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Os diversos modos de reescriturar um texto são responsáveis por nos dar “pistas”, no fio do dizer, acerca das diferentes posições de sujeito que estão em jogo na textualidade, ou seja, no texto. Esses modos de redizer um enunciado no interior de um texto produzem sentido de diversas maneiras, de acordo com a posição de sujeito marcada no interior desse texto, responsável pela demarcação da formação discursiva à qual pertence o sujeito enunciador. Assim, esses modos de reescriturar um texto, produzindo uma dispersão de sentidos em seu interior, podem se dar, segundo Guimarães (2009), de diversas maneira, como: repetição, substituição, elipse, expansão, condensação e definição. Estes modos são responsáveis, todavia, por produzirem uma dispersão de sentidos, que marcam uma posição-sujeito no interior do texto, de diversas maneiras, produzindo efeitos de sentido como por: sinonímia, especificação, desenvolvimento, generalização, totalização e enumeração.

84 Com a finalidade de explanar melhor acerca de tais procedimentos, traremos para análise um recorte da definição de “negro” encontrada na enciclopédia livre, Wikipédia. Vejamos abaixo:

Negros

Os termos negro ou negróide geralmente se referem a um grupo racial de seres humanos com cores de pele que vão desde o marrom claro até o quase preto. Eles também são usados para classificar diversas populações, juntamente baseadas em relações ancestrais históricas e pré-históricas. Algumas definições do termo, relativamente recentes, incluem apenas as pessoas que descendem de povos da África subsaariana (ver Diáspora africana). Outras definições do termo "negro" estendem-se a qualquer população caracterizada por pele escura, uma definição que inclui também algumas populações da Oceania e do Sudeste Asiático.[1][2]

http://pt.wikipedia.org/wiki/Negros. Acessado em 13 de setembro de 2010.

Observemos como o modo de redizer no texto produz sentido e, mais que isso, marca as diferentes posições de sujeito em seu interior. Inicialmente, devemos observar que a materialidade do texto se dá na forma de uma enciclopédia, que pode ser tratada como um instrumento lingüístico, cujo objetivo seria englobar a maior parte do conhecimento humano disponível de forma metódica, assim, podemos considerar esse material como um modo de organizar o conhecimento tido como “universal”. Portanto, nas formas de Courtine (2009), temos um desdobramento do sujeito da enunciação, sendo que uma das posições ocupadas por este sujeito é a de sujeito-universal, responsável por apresentar conteúdos ditos “universais”, seria o sujeito da ciência – no caso, da lexicografia – do conhecimento; assim, ele representaria o sujeito do saber de uma dada formação discursiva, qual seja, a que estabelece os dizeres da enciclopédia.

Contudo, interessa-nos analisar de que forma constitui-se a textualidade no interior desse texto. Para tanto, vamos observar os modos de redizer o dito, segundo Guimarães (2007, p. 85-86), como segue abaixo:

85 (a) Repetição: encontramos no título da enciclopédia, como entrada, o verbete “Negros”, que é retomado, no corpo do texto, por “negro”. Neste caso, o plural indica uma totalização dos sujeitos individualizados pela nomeação “negro”;

(b) Substituição: no corpo do texto, em uma relação de articulação por coordenação com o nome “negro”, encontramos o nome “negróide”, de forma que se torna possível a substituição de um pelo outro, no interior desta formação discursiva;

(c) Expansão: todo o texto trazido abaixo do título é uma forma de ampliar o que está dito na expressão nominal “Negros”, verbete a ser definido. Outra expansão interessante de se notar é a reescritura de “negro” e “negróide” por “grupo racial de seres humanos com cores de pele que vão desde o marrom claro até o quase preto”;

(d) Definição: o exemplo acima também nos mostra como funciona a reescritura por definição, visto os termos “negro” e “negróide” serem reescritos, por definição, como “as pessoas que descendem de povos da África subsaariana”;

(e) Condensação: podemos perceber que, da mesma forma que “as pessoas que descendem de povos da África subsaariana” reescreve “negro” e “negróide” por definição, estes nomes reescrevem tal definição condensando toda a explicação feita;

No entanto, pelos procedimentos de reescritura apresentados, podemos verificar algo de mais importante para quem trabalha com o discurso, ou seja, os efeitos de sentido produzidos por tais reescrituras. Assim, de forma a darmos um tratamento mais específico a esses efeitos de sentido, destacaremos alguns desses efeitos produzidos (GUIMARÃES, 2009, p.55), a saber:

(i) Sinonímia: é produzida por uma substituição lexical no

enunciado, no acontecimento de sua formulação; por exemplo, no recorte “Os termos negro ou negróide (...)”, temos um efeito de sentido entre negro e negróide de forma que tais termos aparecerão como tendo o mesmo sentido, para determinada posição de sujeito, no interior de uma formação discursiva;

86 (ii) Especificação: é produzida por uma aposição, que determina26

o termo que foi reescriturado pela expressão que o reescritura. Em um recorte analisado anteriormente, podemos observar como o procedimento de especificação funciona, produzindo efeitos de sentido. No caso de “(...) serão destinadas a alunos negros (pretos e pardos)”, temos uma especificação por expansão de “negros” por “pretos e pardos”, em que o termo reescriturado é determinado pelos termos que o reescrituram, produzindo um efeito de sentido sobre o reescriturado.

(iii) Desenvolvimento: neste caso, podemos perceber que todo o texto desenvolve o termo “Negros”. O desenvolvimento é um caso de expansão, no qual toda a sequência desenvolvida determina o termo desenvolvido, ou seja, “Negros”. Toda a sequência “Os termos negro

ou negróide geralmente se referem a um grupo racial de seres humanos com cores de pele que vão desde o marrom claro até o quase preto” é um desenvolvimento do termo de entrada “Negros” e,

dessa forma, atribui sentido a este nome;

(iv) Totalização: temos a totalização na medida em que um termo reescreve de modo único termos anteriores a ele, determinando as partes totalizadas. Podemos observar um exemplo de totalização no recorte “Os termos negro ou negróide geralmente se referem a um grupo racial de seres humanos (...). Eles também são usados para classificar diversas populações (...)”. Neste caso, temos o dêitico Eles como totalizador dos termos “Os termos negro ou negróide”, sendo, também, determinante desses termos totalizados;

(v) Generalização: tal efeito de sentido ocorre no procedimento de reescritura na medida em que o termo generalizado adquire um sentido amplo. Podemos verificar tal procedimento pela pluralização do título “Negros”. Diferentemente de analisarmos que tal nome apresenta o morfema “-s”, indicativo do plural, do mesmo modo como a gramática normativa, ao fazê-lo por um viés discursivo, notamos que a presença desse plural produz um efeito de sentido, na

87 verdade, de generalização do termo, designando, assim, todos os sujeitos que se identificam a essa forma sujeito “negro”.

Ainda resta-nos apresentar, como efeito de sentido da expansão, a enumeração. Contudo, para tanto, será necessário recorrer a outro recorte, de modo a tornar mais clara e profícua a explicação. Assim, observemos o recorte a seguir:

De acordo com o PNAD de 2006, verificou-se que 6,9% da população brasileira se declara negra, enquanto 42,6% se declaram como “pardos” (como os mulatos, caboclos e cafuzos – pessoas com ancestralidade mesclada entre africanos, europeus e indígenas, exceto os caboclos, cuja identidade não está ligada a ancestralidade africana).

http://pt.wikipedia.org/wiki/Negros

A fim de analisarmos os efeitos de sentido produzidos por uma enumeração, podemos observar a que está presente no recorte acima, retirado da enciclopédia livre, Wikipedia. Para tanto, trataremos tal enciclopédia, novamente, como um instrumento lingüístico que apresenta um enunciador que fala de uma posição-sujeito universal.

Deste modo, buscaremos verificar de que modo os saberes presentes nesta enciclopédia são distribuídos, levando em consideração as várias posições- sujeito que se cruzam no seu interior, demarcando as diversas formações discursivas em que tais sujeitos estão inseridos. Para tanto, observemos o seguinte recorte:

se declaram como “pardos” (como os mulatos, caboclos e cafuzos ...)

Neste recorte acima, temos “mulato, caboclos e cafuzos” reescrevendo “pardos” por enumeração. Ademais, faz-se necessário notar que, em decorrência desta enumeração, temos um efeito de sentido de especificação, isto é, “mulatos”, “caboclos” e “cafuzos” determinam o sentido de “pardos”, ou seja, os termos “mulatos”, “caboclos” e “cafuzos” predicam “pardo”. No sentido oposto, “pardos”

88 totaliza os sentidos de “mulatos”, “caboclos” e “cafuzos”, produzindo um apagamento desses sentidos; logo, reescrever estes termos todos por “pardos” provoca um silenciamento dos sentidos27 que esses termos possuem. Partindo-se do princípio de que “(...) no discurso, o sujeito e o sentido se constituem ao mesmo tempo (...)”, Orlandi (2007, p.76), pelo efeito de apagamento, de silenciamento dos sentidos de “mulato”, “caboclo” e “cafuzo”, tem-se, de fato, um esvaziamento das respectivas formas-sujeito, fazendo com que tais formas-sujeito possam ser ocupadas pelos indivíduos na formação social em questão.

Como uma conseqüência desses procedimentos de reescritura, e tendo em vista nosso objeto de análise, qual seja, a questão da nomeação e designação do negro na sociedade brasileira que tem como conseqüência primeira um deslocamento no processo de subjetivação de tais indivíduos, passaremos à segunda parte de nosso trabalho, na qual procuraremos compreender de que forma esses indivíduos tornam-se sujeitos em nossa formação social, bem como o Estado é responsável por sua individualização na sociedade em que esses sujeitos se encontram, ou seja, a sociedade capitalista, marcada pelo jurídico.

27 Discutiremos a questão do silenciamento mais proficuamente no capítulo que concerne à Analise

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Benzer Belgeler