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OLGULARIMIZA AİT RESİM ÖRNEKLERİ

Euclides é visto, ao mesmo tempo, como fundador da nacionalidade no terreno cultural e como o autor que descobriu o Brasil para a cultura brasileira, e um artigo apologético de Paulo Dantas resume ambas as perspectivas. Neste texto, ele é visto como o grande

definidor das linhas mestras da nossa nacionalidade...Além de gênio, foi Euclides da Cunha, acima de tudo, um demarcador das nossas dimensões emocionais e geográficas, históricas e sociais148: o Euclides nacionalista em contraposição ao Nabuco europeizado149. Já para Cruz Costa, foi com Euclides da Cunha que a consciência nacional ganhou

clareza, vigor, pujança- foi ele que deu o grito de alarma de um Brasil novo- este que está agora a surgir150. Nesta perspectiva, Euclides teria revelado o interior da nação às elites litorâneas. Antes dele, quando muito, os escritores arranhavam os problemas _____________________________________________________________________

148- DANTAS, Paulo. Euclides e as dimensões sertanejas in Revista Brasiliense. Num.19- São Paulo, 1959, p.138.142

149- SOUZA, Ricardo Luiz de. Tradição, identidade nacional e modernidade em Joaquim Nabuco. In: Anos 90, v.11, num. 19/20. Porto Alegre, UFRGS, 2004, p.324

150- COSTA, Cruz. Euclides da Cunha e os filósofos in Revista Brasiliense. Num.25, São Paulo, Brasiliense, 1960, p.111

litorâneos ou dos núcleos formados ao longo da costa151. É, novamente, o Euclides descobridor do Brasil que é aqui anunciado, e logo depois vem o Euclides construtor da nacionalidade: De fato, entalhava-se o cerne da nacionalidade graças à visão que Euclides teve da realidade que observou e a força com que conseguiu transferi-la para a literatura, numa obra que se constituiu num marco extraordinário152.

Na perspectiva do euclideanismo, o autor representa o Brasil possível, com todas suas falhas, suas contradições e seu vigor. Ele representa, então, a negação do esquema de hierarquias raciais por ele mesmo proposto: como se o autor contrastasse, com sua presença, fundamentos de sua obra. Como salienta Abreu, decifrando perspectivas euclideanas: a mistura de raças sintetizada no corpo de Euclides teria gerado um gênio

nacional, sinalizando assim para a viabilidade da própria nação brasileira153.

Euclides foi apropriado de diversas formas: tornou-se, por exemplo, objeto de um

verdadeiro culto no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que ressaltou sempre ter

ele lido um dos capítulos de Os sertões em uma das sessões do instituto anos antes de sua publicação154.

_____________________________________________________________________ 151- Cf. GARBUGLIO, José. O nacionalismo aberto de Euclides da Cunha. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Num.5. São Paulo, Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, 1968, p.84

152- Cf. GARBUGLIO, José. O nacionalismo aberto de Euclides da Cunha. In: Op. Cit., p.98

153- ABREU, Regina de. Emblemas da nacionalidade: o culto à Euclides da Cunha. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, Vol, 24. Num 9. São Paulo, ANPOCS, 1994, p.83

A influência de Euclides é ritualizada nos diversos eventos- permanentes e temporários- realizados em homenagem ao autor em São José do Rio Pardo e descritos por Regina Abreu, que cataloga de 80 a 100 euclideanos fiéis residentes na cidade, no interior

paulista e em outros municípios do Brasil e define-os como agentes produtores da memória social. Retoma-se e celebra-se o Euclides fundador e descobridor, e valoriza-se o

autor que soube contrapor o interior da nação ao artificialismo do litoral. Celebra-se o interior e idealizam-se os valores aos quais o nome de Euclides está associado. Como salienta a autora, não importa o quanto esta visão tenha de idealizada e de imaginária,

importa a sua eficácia num mercado de bens simbólicos155.

A influência de Euclides tornou-se um mito reverenciado ao longo da cultura brasileira, tanto e às vezes mais que sua própria obra, e autores como Monteiro Lobato e Oswald de Andrade enfatizam-na de diferentes maneiras. Lobato acentua a originalidade do estilo euclideano:

Volto ao Euclides. Estive a le-lo e pareceu-me que a sombria e vigorosa beleza do seu estilo vem de não estar cancerado de nenhum dos cancros do estilo de toda gente- estilo que o jornalismo apurou até ao ponto-de-bala acadêmico, tornando-o untuoso, arredondado e impessoal156.

Ressalta o caráter dissonante e bárbaro de sua obra perante a literatura tremendamente _____________________________________________________________________ 155- ABREU, Regina de. Entre a nação e a alma: quando os mortos são comemorados. In: Estudos Históricos. Vol.7. Num.4. Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1994, p.217

burocrática de Machado de Assis e perante nosso marasmo mental. A dualidade Euclides

X Machado é fundamental em sua análise, e ela parte daí para fazer o enaltecimento do autor:

Há homens que influem até no vocabulário dos países. Depois de Euclides da

Cunha, a palavra “estupendo” passou a ter no Brasil um consumo triplicado- e um sentido euclideano. Não há estupendos em José de Alencar; não há só um estupendo em Machado de Assis. A língua literária no Brasil enriqueceu-se desse adjetivo depois que Euclides- o Estupendo, revelou o estupendo de certos contrastes da nossa tragédia geológica e humana157.

Já Oswald, embora ressalte as diferenças entre ambos, busca reconciliá-los como as vertentes básicas da literatura brasileira, de forma que, como uma destas vertentes, surge Euclides, o anunciador:

No pórtico de nossa literatura, se agigantam os dois guias de nosso pórtico

intelectual- Euclides da Cunha e Machado de Assis. São as coordenadas mestras de nossa existência literária. Fora de suas rotas, nada de legítimo sairá de nossa capacidade criadora. E que nos ensinam os mestres inegáveis? O pessimismo de Machado é um pessimismo de classe. Nele, já existe fixado o germe de toda uma sociedade condenada. Em Euclides, surge a esperança do povo, a mística do povo, a anunciação do povo brasileiro158.

_____________________________________________________________________ 157- LOBATO, Monteiro. Na antevéspera. São Paulo, Brasiliense, 1968, p.249

A obra de Euclides foi utilizada, ainda, como modelo para o que Sevcenko chama de

tradição da cultura nacionalista militante, uma tradição que serviu como matriz tanto para

o integralismo e verde-amarelismo de Plínio Salgado, que sempre reconheceu nele uma fonte de inspiração, quanto para a esquerda ortodoxa representada, por exemplo, por Nélson Werneck Sodré, sempre empenhado em ressaltar a importância e o pioneirismo euclideanos. Sua obra é, portanto, uma vertente apropriada por correntes de diversos matizes ideológicos que- à parte diferenças políticas e analíticas- convergem para o mesmo processo de valorização de Os Sertões ressaltado por Sevcenko:

À parte o profundo teor crítico ao descaso e irresponsabilidade social criminosa das elites políticas, o que se queria destacar no livro era sobretudo a peculiaridade da cena brasileira e o empenho de se lhe revelar a originalidade como sendo a mais elevada das disciplinas intelectuais ou artísticas159.

Ao mesmo tempo, a crítica ao liberalismo presente a partir da República Velha e predominante a partir dos anos 30 toma Euclides como fonte de inspiração e busca apropriar-se dele, elegendo-o como um de seus pioneiros. Ele teria, ao contrastar o Brasil real com o Brasil artificial e litorâneo, desmascarado o artificialismo do próprio liberalismo brasileiro, todo construído a partir de fórmulas importadas e sem consonância com a realidade brasileira por ele revelada. Em texto escrito nos anos 20, Tasso da Silveira sintetiza tal processo de apropriação:

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159- SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos

Sentindo a divergência trágica que iam tomando as diretrizes da ação social brasileira, Euclides da Cunha entrou deliberadamente na luta, inconsciente mesmo do papel que ia desempenhar. Sua obra teve uma repercussão que o tempo só tem feito crescer. Ele vinha mostrar, eloquentemente, e com fatos, o erro do litoralismo político- que fora na Monarquia o parlamentarismo, importando fórmulas e confundindo ficções com soluções- embora tendo conseguido organizar a estrutura social da nacionalidade e fixar a face mais original de sua literatura, até então- e era agora na República o caudilhismo militarista, corrompendo as Forças Armadas pelo veneno politicamente160.

Dentro desta vertente, as consequências políticas das conclusões de Euclides seriam desenvolvidas por pensadores autoritários como Oliveira Vianna -que menciona, enfaticamente, a análise de Euclides -, para quem o sertanejo é um inadaptado crônico à democracia. Segundo ele, o sertanejo do Noroeste é um exemplo típico do homem que, pela

peculiaridade da sua formação histórica e social, não adquiriu, nem podia adquirir, hábitos da vida democrática161.

Ecos políticos destas conclusões podem ser sentidos, ainda, na ideologia estado-novista, embasada, em escala considerável, no que se declarava ser a descoberta do interior pelo regime Vargas a partir da “marcha para o oeste”: como se ele, enfim, estivesse concretizando os ideais euclideanos. Como lembra Levine, Vargas foi o primeiro chefe de _____________________________________________________________________

160. SILVEIRA, Tasso da. A consciência brasileira. In: CARDOSO, Vicente Licínio ( Org. ). À margem da

história da República. Brasília, Editora da Universidade de Brasília, 1981, p.252

Estado a visitar os pontos mais longínquos do país. Em 1940, falou em Manaus, no coração da bacia amazônica, lembrando aos ouvintes a promessa secular de que no interior do Brasil estava o portal para o Eldorado162. Não há, evidentemente, nenhuma menção a Euclides durante o episódio, mas a retomada- ideológica ou concreta, não vem ao caso- da interiorização do desenvolvimento e da cultura nacional proposta por Euclides fica clara.

A apropriação da obra de Euclides pela ideologia estado-novista, segundo Gomes, passa por aí; pela descoberta que teria sido levada a cabo, por ele, da originalidade e da viabilidade brasileiras, feita a partir do elogio ao sertanejo como uma raça original e fruto de fusões. Principal publicação cultural do regime, Cultura Política apossa-se de um Euclides desproblematizado e isento de contradições e o enaltece como o descobridor do brasileiro puro. Conclui, então, a autora: Ele teria descoberto nossa “tendência” à fusão,

nossa aptidão para a “domesticação da natureza” e para a religiosidade. A figura do sertanejo como um “forte de espírito” por excelência era o símbolo de nossa originalidade completa163.

Euclides é, assim, reinvidicado à direita e à esquerda e, em ambas as vertentes, ele é visto como o descobridor do Brasil: o descobridor da dualidade brasileira e o autor que valorizou a parte interiorana desta dualidade.

O Euclides literato ou cientista social já é figura louvada e reconhecida à exaustão, com _____________________________________________________________________ 162- LEVINE, Robert M.. Pai dos pobres ? O Brasil e a era Vargas. São Paulo, Companhia das Letras, 2001, p.101.2

163- GOMES, Ângela de Castro. História e historiadores: a política cultural do Estado Novo. Rio de Janeiro, Editora da FGV, 1996, p.195

Florestan Fernandes, entre tantos outros, definindo Os Sertões como o primeiro ensaio de

descrição sociográfica e de interpretação histórico-geográfica do meio físico, dos tipos humanos e das condições de existência no Brasil164, mas o Euclides historiador, talvez, nem tanto. Temos, em sua obra, a preocupação em buscar captar o movimento histórico mesmo que em contraponto a uma comunidade que ele descreve como suspensa no tempo. E tal contraponto ilumina, em sua obra, o devir histórico. Segundo Sevcenko, voltado para

o sertão e suas gentes, Euclides renega os pressupostos de uma visão de história lusocêntrica, fundada ademais nos assentamentos litorâneos, nos latifúndios exportadores, no Rio de Janeiro e, em última instância, nos pés do trono165. Neste sentido, Euclides é o anti Varnhagem, incorporando-se à linhagem de um Capistrano de Abreu e de um Manoel Bomfim.

O que caracteriza Os Sertões é ser ela, essencialmente, uma obra híbrida, transitando

entre a pretensão científica e o caráter literário. Neste percurso, a terminologia científica ganha status literário e a abundância de imagens serve para exemplificar o discurso científico. E, neste percurso, a obra teve potencializada sua influência, transformando-se em marco das ciências sociais no Brasil e em ícone da literatura brasileira.

O estilo euclideano expressa a transição entre o predomínio literário e o ensaísmo de pretensão científica. A prosa utilizada por Euclides para descrever a Amazônia, por exemplo, é, como lembra Hardman, uma prosa que fica a meio caminho. Fica entre o literário e o não-literário, entre a natureza e a cultura, entre o elogio da ciência e a descrição _____________________________________________________________________ 164- FERNANDES, Florestan. A sociologia no Brasil. Petrópolis, Vozes, 1977, p.35

165- SEVCENKO, Nicolau. O outono dos césares e a primavera da história. In: Revista USP, Num. 54. São Paulo, USP, 2002, p.34

pungente dos esquecidos pela civilização166. Mas toda a obra de Euclides é uma obra que fica a meio caminho. E em seus textos sobre a Amazônia, como acentua Iglésias, o visionário supera o historiador167.

Euclides consolidou, finalmente, os parâmetros “científicos” a partir dos quais a geração de Sílvio Romero dedicou-se a pensar o país, em detrimento da predominância de literatos como Medeiros e Albuquerque e Coelho Neto. A partir daí, o ensaio ganhou força em comparação ao romance como instrumento de análise da realidade brasileira- o que explica o caráter precocemente datado, por exemplo, de Canaã , de Graça Aranha-, e a crítica literária tornou-se mais específicamente ligada a seu campo, abrindo caminho para estudos mais diretamente centrados na análise científica. Mesmo a ambivalência de Romero- crítico literário com múltiplas pretensões a sociólogo e antropólogo- perdeu viabilidade a partir das novas exigências lançadas por Os Sertões.

A partir daí, a exigência por um maior cientificismo na análise da realidade brasileira iria predominar, a ponto de gerar uma curiosa inversão registrada na crítica que Mário de Andrade faria a Euclides. Segundo Lima, a literatura outra vez se interpunha no destino de

Euclides como escritor. Ao passo que ele próprio procurara conservá-la enquanto ajustada a uma base científica, Mário, que não pretendia ser cientista, na anotação de seu diário o

_____________________________________________________________________ 166-Cf. HARDMAN, Francisco Foot. Antigos modernistas. In: NOVAES, Adauto ( Org. ). Tempo e

história. São Paulo. Companhia das Letras, 1996, p.295

167- Cf. IGLÉSIAS, Francisco. Historiadores do Brasil: capítulos da historiografia brasileira. Rio de Janeiro/Belo Horizonte, Nova Fronteira/Editora da UFMG, 2000, p.149

acusava de haver-se mantido excessivamente literário168. O padrão de rigor científico determinado por Euclides volta-se, aqui, contra ele próprio e afirma como datado o aspecto literário de sua obra.

Euclides forneceu, com Os Sertões, um novo instrumental à crítica literária. Levou o regionalismo a situar-se além da procura pelo exotismo que até então o caracterizava, e definiu o que até então era exótico como a essência da nacionalidade; sua rocha viva, para usarmos sua expressão. Seguindo o caminho aberto por Sílvio Romero, buscou conjugar literatura e ciência, não mais como crítico, mas como literato. E os métodos científicos de crítica literária- criação de Romero- ganharam cidadania com Euclides, que criou, para o bem e para o mal, o ideal de uma literatura engajada, cuja função seria descrever e transformar a realidade. Recriar e transfigurar a identidade nacional.

E, como criador, ele passou a ser visto como o intelectual ideal: o modelo a ser seguido, em contato com a realidade, preocupado com a realidade de seu país e com o futuro da nação, avesso a estrangeirismos e modernidades. Segundo Joaquim Nabuco, o brasileiro não tem uma mentalidade nacional, sua mentalidade é parisiense169. Ele está descrevendo, aqui, o imaginário da elite a qual pertenceu, imaginário que não era, por exemplo, o de Sílvio Romero e Euclides da Cunha, autores profundamente nacionalistas e que foram louvados precisamente por seu nacionalismo.

Mas tal idealização tornou-se problemática. Não é que tal retrato esteja errado ou que tais características tenham sido inventadas com o passar do tempo. É que o Euclides canonizado _____________________________________________________________________ 168- LIMA, Luiz Costa. Terra ignota: a construção de Os sertões. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1997, p.22

que passou a circular, principalmente após o Estado Novo, tende a escamotear as contradições do autor e do homem e a deixar de lado o potencial crítico de sua obra. A deixar escapar, enfim, o essencial.

Benzer Belgeler