As reformas educacionais promovidas pelo ministro dos Negócios do Reino e da Guerra do reinado de D. José I, Sebastião José de Carvalho e Melo, na Universidade de Coimbra, em 1772, promoveram mudanças no ensino que objetivaram situar Portugal nas proximidades dos estudos da ciência moderna desenvolvida na Europa. O Marquês de Pombal ao formar uma elite intelectualizada tinha o propósito de capacitar os estudantes acadêmicos para assumirem os cargos da administração pública, ou seja, tornar o ensino utilitarista, ou ainda, uma ciência a serviço do Estado português.
O governo pombalino considerou necessária a reforma dos estudos da Universidade de Coimbra para tornar um ensino útil e, com isso, concretizou o processo de ilustração português. Segundo o historiador Crenivaldo (2013), que investigou a trajetória de Francisco Freire-Alemão como via de compreensão sobre intelectuais brasileiros, considerou que os estudos médicos antes da reforma de 1772 eram, predominantemente, baseados no ensino livresco.
[...] A formação em medicina de Portugal até então minimizava as operações práticas, manuais, por intermédio de dissecações, abertura e estudo de corpos [...] O médico formado em Coimbra estava afastado dos estudos cirúrgicos e anatômicos, da formação nos hospitais, considerados saberes menores. Baseava-se nos compêndios antigos para determinar as causas das enfermidades [...] (idem, p. 36).
A crítica de um ensino médico defasado tinha como principal culpado os religiosos jesuítas, os quais foram apontados, em 1771, no Compêndio histórico da Universidade de Coimbra no tempo da invasão dos denominados jesuítas e dos estragos feitos nas ciências e nos professores e diretores que regiam, pelas maquinações e publicações dos novos estatutos por eles fabricados. A partir desse documento, o Marquês de Pombal pode apresentar o seu repúdio às atividades desenvolvidas pelos inacianos. Segundo este Compêndio Histórico, o curso de Medicina apresentou os seguintes pontos críticos:
[...] ver-se-á que em nenhuma parte se recomenda ao Médico o conhecimento da Língua Grega, das Humanidades e da Matemática. Estabelecem-se sim Cadeiras para estes Estudos [...] Mas quanto ao ponto de inculcar a necessidade e utilidade deles para a Medicina, tudo se cala, tudo se omite, e só se julga necessária a notícia da Língua Latina e da Filosofia Peripatética. [...] Os conhecimentos Físicos são essencialmente necessários a um Médico, [...], mas se estes conhecimentos não se adquirirem com uma aplicação séria a indagar a natureza, longe de serem úteis, serão antes prejudiciais à Medicina, perder-se-á de vista a estrada direita da observação e da experiência [...]. Em segundo lugar observamos o mesmo afectado
silencio sobre o estudo da Química, sendo ela necessário e útil à Medicina. A Química é a Arte de separar os corpos naturais uns dos outros e as suas partes, de purificá-las, compô-las e fazê-las próprias para os usos da Medicina e das necessidades da vida.Ela ou é Filosófica, ou Farmacêutica, e de ambos estes modos considerada oferece ao Médico um rico fundo de conhecimentos naturais, porque indagando a natureza particular dos corpos por meio das separações e uniões dos seus princípios, faz descobrir as qualidades e propriedades dos mesmos corpos e dos produtos, dá à Medicina abundante cópia de medicamentos, saudáveis e úteis. [...] Em terceiro lugar observamos a falta de um bom Regulamento sobre o estudo Botânico. Depois de o Médico ser instruído na Matemática, na Física e na Química, pede a ordem, pede a ordem, diz Boerhaave, que ele aprenda aquelas coisas que pertencem à notícia dos medicamentos símplices. A Botânica conduz o Médico a estes conhecimentos, instruindo-o na História Natural do reino vegetal, donde a Medicina tira grandes socorros para formar os remédios ou medicamentos. Em quarto lugar observamos a mesma falta de um bom Regulamento sobre o Estudo Anatômico. A Anatomia é uma artificial divisão do corpo humano morto nas suas partes, tanto internas como externas, para nos dar um conhecimento distinto dos diferentes órgãos que entram na sua composição [...] (idem, p. 341-343;346).
O curso de Medicina, segundo o Compêndio Histórico, não apresentava um ensino pautado na utilidade. Os estudos de língua estrangeira, da Matemática, da Física, da Química, da Botânica, da Anatomia e entre outros foram observados pelo Marquês de Pombal como essenciais para a formação do profissional que pudesse servir ao Estado português. Aliado ao diagnóstico do Compêndio Histórico, o curso de Medicina também recebeu contribuições de portugueses que tiveram grande parte de sua formação científica fora de seu país e, por isso foram chamados de estrangeirados. Entre eles estavam Ribeiro Sanches (1699- 1783) e Antonio Verney (1713-1792) que, segundo o historiador Abreu (2006) ao tratar da reforma dos estudos médicos na Universidade de Coimbra, comentou que eles defendiam um ensino teórico e prático, ao mesmo tempo em que se posicionavam a favor dos estudos cirúrgicos.
Ainda por aquele autor, o médico Ribeiro Sanches, por estar em concordância com os estudos médicos do teórico Boerhaave, observou ser importante que o estudante de medicina tivesse estudos preparatórios antes de iniciar as cadeiras próprias do curso de Medicina. Nas reflexões de Abreu (2006, p.61), Ribeiro Sanches ao publicar o livro Método para aprender e estudar a Medicina tornou público um modelo de ensino preparatório médico, no qual pudesse agregar conhecimentos sobre a Física, Química, Anatomia e História da Medicina.
O livro de Boerhaave contribuiu para a formação médica após a Universidade de Coimbra ter sido reformada em 1772. A indicação daquela literatura científica foi decidida pela Junta da Providência Literária que também tinha sido encarregada de elaborar o Compêndio Histórico de 1771, o qual tratou de relatar a situação do ensino superior da citada universidade.
Quando a Junta de Providência Literária foi encarregada de decidir sobre as doutrinas e os livros mais importantes na formação dos médicos, não foi fácil, perante a multiplicidade das teorias existentes no mundo, proceder à escolha mais ajustada à realidade portuguesa. A opção viria a fazer-se, no entanto, por Boerhaave, que tinha a seu favor, para além do caráter inovador das suas propostas, uma grande preponderância nos meios científicos da época. Mas a sua orientação teórica oferecia outra vantagem substancial, em particular numa comunidade científica em crise, que não podia suportar os custos da investigação – tratava-se de uma teoria, cujo ecletismo dava garantia de universalidade e oferecia a segurança de nela se encontrarem integradas as inovações mais recentes da época (CRESPO, 1990, p. 68).
O ecletismo teórico existente no livro de Boerhaave devia a apresentação de estudos sobre a Química, Física e Matemática, as quais garantiram a cientificidade dos estudos médicos. Os professores do curso de Medicina, ao considerarem a importância destes três campos científicos, conseguiram encaminhar o ensino a um nível elevado em termos racionais para tratarem das doenças. Nesse entendimento, concordamos com Crespo (1990) ao considerar que os fundamentos daquelas três ciências valorizaram o estatuto profissional e social do médico que reforçava a sua posição na classe elitizada que o Marquês de Pombal pensou em formar.
A importância de um curso Preparatório para a formação em Medicina atribuído por Ribeiro Sanches foi considerado pelo Marquês de Pombal e incorporado nos Novos Estatutos da Universidade de Coimbra de 1772 um plano de estudos. Este documento apresentou um capítulo que tratou Da preparação do curso médicoe justifica a
obrigatoriedade do aluno no curso médico a realizar o curso preparatório: “não pode o Médico
fazer progresso algum na sua Profissão sem entrar nella plenamente instruído nos conhecimento prévios, que nella suppõe; os quaes faltando, se tornariam inúteis todos os
esforços de estudo que na mesma Medicina se empregassem” (Estatutos da Universidade de
Coimbra, 1772, vol. III, p. 8).
O estudo dos idiomas Latim e Grego passaram a ser exigidos no ato da matrícula do aluno antes dele iniciar o curso Preparatório, composto por estudos filosóficos e matemáticos com duração de três anos. Dessa forma, os Estatutos estabeleceram as seguintes cadeiras, respectivamente, para a Faculdade de Filosofia e Matemática: no primeiro ano – História Natural e Geometria, no segundo ano – Cálculo e Física Experimental e no terceiro ano – Química Geral e Foronomia (Estatutos da Universidade de Coimbra, 1772, vol.III, p. 10).
O curso Preparatório em Filosofia e Matemática tinham o objetivo de iniciar os alunos do curso de Medicina em atividades de prática laboratorial e estudos teóricos. Para que
fosse possível promover uma educação experimental, os estudos de Pires e Pereira (2010) apontaram a importância da construção do Laboratório Químico, Gabinete de Física Experimental e Museu de História Natural. Os citados pesquisadores ao refletirem sobre questões relacionadas à valorização do patrimônio científico português reconheceram que:
Os Estatutos de 1772 são elucidativos a respeito desta estreita relação entre programas e equipamentos, pois determinam claramente o plano dos cursos e a criação obrigatória dos espaços para reunir as colecções necessárias ao estudo da Filosofia, da Matemática e da Medicina. Assim, para o ensino da Filosofia seria a nova Faculdade provida com um Museu de História Natural e um Jardim Botânico, um Gabinete de Física e um Laboratório e um Laboratório Químico, estruturas que deviam responder às necessidades do programa do curso [...]. Por sua vez, para completar o ensino na nova Faculdade de Matemática seria construído um Observatório Astronômico [...] (idem, p. 187).
A formação de médicos por uma educação experimental, anunciada no ano de 1772, só começou a ser desenvolvida no ano de 1779. Conforme Abreu (2006), os motivos foram ocasionados por um atraso nas obras da reforma do antigo colégio dos Jesuítas, no qual passou a ser o local dos laboratórios. Após terem sido realizadas as adaptações necessárias do antigo colégio dos Jesuítas para receber as aulas experimentais da formação profissional não só médica, mas filosófica e matemática, os professores das Congregações de Filosofia e Medicina realizavam visitas para inspecionar o andamento das atividades de ensino.
Uma destas ações dos professores foi registrada, em 11 de julho de 1783, tendo a presença do Vice-Reitor Dr. Carlos Maria de Figueiredo Pimentel e dos professores: Dr. Domingos Vandelli (cadeira de Química e Laboratório de História Natural), Dr. João Antonio Dalla Bela (Gabinete de Física Experimental).
Aos 11 dias do mês de Julho de 1783 tendo prezente o Sr. Vice Ror D. Carlos Maria de Figdo Pimentel, com os Lentes da mesma FaculdeVandelo, Dalla Bela, Monteiro da Rocha como adjunto [...] Faculdena forma das ordens do S. Mag se procedeo a Vizita dos estabelecimentos da mesma Faculde a saber o LaboratorioChimico, o Gabinete de Fizica Experimental, e o Muzeo de Historia Natural: praticandose tudo o que ordenavão os Estatutos no Exame que determina se faça nestes vizitas se achou tudo conforme deve estar [...] (Documento Avulso – Congregação da Faculdade de Filosofia, 1777-1783)1.
O andamento das atividades laboratoriais aponta que a formação profissional em Medicina formou os ilustrados do reino conforme o projeto de reforma educacional pombalina. Outro ambiente privilegiado para a formação dos ilustres profissionais da
1 Arquivo da Universidade de Coimbra. Documento Avulso – Congregação da Faculdade de Filosofia, 1777- 1783. Cota: IV-1ª D-3-1-103.
medicina foi o hospital que passou a funcionar, em 1779, no antigo colégio dos Jesuítas. Segundo o cientista social Crespo (1990), o hospital representou um lugar privilegiado para aperfeiçoar a sensibilidade médica e o exercício de uma ação prática.
[...] o hospital revelava-se como o lugar privilegiado da aquisição da experiência médica científica, o espaço onde surgia a oportunidade mais fecunda da aproximação com a diversidade das doenças e das misérias da comunidade. No hospital, aprendia-se a compreender os desfavorecidos, tomava-se contacto directo com a morte, despertava-se para as virtudes que deviam constituir os grandes princípios da acção do médico. A experiência hospitalar era um momento fundamental para os que se iniciavam na profissão. Os hospitais apresentavam outra vantagem importante para os médicos que viviam no temos constante de eventuais falhas cometidas na aplicação de novas terapêuticas [...] (idem, p. 99).
Neste período, as aulas hospitalares tiveram a perspectiva de unir os estudos em Medicina e de Cirurgia, pois aqueles estudos eram tratados separadamente antes da reforma educacional da Universidade de Coimbra, em 1772. A divisão destes conhecimentos, segundo o diagnóstico apresentado no Compêndio Histórico de 1771, previa prejuízos na formação médica. Dessa forma, os Estatutos de 1772 consideraram que tais estudos deviam ser associados a fim de beneficiar a preparação do médico.
[...] o divórcio entre a Medicina, e Cirurgia, tem sido mais do que todas as outras causas prejudicial aos Progressos da Arte de curar, e funesto á vida dos homens; não sendo possível que seja bom Médico, que não for ao mesmo tempo Cirurgião, e reciprocamente: Ordeno outro fim, que o Estudo da Cirurgia prática, e especulativa acompanhe sempre o da Medicina; e que daqui por diante sejam todos Médicos ao mesmo tempo Cirurgiões, passando-se-lhes as suas Cartas com a declaração de huma, e outra cousa, sobre os Actos, e Exames, que dellas hão de fazer [...] (Estatutos da Universidade de Coimbra, 1772, vol. III, p. 20).
A formação dos estudantes de Medicina não se restringia aos conhecimentos científicos, mais ao modo como tratar e conversar com o paciente. Nessa fase de contato com o sujeito doente era pertinente outro momento de formação para o médico: as experiências com medicamentos. Sobre isso, as reflexões de Pereira e Pita (2011, p.205) acerca da cadeira de Farmácia e da saúde em Portugal, nos anos finais do século XVIII, identificaram outro ambiente de formação dos estudos em Medicina – o Dispensatório Farmacêutico do Hospital, no qual se produziam os medicamentos e local destinado para o curso de boticários.
Os espaços físicos construídos no antigo colégio dos religiosos inacianos serviram para as atividades experimentais e de prática hospitalar, além de servir como suporte aos cinco anos de estudos de Medicina na Universidade de Coimbra. Nos Novos Estatutos da Universidade de Coimbra de 1772, o curso médico era composto por cinco anos de estudos, além dos três anos do curso Preparatório que o aluno era submetido logo que chegava à
Universidade de Coimbra. Os estudantes eram submetidos a cada final de ano letivo a um exame que avaliava seus conhecimentos sobre os conteúdos estudados no mesmo ano. Na presença de um presidente e três a quatro examinadores, as sessões de exames podem ser consideradas como de decisão no percurso acadêmico do aluno.
O primeiro ano de estudos médicos era reservado às lições da cadeira de Matéria Médica que compreendia os conhecimentos da história da Medicina e de atividades experimentais no Laboratório Químico, Gabinete de História Natural, Jardim Botânico, lições de Física e, teoria e prática farmacêutica, as quais aconteciam uma vez por semana. O segundo ano letivo era reservado aos estudos de Anatomia e de sua história. Para a condução do ensino deste ano, os professores eram ordenados a ensinar as lições sobre as partes do corpo humano e de operações cirúrgicas, nas quais os alunos aprendiam por demonstrações práticas (Estatutos da Universidade de Coimbra, 1772, vol. III).
O ensino do terceiro ano letivo do curso médico tratava das lições da cadeira de Instituições Médicas, na qual eram abordados, por combinação dos conhecimentos em Física e Matemática, os estudos de Fisiologia, Patologia, Semiótica, Higiene e Terapêutica. No quarto ano os alunos estudavam os aforismos de Hipócrates e Boerhaave e, no quinto ano letivo, os estudos priorizavam a clínica e à prática no hospital (Estatutos da Universidade de Coimbra, 1772, vol. III).
Os cinco anos de estudos médicos da Universidade de Coimbra que seguiam os planos de estudos dispostos nos estatutos de 1772 buscavam priorizar o ensino de práticas e experiência laboratoriais. O ensino pautado apenas com o uso dos livros foi associado com aquelas atividades que permitiam os alunos compreender as lições a partir da observação, investigação, manuseio de materiais utilizados nos diversos experimentos realizados em laboratórios e contato direto com os pacientes doentes no hospital. Para o historiador Abreu (2006), a mediação dos alunos em atividades de laboratório e no hospital pode ser compreendida como uma formação médica pautada na ciência moderna.
[...] depreende-se o papel primordial do experimentalismo do médico, relacionado aos laboratórios e teatros onde se aplicavam os ensinamentos da física, química e promovia-se a interação entre a medicina e a cirurgia. A concepção de ciência sustentada ao longo do texto dos Estatutos propunha romper com a tradição livresca que, conforme se acreditava, tornava em Portugal obsoleta [...] (idem, p. 72).
A incorporação do conhecimento científico moderno e com ela a concepção de um ensino por experimentação norteou o ingresso das novas teorias científicas. Essa realidade que foi acentuada com os Estatutos de 1772 possibilitou a formação de um grupo de
professores que concordavam com as concepções da ciência moderna, ao mesmo tempo em que existiram docentes que insistiam em seguir com a sua forma de ensinar calcada na experiência adquirida de seus anos de trabalho na Medicina. Para o cientista social Crespo (1990) esta situação de confronto entre as concepções de ensino entre os professores da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra pode ser compreendida com a formação
de dois grupos: os ‘médicos velhos’ que só acreditavam na sua experiência de trabalho e os ‘médicos novos’ que concordavam com a visão da ciência moderna.
Na análise não se poupava a nova geração de médicos, a quem se apontavam defeitos idênticos aos dos seus colegas mais antigos, ainda que em sentidos opostos. De facto, os médicos novos eram acusados de se vincularem às novas teorias de Cullen, Brown, Pinel ou Broussais, rejeitando de forma injusta o passado. A crítica apontada aos médicos antigos era, sem dúvida, mais circunstanciada, podendo significar que, em relação aos mais novos, eram aqueles que se apresentavam mais dignos de acusações, revelando freqüentemente atitudes de nítida indiferença perante os avanços científicos e preferindo manter-se numa actividade rotineira. Os médicos velhos apoiavam-se nos ensinamentos de Hipócrates, Galeno e Boerhave, desconfiando dos benefícios da vacina e das aplicações da química à medicina [...]. Os médicos velhos mostravam desconfiança perante as inovações científicas, acreditando mais na sua longa experiência do que nas promessas dos novos conhecimentos [...] (idem, p. 55).
O ponto central das discussões entre os ‘médicos velhos’ e ‘médicos novos’ eram
o confronto de ideias teóricas que ambos travavam por conta das inovações científicas. Talvez, a dificuldade daqueles médicos professores que não aceitavam as concepções da ciência moderna estivesse no fato de não acreditarem que as teorias científicas pudessem apresentar outras possibilidades de resolver os problemas que comprometiam a saúde. Diante dessa situação que fazia parte do cotidiano de formação médica na Universidade de Coimbra, Jorge Crespo (1990), também considerou dificuldades para a Junta de Providência Literária em indicar os livros que deveriam ser utilizados em cada ano letivo.
A formação médica cujo objetivo também era ilustrar sujeitos para desenvolver atividades políticas no reino português passou a ser considerado como uma referência para a Junta de Providência Literária escolher os livros de autores que desenvolviam um ecletismo teórico. Essa possibilidade correspondeu em valorizar a cura quanto à prevenção de doenças, ou seja, evidenciar as questões de cunho higienistas. De acordo com Pereira e Pita (1993), a reforma pombalina introduziu esta noção de higiene.
[...] em finais do século XVIII, as noções de saúde e de doença começavam a ser entendidas em função de uma nova e complexa causalidade. Complexa porque são várias e distintas as teorias que se ocupam da questão desde Cullen, Brown e Broussais. Mas, o que importa revelar é que cada uma por si procurava impor-se
com a grande doutrina médica, demarcando-se das outras e remetendo para os anais de história tanto a doutrina humoral galénico-hipocrática como a síntese boerhaaviana que, por toda a Europa, começou a entrar em declínio quando nos aproximamos do fim do século XVIII. Não admira pois que no texto dos estatutos médicos da reforma pombalina não encontremos uma posição doutrinal bem definida. E, na verdade, ela não é exclusivamente boerhaaviana [...] (idem, p. 459).