Em seu texto A arqueologia do saber (2009), Foucault mostra pela primeira vez o que compreende como uma forma de organização dos discursos, segundo uma regularidade em um sistema de dispersão, segundo definições temáticas, correlações, funcionamentos etc. A essa forma de dispersão, Foucault denomina formação discursiva. Tal definição deve-se ao fato de o autor considerar duas hipóteses para tal. Segundo ele,
Primeira hipótese (...) os enunciados, diferentes em sua forma, dispersos no tempo, formam um conjunto quando se referem a um único e mesmo objeto. (...)
Segunda hipótese (...) sua forma e seu tipo de encadeamento. Parecera-me, por exemplo, que a ciência médica, a partir do século XIX, se caracterizava menos por seus objetos ou conceitos do que por um certo estilo, um certo caráter constante da enunciação. (FOUCAULT, 2009, p. 36-7)
Nas asserções de Foucault, podemos notar que, no que se refere à formação discursiva, ele considera a presença de enunciados que se relacionam quanto ao tema, quer seja por oposição ou por semelhança. Por outro lado, ele também considera o “estilo” constante da enunciação, ou seja, a forma de enunciar, decorrente de um lugar de enunciação. Portanto, podemos considerar que a formação discursiva interfere no que diz respeito ao modo de enunciar de um sujeito, visto este ocupar um lugar no interior daquela. É segundo o funcionamento dos enunciados que podemos verificar seu pertencimento a esta ou àquela formação discursiva. Assim, mais uma hipótese de Foucault vem corroborar para uma definição mais exata, se é que podemos tratar assim sua definição, acerca da noção de formação discursiva. De acordo com Foucault,
(...) a quarta hipótese para reagrupar os enunciados, descrever seu encadeamento e explicar as formas unitárias sob as quais eles se apresentam: a identidade e a persistência dos temas. (FOUCAULT, 2009, p. 40)
103 Uma noção de formação discursiva serviria para o propósito de organizar os enunciados, mostrando o funcionamento de seus encadeamentos, explicando-lhes a forma, de tal modo que isso levaria a uma compreensão dos temas existentes sob as formas, ou seja, da relação de um enunciado com os demais, que fazem parte de um mesmo conjunto de enunciados. Logo, mesmo que suas formas se modifiquem, pela dispersão temporal dos discursos, poder-se-ia reagrupar um conjunto de enunciados, tendo-se em vista sua participação em uma mesma formação discursiva. No entanto, Foucault nega-se a discutir um ponto que nos é fundamental, qual seja a ideologia; em sua definição de formação discursiva, ele nos diz claramente sua tentativa de evitar o uso de tal designação, como podemos ver no excerto que se segue:
No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações), diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva – evitando, assim, palavras demasiado carregadas de condições e conseqüências, inadequadas, aliás, para designar semelhante dispersão, tais como “ciência”, ou “ideologia”, ou “teoria”, ou “domínio de objetividade”. Chamaremos de regras de formação as condições a que estão submetidos os elementos dessa repartição (objetos, modalidade de enunciação, conceitos, escolhas temáticas). As regras de formação são condições de existência (mas também de coexistência, de manutenção, de modificação e de desaparecimento) em uma dada repartição discursiva. (FOUCAULT, 2009, p. 43)
Notamos, pela definição acima, como exposto anteriormente, que Foucault mobiliza o conceito de formação discursiva de modo a estudar os sistemas de dispersão semelhantes, sobre os quais se possa definir uma regularidade, seja ela de funcionamento, de convenções ou de posições. Assim, não importa a ele as condições sócio-históricas de produção desses enunciados, tampouco sua relação com uma materialidade histórica da língua. Contudo, para mim, ao tratar o discurso, parto dos três princípios sobre os quais Pêcheux percorre seu caminho nos estudos do discurso, quais sejam: a língua, a história e o sujeito, considerando que a história
104 tem seu real afetado pelo simbólico, ou seja, pela ideologia. Portanto, vemos, deste modo, como se faz a entrada da ideologia naquilo que Foucault acredita haver apenas dispersão sem causa nem falha. Assim, acredito estar Foucault cingido por uma ilusão de literalidade, ou seja, mesmo sabendo existir a ideologia, nega-se a considerá-la nos estudos sobre o discurso. Vemos, no que se refere às condições de existência, que Foucault considera a necessidade de tais condições para que os enunciados, os discursos se mantenham, modifiquem-se, desapareçam. Nesse esteio, percorrendo o caminho do materialismo histórico, trazido por Pêcheux, acreditamos que o fato desses discursos se manterem, modificarem-se ou, até mesmo, desaparecerem deve-se às relações de lutas de classes, que são ideológicas. Então, por essas lutas ideológicas, mantêm-se certos discursos – os chamados dominantes –, modificam-se e tenta-se fazer com que outros desapareçam – os chamados dominados.
No mesmo sentido do que vimos tratando até agora, passemos para uma reflexão da noção-conceito de formação discursiva em Pêcheux, e o modo como ela produz sentido nos estudos da linguagem.