A reforma da Universidade de Coimbra, em 1772, representou uma ação de modernização cultural e científica em Portugal promovida pelo ministro Marquês de Pombal. Para tanto, a publicação do Compêndio histórico da Universidade de Coimbra no tempo da invasão dos denominados jesuítas e dos estragos feitos nas ciências e nos professores e diretores que regiam, pelas maquinações e publicações dos novos estatutos por eles fabricados, em 1771, elaborado pela Junta da Providência Literária, caracterizou um estudo prévio da situação do ensino da referida instituição.
Nos estudos de Varela (2006, p.56) sobre a caracterização da ilustração portuguesa, o citado compêndio serviu como base para a construção dos Novos Estatutos da Universidade de Coimbra, 1772. Ainda segundo o autor, o Compêndio histórico tinha como objetivo apresentar um diagnóstico da defasagem cultural e científica em que se encontrava a Universidade de Coimbra, resultado da ação dos jesuítas. Para isso, o Marquês de Pombal contou com o auxílio do Dr. Francisco de Lemos (reitor da universidade), com o Cardeal da Cunha, D. Fr. Manuel de Cenáculo (bispo de Beja), dentre outros.
A questão sobre a culpa dos jesuítas pela situação de decadência cultural e científica apresentada no Compêndio histórico da Universidade de Coimbra talvez não tivesse fundamento em argumentar que tais religiosos conduziam os estudos superiores num baixo
nível científico. Essa perspectiva que predominou como argumento para a reforma da universidade, em 1772, pode ser compreendida através da análise de Araújo (2008) sobre o Compêndio histórico.
[...] a política reformista pombalina emerge, de forma bem patente, esta dimensão pedagógica, que visa doutrinar os destinatários na perspectiva de que se estava a construir um novo projectosócio-antropológico: o homem iluminado e uma sociedade refundada pelas luzes harmonizadoras da razão. Mas Pombal foi incapaz de promover esse projecto antropopedagogico apenas pela sua afirmação positiva. Precisou eleger um inimigo, o negativo dessa sociedade nova para melhor exaltar contrastivamente a grandeza e a utilidade de sua utopia. Daí que a política pombalina tenha explorado intensivamente, de forma inédita na história político- ideológica portuguesa, a propaganda contra um adversário singularizado e mitificado. Fê-lo de forma intensiva e generalizada para potencializar a eficácia política de suas reformas e ampliar as suas virtualidades pedagógicas de formação, ou melhor, de mudança de mentalidade, tentando assim realizar uma espécie de
“lavagem cerebral” colectiva de uma figurada mentalidade, que se queira destruir para refundar uma nação” (idem, p.23).
A ideia de uma relação de poder entre o Estado português e seus súditos ou vassalos comportou a proposta de renovação pedagógica coordenada pelo Marquês de Pombal. Dessa forma, o processo de ilustração português, no âmbito da educação superior, tinha como referência o desenvolvimento científico de outras nações européias, como por exemplo, a França. Segundo José Eduardo Franco (2008) que analisou a reforma da Universidade de Coimbra no quadro anti-jesuítico observou que:
Duas palavras-chave e os dois imaginários que elas encerram estão omnipresentes no discurso pombalino, que seja de caráter legislativo, historiográfico, tratadístico ou panfletário: Jesuítas e Europa. Jesuítas ou jesuitismo encerram um conceito/visão de carga negativa, pessimista. Representam todo um passado cultural, educativo, mental que urgia repudiar e abolir. O termo Europa situa-se conceptualmente no pólo oposto. Expressa uma visão de carga altamente positiva, um conceito luminoso de dimensão utópica, encerra no fundo, um ideal, um modelo a seguir, uma utopia de aproximação e de imitação. A estas palavras-chave associam-se outros termos subsidiários, termos afins caracterizadores do que a palavra-chave pretende conceptualmente englobar. Jesuítas ou jesuitismo na propaganda pombalina de reforma e combate significam obscurantismo, ostracismo, trevas, ignorância, infantilismo, imobilismo, mau gosto, decadência, degenerescência, ruína. À segunda palavra-chave, Europa, associam-se, no campo semântico que ela delimita, conceitos subsidiários que incorporam uma ideologia de acção e que são expressões por excelência do Iluminismo: progresso, luzes, razão, bom gosto, inteligência, felicidade, conhecimento, ordem, clareza, abertura de espírito, liberdade, universalidade (idem, p.19).
O pesquisador Neves (1984) ao estudar a educação e o poder no século XVIII, considerou que o poder da educação nos tempos modernos foi capaz de formar as elites através de um processo de ilustração. Por essa compreensão, seja possível reconhecer na
reforma do ensino superior realizada pelo Marquês de Pombal a mesma intenção, o ministro português objetivava formar um tipo de grupo social – a elite intelectualizada.
A reforma da Universidade de Coimbra, na ótica educacional do Marquês de Pombal, foi oficializada em 1772 com a perspectiva de nortear os estudos das ciências naturais, exatas e médicas nas proximidades do ensino ministrado na Europa. Para Varela
(2006, p.60), a reforma pombalina tinha o objetivo de “criar um novo corpo de funcionários
Ilustrados para fornecer pessoal à burocracia estatal e à hierarquia das Igrejas reformadas”, os
quais estivessem interessados “na natureza e no homem, em função do programa de
exploração científica, sistemática e metodológica das colônias, relacionada com aspectos geográficos”.
Por esta concepção de formação intelectual da elite talvez seja possível entender que a mesma passou a absorver um novo comportamento de civilidade e, dessa forma, considerá-lo como exemplo a ser seguido na sociedade portuguesa. No entanto, os hábitos e costumes que tornaram os sujeitos da elite intelectualizada civilizados não eram os únicos atributos incorporados da Europa tida, à época, como referência. Nos estudos de Neves (1984, p. 202) sobre as mudanças educacionais no século XVIII em Portugal, foi possível compreender que a elite adota novos valores, entre os quais se destaca o da utilidade, o da racionalidade e o da realidade. “Realidade para constatar o atraso do reino e, portanto, sua vulnerabilidade face às potências que se definiam no cenário internacional”.
O andamento do processo de ilustração da elite portuguesa organizado pela política educacional pombalina identificou na Universidade de Coimbra a carência de professores que pudessem assumir o ensino acadêmico. Esse problema de defasagem cultural
científica denominado de ‘atraso’ do reino, que o Marquês de Pombal associou, por uma
questão política, aos inacianos, foi resolvido naquele período com a contratação de estrangeiros. O pesquisador Maxwell (1996), ao realizar um estudo sobre a atuação de Sebastião José de Carvalho e Melo no período de suas reformas educacionais e econômicas em Portugal, fez a seguinte consideração:
[...] Não menos crucial era o problema de encontrar indivíduos convenientemente qualificados para levar avante a transformação das estruturas educacionais e administrativas do país. A criação do capital humano era na verdade um processo mais lento do que o de acumular riquezas pela manipulação de tarifas ou da concessão de monopólios lucrativos. Na área da reforma educacional, Pombal tentou utilizar estrangeiros, em especial italianos, e ir revezando de instituição para instituição aos poucos indivíduos de mentalidade moderna que tinha à disposição [...] (idem, p. 114).
Os estrangeiros italianos contribuíram com atividades científicas e assumiram cargos na administração portuguesa no período da reforma cultural e científica promovida pelo Marquês de Pombal. Domingos Vandelli, Michele Franzini, Giovanni Antonio Dalla Bella, Michel Ciera, Giovani AngeloBrunelli e Luigi Cicchiforam alguns dos ilustrados italianos que o historiador Muntreal Filho (1993) exemplificou em seus estudos sobre a cultura científica portuguesa entre 1779-1808. Para este autor, o grupo dos estrangeiros, em Portugal, representou:
[...] grande importância na renovação dos estudos científicos em Portugal. O saber deles difundido tornou-se um aspecto fundamental nas investigações sobre a presença de cientistas e ilustrados naturalistas na península Ibérica [...] A atuação de Vandelli, Ciera, Franzini e Dalla Bella marcaram um período de contato mais estreito com a ilustração italiana [...] (idem, p.13).
Além desses estrangeiros, outros ilustrados que tiveram a sua formação acadêmica na Europa também foram trazidos pelo Marquês de Pombal para ocupar importantes cargos estatais, assim como, no ensino universitário. Para Varela (2006), o Estado português também mandou buscar em seu império ultramarino e na América Portuguesa intelectuais que tiveram a sua formação acadêmica na cidade de Coimbra, a exemplo de José Bonifácio de Andrade e Silva.
Além deste intelectual e dos mencionados italianos, o Marquês de Pombal recebeu para o seu projeto de reforma da Universidade de Coimbra contribuições de estrangeirados. Segundo Boto (2010), este tipo de grupo que vivia fora de Portugal colaborou através de um olhar científico com a situação social do país. Para a pesquisadora, que tratou de analisar a dimensão das ideias iluministas da reforma pombalina, a condição dos sujeitos se comportarem como estrangeirados poderia ser proveniente de uma observação da realidade estrangeira.
A comparação com outros países parecerá, nesse caso, irresistível e inevitável. Os estrangeirados portugueses do século XVIII [...] consideravam que a situação do seu Portugal contemporâneo era de decadência: perante os países mais avançados da Europa; à luz dos rumos tomados pela colonização; diante do poder que um dia o país acreditou possuir (idem, p. 284).
A presença do estrangeiro ou das suas ideias ilustradas – portugueses que realizavam seus estudos no exterior e construíam os seus fundamentos científicos em vista da situação cultural portuguesa – passou a marcar o processo de ilustração da sociedade portuguesa. Através desta situação, o intelectual António Verney e Ribeiro Sanches foram
exemplos da chamada mentalidade estrangeirada que contribuiu para os avanços da educação do reino de Portugal.
O ilustrado Luis Antonio Verney (1713/Lisboa – 1792/Roma) era filho do francês Dionísio Verney e da portuguesa Maria Arnaut. Ele iniciou os seus estudos filosóficos na Congregação do Oratório de Lisboa e prosseguiu para a cidade de Évora a fim de obter a formação em Artes e Teologia na Universidade de Évora. Antonio Verney viajou para Roma, em 1736, para estudar Teologia Dogmática e Jurisprudência e, neste período de formação acadêmica, passou a ter contato com muitos intelectuais que tratavam da ciência moderna, como por exemplo, Ludovico Antônio Muratori e António Genovesi (CARVALHO JÚNIOR, 2008).
Luis António Verney, após o contato com os discursos da ciência moderna, começou a postular sobre a educação do reino de Portugal tendo como base teórica os seguintes estudiosos: Aristóteles, Galeno e Hipócrates. Os seus primeiros escritos educacionais foram publicados, primeiramente, na cidade de Nápoles no ano de 1746, cujo título era Verdadeiro método de estudar, para ser útil à República, e à igreja: proporcionando ao estilo, e a necessidade de Portugal.
Segundo Boto (2010, p.290), o texto de Antonio Verney era um manual escrito na forma de cartas que tratou de diversos temas, tais como: lógica, gramática, ortografia, metafísica, os quais abrangiam os estudos menores, ou seja, as escolas de primeiras letras e colégios secundários, além dos estudos maiores, isto é, a universidade. Para Silva (2008), a obra de Antonio Verney, Verdadeiro método de estudar, apresentava a seguinte estruturação:
[...] volume I Estudos Lingüísticos com as cartas I a IV, com uma introdução (1ª carta) reúne suas idéias referentes ao estudo da Gramática Latina (2ª carta), proposta de uso da língua portuguesa nos estudos, o uso da Geografia e da História (3ª carta) e das línguas eruditas como o grego e o hebraico (4ª carta); volume II Estudos Literários com as cartas V a VII, nas quais apresenta a questão da Retórica (5ª e 6ª cartas) e da Poesia no reino português (7ª carta); volume III Estudos Filosóficos com as cartas VIII a XI, sobre a lógica (8ª carta), Metafísica (9ª carta), Física (10ª carta) e Ética (11ª carta); volume IV Estudos Médicos, Jurídicos e Teológicos com as cartas XII a XIV, acerca da Medicina (12ª carta), do Direito Civil (13ª carta) e da Teologia (14ª carta); por fim, volume V Estudos Canônicos com as cartas XV e XVI, versando sobre o Direito Canônico (15ª carta) e um resumo de suas propostas com um adentro sobre o estudo para as mulheres (16ª carta) [...] (p. 35).
A partir das análises realizadas por Iverson Geraldo da Silva (2008), a obra Verdadeiro método para estudar criticava a forma como o ensino era praticado em Portugal e indicava o trabalho dos jesuítas e o ensino da Filosofia neoescolásticas como responsáveis pela situação crítica da educação portuguesa. A contraproposta de Antonio Verney foi:
[...] conjugar algumas ideias da base ilustrada, no racionalismo, com as ideias religiosas, já que não criava um anticlericalismo, ou uma forte crítica a Igreja, à qual pertencia. Ao mesmo tempo, se apropriou do conhecimento estabelecido – no caso da escolástica – no que se refere a contribuição das leis, não abdicando da contribuição do pensamento jesuítico ao entender o mundo de forma ordenada hierarquicamente através das leis (idem, p.37-38).
O ilustrado Antonio Verney ao propor novos olhares para a situação educacional no reino de Portugal não descaracterizou o ensino tradicional, chamado de eclesiástico, tão pouco resolveu aplicar uma ruptura quanto à forma com que os jesuítas estavam desenvolvendo o ensino. Ou seja, a proposta educacional tratada em o Verdadeiro método para estudar apresentava outra perspectiva de ensino que estivesse próxima aos centros de educação de outras nações européias, a exemplo da França e Itália.
A proposta pedagógica de Antonio Verney tinha a intenção de reformar a educação do reino de Portugal. Segundos os estudos de Maciel e Shigunov Neto (2006), o estrangeirado português apresentou em sua obra, Verdadeiro Método de estudar, as seguintes indicações para a reforma:
[...] secularização do ensino; valorização da língua portuguesa; papel e importância do estudo do latim, realizado por intermédio da língua portuguesa [...]; redução do número de ingressos nos cursos superiores; apresentação de um plano de estudos para todos os níveis de ensino, do fundamental (que se inicia a partir dos sete anos de idade) até os níveis superiores de ensino; disciplinas que compõem sua proposta pedagógica são, em sua maioria, literárias, tais como: português, latim, retórica, poética e filosófica (lógica, moral, ética, metafísica e teologia), direito (direito civil e direito canônico), medicina (anatomia), grego, hebreu, francês, italiano, anatomia, física (aritmética e geometria); proposta de escola pública e gratuita para toda a população portuguesa, como medida de reduzir o analfabetismo da sociedade portuguesa [...] (idem, p. 473-474).
A partir desta caracterização da obra de Verdadeiro método de estudar, podemos considerar que Antonio Verney, assim como o Marquês de Pombal, reconhecia o distanciamento com que o reino de Portugal vivia dos avanços educacionais à luz da ciência moderna de sua época. Talvez a preocupação do ilustrado Antonio Verney estivesse em construir uma consciência cultural no reino por entender que dessa forma pudesse obter o progresso da sociedade portuguesa em termos políticos e econômicos.
O ilustrado Antonio Verney fundamentou a sua proposta pedagógica nas ideias de lockianas e newtonianas, nas quais ele pretendeu dar ênfase ao campo da física, da lógica e da ética natural. Essa consideração sobre as bases científicas de António Verney aliou-se as orientações das ciências humanas e naturais para guiar textos pedagógicos.
[...] As ciências da natureza e as ciências humanas começavam a ter um lugar ao sol na cultura portuguesa. E, era uma ruptura que pretendia, ao mesmo tempo, preservar o essencial, a fé católica, desvencilhando-a das teias da filosofia peripatética e escolástica. Assim, trata-se de um ecletismo, de uma tentativa de firmar em bases sólidas a própria teologia [...] (VARELA, 2006, p. 54).
Outro estrangeirado português que contribuiu com o processo de ilustração no reino de Portugal foi Antonio Nunes Ribeiro Sanches (1699/Penamacor – 1783/Paris). O mesmo iniciou os estudos no Colégio das Artes, em Coimbra e, em seguida, ingressou no curso de medicina da Universidade de Salamanca/Espanha, em 1720. Ao concluir os estudos universitários no ano de 1724, retornou para Portugal onde começou a trabalhar na área médica (RAMOS JÚNIOR, 2013, p. 45-46).
Segundo os estudos de Abreu (2006), Ribeiro Sanches passou um curto período trabalhando como médico em Portugal. De acordo com o autor, a origem judaica da família – a qual sofria perseguições da Inquisição – e o intuito de aprofundar nos estudos médicos levaram Ribeiro Sanches a deixar Portugal, em 1826.
Conforme os estudos realizados por Araújo (1984), Ribeiro Sanches, ao sair de Portugal, passou a ter contato com muitos intelectuais europeus. O seu conhecimento no campo científico contribuiu para ele escrever propostas educacionais, as quais vieram a renovar a cultura científica do reino português.
Muitos livros adquiridos na Holanda para a recém-criada biblioteca Joanina, de medicina, filosofia moderna, jurisprudência e história eclesiástica foram objecto de indicação de Ribeiro Sanches. Autores como Descartes, Gassendi, Torricelli, Kepler, Bayle, Capasso e Heinecio, chegaram à Universidade antes mesmo da reforma pombalina de 1772. E mais obras de caráter filosófico e científico de autores modernos teriam tido entrada em Coimbra, não fora a censura exercida sobre as listas sanchesianas [...] (idem, p. 378).
O estudo sobre a biblioteca de Ribeiro Sanches realizado por Rodrigues (1986) informou que o acervo era rico em livros sobre Medicina, Teologia, Jurisprudência (Direito Canônico e Direito Civil), Filosofia, Ética, Moral, História Natural, Química, Matemática e Física. Segundo o autor, a biblioteca de Ribeiro Sanches contava com 1113 títulos, na qual a maior parte dos livros estava relacionada à Medicina.
As obras de Medicina abrangem 304 títulos, distribuídos por vários grupos: desde introduções, cursos, dicionários, etc, passando por médicos gregos e latinos [...] Os nomes mais conhecidos da Medicina estão representados desde os antigos, como Hipócrates e Galeno, até Harvei, Boerhaave, Van Swieten, Haller, Albinus, Gaubius, etc. [..] tratados de fisiologia e dos diferentes temperamentos, usos, etc, do corpo humano, tratados dietéticos e higiênicos do regime da vida, matéria médica,
medicina prática, tratado de doenças dos nervos, e sobre outros males (idem, p.11;13).
O ilustrado Ribeiro Sanches conseguiu aprimorar seus estudos teóricos e práticos nas muitas viagens que fez a França, Holanda e Rússia. Dessa forma conseguiu elaborar propostas pedagógicas voltadas para a educação do reino de Portugal. Dos seus primeiros trabalhos, o Tratado da Conservação da Saúde dos Povos publicado, em 1756 (Paris) e 1757 (Portugal), o pesquisador Abreu (2006) considerou que este tratado foi uma proposta de reforma da saúde pública que tinha por base a perspectiva iluminista de uma medicina preventiva. Essa ideia de prevenção da saúde esteve ancorada na teoria dos miasmas, a qual era explicada pela teoria Química dos gases desenvolvida pelo grupo de pesquisadores coordenados por Lavoisier.
Segundo Araújo (1984), Ribeiro Sanches ao escrever sobre a educação em Portugal recomendava aos jovens universitários que tivessem a sua formação científica em outras faculdades para que pudessem contribuir na educação de seu país. Os escritos sobre a educação universitária de Ribeiro Sanches levavam em consideração à própria experiência acadêmica no exterior. Sobre essa postura do ilustrado português, a referida autora observou que:
[...] nos planos de reforma que expressamente redigiu pensando na Universidade de Coimbra, sempre preferiu que a renovação dos programas e métodos de ensino das diversas Faculdades fossem realizados não por estrangeiros mas por bolseiros portugueses que tivessem feito a sua aprendizagem em escolas estrangeiras inovadas e de crédito científico [...] (idem, p. 383).
Outra produção intelectual de Ribeiro Sanches que merece destaque por ter contribuído para a formação acadêmica do reino português e, em especial ao curso de medicina, foi o livro Método para aprender e estudar Medicina, publicado no ano de 1763. Esta produção científica de Ribeiro Sanches orientava uma formação médica pautada na observação, prática e questionamento para investigar as possíveis causas de doenças e a prevenção das mesmas no corpo humano. O livro de Ribeiro Sanches indicava a:
[...] necessidade de estudos preparatórios: o conhecimento da física geral e experimental, da química, da anatomia, e da historia da medicina. Indicava ainda a necessidade da construção de estabelecimentos científicos, como um teatro anatômico, um laboratório químico e uma botica. Além disso, conferia atenção especial à clínica médica e à cirurgia. Na parte dedicada ao estudo da anatomia, considerava-a a porta de entrada para o médico penetrar o corpo são e enfermo. Daí a necessidade de conhecer o corpo humano, a partir da observação e do contato com as mãos (ABREU, 2006, p. 61).
Para o projeto de reforma da Universidade de Coimbra estas orientações foram importantes, assim como as indicações de livros científicos que expressavam a importância da investigação, experimentação e reflexões pedagógicas em livros publicados por Antonio Verney. Embora, o Marquês de Pombal não tenha utilizado todas as indicações dos dois ilustrados estrangeirados, é possível considerar que, os norteamentos dos estudos superiores que foram impostos tendo em vista as questões políticas e a medida de força por parte do