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9.9.1. Programlanmış Tarama
Solicita-se, em várias das oficinas, que os adolescentes exponham ao grupo as suas opiniões, conhecimentos, pensamentos e sentimentos sobre o assunto debatido. Essa exposição pode acontecer tanto em subgrupos que devem se formar ou no grupo maior com
todos os adolescentes presentes. “Escreva no quadro a palavra AIDS. Peça que os(as) participantes falem a primeira coisa que lhes vier à cabeça, quando escutam essa palavra.” (BRASIL, 2010b, p. 16). “Peça aos(às) participantes que pensem em algo que tenham visto, ouvido, falado ou sentido sobre sexualidade. [...] peça que formem grupos de 4 ou 5 pessoas e que conversem sobre as conclusões a que chegaram sobre o que vem a ser sexualidade.” (BRASIL, 2010e, p. 21-22). “Depois de definir o que significa o termo vulnerabilidade, divida os(as) participantes em 4 grupos menores e solicite que reflitam sobre as diferentes formas com que os(as) jovens se relacionam.” (BRASIL, 2010b, p. 27). “Solicite que cada pessoa do grupo verbalize a expectativa que trouxe para essa oficina e o que está levando para sua experiência como jovem educador de pares. Em seguida, discuta coletivamente.” (BRASIL, 2010b, p. 42). “Pergunte aos(às) participantes o que entendem por solidariedade e se têm alguma história sobre esse tema para contar.” (BRASIL, 2010b, p. 48). “Em seguida, pergunte aos demais componentes do grupo como se sentiram tratando os (as) voluntários(as) de acordo com o que a tarjeta trazia.” (BRASIL, 2010b, p. 49);
Desta maneira, a educação sexual proposta pelo SPE parece necessitar, para o seu funcionamento, do acionamento de uma série de práticas de confissão dos alunos sobre as suas opiniões, pensamentos e experiências acerca da sexualidade. Como já foi brevemente mencionado no primeiro capítulo desta dissertação, a confissão, em última instância, é um mecanismo de formação de sujeitos. A confissão foi uma “Imensa obra a que o Ocidente submeteu gerações para produzir – enquanto outras formas de trabalho garantiam a acumulação do capital – a sujeição dos homens, isto é, sua constituição como ‘sujeitos’, nos dois sentidos da palavra.” (FOUCAULT, 1988, p. 69). E o sexo é o grande tema da confissão até hoje.
O dispositivo de sexualidade constituiu-se e operou a partir da confissão enquanto uma de suas tecnologias de poder. O poder, ao institucionalizar o mecanismo de confissão, institucionaliza a produção de verdade. Segundo Candiotto (2004), o dispositivo da sexualidade é o mecanismo de poder que produz como efeito a verdade do sexo e a produção de verdade sobre o sexo é privilegiada na confissão. É exatamente a confissão que faz a ligação entre verdade e sexo, ao revelar as práticas individuais. A verdade irá servir de suporte às práticas sexuais. “De uma forma geral, eu direi o seguinte: a sexualidade, no Ocidente, não é o que se cala, não é o que se e obrigado a calar, mas é o que se e obrigado a revelar.” (FOUCAULT, 2001, p. 213).
Foucault (1988) afirma que, tanto nas sociedades orientais quanto na Roma e Grécia antigas, há uma arte erótica que produz discursos sobre a intensificação do prazer sexual. Ele as contrapõe às sociedades ocidentais, onde se faz uma ciência sexual sobre a sexualidade que não fala do prazer, mas fala da verdade sobre o sexo e sobre a sexualidade. Foucault (1988) aponta que, na civilização ocidental, desde a Idade Média, a produção de verdade sobre o sexo acontece através de uma scientia sexualis, possuindo como pivô a confissão, que é exercida tanto nos poderes civis e quanto nos religiosos.
Como afirma Castro (2009), na ars erótica a verdade do sexo é extraída do prazer, enquanto na scientia sexualis a verdade do sexo mostra-se a partir de um procedimento de poder-saber que tem a confissão (aveu12) como eixo. A confissão fez-se presente na justiça, medicina, pedagogia, famílias, relações amorosas e em diversas dimensões da vida.
Foucault (1988) afirma que o mecanismo da confissão possui as suas origens no sacramento da confissão na pastoral cristã, que estava ligada à penitência13. Anteriormente ao Concílio de Trento, a confissão católica baseava-se na descrição minuciosa dos atos pecaminosos cometidos, inclusive o ato sexual. Depois do Concílio, o exame dos atos passam a ser menos minuciosos e a discrição é cada vez mais recomendada. O ato em si deve ser contornado com a escolha certa de palavras.
Apesar disso, a extensão da confissão só aumenta depois da Contra-Reforma. Ela passa a dever ser realizada com maior frequência e nela cada um deve examinar a si mesmo e detalhar não mais somente os atos cometidos, mas principalmente as vontades, intenções, pensamentos e sonhos. Não mais somente o corpo é confessado, mas também a alma. É nessa alma que está escondida a verdade do ser humano.
O sexo é especialmente explorado nos atos confessionais. Não tanto o ato sexual, mas sim os devaneios, as imagens, desejos. Deve-se colocar em discurso a linha de junção do corpo e da alma e o sexo não pode ser nem completamente ocultado e nem totalmente desvelado. É isto que a pastoral cristã institui: que o sexo passe constantemente pelo crivo da palavra. Com a confissão, a pastoral busca efeitos sobre o desejo: efeitos de domínio, de
12 Foucault, na História da Sexualidade I: A vontade de saber, utiliza dois termos em francês, “confession” e
“aveu”, para o termo em português “confissão”. Aveu significa enunciar algo sobre si, enquanto confession é uma das modalidades de aveu, que é codificada na prática da penitência cristã enquanto sacramento.
13 A confissão liga-se ao núcleo da penitência apenas a partir do século VI com a chamada penitência tarifada.
Antes disso, no cristianismo primitivo do século II ao V, a confissão verbal não desempenhava um papel fundamental (CASTRO, 2009).
desinteresse, de reconversão espiritual, de retorno a Deus e efeito físico de dores por resistir às tentações.
De acordo com Foucault (1988), essa técnica de confissão que coloca o sexo em discurso iniciou-se na igreja cristã, mas foi posteriormente relançada por outros mecanismos de poder, pois se tornou técnica essencial para estes. Essa descrição minuciosa da sexualidade já aparece na literatura em Sade, no século XVII e aparece ainda no século XIX, em My secret
life. Por volta do Séc. XVIII, a demanda de que se fale sobre sexo passou a ser não mais
apenas religiosa, mas também política, econômica e técnica. Diversos mecanismos de confissão dispersam-se em diversas instituições, diferentemente da Idade Média, onde havia um discurso unitário do tema da carne e da prática da confissão.
Do singular imperativo, que impõe a cada um fazer de sua sexualidade um discurso permanente, aos múltiplos mecanismos que, na ordem da economia, da pedagogia, da medicina e da justiça incitam, extraem, organizam e institucionalizam o discurso do sexo, foi imensa a prolixidade que nossa civilização exigiu e organizou. (FOUCAULT, 1988, p. 39).
Surge uma nova necessidade: a de formular sobre o sexo um discurso que não seja apenas moral, mas também racional. Portanto, esses novos discursos não marcam a distinção entre o lícito e o ilícito, mesmo que essa demarcação seja preservada no interior do locutor, mas sim transmitem que o sexo é algo a ser administrado, tornado útil e regulado da melhor forma.
Foucault fala que o sexo, no Séc. XVIII, torna-se domínio da polícia e esclarece: “Polícia do Sexo: isto é, necessidade de regular o sexo por meio de discursos úteis e públicos e não pelo rigor de uma proibição.” (FOUCAULT, 1988, p. 31). Tal característica dos discursos sobre o sexo apresenta uma continuidade com o projeto Saúde e Prevenção nas Escolas, uma vez que ele busca não tanto marcar uma diferença entre o lícito e o ilícito ou um julgamento moral, mas sim, primordialmente, administrar e tornar administrável o sexo.
A partir disto, Foucault (1988) afirma que a confissão, que antes era restrita ao âmbito religioso, expandiu-se e modificou-se principalmente após o protestantismo, a contra- reforma, a pedagogia do séc. XVIII e a medicina séc. XIX. Os médicos psiquiatras passaram a identificar e classificar todos os despropósitos sexuais. Mesmo os prazeres mais singulares “[...] eram solicitados a sustentar um discurso de verdade sobre si mesmos, discurso que deveria articular-se não mais àquele que fala do pecado e da salvação, da morte e da eternidade, mas ao que fala do corpo e da vida – o discurso da ciência” (FOUCAULT, 1988,
p. 73). Dessa forma, no Ocidente moderno, a vontade de saber sobre o sexo liga os rituais de confissão aos esquemas das regularidades científicas. E de que forma essa ligação acontece?
Conforme Foucault (1988), primeiro, essa ligação acontece através de uma codificação do que é dito, onde o que o indivíduo diz de si mesmo é tomado como sinais e sintomas decifráveis. Segundo, acontece através do estabelecimento de uma causalidade, onde cada menor ato da sexualidade pode vir a causar uma consequência futura. No séc. XIX, expandiram-se as etiologias sexuais das mais diversas patologias. Terceiro, através da crença em uma obscuridade própria da sexualidade. A confissão passa a se tratar não apenas do que o sujeito não gostaria de revelar, mas também do que se oculta do próprio sujeito, que só poderá aparecer pela confissão. Quarto, através da utilização da interpretação. A verdade que o sujeito apresenta ao falar não é completa, ela só torna-se completa quando um outro a escuta e não apenas a julga ou condena, mas também decifra e, portanto, diz a verdade. E, por último, através da medicalização da sexualidade. O que é confessado não será apenas julgado por uma norma social ou religiosa, mas também médica, do normal e do patológico. A confissão passa a ser fundamental não apenas para o diagnóstico, mas também para a cura.
É através desse dispositivo scientia sexualis de produção de discursos de verdade sobre o sexo, em que a confissão é ligada aos métodos de escuta clínica, que foi possível aparecer a sexualidade enquanto verdade sobre o sexo e seus prazeres.
No ponto de intersecção entre uma técnica de confissão e uma discursividade científica, lá onde foi preciso encontrar entre elas alguns grandes mecanismos de ajustamento (técnica de escuta, postulado de causalidade, princípio de latência, regra da interpretação, imperativo de medicalização), a sexualidade foi definida como sendo, “por natureza”, um domínio penetrável por processos patológicos, solicitando, portanto, intervenções terapêuticas ou de normalização; um campo de significações a decifrar; um lugar de processos ocultos por mecanismos específicos; um foco de relações causais infinitas, uma palavra obscura que é preciso, ao mesmo tempo, desencavar e escutar. (FOUCAULT, 1988, p.78).
Diante desse status de cientificidade da confissão, tal fala sobre o próprio sexo não é feita a qualquer pessoa. Como afirma Fonseca (2011), deve-se confessar aos experts, que são legitimados como as pessoas que sabem interpretar ou traduzir o que escutam em verdades sobre o sujeito. É a busca pela verdade sobre si que leva o sujeito a confessar-se a estes experts. Nessa vontade de verdade, a confissão sobre o sexo é privilegiada, pois ela baseia-se na ideia de que é no corpo e nos seus desejos que se encontram as verdades mais obscuras do ser humano.
Assim, na confissão, há sempre um ritual em que um fala de si e outro interroga, escuta e interpreta. Neste ritual, desenrola-se uma relação de poder entre o locutor e aquele
que ouve que, ao demandar e escutar a confissão, julga, pune, perdoa, consola ou reconcilia. Enquanto isso, o ato de confessar-se irá produzir efeitos no locutor, que será perdoado, inocentado, liberado, salvo.
Como afirma Candiotto (2007), as práticas confessionais nas quais os indivíduos fazem enunciações sobre si mesmos produzem como efeito de poder a sujeição das subjetividades. Principalmente com a instituição do caráter científico da confissão, o sujeito passa a ser objeto de conhecimento capturado por relações de poder e saber.
Tendo então explorado conceitualmente o mecanismo de confissão, torna-se possível lançar um olhar às oficinas do projeto Saúde e Prevenção nas Escolas e perceber o funcionamento de algo da ordem de uma scientia sexualis. Uma vez que a confissão faz funcionar uma produção de verdade sobre o sexo, os adolescentes, ao falarem sobre si mesmos, sujeitam-se à verdade que ali se constrói, tornam-se aquilo mesmo que dizem ser. Produzem-se aí subjetividades.
Aveu constitui uma espécie de éngagement do sujeito em relação ao reconhecimento da verdade que confessa. Engajamento não no sentido de estar obrigado a fazer tal ou qual coisa, mas de tratar de ser o que confessa ser, justamente porque é isso ou aquilo [...]. No aveu, aquele que fala engaja-se em ser aquilo que diz ser; obriga-se a ser aquele que fez tal coisa ou que provou algum sentimento (CANDIOTTO, 2007, p. 6).
Essa narrativa de si mesmo é peça fundamental no quebra-cabeça da subjetividade humana. "O que somos ou, melhor ainda, o sentido de quem somos, depende das histórias que contamos e das que contamos a nós mesmos. Em particular, das construções narrativas nas quais cada um de nós é, ao mesmo tempo, o autor, o narrador e o personagem principal." (LARROSA, 1994, p. 48).
Não se estimula, através das oficinas do SPE, uma proibição da vivência ou do discurso da sexualidade, mas sim uma regulação através de discursos úteis: uma polícia do sexo. Além disso, o status de cientificidade da confissão é atualizado, uma vez que as falas sobre si mesmos dos adolescentes devem ser direcionadas ao facilitador da oficina (expert), que teve acesso a informações privilegiadas (científicas) acerca do tema debatido, através dos materiais documentais do SPE.
Aponto essas aproximações com a confissão não para indicar que tais atividades do projeto são inválidas ou necessariamente constituem um problema, mas sim para que se veja o quanto, ainda na atualidade, o dispositivo de confissão ainda se faz presente nas ciências que tratam do homem. Não se trata aqui de uma reflexão de intenção epistemológica, mas sim política.
No entanto, ao mesmo tempo em que o dispositivo se presentifica, ele distorce-se, acopla-se com outras questões, modifica-se. No caso do SPE, a confissão não é acionada isoladamente. Após as confissões dos alunos, estes são orientados, educados, formados, através das informações que são fornecidas pelo condutor da oficina, como se verá a seguir.