As sociedades disciplinares do século XVIII até o início do século XX, abordadas por Foucault, foram organizadas com base nos grandes meios de confinamento. O indivíduo não cessava de passar de um espaço fechado a outro, envolvendo primeiro a família, depois a caserna, a fábrica, o hospital e eventualmente a prisão. Os distintos meios de confinamento, afirma Deleuze, funcionam combinando “variáveis independentes” (disciplina duradoura e descontinuidade) de tal modo que o indivíduo, confinado em instituições específicas, possa recomeçar sempre do zero iniciando pela família, passando pela escola, depois a fábrica, etc. Essa última, ao constituir um corpo único permite extrair dupla
vantagem ao proprietário “que vigia cada elemento na massa” e aos sindicatos que “mobilizam uma massa de resistência”16.
Com o passar dos anos o modelo de sociedade disciplinar iria conhecer suas crises devido ao surgimento de novas forças que lentamente se instalavam depois da II Guerra Mundial. Desde então, autoridades políticas e especialistas não se cansam de falar na urgência de reformas supostamente necessárias na esperança de salvar os meios tradicionais de confinamento, incluindo a prisão. Na tentativa de gerir a agonia dessas instituições as sociedades de controle em espaços abertos tendem substituir as sociedades disciplinares. Na fase do capitalismo avançado e produtor de miséria constante o indivíduo vê-se cada vez menos na condição de um sujeito “confinado” para identificar-se progressivamente como um “ser endividado”. Ao se defrontar com ¾ da população, pobre demais para a dívida e numerosa demais para o confinamento, novos mecanismos de controle devem ser pensados visando à “dissipação das fronteiras”17.
Uma nova forma de controle se instala e assiste ao “desmoronamento dos muros que definiam o lugar de passagem e de produção da subjetividade das instituições” disciplinares modernas. Com o advento da crise do liberalismo econômico e do projeto político iluminista apaga-se cada vez mais a diferença entre o fora: lugar da razão e da consciência, da política, do espaço público, da exposição de idéias e da busca de reconhecimento e o dentro: espaço privado, das emoções, das pulsões. No mundo atual, precedido por duas guerras mundiais, os espaços públicos são privatizados e o lugar da política tende a desaparecer. A paisagem urbana é recortada por galerias comerciais, condomínios fechados e pela proliferação de subúrbios, vistos atualmente como lugares amorfos, indefinidos e multiplicadores de desvios.
Desde a década de 1970, particularmente depois da ruína do império soviético no final da década seguinte os inimigos do poder identificados, combatidos, eliminados, encarcerados ou monitorados à distância localizam-se dentro da própria fronteira. A necessidade da guerra nas sociedades de controle adquire contornos menos espetaculares. O outro de fora já não constitui ameaça ao poder soberano. A guerra imperial, então, assemelha- se a uma “guerra civil, uma ação de polícia”. O maior desafio enfrentado pelos estrategistas de guerra passa a ser identificar e combater a proliferação de “inimigos menores e imperceptíveis”18.
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DELEUZE, Gilles. Conversações. 2.ed. São Paulo: Editora 34, 1998, p.221. 17
DELEUZE, Conversações, op. cit., p. 224. 18
Na vigência das sociedades de controle o Estado incorpora uma forma de poder que tem por objetivo a natureza humana. As desigualdades econômicas, sociais e raciais operam à base de teorias explicativas relativistas. O racismo imperial não vê as nações como o produto de unidades biológicas diferenciadas. Admite que o comportamento, a capacidade e a aptidão dos indivíduos não estão atrelados à cor do sangue e ao tipo de genes, mas às diferenças culturais instituídas historicamente e capazes de produzir combinações infinitas.
A cultura substitui a biologia como forma explicativa para instituir um tipo peculiar de racismo sem raça. A difusão de uma posição teórica fundada na idéia do pluralismo indiscutível assevera que “todas as identidades são, em princípio, iguais. A diversidade de identidades é acolhida sob a condição de que se aceite agir com base na inviolabilidade das diferenças, preservando-as “como indicadores talvez contingentes, mas totalmente sólidos, de separação social”. A defesa de uma “posição pluralista” contra qualquer indicador de exclusão racial conserva, ao mesmo tempo, “o princípio da separação social”19.
O racismo político pós-moderno opera em silêncio afirmando identidades culturais diferentes e destacando a permanência de tradições insuportáveis. Supera o discurso biológico determinista das raças em favor de hierarquias raciais flexíveis produzidas acidentalmente. A teoria racista imperial da sociedade em curso se efetiva à base da “segregação e não de hierarquia” absoluta. Admite que a “[...] hierarquia entre as raças não é entendida como causa, mas como efeito das circunstâncias sociais”20. O fato, por exemplo, dos afro-americanos de determinada região apresentarem notas escolares inferiores aos indivíduos de origem asiática não pode ser explicado, em termos de inferioridade racial, mas como o resultado de efeitos culturais: “a cultura dos americanos de origem asiática atribui à educação uma importância maior”, estimula seus filhos estudarem em grupo, etc.
Admite-se que as relações sociais e políticas de hegemonia e submissão entre as “raças não é uma questão teórica, mas advêm da livre competição” econômica e meritocracia cultural. O racismo imperial funciona reforçando o papel positivo da “inclusão diferencial” esforçando-se para que a dominação branca se processe sem xenofobia. A regra admite que toda forma de identidade deva ser aceita e incluída sem deixar ninguém de fora. Tolera-se “a alteridade, para em seguida, submeter as diferenças, segundo os graus de afastamento do elemento branco” europeu ou norte-americano. O racismo imperial não pensa
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HARDT. A sociedade mundial de controle, op. cit., p.364. 20
e conceitua as diferenças raciais em termos absolutos e nem as vê como algo necessário, mas como o resultado de acontecimentos acidentais. Na sociedade imperial de controle, a submissão das identidades exóticas ou diferentes daquelas onde prospera os valores econômicos, políticos e culturais dominantes, se mostra, não no texto da lei, mas nas “práticas cotidianas mais móveis e flexíveis” que criam “hierarquias racionais não menos estáveis e brutais”21
Enquanto a meta do poder soberano, na fase do Estado-nação imperialista, consistia em “empurrar a diferença até o extremo” e, em seguida, recuperar o outro (de fora) como “fundamento negativo do Eu” (de dentro), ressaltando o problema da cor, na fase imperial global, o objetivo do poder é a integração diferencial do outro em seu próprio domínio para, em seguida, orquestrar quantas diferenças houver em um sistema de controle com a intenção de gerir “as microconflitualidades numa zona sempre em expansão”22. Os mecanismos institucionais de poder operam valorizando as diferenças, concedendo direitos, gerindo o aumento da miséria urbana e alertando a todos a necessidade da co-participação para minimizar os perigos inerentes de se viver numa sociedade de risco.
O indivíduo, com o fim da II Guerra Mundial e afirmação universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, foi exaustivamente convocado a participar da vida no seio de uma sociedade que aposta na proliferação de direitos. A era do capitalismo globalizado, tecnológico e religioso admite que a ganância seja possível, a desigualdade inevitável e a guerra localizada, um exercício de rotina. Acredita-se que a exigência da participação de todos possa amenizar o sofrimento de muitos.
A difusão de acordos econômicos sem fronteiras, da fraternidade estatal e da expansão das organizações civis promete tornar o mundo melhor apelando-se à era do voluntariado, da responsabilidade ética, do interesse comum, da piedade e da profusão multicultural de direitos. O Estado, as instituições supra-estatais, as organizações econômicas e a mídia convocam diariamente todos a participar, a dialogar e a levantar a bandeira dos pluralismos. Para alcançar êxito econômico na vida pessoal e receber o título de cidadão politicamente correto é preciso saber convencer, é preciso saber envolver, é preciso mostrar as vantagens de estar dentro.
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HARDT, A sociedade mundial de controle, op. cit., p.366. 22