1.2. Problem Durumu
1.2.1. Alt Problemler
Nessa consulta, o paciente está acerca de um ano e um mês após a perda, quando pondera questões relacionadas a cuidados que no luto partem da fé:
E depois você descobre que há uma linha, uma espécie de fio que vai te ajudando, reconduzindo, tu diz pra mim: algo de ordem espiritual? É, pode chamar de ordem, existe essa ordem, não sei explicar, mas ela existe, é amorosa. Hoje a Clara não só faz parte dessa ordem, dessa linha que de tudo cuida, coordena sem aprisionar, e, ela é, a Clara é. Não só faz parte disso, mas também é isso... Essa ordem está acima, em torno e dentro da vida da gente, é maior do que a morte, do que essa nossa vida aqui, e é amorosa porque te oferece sinais cuidadosos, não sei explicar, só sinto... Acho que as palavras não conseguem explicar.
Da experiência do cossofrimento divino, no amor, entrega e compaixão, como nomina Moltmann,203 o paciente agora se dirige para se aprofundar naquilo que sente em relação a aonde está Clara. Bruno avança para o coração da comunhão. Sobre isso, escreveu Moltmann:
Na entrega de Deus reside um sofrimento ativo (At 2,23: “... pelo desígnio de Deus). No entanto, Deus não provoca os sofrimentos de Cristo, e Cristo não é uma vítima passiva de sofrimentos. Por meio de sua entrega, Deus vai em busca de suas criaturas perdidas e ocupa-se com seu abandono, e lhes traz sua comunhão imperdível. A vicariedade da entrega e da ressurreição “por nós” e “por muitos” não deve ser entendida como medida de emergência em face da aflição humana [...]. Toda a Trindade está a caminho da entrega, que na Paixão de Cristo atinge os homens [...] e lhes é revelada. É pura insensatez pensar que “uma pessoa da Trindade teria
203
sofrido e que outra o teria provocado”. Se fosse assim, não se poderia falar da “dor de Deus” que está na origem dos “sofrimentos de Cristo.204
Para Moltmann, portanto, a resposta da teologia da entrega ao grito por Deus do Cristo abandonado é consolo que emana de Jesus para o mais profundo da alma humana. É descoberta da dor de Deus no próprio sofrimento que significa encontrar comunhão vívida. Cristo que é um por e para nós.205
Assim, se Deus acolhe Clara tanto quanto Bruno agora se sente cuidado, é provável que o paciente esteja (nesse recorte) referindo-se a sentimentos de renovação que parecem incluir uma noção de Deus em todas as coisas, como expressão de um caminho de renascimento. É o que compreende Moltmann:
Solidariedade, vicariedade e renascimento são as dimensões divinas nos “sofrimentos de Cristo”: Cristo está conosco, Cristo é por nós e em Cristo somos nova criatura. Em que sentido Deus é amor... Deus é a força solidária, vicária, regeneradora...206
Uma força que para Bruno parece presente em todas as coisas, como o Espírito em Moltmann revela-se em uma autotranscendência, conceito que pondera a partir de Rahner:
Com o conceito da “autotranscendência” Rahner descobriu um conceito analogicamente capaz, que pode ser aplicado a todas as camadas do ser para compreender as transições para fases superiores e mais ricamente organizadas [...]. Autotranscendência é o efeito do Espírito já inerente à matéria, que, por visar o “imenso mistério,” chamado Deus, deve ser entendido como Espírito divino. Se, portanto, é o Espírito de Deus, então sempre já reside também nesta autotranscendência, também visto a partir de Deus, uma autocomunicação de Deus: “Deus não apenas cria o diferente dele, mas dá a si mesmo, a esse diferente. O mundo recebe a Deus, o Infinito e o mistério indizível, de tal maneira que ele próprio se torna sua vida íntima.” Se este Espírito já é atuante na autotranscendência da matéria, então a relação entre matéria e espírito também deve ser compreendida como história, e isso significa, também como um tornar-se e como evolução para formas sempre mais elevadas. [...] No homem e em sua autotranscendência livre e consciente o espírito como que torna a si mesmo. Autotranscendência é “auto-superação”, acolhimento ativo de sua plenitude pelo vazio [...]. Pode ser entendida somente como estar movido e como ativo mover-se do ser finito em direção ao ser infinito. 207
204 Ibidem, p. 275. 205 Ibidem, p. 277‐278. 206 MOLTMANN, J. O caminho de Jesus Cristo: Cristologia em dimensões messiânicas, p. 278‐279. 207 Idem.
Nessa perspectiva, pode-se entender que mais do que despedida, toda a caminhada de Bruno, em seu processo de luto por Clara, foi um tornar-se no amor, processo que o paciente reconhece também como uma espécie de pertencimento à Clara.
Bruno mostra que amar é o que somos e é também o que nos torna ser, a máxima superioridade para o homem que, vivendo nossas dores, nos permite pertencer ao seu coração.
Moltmann ensina:
Na medida em que o autotranscendente permanece no retrospectivo alvo de sua autotranscendência, porque a ordem superior sempre abrange a inferior e a guarda, pode-se dizer, inversamente, que o inferior “preludia” em si a respectiva ordem superior. Com vistas à natureza e humanidade isso significa que o “homem é autotranscendência da matéria” e que natureza e história do conhecimento formam uma unidade interior. Na livre história do pensamento a história natural atinge seu alvo. Esse alvo, no entanto, deve ser visto naquela direção para a qual, por seu lado, aponta a autotranscendência humana: a infinita plenitude de Deus, subtraída ao próprio homem e oculta a ele. Assim como a criativa autocomunicação de Deus já se manifestou na autotranscendência material, assim congruem, na ponta do desenvolvimento humano, autotranscendência humana e autocomunicação divina no salvador. Nele a natureza humana transcende- se para o mistério divino. No Logos que se fez mundo e matéria, Deus se comunica a si próprio por inteiro. Autotranscendência humana e autocomunicação divina congruem, teologicamente falando, na união hipostática do Deus-homem encarnado e formam a “encumação”, cume do desenvovimento do mundo. [...] na hierarquia das realidades do mundo. Todas as fases anteriores estão contidas nela por forças de autotranscendência. O futuro absoluto do mistério divino está presente nela graciosamente por força de autocomunicação.208
Ao considerar esses conceitos na aproximação da experiência de Bruno em relação a Cristo, pode-se pensar que o paciente nos mostra, nesse recorte, que compreende onde e como Clara está preservada, na infinita plenitude de Deus, assim como sinaliza não se sentir num mundo completamente avesso ao que a percebe. Parece que Bruno reconhece sua distância de Clara, porém se sente pertencendo com ela.
Nisso e do ponto de vista psicológico, é bastante bem-vinda a ideia de que toda riqueza vivida na história passada está, portanto, desse modo, guardada num espaço abrigado pela superioridade do amor, prelúdio e esperança sempre.
208
MOLTMANN, J. O caminho de Jesus Cristo: Cristologia em dimensões messiânicas, p. 441.
Ponderando sobre cuidados no enlutamento e diante de sua nova compreensão sobre luto é fé, ao ouvir expressões tidas como consoladoras, na consulta de número 45, o paciente reflete alertando sobre a busca de melhores caminhos. Esse é um sintoma que faz pensar no efeito que determinadas palavras escutadas podem causar, potencializando ambiguidades, inseguranças, conflitos e regressões no processo de luto.
Essa história de planos de Deus é, como a do Karma, o destino no Espiritismo, fica difícil construir alguma coisa com isso! Então, Deus tinha planos pra Clara morrer? De crianças morrerem? Que tipo de planos são esses? Se Deus é amor, alguma coisa tá muito errada?! O que se entende quando se ouve uma coisa assim é que, no meio de tudo isso, estamos muito sozinhos, quem sofre não encontra nenhum caminho por aí não! [...] “Eu tenho certeza de uma coisa, porque senti, porque sinto: o amor que tenho por ela e dela por mim, por todos nós, tenho certeza que continua existindo. Quanto às respostas, talvez um dia eu as encontre, mas é verdade que quem tenta dar respostas não se sai tão bem. Bem que podiam ao menos escutar mais e escutar com sensibilidade! […]. Quando você ouve alguma coisa tipo essa, você se sente uma formiga, é como se Deus fosse um cara poderoso brincando com uma caixa de formigas; ninguém faz Deus ser Deus porque põe palavras na sua boca. Hoje não existe mais isso. Você precisa pensar em coisas que deem conta da realidade que a gente vive, com um mínimo de coerência, e não é dar sentido para algumas vidas só, mas pra vida de todos. Quem nunca viveu uma perda pode até engolir essa, mas e os outros? Então, o resto das formigas ficam se batendo dentro da caixa pra encontrar sentido?
4.3.7 Análise do conteúdo teológico do Caso B – sétimo recorte contido na