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Nesta pesquisa, os registros de Lukács, sobre o desenvolvimento de seu percurso no campo literário, foram tomados como afirmação de um tipo de relação decisiva no processo de desenvolvimento de sua individualidade. Individualidade, aqui, afirmada como um exemplo de individualidade para-si.

Infere-se que, no decurso do desenvolvimento intelectual de Lukács, a relação com a literatura ofereceu, a ele, a possibilidade de apropriação de elementos humano-genéricos sobre distintos modos de vida, concepções de ser humano e de

sociedade, elementos que foram tomados, por Lukács (1971-1980, 1999, p.152), como base do posterior processo de objetivação da crítica, aos limites da própria particularidade burguesa húngara:

[...] Os Novos Poemas [de Endre Ady] exerceram sobre mim uma influência absolutamente revolucionária e grosso modo, eram a primeira obra de literatura húngara com a qual me sentia em casa e que considerei como parte de mim. [...] Influências formativas recebi somente da literatura universal, em primeiro lugar da filosofia alemã [...] [que] perdurou por toda minha vida. E, no fundo, tal influência não foi, é claro, modificada em nada nem mesmo pela experiência chocante que tive com Ady. (Lukács, 1971-1980, 1999, p.40, acréscimo, entre colchetes e, em itálico, meu) [...].

[...] Compreensão que não tinha verdadeiro talento literário. Não muito depois do colegial: todos os manuscritos destruídos. Daí, critério espontâneo: onde começa a verdadeira literatura? b) Ilusão destruída quanto ao teatro. Justamente prática na Thalia50 demonstra: sem talento para diretor. Forma especial da

transposição aqui – e crítica e teoria. [...] Com isso, preparação para crítico, teórico, historiador da literatura: impulso maior. / Cada vez mais conhecimentos: Alemanha. (Positivismo franco- inglês propagado por radicais sem efeito substancial.) Alemanha: decepção com a história da literatura [...] Apesar de tudo: análise teórica da literatura nunca abandonou totalmente o chão da sociedade. Teoria social-democrata: negativa – até consideravelmente em relação a Mehring51. Grande influência:

Lessing52, correspondência Schiller53-Goethe, romantismo do

Ateneu. Leitura: Schopenhauer54 e Nietzsche55. [Grifo em

itálico e, conteúdo entre parêntesis do autor. Acréscimo entre colchetes e, em itálico meu].

Ainda sobre esse período de inícios literários, após premiação “não- desejada”, Lukács registra vontade de abster-se de publicar seu trabalho como “premiado” e anuncia querer sair da situação a la Schopenhauer. Malgrado que o conteúdo exposto a seguir, possa ser tomado como um tipo de inútil preciosismo

50 Sociedade Thalia: fundada por Lukács, Bánóczi, Marcell Benedek e Sandor Hevesi, esta sociedade

teve papel importante no aprendizado de Lukács, pois durante as atividades dramatúrgicas compreendidas por seu desempenho em tal sociedade, o filósofo húngaro, ainda que não tenha se tornado diretor de teatro, teve a oportunidade de ver os textos “vividos” no palco.

51 Franz Erdmann Mehring (1846-1919), jornalista e historiador alemão. Foi editor-chefe do Social

Democratic Leipziger Volkszeitung newspaper.

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Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781), filósofo, poeta, dramaturgo e crítico de arte alemão, tido como um dos principais representantes do Iluminismo. Sua obra foi determinante ao desenvolvimento da literatura Alemã moderna. Lutou contra o anti-semitismo e pela defesa do livre pensamento.

53 Friedrich von Schiller (1759-1805), escritor alemão. Os dramas de Schiller situam-se entre a

tragédia clássica e o drama shakespeareano.

54 Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão da corrente irracionalista. O pessimismo deu

tom à sua obra, pela qual defendia a Vontade como força fundamental da natureza. A vontade não se refere ao finito, individual e ciente.

55 Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), filósofo e filólogo alemão. A leitura de “O Mundo como

Vontade e Representação”, de Schopenhauer foi determinante para a formação das bases de seu pensamento. Participou da guerra franco-prussiana como voluntário. Esta experiência o teria impactado profundamente.

julga-se relevante a atenção ao registro do movimento de apropriação do conteúdo literário, como lastro do qual o filósofo húngaro se serve, inclusive, para com sua mediação, deixar explícita, na vida cotidiana, a superação do que se poderia chamar de erudição fetichizada. Posto isto, faz-se uma breve notação: se Lukacs não tivesse se apropriado da obra de Schopenhauer, não haveria como explicar a saída – superação – de uma particular e complicada situação, objetivando uma qualidade consoante a um posicionamento à moda do referido autor.

Em continuidade à explicitação da mediação do conteúdo humano-genérico na vida cotidiana, o filósofo húngaro registra a vivência de um momento de crise e destaca a apropriação de L. Popper56 como auxílio à superação deste estado. Nestes registros fica patente a primeira característica, defendida por Leontiev (1978), como pertinente ao efetivo movimento de apropriação, a saber: a reprodução dos elementos

essenciais contidos no objeto resultante da atividade humana. Objeto que, por sua vez, condensa um conjunto de meios de ação que, como parte, compõe a totalidade do longo decurso da história de desenvolvimento da humanidade.

Ainda no registro das circunstâncias histórico-sociais constitutivas de sua individualidade, Lukács destaca o posicionamento de seu pai como seu mecenas e o reconhecimento de sua produção por homens importantes, tais como Max Weber57 e Thomas Mann58 para, então, marcar o começo daquele que ele mesmo chamou de período ensaístico.

Sobre a produção de ensaios, Lukács destaca a variedade dos fenômenos como necessidade e a sensibilidade para a “simultaneidade da multilateralidade do fenômeno isolado em concatenações não-mecânicas com as grandes substâncias gerais (totalidades)”. E, para compreender tal dinâmica o filósofo húngaro busca

56 Leo Popper (1886-1911), filho de David Popper*, crítico de arte e esteta.

*David Popper (1846-1913), violoncelista, estudou na Academia de Música de Praga, foi solista na Ópera Real de Viena. A partir de 1880 regeu a cátedra de violoncelo na Academia de Música de Budapeste.

57 Max Weber (1864-1920), intelectual alemão, considerado um dos fundadores da Sociologia, foi

jurista, economista, defendeu que elementos fundamentais da ética protestante ofereceram base favorável ao desenvolvimento do capitalismo.

mediações em Kierkegaard59, Meister Eckart60, bem como na filosofia oriental. Contudo, anuncia que a linha geral (em direção a Marx) não é abandonada.

Os registros finais sobre o período dos ensaios condensam extensa articulação entre um rico conjunto de objetivações genéricas e a vida concreta de Lukács: há menções sobre a importância de Cézanne61, Giotto62, Matisse63. Tais referências são comunicadas por meio de registros sobre seu posicionamento crítico com relação à produção artística.

Mas, alerta-se que, muito embora Lukács permeie seus registros autobiográficos com questões cotidianas, esse procedimento não se restringe à descrição de sua vida, no estilo da vida como ela é, quer dizer, em sua imediaticidade. Ao contrário, o filósofo húngaro se serve das questões cotidianas para trazer à tona e, à crítica, as múltiplas determinações advindas das convenções burguesas. Convenções que podem se constituir como mediações reificadas que, por vezes, se tornam preponderantes em situações geradoras de impedimentos ao desenvolvimento das mais variadas capacidades humanas. Mais ainda, como mediações que podem se tornar determinantes na formação de sentimentos contraditórios, de severos sofrimentos e, inclusive, de movimentos que podem fazer parte do direcionamento do indivíduo ao suicídio, pela síntese que este mesmo realiza das múltiplas determinações que se consolidam em seu cotidiano.

Lukács (1971-1980, 1999, p. 154) explica o

Período Kierkegaard [...] Irma Seidler64, a cuja memória é

dedicado A Alma e as Formas. Como no modelo – espontâneo, certamente não com intenção consciente: âmbito das rígidas convenções burguesas [...] Neste caso, o casamento seria única possibilidade de solução erótico-sexual. Comigo, ao contrário, –

59 Soren Kierkegaard (1813-1855), filósofo e teólogo dinamarquês, crítico de Hegel, produziu

reflexões sobre situações de escolha. Tornou-se influência no pensamento contemporâneo em várias esferas: filosofia, teologia, psicologia e literatura.

60 Meister Eckart (Eckhart von Hochheim) (1260?-1328?), teólogo, filósofo e místico alemão, teve

suas teorias condenadas pelo papado.

61 Paul Cézzane (1839-1906), pintor francês impressionista.

62 Giotto di Bondone (1267-1337), pintor e arquiteto italiano. Como resultado de suas pesquisas sobre

o volume e o espaço, introduziu a perspectiva na pintura, no período do Renascimento. Giotto foi considerado como um dos criadores da pintura moderna.

63 Henri Émile-Benoît Matisse (1869-1954), pintor francês, considerado como principal representante

do fauvismo (les fauves – subst. Francês: as feras). Marcou sua época com Picasso e Marcel Duchamp.

independência para produzir, absoluta, justamente por isso recusa muda. Assim, deu-se o “grande amor” no âmbito mais estreito do “decoro” social reinante. Para minha orientação de vida naquela época: formação de uma conduta de vida “ensaística”; para ela: insuficiência justificada na dubiedade da solução. Por isso (fins de 1908) casamento – mais tarde, revelou-se ruim [...] Ruptura [...] Após suicídio dela (1911) fim do período ensaístico (1911). Diálogo Pobreza de Espírito: tentativa de um acerto de contas ético com a minha cumplicidade no suicídio. Ao fundo: diferenciação das possibilidades de uma atitude ética como renovação espiritual do sistema de castas. Aqui o beco sem saída é claramente visível.

Destaca-se que Lukács não se privou de registrar fatos da vida cotidiana, que interferiram diretamente em sua produção intelectual: note-se o registro do triste desfecho da vida de Irma Seidler, por quem o filósofo húngaro se apaixonara em 1908 e a quem permanecera vinculado platonicamente. Netto (1983), tomando o período desse episódio, registra que Lukács vivera uma “enorme depressão” e que essa vivência teria favorecido ao filósofo húngaro a consolidação da hipótese do suicídio. Contudo, o autor também registra que Lukács, em movimento de “superação desta crise emocional, escreve, em 1912, o ensaio Da Pobreza de

Espírito.”.

Benzer Belgeler