O que Peter Temin tem apropriadamente chamado de “revolução terapêutica” e que começou nos Estados Unidos na década de 1940 teve sua aceleração na Segunda Guerra Mundial, com a produção dos novos antibióticos, especialmente penicilina à base de fermentação e derivados de sulfanilamida. Esta descoberta fundamental da ciência médica resultou em uma cascata de descobertas. Até o final de 1950, a indústria farmacêutica tinha mudado além do previsto e, por isso, houve um incremento na prática da medicina e o crescimento rápido dos medicamentos prescritos. Em 1929, eles representavam 32% de todos os gastos dos consumidores com medicamentos. Em 1949, representavam 57% e, em 1969, foram até 83% (CHANDLER, 2005, p. 179).
Além de antibióticos, corticosteróides, anti-histamínicos e tranquilizantes, novos medicamentos prescritos foram lançados para doenças do coração, pulmões, úlcera, câncer, diabetes, controle da dor, assim como novas vacinas e vitaminas. Então, nos anos do pós-guerra, a força da prescrição aumentou as vendas para os hospitais e as farmácias. Assim também fizeram as produtoras, com compromisso de tempo e dinheiro
para P&D. No final dos anos 1940 e 1950, com as oportunidades criadas pela abertura de novas vias e a valorização de novas tecnologias, expandiu-se o número de novas drogas introduzidas, passando de uma média anual de cerca de 20 na década de 1940 para 50 em 1950 e, em seguida, caindo para uma média anual de menos de 20, entre 1963 e 1969, e menos ainda na década de 1970. Novas regulamentações sobre os produtos farmacêuticos exerceram um impacto significativo sobre estes números, mas o padrão foi semelhante ao de produtos químicos (CHANDLER, 2005, p. 180).
A década de 1970 viu duas novas ondas de inovação em medicamentos que criaram novas oportunidades para a chamada reestruturação das bases de aprendizagem e construção de outras.
Em primeiro lugar, as fontes de novas aprendizagens repousavam sobre os avanços científicos em bioquímica e nas novas disciplinas de microbiologia e enzimologia. Em segundo lugar, um histórico e raro acontecimento: o advento de uma abordagem radical na nova ciência, a biologia molecular, que surgiu com a descoberta do DNA recombinante (DNAr)14 e as técnicas de engenharia genética (CHANDLER, 2005, p. 181).
A nova descoberta repousava sobre as disciplinas da microbiologia e enzimologia, e sobre a nova ciência da engenharia molecular. Na maioria dos casos, no entanto, a nova aprendizagem foi aplicada nas empresas farmacêuticas que desenvolveram e criaram novas tecnologias em medicamentos. Os desafios foram para comercializar novos medicamentos e mesclar novas disciplinas com a bioquímica. A comercialização da biotecnologia baseada em biologia molecular era necessária, principalmente para a criação de um novo nexo de apoio. Como um relatório de 1993 observou, “o químico sintético e o farmacologista no laboratório de pesquisa compartilham esse papel com os biólogos, geneticistas moleculares, bioquímicos, biofísicos, microbiologistas e enzimologistas” (CHANDLER, 2005, p. 181).
A aprendizagem em microbiologia aplicada, enzimologia e engenharia genética foi impulsionada por uma inovação a partir da Revolução da Informação. Anteriormente, a descoberta de novas drogas dependia de acertar ou errar (técnica da tentativa ou erro), selecionando entidades químicas para encontrar as moléculas ativas contra as doenças. Em meados da década de 1970, pesquisadores introduziram seus
14 A engenharia genética, ou seja, a pesquisa sobre o DNA recombinante baseia-se num conjunto de técnicas que conferem a possibilidade de romper e formar ligações covalentes de maneira específica e controlada em moléculas de DNA. O material genético pode hoje ser modificado, mutado, transferido, detectado ou sintetizado com as finalidades mais diversas tanto aplicadas como fundamentais (Cravador, 2001).
novos conhecimentos para conceber a estrutura de uma molécula ideal que era esperada para restaurar o equilíbrio alterado (patológica). A molécula ideal foi dada para os químicos, que buscavam uma substância cuja estrutura molecular correspondesse, da melhor forma possível, ao modelo teórico. Essa abordagem envolveu pela primeira vez uma compreensão da doença ao nível molecular e chamou a atenção para as enzimas que controlam as sequências bioquímicas vitais em todas as formas de vida. O novo padrão de descoberta de drogas foi reforçado por duas novas técnicas de espectroscopia (cristalografia de raios X e ressonância magnética nuclear) e pelo poderoso avanço no cálculo matemático e na análise do computador. A nova abordagem expandiu as capacidades técnicas e funcionais. A triagem (screening) era algumas vezes aleatória (random) e outras vezes direcionada, que por sua vez foi menos onerosa. Na pesquisa contínua de novos antibióticos, o screening continuou a ser o método mais eficaz para a descoberta, embora ambas as abordagens fossem utilizadas com frequência (CHANDLER, 2005, p. 181).
Os produtos da segunda onda, com base na nova disciplina da biologia molecular, foram o resultado da aprendizagem aplicada pelos líderes de longa data das empresas farmacêuticas. Esta nova disciplina evoluiu durante os anos 1960 e 1970 na sequência da descoberta da estrutura da dupla hélice do DNA por James Watson e Francis Crick, em 1953. O primeiro curso de biologia molecular foi ministrado na Universidade de Harvard em 1965 e o primeiro departamento foi criado dois anos mais tarde, tendo Watson como presidente. Durante a década de 1970, veio a formação de cientistas e especialistas em engenharia genética, necessários para uma equipe especializada de apoio, bem como para abordagens inovadoras para a descoberta de drogas. O mais importante foi a construção de um nexo de apoio para fornecer os ingredientes e serviços necessários. Esse aprendizado básico era concentrado principalmente em Massachusetts (MIT), na Califórnia (Harvard) e no campus da Universidade da Califórnia em San Francisco e Los Angeles. O que poderia ser denominado o berço da aplicação comercial da nova aprendizagem em biologia molecular e engenharia genética foi o departamento da Universidade da Califórnia em San Francisco, dirigido por William Rutter. No final da década de 1970, conferências entre os funcionários da Merck e do departamento de Rutter resultou no desenvolvimento da proteína essencial para a comercialização da primeira vacina geneticamente modificada para consumo humano, que foi aprovada pelo Food and Drug Administration (FDA) em 1986 (hepatite B). Durante os mesmos anos, os pesquisadores
da empresa Eli Lilly entraram com Herbert Boyer, membro do departamento de Rutter, para comercializar a insulina humana, que recebeu aprovação da FDA em 1982. Ambos, Rutter e Boyer, tinham criado suas próprias empresas – Boyer com a Genentech Operation, em 1978, e logo depois Rutter estabeleceu a Chiron, em Emeryville na Califórnia. Em 1975, a Abbott entrou na nova indústria, com o desenvolvimento de um anticorpo monoclonal15 que foi um ingrediente essencial na comercialização da engenharia genética (CHANDLER, 2005, p. 182).
Neste capítulo, as histórias das empresas começam referindo-se às linhas de produtos que tinham desenvolvido antes de 1940. Isso é feito para indicar a técnica, o desenvolvimento do produto, a produção e os recursos de marketing que haviam adquirido até então. Esses caminhos evoluíram de diferentes grupos. Antes da guerra, duas empresas competitivas, Merck e Pfizer, operando no nexo de apoio, produzindo química fina para as empresas farmacêuticas, e cinco outras, Eli Lilly, Abbott, Upjohn, SmithKline e Squibb, com produtores baseadas em pesquisas de drogas prescritas.