2.4. Sosyal Bilgiler Öğretiminde Para ve Posta Pullarının Kullanımı
2.4.1. Para ve posta pullarının öğeleri
lência doméstica e Juizados Especiais Criminais: análise a partir do feminismo e garantismo. Dis- ponível em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-026X2006000200005&script=sci_arttext
Acesso em: 20 de março de 2009. 93 ibidem.
aqueles estabelecidos na Convenção de Belém do Pará, notadamente pela ausência de medidas que garantam sua integridade física e emocional (artigo VII, “d”, Convenção de Belém do Pará).
A quantidade ímpar de confl itos domésticos levados aos Juizados Especiais, conjugada ao despreparo dos magistrados ou conciliadores, tem demonstrado que a resposta do Poder Público opera inversamente ao discurso ofi cial de proteção às vítimas. Ao ser retirada sua capacidade de fala, o processo torna- se incapaz de lidar com a violência de gênero, negando proteção aos direitos fundamentais.
A Lei 9.099/95, ao defi nir os delitos em razão da pena cominada e não do bem jurídico tutelado, não compreendeu a natureza diferenciada da vio- lência doméstica. Essa (in)compreensão jurídica tem como conseqüência a banalização da violência de gênero, tanto pelo procedimento inadequado como pelas condições impostas na composição civil e na transação penal. As possibilidades de escuta da vítima mostraram-se falaciosas devido à dimi- nuição de sua intervenção na discussão sobre os termos da composição civil e, sobretudo, da transação penal.
Fincados em dados empíricos, inúmeros estudos acadêmicos, bem como informes produzidos por diversos grupos feministas organizados em áreas dis- tintas, tais como saúde da mulher, sindical, operadoras do direito94, chegaram à conclusão comum, qual seja, a aplicação da Lei n.º 9.099/1995 aos casos de violência doméstica reavivava a banalização dessas práticas, na contramão do en- tendimento, traduzido em documentos internacionais endossados pelo Estado brasileiro, de que estas constituem violação aos direitos humanos e obstáculo ao desenvolvimento. Demonstraram que a referida legislação, ao vincular “menor potencial ofensivo” ao quantum da pena determinado em abstrato para as infra- ções penais, resulta em equívocos para muitos casos, e em completa inadequação aos relacionados à violência doméstica. Nesse campo, as condutas são complexas e muito importa examinar a tipicidade material verifi cada na conduta do autor do ilícito, reconhecida pela carga lesiva ao bem jurídico tutelado pela norma violada, ganhando destaque a afetação da vítima e seu entorno familiar.
Os mencionados documentos chamaram a atenção, sobretudo, para a proli- feração de decisões judiciais emanadas dos Juizados Especiais Criminais, que con- denavam o autor do fato à pena restritiva de direito correspondente ao pagamen- to de cesta básica a entidade assistencial ou de uma pequena multa em dinheiro. Essa reiterada prática judicial, que descuidava da correspondência socioeducativa da medida aplicada à infração penal cometida, denotava a pouca importância que
94 INSTITUTO BRASILEIRO DE ADVOCACIA PÚBLICA. Disponível em http://www.ibap.org/direi- tosda-mulher-/monicademelo/mm020.htm. Acesso em 23 de março de 2009.
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o Poder Judiciário e instituições afi ns conferiam ao grave fenômeno da violência doméstica, recorte da violação dos direitos humanos da mulher.
Por outro lado, reconhece-se que os Juizados Especiais Criminais contribu- íram para dar maior transparência à atuação do Poder Judiciário face ao fenô- meno da violência doméstica no Brasil, e à prevalência desse tipo de violência contra a mulher, de caráter epidêmico95. Isso porque, em razão dos registros dos procedimentos dos Juizados, formaram-se dados que, coletados, permitiram análises estatísticas reveladoras do discurso que o movimento feminista há mui- to proferia. Desvendava-se em números mais apurados o não reconhecimento dos direitos humanos das mulheres pelo sistema de Justiça.
As cestas básicas, tão manejadas no âmbito dos Juizados Especiais Crimi- nais, deram corpo a entendimento discriminatório da mulher prevalente no sistema de Justiça anterior à Lei n.º 9.099/1995, que se manifestava, então, por meio de costumeiros arquivamentos de inquéritos oriundos das delegacias especializadas no atendimento à mulher — DEAMs e de sentenças absolutó- rias, ambos sob o argumento de política criminal. A massifi cação dessa resposta proporcionada pela vasta produção dos Juizados Especiais Criminais suscitou polêmica e debate entre atores do mundo do direito e do movimento feminista, formando uma opinião pública mais esclarecida a respeito dos direitos da mu- lher e da forma alheia à gravidade do fenômeno da violência doméstica revelada pela atuação do Poder Judiciário.
Conclui-se, dessa forma, que a cultura e o ordenamento jurídico brasilei- ro anterior à Lei 11.340, de 7 de agosto de 2006, conhecida como Lei Maria da Penha, acomodavam práticas violadoras dos direitos humanos das mulheres, particularmente quando atinentes à violência doméstica e familiar, contrariando o preceito constitucional contemplado no § 8º do art. 22696, que assim dispõe:
Art. 226 — A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. [...]
§ 8º — O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações.
95 Disponível em http://whqlibdoc.who.int/hq/2005/WHO_FCH_GWH_05.1.pdf. Acesso em 10 de abril de 2009.
96 BRASIL. Constituição (1988). Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao-/ constitui%C3%A7ao.htm . Acesso em: 22 de março de 2009.
O quadro de défi cit do Poder Judiciário encontra-se refl etido em pesquisa que o IBOPE realizou por solicitação do Instituto Patrícia Galvão 97, em 2006, com o propósito de conhecer o pensamento das mulheres acerca do fenômeno da violência de gênero, em especial a violência doméstica e familiar contra a mulher. O resultado indicou que crescia a preocupação com a violência contra a mulher e apresentava dados importantes, como os seguintes:
• De 2004 a 2006 aumentou o nível de preocupação com a violência do- méstica em todas as regiões do país, menos no Norte / Centro-Oeste, que já tem o patamar mais alto (62%). Nas regiões Sudeste e Sul o nível de preocupação cresceu, respectivamente, 7 e 6 pontos percentuais. Na periferia das grandes cidades esta preocupação passou de 43%, em 2004, para 56%, em 2006.
• 33% apontam a violência contra as mulheres dentro e fora de casa como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade.
• 51% dos entrevistados declaram conhecer ao menos uma mulher que é ou foi agredida por seu companheiro.
• Em cada quatro entrevistados, três consideram que as penas aplica- das nos casos de violência contra a mulher são irrelevantes e que a justiça trata este drama vivido pelas mulheres como um assunto pou- co importante.
• 54% dos entrevistados acham que os serviços de atendimento a casos de violência contra as mulheres não funcionam.
• Nove, em cada 10 mulheres, lembram de ter assistido ou ouvido campa- nhas contra a violência à mulher na TV ou rádio.
• 65% dos entrevistados acreditam que atualmente as mulheres denun- ciam mais quando são agredidas. Destes, 46% atribuem o maior número de denúncias ao fato de que as mulheres estão mais informadas e 35% acham que é porque hoje elas são mais independentes.
• A grande maioria dos entrevistados aponta as seguintes punições para o agressor: ser preso (64%, na opinião tanto de homens como mulheres); prestar trabalho comunitário (21%); e doar cesta básica (12%). Um seg- mento menor prefere que o agressor seja encaminhado para: grupo de apoio (29%); ou terapia de casal (13%).
97 O Instituto Patrícia Galvão é uma organização não-governamental, sem fi ns lucrativos, sediada na cida- de de São Paulo e que tem por objetivo desenvolver projetos sobre direitos da mulher e meios de comuni- cação de massa. Disponível em http://www.patriciagalvao.org.br/ . Acesso em 21 de março de 2009.
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• Perguntados sobre o que acham que acontece quando a mulher denun- cia, 33% dos entrevistados afi rmaram que “Quando o marido fi ca saben- do, ele reage e ela apanha mais”; 27% responderam que não acontece nada com o agressor; 21% crêem que o agressor vai preso; enquanto 12% supõem que o agressor recebe uma multa ou é obrigado a doar uma cesta básica. (Grifo nosso)
Diante de tal quadro inquietante, o movimento de mulheres, em parti- cular, grupo formado por feministas operadoras do direito, inseridas em área governamental e não-governamental, se propôs a elaborar proposta de antepro- jeto de lei para atender ao compromisso constitucional, segundo o marco dos direitos humanos, estampado em instrumentos internacionais fi rmados pelo Brasil, embora muito dele se desvinculasse a realidade nacional. Essa iniciativa seria discutida, como ocorreu, nos distintos fóruns que compõem o grande auditório do movimento organizado de mulheres brasileiras.
3.2. O processo de criação da Lei 11. 340, de 7 de agosto de 2006
A ampla articulação feminista, que por alguns anos vinha fomentando o debate para construir estratégias destinadas a modifi car a cultura prevalente no sistema de Justiça e alterar a legislação brasileira aplicada em casos de violação dos direi- tos humanos das mulheres, em especial nos relativos à violência doméstica, gera a formação de grupo de trabalho, como descrito na Carta da CEPIA98, com a tarefa de levar a cabo ações concretas que alterassem o quadro diagnosticado como desalentador. Encontra-se disposto na referida Carta:
Em face dessa paradoxal situação, uma articulação de feministas operado- ras do direito, visando contribuir para o debate sobre a violência contra a mulher e buscando as respostas legais necessárias, promoveu, na Cepia, no Rio de Janeiro, nos dias 19 e 20 de agosto de 2002, uma reunião que teve como pauta: avaliar os efeitos da Lei 9099/1995 sobre os crimes domésticos praticados contra as mulheres; analisar os diversos projetos de lei em trami- tação no Congresso Nacional sobre essa matéria, bem como a legislação sobre violência contra mulheres de diversos países latino-americanos; buscar uma resposta legislativa adequada a essa problemática em nosso país.