Podemos conferir nos textos agostinianos que quase sempre a análise profunda do conhecimento verdadeiro culmina na prova da existência de Deus. Como a prova acaba sendo conseqüência de uma contra-argumentação aos céticos, antes de estabelecer a certeza na existência de Deus, Agostinho trata de provar a possibilidade da certeza em geral, apoderando-se da primeira e maior de todas as certezas: sua própria existência. Será sob o contexto do engano e da dúvida que Agostinho afirmará a indubitabilidade da existência de si, pois para se enganar é preciso antes de tudo ‘ser’.
Vejamos como Agostinho articula sua argumentação:
Ag. – Assim, pois, para partirmos de uma verdade evidente, eu te perguntaria, primeiramente, se existes. Ou talvez, temas ser vítima de engano ao responder a essa questão? Todavia, não te poderias enganar de modo algum, se não existisses.
Ev. – É melhor passares logo adiante, às demais questões.
Ag. – Então, visto ser claro que existes – e disso não poderias ter certeza tão manifesta, caso não vivesses – é, também coisa clara que vives. Compreendes bem, que há aí duas realidades muito verdadeiras?
Ev. – Compreendo-o perfeitamente.
Logo, é também manifesta terceira verdade, a saber, que tu entendes? Ev. – É claro
Ag. – Qual dessas três realidades (existir, viver e entender) parece a ti a mais excelente?
Ev. O entender135.
Se fica assegurada a abjeção aos céticos por meio dessa apreensão primeira, é preciso ainda dar um passo adiante para justificar a existência de algo, superior à própria razão, capaz de reger a tudo sem ser regido por nada. É nesse sentido que Agostinho estabelece duas regras de base. A primeira delas diz que “aquilo que inclui
certas outras perfeições, sem estar incluído nelas, é mais perfeito que estas”136, e a segunda, que “aquilo que julga de outras coisas é mais perfeito que as coisas sujeitas ao seu julgamento”137. Ora, das três realidades de base referidas acima: o ser, a vida e o conhecimento, este último será o mais elevado, pois o conhecimento implica a vida e o ser, ao passo que nem o ser nem a vida implicam o conhecimento. É possível ser sem viver e conhecer, como a pedra. Também é possível ser e viver sem conhecer, como os animais. Porém não se pode conhecer sem ser e sem viver. Assim, o conhecimento, atributo do homem implica os outros dois conceitos sendo, portanto, o mais perfeito de todos.
Na mesma perspectiva Agostinho estabelece uma ordem hierárquica do saber. O conhecimento sensível, apesar de ser o mais evidente, é sempre limitado ao objeto e ao seu órgão respectivo de percepção. Os sons dependem somente do ouvido, já as figuras e as formas podem ser percebidas pelos olhos e pelo tato. Esse tipo de conhecimento é, no entanto, comum a todos, o que implica a existência de uma força superior e interior capaz de sentir os objetos exteriores.
Os objetos corpóreos são atingidos pelas sensações. Em si mesmos são incapazes de produzir conhecimento, pois estão no nível tão somente do existir. As sensações, ao contrário, estão no nível do viver. Elas, sim, produzem conhecimento, porque pertencem à alma.
Apesar de afirmar que as sensações são próprias da alma e, conseqüentemente, superiores aos objetos que sensoriam, ainda estamos falando, aqui, de um tipo de percepção também presente nos animais. O que transcende a esse sentido interno é o que julga de outro sem ser julgado por ele, a saber, a razão que, de acordo com a regra, será o que há de mais elevado no homem. A razão é uma terceira verdade, superior a todas as outras, que está presente somente no homem. É, pois, por meio dela que o homem sabe que existe e vive.
É exatamente nesse ponto que Agostinho encontra lugar para a argumentação da prova da existência de Deus. Acima da razão deve existir algo que a julga e não é
136 BOHENER & GILSON. História da Filosofia Cristã, p. 154. 137 Ibidem.
julgado por ela, e esse algo é a Verdade. “Acima da razão está a Verdade, que julga e modera a razão”138.
Voltando um passo atrás, dizemos que a razão é superior aos sentidos, como a Verdade é superior à razão. Ao falarmos de uma sensação proveniente de um objeto sensível, expomos uma experiência de domínio totalmente interno. Ainda que o objeto da sensação seja comum a todos, a experiência sensitiva é sempre particular.
Mas ao se procurar aqueles parâmetros que regram o conteúdo dessas sensações, o homem percebe a superioridade do universal sobre o particular, do eterno sobre o temporal, ou que sete mais três são dez. O homem descobre que a Verdade não depende dele, pois o verdadeiro é eternamente verdadeiro e subsiste independentemente de se ter ou não sua posse.
As diferentes verdades provenientes das realidades sensíveis são eminentemente provisórias e isoladas das experiências individuais. Uma vez que se submeta essas experiências aos padrões inteligíveis do conhecimento, os conhecimentos podem, enfim, ser compartilhados com outros.
Independente do espírito, a Verdade é tanto transcendente como reguladora. Assim que, ao procurar a Verdade inteligível, o espírito descobre uma lei que lhe é superior e uma natureza imutável que é Deus. Não se chega à Verdade por meio de um salto no transcendente, mas sim pela elevação gradual do espírito em direção à luz iluminadora dessa Verdade transcendente. O conhecimento, nesse sentido, é produto da ação reguladora da Verdade eterna e imutável e da ação do espírito que se predispõe a procurá-la. Em suma, o conhecimento será para Agostinho a descoberta da Verdade que se confunde com a própria descoberta de Deus.