Record/Fundação Gilberto Freyre, 1988, p.110

A modernidade, para Euclides, significa, ainda, a superação de uma etapa da vida brasileira em relação à qual ele se sente nostálgico, e a criação de um mundo em relação ao qual ele se sente inadaptado, o que fica claro em carta escrita em 1907: A vida entre nós,

como já to disse noutra carta, mudou. Há um delírio de automóveis, de carros, de corsos, de banquetes, de recepções, de conferências, que me perturba- ou que me atrapalha no meu ursismo incurável...Que saudades da antiga simplicidade brasileira124

.

Tal sentimento explica seu espírito nômade e é por ele explicado. A natureza que rodeia Canudos é selvagem, ainda não domesticada pela civilização e hostil a ela. Agreste, parece moldar a escrita de Euclides que a descreve como que enaltecendo-a. Seja descrevendo o sertão, seja descrevendo a Amazônia, Euclides depara-se com um vazio capaz de tragar qualquer intuito civilizador, inclusive o seu. E este risco fascina-o, enquanto o conforto e a previsibilidade urbanas deprimem-no e o deixam sempre a preparar novas viagens.

A reflexão sobre Canudos funciona, em sua obra, como um ponto de inflexão em sua análise sobre a modernidade. As certezas sobre a função redentora- ou seja, modernizante- da República em contraste com a ameaça- não necessariamente monarquizante- representada pela barbárie inimiga desaparece, criando o que Santiago chama de momento

de reviravolta em seus escritos125. Com isto, Os Sertões passou a ser o texto em que

Euclides procura conciliar criticamente as diretrizes modernizadoras da República com os segmentos mais desprivilegiados da nação.

E tal reflexão tem vínculos, ainda, com o indianismo romântico. Temos, em Euclides, o remate de uma discussão central no indianismo e já presente na obra de Basílio da Gama. _____________________________________________________________________

124- CUNHA, Euclides da. Correspondência Op. Cit., p.341

Como acentua Antônio Cândido, referindo-se ao Uraguai:

No corpo do poema, avultou a simpatia pelo índio, esmagado entre interesses

opostos; e a fantasia criadora elaborou um admirável universo plástico, descrevendo a natureza e os feitos de um decassílabo solto de rara beleza e expressividade, nutrido dos modelos italianos. Graças a isto, o Uraguai se tornou um dos momentos-chave de nossa literatura, descrevendo o encontro de culturas ( européia e ameríndia ), que inspiraria o Romantismo indianista, para depois se desdobrar, como preocupação com o novo encontro entre a cultura urbanizada e a rústica, até Os sertões, de Euclides da Cunha, o romance social e a sociologia126. Partindo deste trecho, podemos rastrear as origens do debate sobre a modernidade levado a cabo por Euclides em um autor como José de Alencar, uma vez que a discussão sobre a modernidade está presente em seu indianismo. Segundo Abreu, o indianismo teria evoluído para uma versão mestiçada, onde a figura central, e mais real, tornava-se o sertanejo127. E cotejando trechos de Os Sertões com trechos de O sertanejo e O gaúcho, Bernucci demonstra a influência textual de Alencar sobre Euclides, que repete de maneira quase literal trechos alencarianos para descrever seja o sertanejo, seja o Conselheiro128.

___________________________________________________________________ 126- CÂNDIDO, Antônio. Letras e idéias no Brasil colonial. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de ( Org. ).

História Geral da Civilização Brasileira. Tomo II. Vol. I. São Paulo, DIFEL, 1968, p.99

127- Cf. ABREU, Martha. Regionalismo. In: VAINFAS, Ronaldo. 2000. Dicionário do Brasil Colonial. Rio de janeiro, Objetiva, 2000, p.626

128- Cf. BERNUCCI, Leopoldo M.. A imitação dos sentidos: prógonos, contemporâneos e epígonos de

E ainda, Euclides retoma a dualidade cidade X sertão em moldes bastante próximos aos

definidos por Alencar, transformando a oposição cidade X roça por ele cristalizada ( e presente, também, nas obras de Joaquim Manoel de Macedo e de Martins Pena ) na dicotomia cidade X sertão.

Alencar defende a imigração: para ele, é uma inteligência prática que melhora a indústria

do país e um grande elemento de atividade que desenvolve as forças produtivas da terra; é finalmente uma nova seiva que vigora, uma nova raça que vem identificar-se com a antiga aperfeiçoando-se uma pela outra129. Deriva o folclore das latitudes sociais onde ainda não dissiparam-se de todo a primitiva rudeza e ingenuidade do povo130, latitudes ainda não

atingidas pelo incremento da civilização. E defende uma literatura nacionalista. Para o escritor brasileiro ser entendido pelo povo ele deve falar em sua língua, usar os seus termos e locuções131. O fundamental, para ele, é sentirmos em nós a alma nacional e não nos

preocuparmos, apenas, em imitarmos corretamente o estilo europeu132, o que o leva, ainda,

a afirmar: É por isso que eu vejo com tristeza o espírito de estrangeirismo invadir a nossa

política, ameaçando transformar a Pátria em um mercado cosmopolita de idéias como de capitais, de homens como de instituições133.

Alencar recusa a influência de Chateubriand e Feminore Cooper na execução de O

Guarani e cita como seus mestres esta esplêndida natureza que me envolve, e

_____________________________________________________________________ 129- ALENCAR, José de. Obras Completas. Rio de Janeiro, José Aguilar, 1960, v. IV, p.728 130- ALENCAR, José de. Obras Completas. Op. Cit., v. IV, p.979

131- Cf. ALENCAR, José de. Obras Completas. Op. Cit., v. IV, p.966 132- Cf. ALENCAR, José de. Obras Completas. Op. Cit., v. IV, p.983

particularmente a magnificência dos desertos que eu perlustrava ao entrar na adolescência, e foram o pórtico majestoso por onde minha alma penetrou no passado de sua pátria134, ressaltando, assim, sua formação nacionalista. Este passado é assumidamente idealizado e recusa qualquer contato com a realidade de sua época: n’o Guarani o selvagem

é um ideal, que o escritor intenta poetizar, despindo-o da crosta grosseira de que o envolveram os cronistas, e arrancando-o ao ridículo que sobre ele projetam os restos embrutecidos da quase extinta raça135.

Tudo isto converge para seu indianismo e está presente em Iracema. Todo o romance

estrutura-se em torno de duas atitudes opostas: a submissão ao homem branco, simbolizada por Iracema, e a tentativa de revolta, simbolizada por Irapuã. Iracema pressente, desde o início, o mal que o branco trará e Irapuã define-o como inimigo de Tupã136. Ambos pressentem ser ele o agente da destruição, mas tem reações opostas. Em torno desta antítese gira o romance.

Em outro trecho do romance, Iracema quebra a lança com a qual acabara de ferir Martins e, antes de entregar-se a ele, oferece-lhe a jurema, bebida sagrada dos tabajaras137. Nestes

dois momentos, sela sua submissão ao homem branco. Sela, também, o processo de miscigenação que será o elo que fixará o homem branco à terra e o tornará o pai de uma nova raça e, em Iracema, a miscigenação surge como o elemento fundador da nacionalidade brasileira. Quando Martim descobre que terá um filho de Iracema, anuncia _____________________________________________________________________ 134- ALENCAR, José de . Como e porque sou romancista. São Paulo, Pontes, 1990, p.60

135- ALENCAR, José de . Como e porque sou romancista. Op. Cit., p.61 136- Cf. ALENCAR, José de. Iracema. Rio de Janeiro, Ediouro, 1997, p.30 137- Cf. ALENCAR, José de. Iracema. Op. Cit., p.40

que o guerreiro branco não quer mais outra pátria, senão a pátria de seu filho e de seu coração138. Tal união será, contudo, fatal para o indígena e Iracema chama seu filho de

Moacir, filho de meu sofrimento139.

E à heroina indígena incapaz de adaptar-se à civilização e que, por isto, não sobrevive, e ao indígena inimigo ( Irapuã ) vencido em combate, Alencar contrapõe Poti, aliado de Martim, converso e integrado à civilização no final do romance.

Apesar da idílica descrição da cultura indígena, Alencar relega-a ao passado. O índio e o negro transformam-se em folclore, enquanto o imigrante é o novo civilizador. É somente na figura do índio aculturado e transformado em herói nacional que o autor visualiza alguma contribuição de sua raça à construção do país. Se o indianismo funciona, no final, como uma demonstração da superioridade da cultura branca, é porque esta é a única passível de transformação, o único agente viável da modernização. Somente integrando-se a ela o índio pode sobreviver e, aqui, retomo a defesa que o autor faz da imigração: ela é análoga à apologia do papel desempenhado pelo homem branco em relação ao indígena e ( o que Alencar não coloca explicitamente ) em relação ao negro.

O relacionamento entre o índio e o branco, tal como idealizado por Alencar, baseia-se em um conceito de honra próprio de uma sociedade estamental. Tal interação exclui o negro e, por exclusão, este não é reconhecido como agente histórico. A imagem do índio altaneiro e livre contrasta, finalmente, com a do negro submisso, trabalhador e leal. O índio não trabalha, uma vez que trabalho e liberdade são incompatíveis em uma sociedade _____________________________________________________________________

138- ALENCAR, José de. Iracema. Op. Cit., p.54 139-Cf. ALENCAR, José de. Iracema., Op. Cit. p.60

escravocrata, e sabe-se que fidalgos não devem exercer trabalho produtivo; ora, o índio é idealizado à maneira de um fidalgo.

Temos, na obra de Alencar, o índio assumindo o papel que seria desempenhado pelo sertanejo na obra de Euclides, ao mesmo tempo idealizado e condenado a ser ultrapassado; vítima inevitável da modernidade mas, ao mesmo tempo, fadado a incorporar-se a ela. A crítica ao indianismo de Alencar é feita por Joaquim Nabuco que, não por acaso, coloca-se no pólo oposto a este no tocante à escravidão. O indianismo de Alencar tornou, para Nabuco, a literatura deste anti-nacional. Segundo ele:

Quando leio o teatro do Sr. J. de Alencar, ponho-me a pensar que foi por estar

dominado pela idéia de fundar a literatura tupi que ele quis desacreditar a sociedade brasileira, a vida civilizada do nosso país, os elementos de poesia que pode ter em si a raça européia que o povoou e que, pela ação lenta do meio exterior, já se tornou verdadeiramente americana140.

Ao criticar o que chama de literatura indígena, Nabuco afirma, ainda:

Sem dúvida quem estuda os dialetos selvagens, a religião grosseira, os mitos

confusos, os costumes rudes de nossos indígenas, presta um serviço à ciência e mesmo à arte. O que porém é impossível, é querer-se fazer dos selvagens a raça , de

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140- Apud COUTINHO, Afrânio ( Org. ). A polêmica Alencar-Nabuco. Rio de Janeiro/Brasília, Tempo Brasileiro/Brasília Editora da UNB, 1978, p.114

cuja civilização a nossa literatura deve ser o monumento141

.

A crítica a Alencar feita por Nabuco poderia, com as devidas ressalvas, ser dirigida também a Os Sertões. Nele, Euclides transforma o que seria uma sub-raça condenada pela modernidade, a partir dos marcos teóricos por ele adotados, em eixo a partir do qual deveria ser consolidada a identidade nacional, assim como Alencar idealiza o índio, encarnando, nele, virtudes que são, afinal, tomadas de empréstimo de um colonizador branco igualmente idealizado, deixando ao relento, propositalmente, a dura realidade de um povo esmagado. A desilusão de Euclides com a República não advém do massacre de Canudos e, já em 1892, tal desilusão o leva a postular soluções radicais. Em carta escrita neste ano, ele afirma:

A verdade é que o estado atual do nosso país se define de um modo tão perigoso,

em função da corrupção política, tão perigoso que o desmembramento, por exemplo, o que era dantes considerado um crime e uma coisa horrorosa para os verdadeiros patriotas, o próprio desmembramento que era um mal, é a melhor coisa que pode decorrer da situação atual- e alteia-se ante o espírito dos que ainda dedicam um pouco de amor a isto, belíssimo quase, como a visão do Fausto142.

E o conceito de República como um regime marcado pela corrupção atravessa todo o

_____________________________________________________________________ 141- Apud COUTINHO, Afrânio ( Org. ). A polêmica Alencar-Nabuco. Op. Cit., p.190

pensamento de Euclides; é retomado em 1907, quando ele salienta, em outra carta: Aqui,

há grande corrupção no ar e nos homens; não há pulmões nem almas que não sofram143. Tal desilusão gera um descompasso entre teoria e prática, ideal e realidade, sendo que, em

Os Sertões, Euclides busca decifrar a origem deste descompasso. Situa-o no que chama de

inadaptabilidade popular à legislação superior introduzida pelo regime republicano, como se o país não estivesse pronto, ainda, para recebê-lo. O governo republicano torna-se presa de dois fatores que caracterizam a vida nacional, nas palavras de Euclides: a imperfeição de sua organização intelectual e a incompreensão que cerca sua organização política. E ele conclui: De sorte que lhe sendo impossível substituir o lento trabalho de evolução para

alevantar a primeira ao nível da última deixava que se verificasse o fenômeno inverso: a significação superior dos princípios democráticos decaía- sofisticada, invertida, anulada144.

O desencanto com a República que assalta Euclides em Canudos não nasce apenas do fato de seus ideais terem sido utilizados como pretextos para a execução de um crime. Nasce, também, de um descompasso temporal: os sertanejos viviam em uma época cuja mentalidade era simplesmente alheia ao conceito de República. Havia, ali, um descompasso insanável que fazia a República parecer uma abstração urbana; um jogo de políticos alheios à realidade. E tal conclusão é tanto mais grave quanto a vitória da República significa, para ele, a vitória da ciência, o triunfo do espírito científico sobre as tradições retrógradas encarnadas pela Monarquia. Descoberto tal descompasso, a viabilidade de tal triunfo terminaria sendo posto em xeque.

_____________________________________________________________________ 143- CUNHA, Euclides da. Correspondência Op. Cit., p.339

Euclides define, ainda durante o Império, qual seria sua noção de República: seria não apenas uma transformação política, muito menos uma simples vitória partidária; seu advento teria um caráter redentor e exprimiria o renascimento da sociedade145 e, nesta idéia de renascimento, temos a influência positivista apontada por Sevcenko: O papel central do

Estado, concentrando e despreendendo ordenadamente as energias sociais. A convergência das decisões para uma elite técnica e política...O papel integrador da educação e o direito e o esforço obstinado pela incorporação das classes populares à vida civil146.

Ele nunca se afastaria, de fato, desta perspectiva, e sua decepção com o rumo dos acontecimentos, uma vez feita a proclamação, ajuda a entendermos seu pessimismo e seu desencanto contraditório perante a modernidade. Porque os ideais republicanos era científicos e modelados pela cultura cientificista da “mocidade militar” 147, e porque a

República seria uma renovação que não houve e a porta de entrada de uma modernidade que não cumpriu suas promessas; exatamente porque a elite de cientistas e engenheiros da qual Euclides considera-se participante não logrou chegar ao poder.

Seu fracasso enquanto agente de transformações políticas simboliza para ele, então, o fracasso de um projeto e de uma mentalidade embasada no triunfo da ciência. A ciência é, finalmente, o instrumento a ser manipulado pelos agentes da modernidade, e apenas com seu predomínio o país estará apto a superar o atraso. Sua hegemonia significa o triunfo dos _____________________________________________________________________ 145- CUNHA, Euclides da. Obra completa. Op. Cit., v. I, p.614

146- SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira

República. São Paulo, Brasiliense, 1983, p.149

ideais da República, e tais ideais necessitam de uma elite de cientistas que o conduzam, sendo tal elite formada a partir de critérios meritocráticos. Euclides vê na República o regime no qual o mérito dos indivíduos talentosos, mas sem padrinhos nem riqueza, provenientes de setores estranhos à aristocracia- indivíduos como ele- teriam, enfim, oportunidades reais de ascensão social: um regime meritocrático, não necessariamente, democrático.

Benzer Belgeler