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Procuramos estudar discursivamente a questão da subjetividade a fim de compreender de que modo “a língua acontece no homem”. Desta forma, é preciso entender que a subjetividade é constituída no acontecimento do discurso, ou seja, o acontecimento do significante tem como lugar fundamental a subjetividade. Ao refletirmos acerca da constituição do sujeito nos discursos, compreendemos que o indivíduo torna-se sujeito no acontecimento de linguagem, na qual este indivíduo se identifica a uma posição-sujeito, projetando-se discursivamente. Assim, “a Análise de Discurso concebe a linguagem como mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social.” (ORLANDI: 2009, p. 15)

Ao tomarmos os estudos do sujeito nos discursos, sejam lá quais forem esses discursos, tratamos não mais daquele sujeito centralizado, fonte de todo dizer, como preconizavam os trabalhos de Benveniste, e da posição teórica dos estudiosos da enunciação, da mesma linha do referido autor. Para nossos estudos, o sujeito é constituído no acontecimento discursivo, que se dá no interior de formações discursivas, responsáveis por recrutar os indivíduos, tornando-os sujeitos.

Dessa forma, podemos melhor compreender Orlandi (2008, p. 99), quando afirma que “(...) o acontecimento do significante no homem é que possibilita o deslocamento heurístico da noção de homem para a de sujeito (...)”, isto é, a constituição do sujeito dá-se no acontecimento discursivo, ao se identificar a uma posição de sujeito, no interior de uma formação discursiva, para enunciar. Segue, então, desse posicionamento, que, se a constituição da subjetividade é dada no interior de uma formação discursiva, pela identificação desse indivíduo a um lugar de fala, uma posição de sujeito no discurso, também podemos compreender que há uma relação no jogo dos sentidos, visto estes variarem de acordo com a posição de sujeito assumida pelo enunciador. Destarte, esse deslocamento faz com que se transforme a situação social – real da história –, posição de sujeito – discursivo.

Lembrando que sentido e sujeito constituem-se ao mesmo tempo, na articulação da língua com a história, devemos considerar a presença da ideologia como participando dessa constituição. Assim, cabe analisarmos como o discurso

120 está materializando a ideologia pelo aparecimento das designações que estamos estudando em nosso corpus de análise.

Neste ponto, vale lembrarmos-nos de uma definição de extrema importância para quem trabalha o discurso, qual seja, “a ideologia interpela o indivíduo em sujeito e este submete-se à língua significando e significando-se pelo simbólico na história”(Orlandi, 2008, p. 100). Ao se identificar a uma formação discursiva, o indivíduo é tomado pela ideologia, é interpelado em sujeito, enunciando de uma posição no interior dessa FD. Desse interior, pela identificação, o sujeito passa a enunciar sua posição, seu discurso, por meio do qual podemos encontrar vestígios da ideologia que permeia as relações desse tal sujeito com a sociedade em que vive. Assim, se o sujeito é afetado pelo histórico, pelo ideológico, não podemos pensar em sujeito pouco ou muito assujeitado; não se pode quantificar a subjetividade. Pensando a relação intrínseca existente entre sujeito e sentido, se o indivíduo não se assujeitar à língua, não haverá nem sujeito, nem sentido; ou seja, não há a possibilidade de enunciar para um indivíduo que não se submeta ao simbólico, para um sujeito que não tenha seu direito à palavra controlado por seu lugar de dizer, para um sentido que não seja dividido pelo político.

Esse processo de identificação a uma determinada posição de sujeito aparece como sendo evidente, uma vez que a identificação a essa posição dá-se por meio da nomeação. Como tratamos na parte deste trabalho que concerne à nomeação como procedimento de identificação, podemos trabalhar melhor agora essa concepção. Naquele momento, asseveramos que “nomear (...) funciona por um processo social de identificação”, ou seja, nomear uma pessoa, um indivíduo, faz com que ele seja identificado socialmente a uma posição, inscreve-o em uma formação discursiva da qual ele deverá enunciar. Entretanto, essa identificação, a meu ver, é política, no sentido que demos a esse termo anteriormente, ou seja, os sentidos são divididos.

Tomemos como exemplo a sdr 1. Nela, encontramos o seguinte dizer: “A questão da negritude é a de assumir-se como negro, identificar-se como negro, sentir-se negro”. Nesse enunciado, podemos perceber um agenciamento do sujeito, que se identificou a uma formação discursiva, da qual ele enuncia como “negro”.

121 Ademais, podemos analisar este enunciado buscando auxílio nos procedimentos de reescritura e determinação; desse modo, verificamos o seguinte DSD:

sentimento ┴

assunção Negritude negro

┬ identificação

Deste modo, a constituição da subjetividade para esse indivíduo ocorre como uma forma de identificação a uma formação discursiva “negra”, ou seja, não há outro modo de identificar-se como negro, senão pela identificação àquela formação discursiva. Assim, o sujeito precisa identificar-se com esta formação discursiva para, em seguida, afirmar seu pertencimento por meio de enunciados que materializam essa ideologia. Contudo, nos outros recortes, podemos notar uma diferença quanto a essa identificação. Observemos a sdr2: “Cor de pele não interfere na sua raça. Tenho a pele clara, mas meus bisavós maternos e paternos são negros, por isso falo que sou negra.”. Por esse enunciado, podemos verificar de que modo ocorre o agenciamento político e a distribuição dos dizeres. Ao afirmar ter “a pele clara”, o enunciador fala de uma posição de sujeito branca, ou seja, não se identifica a uma posição de sujeito negra. Assim, poderíamos verificar que esta sequência discursiva orienta para uma conclusão que leva a uma interpretação de um sujeito branco enunciando. Não obstante, na segunda parte da sequência, observamos a presença de uma posição de sujeito negra, orientando o dizer para uma outra formação discursiva. Assim, teríamos:

[Temho a pele clara] 33 identifico-me a uma posição de

sujeito branca

33 Lê-

122 [meus bisavós maternos e paternos são negros] identifico-me a uma posição de sujeito negra

Podemos verificar, nesta sequência, que “pele clara” reescreve “branco” por sinonímia, bem como todas as outras variações da miscigenação que possam ser identificadas por uma tonalidade de pele mais clara, tais como os mulatos. Há, além de um efeito de sinonímia, a presença da hiperonímia, ou seja, “clara” funciona, neste acontecimento, como hiperônimo de “mestiço”, “mulato” e, inclusive, de “branco”. Como a formação discursiva representa o lugar da constituição dos sentidos e das identidades, sujeito e sentido também são, no interior da formação discursiva, deslocados.

Há, então, um dissenso a ser administrado. Como são significados os sujeitos oriundos da miscigenação? Ainda, atendo-nos à mesma sdr, trabalhando agora com a segunda parte, observamos a presença de outra posição de sujeito no discurso desse enunciador. Ao enunciar “meus bisavós maternos e paternos são negros”, o sujeito identifica-se, também, pela descendência, a uma formação discursiva negra, ou seja, a uma identificação que está sendo trabalhada nos limites dessas formações discursivas; o sujeito enunciador admite ter a pele clara, e ser descendente de negros. Não obstante, vale nos atermos à terceira parte da sdr em questão, qual seja, “por isso falo que sou negra”. Fica claro, por esta sequência, que o enunciador identifica-se a uma posição de sujeito negro, no interior da FD que o domina. Mas, fazendo uma análise mais detalhada, podemos verificar a presença de três “partes” neste sdr, quais sejam:

(i) Tenho a pele clara;

(ii) Meus bisavós maternos e paternos são negros; (iii) Por isso falo que sou negra.

Os enunciados (i) e (ii) são articulados pela conjunção mas, que provoca a orientação de sentido para uma conclusão favorável à identificação a uma posição de sujeito negra. Assim, desloca-se a questão da identificação racial da questão fenotípica – cor da pele – para uma questão de ancestralidade, de

123 descendência. Não obstante, ainda há uma ilusão de referencialidade, visto o enunciador assumir-se negro devido à sua ancestralidade, pelo sentimento de ser negro. Assim, cria-se um efeito de apagamento da posição ideológica da miscigenação do sujeito pela nomeação “negro”. Há o apagamento de que houve um processo de miscigenação, do qual se originou esse sujeito; verificamos, então, um deslocamento da posição-sujeito no interior de uma FD. Com isso, corrobora a sequência (iii), já que o enunciador orienta seu discurso para uma conclusão acerca da identificação racial como decorrente da descendência, não importando sua miscigenação, não importando a presença de outra cultura em sua constituição social.

Destarte, podemos observar o movimento dos sentidos acerca do negro, do branco e das respectivas miscigenações nos discursos raciais como orientando para um apagamento, ao menos nesta sdr, da presença do diferente, em busca de uma pureza racial. Se concebermos que a materialidade dos lugares sociais dispõe os sujeitos, compreenderemos que, concomitantemente, a resistência desses sujeitos constitui posições que materializarão novos e outros lugares sociais, lugares de dizer (Orlandi, 2008, p.103).

Analisando a sequência 5, observamos um outro modo de significar a constituição racial na sociedade brasileira. Ao dizer “Sou do interior da Bahia. Meu pai era branco, minha mãe, mulata. Ninguém se assumia como negro. Fui o primeiro a perceber minha negritude.”, o enunciador identifica-se a uma posição de sujeito negro ao enunciar “minha negritude”. Entretanto, analisando sua enunciação completa, verificamos que ele é fruto de miscigenação racial entre pai branco e mãe mulata. Já pela origem da mãe, percebemos a miscigenação presente em sua constituição, ou seja, ela também era fruto de um intercurso racial entre negros e brancos. Na sequência do enunciado, o sujeito assevera que seus pais não se assumiam como negros. Assim, há um movimento que o enunciador produz nos sentidos das falas dos pais; pensando o negro como uma raça pura, da qual descenderiam o mulato, e outros mestiços, ao afirmar-se negro, com pai branco e mãe mulata, o sujeito enunciador desloca a posição de sujeito de seus pais, identificando-os como negros que não se assumiam como tais.

124 Podemos perceber a necessidade de o sujeito enunciador colocar, identificar seus pais como negros, numa tentativa de afirmação da condição de negro na sociedade. Entretanto, ao afirmar que sua mãe era mulata, ele desloca essa posição de sujeito para o interior de outra posição, a de negro. Assim, haveria um procedimento de des-individualização desse sujeito.

Para melhor compreender este conceito, analisemos mais detidamente o recorte em questão.

Sou do interior da Bahia. Meu pai era branco, minha mãe, mulata. Ninguém se assumia como negro. Fui o primeiro a perceber minha negritude. (Evânio)

Para mim, pensar a des-individualização é verificar de que modo há um deslocamento do processo de subjetivação, de modo a evitar-se que os sujeitos assumam determinadas posições no discurso; ou seja, não se trata aqui de considerar que não se é sujeito, visto que parto da premissa de que não há sentido sem sujeito, nem este sem aquele. Procuramos compreender como há uma imposição de apagamento de determinadas posições de sujeito, por meio da interdição de seus dizeres. Essa interdição pode ocorrer de vários modos; entretanto, em nosso corpus, o mais freqüente é o esvaziamento de sentido dos dizeres de sujeitos ocupando determinados lugares de dizer, fazendo com que esses dizeres não ecoem, produzindo novos outros sentidos.

Na sequência acima, o enunciador desloca sua posição no interior do discurso ao identificar-se como negro; ademais, produz o mesmo efeito de sentido ao dizer que “ninguém assumia-se como negro”. Uma leitura possível seria a de que seus pais eram negros, embora afirmassem ser “branco” e “mulata”. Deparamo-nos, neste instante, com um processo complexo de identificação, que produz a des- individualização. O sujeito-enunciador, ao mesmo tempo em que identifica seu pai a um lugar social de branco, afirma sua posição social de negro pela presença do enunciado “Ninguém se assumia como negro”. É possível a seguinte paráfrase34

34 Segundo Orlandi (2009, p.36),

“Os processos parafrásticos são aqueles pelos quais em todo dizer há sempre algo que se mantém, isto é, o dizível, a memória. A paráfrase representa assim o retorno

125 desta sequência: “Meu pai era branco; minha mãe, negra. Ninguém se assumia como negro, embora o fossem”. Aqui, podemos perceber que há a identificação de seus pais pelo sujeito da enunciação a uma posição de sujeito negro. Contudo, ao proceder desta maneira, o enunciador produz um deslocamento importante na sua constituição racial: ele apaga a presença da miscigenação em sua constituição identitária, por um processo de deslize de sentido da palavra “mulata” para “negra”, ou seja, houve uma formulação, no interior de uma formação discursiva, que provocou a mudança de um enunciado, embora tenha-o mantido em um mesmo espaço de dizer do parafraseado.

Ao enunciar “Fui o primeiro a perceber minha negritude”, o sujeito desloca-se de um lugar social oriundo da miscigenação, identificando-se a uma posição de sujeito negro, ou seja, há uma afirmação de pertencimento a um lugar social outrora desprezado.

Entretanto, verificamos a presença da ambigüidade neste enunciado, que provoca uma dificuldade de análise. Ao dizer que “ninguém se assumia como negro”, cria-se um efeito de sentido de que, embora o fossem, seus pais não “queriam” se assumir como negros, evitando essa identificação racial. Entretanto, se considerarmos que há uma identificação “branco” e “mulato” por parte de seus pais, ao deslocá-los dessas posições de sujeito em detrimento a uma afirmação do pertencimento à classe negra, produz-se o processo de des-individualização, ou seja, desloca-se a identificação do indivíduo a uma posição-sujeito, deslizando-o para uma pré-estabelecida pelo discurso dominante, silenciando-se os sentidos de “mulato”, produzindo uma sinonímia com “negro”.

Assim, para melhor compreendermos de que modo se constrói essa “des-individualização”, bem como os sentidos que ela produz, faz-se necessário compreendermos de que modo ocorrem os processos de subjetivação e individualização na sociedade.

aos mesmos espaços do dizer. Produzem-se diferentes formulações do mesmo dizer sedimentado. A paráfrase está do lado da estabilização. (...)”

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