Assim como o humanismo associado à Renascença e a Revolução Científica, o
Iluminismo é um marco na história do conhecimento que influencia o trabalho e a apreensão
do seu sentido.
A consolidação do Iluminismo dá-se pela racionalidade, pela necessidade de explicar o
mundo, as ciências, artes e ofícios de forma sistemática.
O modus operandi utilizado foi semelhante ao do humanismo associado à Renascença e
à Revolução Científica somente realizado de forma mais intensa. Houve a multiplicação de
academias e a criação de organizações de fomento à pesquisa e investigação. O conhecimento
deveria ser, nas palavras de Peter Burke, “sistemático, profissional, útil e cooperativo”. Havia
140 BURKE, Peter. Uma História Social do Conhecimento: De Gutenberg a Diderot. Tradução de Plínio
Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 47.
141 ARENDT, Hannah. A condição Humana. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2008. 10 ed.
a necessidade de complementar-se a educação e a busca de conhecimento em instituições
alternativas.
O estudo de Peter Burke permite entendermos como se deu a evolução deste momento:
a partir da metáfora do livro de Bacon, Nova Atlântida, e com o envolvimento dos
governantes até chegarmos ao “surgimento do cientista”.
“[...] A famosa visão de Bacon da “Casa de Salomão” em seu romance filosófico Nova Atlântida (1626) descreve um instituto de pesquisas com uma equipe de trinta e três (sem contar os assistentes), observadores, experimentadores, compiladores, intérpretes e assim sucessivamente. Algo como isso, numa escala mais modesta, já existia em alguns lugares da Europa. A visão de Bacon talvez deva mais do que a atribuída em geral à Academia dos Linces em Roma, de que Galileu era membro; ao observatório de Tycho Brahe em Uraniborg, com seu complexo de prédios e assistentes; ou a Casa de Contratación em Sevilha, onde se coletavam dados e atualizavam mapas.
A posição de Bacon, por sua vez, provavelmente estimulou mudanças nas instituições. A Royal Society, repleta de admiradores de Bacon, esperava criar um laboratório, um observatório e um museu. Também patrocinava a pesquisa de Robert Hooke e Nehemiah Grew recolhendo subscrições. Numa escala mais ampla, Colbert, ministro de Luís XIV, gastou 240 mil libras em pesquisas dentro da Academia de Ciências, parcialmente na forma de salários para certos estudiosos, os pensionnaires (bolsistas), a fim de permitir que levassem adiante projetos coletivos como uma história natural das plantas.
Essas iniciativas da década de 1660 foram levadas mais adiante no século XVIII, a era das academias, em geral com apoio dos governantes, que pagavam salários aos sábios para que realizassem suas investigações, permitindo que seguissem carreiras fora das universidades pelo menos em tempo parcial. O cientista profissional do século XIX surgiu a partir de uma tradição semiprofissional. Aproximadamente setenta sociedades de estudiosos ocupadas por inteiro ou parcialmente com a filosofia natural foram fundadas no século XVIII, as mais famosas dentre elas as academias de Berlim, São Petersburgo e Estocolmo.”142
Além de todo o contexto histórico e social indicado acima, há a difusão de obras que
foram determinantes para a constituição do Iluminismo que merecem ser destacadas.
São três as principais obras e seus respectivos conteúdos que se tornaram fundamentais
para entendermos o Iluminismo e sua influência na história do conhecimento.
142 BURKE, Peter. Uma História Social do Conhecimento: De Gutenberg a Diderot. Tradução de Plínio
A primeira delas é a de Pierre Bayle denominada Dicionário Histórico e Crítico, a outra
é o Dicionário Filosófico de Voltaire, e finalmente a Enciclopédia, que deve sua compilação a
Diderot.
Pierre Bayle foi um crítico da revelação cristã. Na época não se criticava a ética de amor
e a fraternidade advindas do Cristianismo, mas sim s sua história sobrenatural, a teologia e a
Igreja. O Dicionário Histórico e Crítico de Bayle era um enorme compêndio que comparava e
questionava as partes mais conhecidas da revelação cristã e causou um enorme ceticismo ou
um escândalo para aqueles que acreditavam no Novo Testamento. A divulgação das idéias do
dicionário foi feita por Voltaire que culminaram na criação do Dicionário Filosófico de sua
própria autoria. Jacques Barzun nos conta como isto ocorreu.
“O Dicionário era uma obra que atrairia principalmente os intelectuais. Não surpreende que Jefferson o possuísse em cinco volumes, in-folio. Mas coube a Voltaire levar sua mensagem ao leitor educado comum, ao burguês abastado, aos homens e mulheres da alta sociedade e ao sortido grupo de freqüentadores de salons.
A sua mensagem era simples: o Livro de Gênesis não está errado num ponto: Deus criou o universo, mas ninguém sabe como, e Ele pôs em funcionamento de acordo com regras – as leis da ciência – com as quais Ele não tem razões para interferir. Isso é deísmo, a religião do homem racional. [...] Para transmitir este credo Voltaire usou de todos os recursos e estratagemas ao seu alcance; podia estar furtivamente inserido num panfleto político, na refutação de um ataque pessoal, numa tragédia em cinco atos, num breve poema ocasional, numa edição de um clássico ou numa carta particular. Finalmente, Voltaire condensou o argumento numa série de artigos em ordem alfabética – de quatro ou cinco páginas cada, sobre tópicos tais como Anjo, Ateu, Estado, Fanatismo, Igualdade, Messias, Milagre, Moisés – ao todo 73 verbetes intitulados Dicionário Filosófico.”143
A quantidade e a diversidade do conhecimento produzido nas academias, instituições,
bases de conhecimento era imensa. As inovações e as novas idéias necessitavam ser
organizadas de forma racional. Surgiu, então, a necessidade de reunir todo o novo
conhecimento em um único lugar acessível que se denominou Encyclopédie.
Criar a Enciclopédia foi um empreendimento que absorveu 26 anos da vida de Diderot.
Foram incluídos no empreendimento um matemático, D'Alembert, e o Chevalier de Jacourt –
um incansável pesquisador e prolífico redator de esboços de verbetes. Envolveu um total de
quatro mil assinantes, que ajudaram financeiramente os editores e queriam “acolher doutrinas
143 BARZUN, Jacques. Da Alvorada à Decadência: a história da cultura ocidental de 1500 aos nossos dias.
contrárias à tradição e à ortodoxia; nenhum pensamento verdadeiramente novo recebeu tão
ampla recepção”
144. Diderot completou 28 volumes da Enciclopédia que mais tarde recebeu
uma adição de 7 volumes de outro editor. A versão final da Enciclopédia tinha 35 volumes e
reunia a maior diversidade de conhecimento disponível na época.
Diderot registrava os métodos e recursos utilizados no trabalho. Ilustramos o ocorrido
com as informações de Jacques Barzun.
“[...] Mostrar ao mundo seus métodos e recursos marca uma data na história da techne: os ofícios tinham sido até então propriedade secreta de cada guilda. Mas, em meados do século XVIII, as invenções por pessoas de fora e a comunicação rápida tinham debilitado o controle das guildas; Diderot visita as oficinas sem impedimentos. Orientando o seu desenhista, ele tomava notas para as legendas explicativas. Sua atitude estava de acordo com a dos cientistas: o livre intercâmbio; e com a dos economistas esclarecidos: o livre comércio: Sobre os direitos editorais, Diderot também tinha uma palavra a dizer. Sua Carta sobre o comércio de publicar é uma apresentação clássica das condições então existentes da emancipação que deveria ocorrer para o bem do público e do autor.”145
Naturalmente esses acontecimentos não possuem uma total linearidade. Como
observamos o desenvolvimento e a divulgação do conhecimento e da técnica caracterizam-se
principalmente pela criação de entidades periféricas como as academias, bases de
conhecimento e outros, sustentados pelo interesse das pessoas, naquele momento, de explicar
os fenômenos pela utilização da razão. O conhecimento passa a ser adquirido, transmitido e
principalmente “produzido”. Era importante que os mistérios da natureza e das profissões
fossem decifrados, explicados e conhecidos pelo homem comum e não pela crença dos
homens em deuses sobrenaturais.
Max Weber, em seu livro Ciência e Política – Duas vocações oferece-nos uma
explicação elucidativa do que passa a significar o domínio das ciências pelo intelecto humano.
“O progresso científico é um fragmento, o mais importante indubitavelmente do processo de intelectualização a que estamos submetidos desde milênios e relativamente ao qual algumas pessoas adotam, em nossos dias, posição estranhamente negativa.
Tentemos, de início, perceber claramente o que significa, na prática, essa racionalização intelectualista que devemos à ciência e à técnica científica. Significará por acaso que todos os que estão reunidos nesta sala possuem, a
144 Ibidem. P. 407.
145 BARZUN, Jacques. Da Alvorada à Decadência: a história da cultura ocidental de 1500 aos nossos dias.
respeito das respectivas condições de vida, conhecimento de nível superior ao que um hindu ou um hotentote poderiam alcançar acerca de suas próprias condições de vida? É pouco provável. Aquele, dentre nós, que entra num trem não tem noção alguma do mecanismo que permite ao veículo pôr-se em marcha – exceto se for um físico da profissão. Aliás, não temos necessidade de conhecer aquele mecanismo. Basta-nos poder “contar” com o trem e orientar, conseqüentemente, nosso comportamento; mas não sabemos como se constrói aquela máquina que tem condições de deslizar. O selvagem, ao contrário, conhece, de maneira incomparavelmente melhor, os instrumentos de que se utiliza. [...] A intelectualização e a racionalização crescentes não equivalem, portanto, a um conhecimento geral crescente acerca das condições em que vivemos. Significam, antes, que sabemos ou acreditamos que, a qualquer instante, poderíamos, bastando o que quiséssemos, provar que não existe, em princípio, nenhum poder misterioso e imprevisível que interfira com o curso de nossa vida; em uma palavra, que podemos dominar tudo, por meio da previsão. Equivale isso a despojar de magia do mundo. Para nós, não mais se trata, como para o selvagem que acredita na existência daqueles poderes, de apelar a meios mágicos para dominar os espíritos ou exorcizá-los, mas de recorrer à técnica e à previsão. Tal é o significado da intelectualização.”146