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O Brasil foi membro fundador da Organização das Nações Unidas (ONU)53 ao participar da Conferência de São Francisco, assinar e ratificar a Carta.

Posteriormente, a ONU a fim de alavancar a melhora e a especialização de sua atuação para promover e proteger a saúde em âmbito mundial constituiu a Organização Mundial da Saúde (OMS), pela Carta de 22 de julho de 194654, a qual entrou em vigor em 7 de abril de 194855. Em sua constituição, no texto original, não há previsão do direito à saúde, mas um direito aos tratamentos por meio de um nível de vida decente e uma condição sanitária correspondente. Neste aspecto, em seus primórdios, a Constituição da OMS não se afastava muito da Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH)56, que resguarda:

1. o direito à vida (art.III), o que poderíamos, por consequência, incluir o direito à saúde em sua abrangência;

2. o direito de acesso ao serviço público do seu país (art.XXI, item 2), cujo serviço à saúde poderia estar inserido a depender do sistema de saúde adotado por cada Estado-membro; 3. os direitos econômicos, sociais e culturais como indispensáveis à dignidade e ao livre desenvolvimento da personalidade, o que abrangeria o direito à saúde, e serão assegurados pela

52 GUERRA FILHO, Willis Santiago. Processo constitucional e direitos fundamentais. 5.ed. São Paulo: SRS, 2007, p.40.

53 Organização das Nações Unidas. Por meio da Conferência de São Francisco de 1945. Disponível em: http://www.onu.org.br.

Acesso em:12 jun.2014.

54 Tradução livre. Done in the city of New York this twenty-second day of July 1946. World Health Organization. Constitution.

Disponível em: http://apps.who.int. Acesso em: 01 set.2014.

55 Organização das Nações Unidas. Disponível em: http://www.onu.org.br. Acesso em: 01 set. 2014.

56 Nações Unidas no Brasil. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em: http://www.dudh.org.br/. Acesso em:

realização de esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e

recursos de cada Estado (art.XXII);

4. o direito a um padrão de vida capaz de assegurar a saúde e o bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e serviços sociais indispensáveis (art.XXV, item 1, primeira parte).

A Constituição da OMS prevê, de forma mais compacta, que cabe a esta organização a cooperação internacional, inclusive por meio de assistência aos governos, para reforçar o serviço de saúde; promover em cooperação com outras agências especializadas quando necessário o aperfeiçoamento da nutrição, habitação, diversão, condições econômicas ou de trabalho e outros aspectos de higiene ambiental (art.2, itens “b”, “c” e “i”57).

A carta da OMS prevê já em seu preâmbulo o que se entendia como saúde para a época: a saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doença ou enfermidade58.

Contudo, deveríamos nos demandar se não seria utópico o completo bem-estar. Do ponto de vista biológico, isso seria possível? Aqui abre-se um leque infinito e subjetivo de respostas. Poderíamos, ainda, estar a trabalhar com um conceito filosófico. Não há como assegurar ou garantir algo que não é passível de ser dado ou de ser garantido.

Entre suas diretrizes, ainda no preâmbulo, consta que o gozo do mais alto padrão de saúde é direito fundamental de cada ser humano sem distinção de raça, de religião, da crença política, da econômica ou da condição social59. Desta forma, constatamos seu caráter de universalidade, ou seja, de acesso pelo maior número de pessoas independentemente de sua situação ou crença pessoal.

57 Tradução livre. In order to achieve its objective, the functions of the Organization shall be: […]; (b) to establish and maintain

effective collaboration with the United Nations, specialized agencies, governmental health administrations, professional groups and such other organizations as may be deemed appropriate; (c) to assist Governments, upon request, in strengthering health health services; […] (I) to promote, in co-operation with other specialized agencies where necessary, the improvement of nutrition, housing, sanitation, recreation, economic or working conditions and other aspects of environmental hygiene; […]. (World Health Organization. Constitution. Disponível em: http://apps.who.int. Acesso em: 30 dez. 2014).

58 Tradução livre. Health is a state of complete physical, mental and social well-being and not merely the absence of disease or

infirmity. (World Health Organization. Disponível em: http://apps.who.int. Acesso em: 01 set. 2014).

59 Tradução livre. The enjoyment of the highest attainable standard of health is one of the fundamental rights of every human

being without distinction of race, religion, political belief, economic or social condition. (World Health Organization. Disponível em: http://apps.who.int. Acesso em: 01 set. 2014).

Dispõe ainda este que o Estado possui responsabilidade pela saúde de sua

população a qual deve ser executada pela previsão de fornecimento de medidas sociais e de saúde adequadas60.

Para reforçar a sua atuação, nos moldes do seu preâmbulo, o art.1º da Carta estabelece: “O objetivo da Organização Mundial da Saúde (doravante denominada a Organização) deve ser o atendimento para todas as pessoas do mais alto nível possível de saúde”61.

O Decreto nº26.042, de 17 de dezembro de 1948, promulgou os atos firmados em Nova York, em 22 de julho de 1946, quando da realização da Conferência Internacional de Saúde62, onde houve a Constituição da OMS.

Portanto, a partir do Decreto, o governo brasileiro já possuía a responsabilidade, inclusive internacional, de implementação de acesso à saúde. Esta deveria ser universal e de mais alto nível possível, de acordo com o compromisso assumido.

Por que somente neste contexto histórico houve a possibilidade de previsão do direito à saúde como direitos humanos? Verificaremos, por meio de uma breve análise histórica das declarações sobre direitos humanos, no item subsequente.