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3.4. ARAŞTIRMANIN HİPOTEZLERİ

3.5.3. Güvenirlilik analizleri

Trabalhar a questão da subjetivação é procurar compreender de que modo funciona a ideologia na sociedade. Sabemos, por Pêcheux, que ela, a ideologia, funciona pelo equívoco, estruturando-se na contradição (ORLANDI, 2008). Assim, buscamos compreender como essa contradição faz parte da constituição do sujeito na sociedade.

Partindo do pressuposto teórico de que “a ideologia não é ‘X’ mas o mecanismo de produzir ‘X’” (ORLANDI, 1996, p. 30), buscamos compreender de que modo ela - a ideologia - está presente na produção do consenso do que seja o “negro”, o “mulato” e o “mestiço” na sociedade brasileira, analisando de que forma se constituem essas subjetividades, no processo de individualização.

Para tanto, devemos levar em consideração dois movimentos presentes na constituição da subjetividade, ilustrados na figura abaixo:

Sujeito (forma-sujeito histórica) Simbólico

Interpelação Processo de individualização (Ideologia) (Estado)

Forma social capitalista Indivíduo (I1) Indivíduo (I2)

(bio, psico) (social)

127 Observando a figura acima, retirada de Orlandi (2008, p. 104), podemos verificar a presença de dois movimentos na constituição da subjetividade no processo de individualização pelo Estado. Em um primeiro momento, temos a presença da identificação a uma determinada formação discursiva na qual o indivíduo constitui-se como sujeito de seu dizer, enunciando de uma posição de sujeito. Assim, a forma-sujeito é histórica, tem sua própria materialidade. Podemos observar esse movimento no recorte acima, quando o sujeito enunciador assevera: “(...) meu pai era branco, minha mãe, mulata (...)”. Neste momento, há uma identificação da forma-sujeito mulata no processo de subjetivação; assim, temos a forma-sujeito histórica “mulata”. Na sequência do enunciado, o enunciador prossegue afirmando ser negro. Há, nesse momento, uma individualização do sujeito em negro. Há um processo identitário, no qual o sujeito apaga sua forma- sujeito histórica, negando sua posição mestiça, e individualizando-se como negro.

Poderíamos analisar esse movimento como uma forma de resistência. Tal resistência dever-se-ia a toda uma memória acerca do sentido de ser negro em uma sociedade majoritariamente branca, permeada pelo preconceito racial. Ao se auto-identificar como negro, nesse processo de individualização em relação ao Estado, este sujeito produz um deslocamento no sentido do que é ser negro. Assim, passamos para o segundo momento do gráfico, qual seja, já adquirida sua forma- histórica, agora o sujeito deve identificar-se diante do Estado, assumindo uma posição social. Não basta mais ter um posicionamento ideológico, mas fazer parte de uma formação social; nesse processo de identificação social, resta pouco visível sua constituição pelo simbólico, ou seja, há um apagamento de sua miscigenação racial.

Podemos pensar esse movimento de deslocamento da constituição da subjetividade como uma forma de resistência, em duplo sentido. Num primeiro momento, podemos verificar nos discursos acerca da constituição racial brasileira, que havia uma hesitação em assumir-se mestiço, visto haver a presença do negro em sua constituição. Como este era visto como inferior socialmente, houve um movimento de resistência acerca dessa forma-sujeito. Não obstante, podemos perceber, hodiernamente, um movimento em sentido contrário a este, na medida em que se verifica, nos discursos raciais e do Estado, em relação às políticas de ações

128 afirmativas, uma tendência a valorizar a posição sujeito negro em detrimento de outras, como mulatos, nos processos de individualização.

Portanto, pelos movimentos na constituição dos sujeitos, expostos pelo gráfico acima, podemos classificá-los da seguinte maneira:

1. Há um movimento de identificação a uma formação discursiva, na qual o indivíduo adquire sua forma-sujeito a fim de enunciar. Tal movimento é regulado pelo simbólico, como resultado da interpelação pela ideologia;

2. Num segundo momento, a forma-sujeito histórica sofre um processo de individualização pelo Estado, dando origem a um sujeito individualizado.

Concordando com os pensamentos de Pêcheux e Orlandi, admito que haja um movimento sobre a forma-sujeito histórica, provocado pelos Aparelhos Ideológicos de Estado, e pela formação social em que ocorre a subjetivação. Assim, ao adquirir uma forma-sujeito, o indivíduo passa a enunciar no interior de uma formação discursiva que, para mim, não é homogênea em si, mas possui suas fronteiras movediças, permitindo o deslocamento dessa forma-sujeito nos discursos. Nesse momento, deparamo-nos com a presença do político na constituição da subjetividade, bem como participando do processo de individualização. Trabalhando o político como sendo uma contradição dos sentidos, ou seja, os sentidos não são os mesmos para todo mundo (ORLANDI, 2010), podemos verificar um movimento de silenciamento do político, pelo Estado, ou por seus Aparelhos Ideológicos, de forma a produzir um consenso acerca da constituição racial brasileira.

Para melhor exemplificar tal asserção, analisemos um enunciado retirado de um discurso de manifesto da Organização de Resistência Mulata. Observemos o recorte abaixo:

(...) algumas lideranças do movimento negro brasileiro pressionaram o IBGE para que os pardos (inclusive os não-afrodescendentes) fossem classificados como negros (...)

129 Primeiramente, passemos à descrição da cena em que se dá tal enunciado. Sua condição de produção se dá no interior de uma discussão do movimento de resistência mulata no qual se era discutida a questão da inclusão dos mulatos como fazendo parte da parcela negra da população brasileira. Nesta cena, podemos observar como se configuram os lugares de dizer desses sujeitos, caracterizados como pertencentes a uma instituição responsável pela categorização da população brasileira em raças, e por aqueles que pertencem a determinados grupos sócio-raciais, no interior do qual enuncia seu pertencimento.

Ao pressionar o IBGE, órgão do Estado, a incluir os sujeitos tidos como “pardos” na parcela dos “negros” da sociedade, o movimento negro brasileiro produz um deslocamento da constituição racial da população, promovendo um deslizamento do sentido de pardo, com o conseqüente silenciamento e apagamento dos sujeitos assim identificados. Designar os pardos como negros, é deslocá-los de sua posição social e inseri-los em outra, visto nomear ser um processo de identificação social. Assim sendo, evitamos que a forma-sujeito mulato tenha sua posição social assegurada pelas instituições estatais. Logo, a forma-sujeito mulato sofre um processo de des-individualização, adquirindo uma forma social negro. Tal processo faz com que sejam silenciados sentidos presentes na constituição da designação “pardo”, tal como a miscigenação existente entre “negros” e “índios”, ou “índios” e “brancos”.