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Nesta seção serão discutidos os resultados, orientados pela resposta às hipóteses e levando em consideração cada uma das variáveis. A partir da análise dos dados constatou-se que a hipótese H4 foi suportada, enquanto as hipóteses H1, H2 e H3 não foram suportadas, como mostrado na seção 4.4 e resumido no Quadro 09. Vale destacar que o modelo de dados em painel de efeitos fixos utilizados não demonstrou efeitos do tempo significantes.

Em termos da variável ambiente de governança, ainda que a variável tenha obtido significância, a hipótese não pôde ser suportada, pois a variável apresentou coeficiente contrário ao proposto, representando uma relação inversa entre o ambiente de governança rule-based e a intensidade da comunicação de RSC. Estudos anteriores,

como o de Lattemann et al. (2009) e o de Li et al. (2010), encontraram uma relação positiva entre o ambiente de governança rule-based e as práticas de RSC.

Lattemann et al. (2009), apesar de ter encontrado uma relação positiva entre ambiente de governança rule-based e a comunicação de RSC, ao estudar a China e a Índia, argumentam que economias do Leste Asiático obtiveram sucesso ao manter seu ambiente de governança relation-based durante seus estágios emergentes. Conforme Li, Park e Li (2004), o modelo relation-based é o mais indicado para economias que possuem mercado pequeno, anti-competitivo, onde existe um pequeno número de parceiros de transação e há pequeno alcance das atividades intra e interfirmas.

Li e Filer (2007) destacam que, embora a maioria das pesquisas classifique os ambientes relation-based como pobres, ineficazes para proteger os direitos de propriedade e prejudiciais ao investimento, esta visão é simplista, pois muitos países com um sistema relation-based atraem uma quantidade significativa e crescente de investimento estrangeiro, tais como a China e a Rússia. Isto significa que esses investidores devem ter encontrado um ambiente relation-based eficiente e eficaz para proteger o seu investimento. A governança deve ser considerada como um continuum entre dois extremos, relation-based de um lado e rule-based na outra ponta, no qual dificilmente se encontrará uma estrutura de governança em um dos extremos.

Assim, um motivos para que o impacto do ambiente de governança sobre a intensidade da comunicação de RSC ter sido negativo pode ser o fato das economias dos países estudados, apesar do crescimento e desenvolvimento conquistados nas últimas décadas, ainda encontrarem-se em estágios de desenvolvimentos emergentes, fase em que o ambiente relation-based torna-se mais eficiente que o rule-based, haja visto que evita grandes investimentos no desenvolvimento da infraestrutura requerida por um ambiente de governança rule-based.

Outra explicação para o fato do impacto negativo do ambiente de governança sobre a intensidade de comunicação de RSC, é o fato do índice de intensidade de comunicação de RSC ser dado pelo comportamento das empresas, organizações estas que atuam em um mercado global, sofrendo influencia não só do seu país de origem, mas de outros países onde atuam, do setor ao qual pertencem e do comportamento de seus concorrentes. Lim e Tsutsui (2012) asseveram que as atividades de RSC sofrem efeito do contexto nacional e internacional. Globalmente há uma crescente exigência por transparência nas organizações (ARVIDSSON, 2010; BARTLETT; DEVIN, 2011), fazendo com que as empresas preocupem-se em comunicar suas ações. Além disso, destaca Robertson (2009), a proeminência da internet e outras formas de comunicação

global tornaram não mais possível para a RSC (ou a falta de RSC), em qualquer país, permanecer escondida do resto do mundo. Este potencial de monitoração global tende a levar a padronização das práticas de RSC.

Lim e Tsutsui (2012) afirmam que, neste cenário, as empresas dos países em desenvolvimento, ao sofrerem pressões da sociedade internacional, passam um processo mimético, juntando-se a estruturas globais de RSC. Tem-se assim um aumento do isomorfismo nas estruturas, comportamentos e políticas de organizações locais em vários contextos nacionais, adotando modelos legítimos na sociedade internacional. Portanto, a intensidade da comunicação de RSC pode ser influenciada por pressões globais, o que explica o fato desta aumentar ainda que o ambiente de governança do país seja relation-based.

Em relação à variável desenvolvimento econômico, representado pela variável PIB per capita, surpreendeu pelo fato de não apresentar impacto sobre a intensidade da comunicação de RSC. Estudos anteriores, como o de Baughn, Body e McIntosh (2007) e Li et al. (2010), apontam que um maior nível de riqueza permite ao cidadão preocupar-se com o bem-estar não econômico da sociedade, pressionando as organizações e fazendo maiores exigências de responsabilidade corporativa.

No entanto, a riqueza per capita (PIB per capita) não é o único indicador de desenvolvimento econômico, devendo ser levados em consideração indicadores como o controle do governo sobre a economia e a tipologia do sistema econômico. Estudos como o de Chapple e Moon (2005) e o de Lim e Tsutsui (2012), sugerem utilizar os investimentos diretos estrangeiros como medida de desenvolvimento econômico. O fato de considerar somente o PIB per capita como medida de desenvolvimento econômico pode ser um dos motivos desta variável não ter sido considerada significativa.

Como afirmado por Mahmood e Humphrey (2013), o estágio de desenvolvimento econômico de um país pode conduzir a uma diferente percepção dos

stakeholders quanto à importância das atividades de RSC. Os países estudados podem

se encontrar em um estágio de desenvolvimento econômico no qual há maior ênfase nos benefícios econômicos que as empresas podem gerar para a sociedade ao invés das suas práticas de RSC.

A variável corrupção governamental, representada pela variável CPI, não impactou a intensidade da comunicação de RSC. Rodríguez, Uhlenbruck e Eden (2005) argumentam que, ao se comparar países, uma simples percepção do nível de corrupção é insuficiente. Para que haja comparações significativas de corrupção entre os países, é necessário avaliar a natureza da corrupção local, que é concebida como uma

combinação de duas características essenciais para se compreender a diferenciação de corrupção entre países: difusão e arbitrariedade. A difusão capta o grau em que uma empresa é obrigada a lidar com o comportamento corrupto. Arbitrariedade capta o grau de ambiguidade associado com as transações corruptas em uma determinada nação ou estado. Essa estrutura bidimensional para descrever corrupção local permite compreender de forma significativa os desafios da corrupção em um determinado estado e como eles diferem daquelas em outros estados, de modo a evitar ou explorá-los.

Portanto, as ações das empresas não sofrem somente influência da corrupção governamental, mas também da natureza da corrupção (difusão e arbitrariedade). Essa pode ser a principal explicação para a corrupção governamental não ter sido considerada significativa, pois o estudo focou-se somente no nível da corrupção governamental. A intensidade da comunicação de RSC pode sofrer também influência do tipo de corrupção, ou junção do nível de corrupção e sua natureza. Outra explicação é que o indicador escolhido, CPI, pode não ser a melhor representação da corrupção governamental.

A variável independente nível educacional, considerada significante, corrobora com a hipótese proposta. Tem-se que quanto maior é o nível educacional do país, maior a intensidade da comunicação de RSC. Estudos anteriores de Quazi (2003), Sobczak, Debucquet e Havard (2006), Tseng et al. (2010), Cheah et al. (2011), Huang (2013), Pérez e Rodríguez del Bosque (2013) e Cai e Aguilar (2013), indicavam a importância do nível educacional.

Quazi (2003) evidenciou o efeito positivo do nível educacional sobre a percepção dos gestores em relação às implicações de RSC. Huang (2013) destaca que o nível educacional dos CEO, particularmente a especialização educacional em cursos de MBA (Master of Business Administration) e de MS (Master of Science), afetam positivamente o desempenho de RSC das suas empresas. Conforme Sobczak, Debucquet e Havard (2006), fatores como o nível educacional e a orientação educacional também impactam positivamente sobre a percepção do negócio e atitudes pessoais em relação a conceitos e ferramentas de RSC de estudantes e jovens gestores.

Pérez e Rodríguez del Bosque (2013) destacaram o efeito positivo de níveis educacionais sobre o nível de consciência de responsabilidade social dos clientes. Cai e Aguilar (2013), ao analisar o comportamento dos consumidores da indústria madeireira dos Estados Unidos e da China, apontam que os níveis de escolaridade dos consumidores influenciam suas escolhas em relação a de que empresas comprar. Os

entrevistados de nível de ensino superior, de ambos os países, possuem preferências mais elevadas, buscando produtos de organizações de nível de RSC mais elevados.

Por sua vez, Tseng et al. (2010) argumentam que a educação tem papel fundamental na implementação da RSC nas pequenas e médias empresas. A educação tem papel vital na comunicação e persuasão dos funcionários e acionistas a apoiar a RSC, ajudando a equipe a estabelecer e aprofundar ideias de RSC, treinar os funcionários acerca da RSC e internalizar conceitos de responsabilidade social corporativa.

Cheah et al. (2011) demonstram que, quanto maior o nível educacional dos investidores, mais eles tendem a conscientes e preocupados com os impactos socioambientais das atividades das empresas, sendo também mais céticos em relação aos relatórios anuais das organizações.

Como destacado por Gao (2010), as questões educacionais são essenciais para o progresso humano, o desenvolvimento da sociedade, e a criação de um ambiente econômico saudável. A educação exerce um papel-chave como motor do bem-estar, a longo prazo, dos países em desenvolvimento. E, como demonstrado pelas pesquisas citadas acima, a educação também exerce papel importante em relação à RSC. Nessa linha, o presente estudo amplia a importância do nível educacional, mostrando que este também impacta de forma positiva na intensidade de comunicação de RSC.

Benzer Belgeler