Examinemos as opiniões de Glauco Arbix82 que escreveu nos anos de 1990 uma tese de doutorado sobre a experiência da Câmara Setorial da Indústria Automotiva, instalada no princípio daquela década entre os sindicatos metalúrgicos da CUT, empresários do setor e o governo. O trabalho de Arbix, depois sintetizada no artigo que aqui examinamos, buscava dar um fundamento teórico à política de generalização das câmaras, o que, por motivos variados, não ocorreu. Mas, como se verá, Arbix advoga um novo tipo de corporativismo, de teor “societal” e de abrangência setorial, como alternativa às chamadas políticas neoliberais. A vantagem de trabalharmos o texto de
82 Glauco Arbix, antigo dirigente trotskista, aderiu, a partir de 1987, à corrente lulista no interior do PT.
Como pesquisador, dedicou boa parte de seu trabalho dos anos de 1990 ao exame das formas assumidas naquele momento pelas alternativas corporativistas, sempre apondo a elas um sinal positivo, enquanto alternativa à desregulamentação aportada pelas duas ondas de ajustes determinadas pelas instituições multilaterais. Nisso teve a companhia de estudiosos de outras extrações, como Celso Frederico, cuja origem é o PCB e Chico de Oliveira que, àquela época, transitava mais proximamente das correntes majoritárias do PT . Estes últimos advogaram o modelo corporativo das câmaras setoriais, embora com um discurso amparado em conceitos tradicionais da esquerda, (Cf. FREDERICO, 1994 e OLIVEIRA, 1999).
158 Arbix reside no fato de que o autor trata as coisas pelo seu nome. Portanto, nos poupa de demonstrar que as alternativas aqui tratadas são de cariz corporativista.
Arbix (1996, p. 131), um confesso defensor do corporativismo como instrumento de enfrentamento da crise do capital e de seus efeitos sobre a classe trabalhadora, observa, nesse caso, com razão, que o termo corporativismo carrega um sentido de “busca de benefícios particularistas junto ao setor público em detrimento do 'bem comum'.” Este sentido se popularizou, em particular a partir dos anos de 1990, quando a palavra passou a servir de estigma colado aos sindicatos que, na defesa dos interesses exclusivos de sua base, se mostravam “insensíveis” às necessidades do “conjunto da sociedade”, o que foi curiosamente assimilado por muitos dirigentes sindicais que se esforçaram para não parecer “corporativistas”.
Arbix (Op. cit., p. 132), porém, apoiado no exame do significado da palavra “corporativismo” em outras línguas, e na experiência política do século XX, assevera que ela adquiriu uma profusão de sentidos, todos eles, entretanto, assentados na coesão, voluntária ou obrigada, entre classes de interesses opostos num mesmo órgão com o fim de promover a vontade geral, o “bem comum”.
Reconhecidas essas variantes do que se chamou, em especial a partir do último quartel do século XIX, corporativismo, Arbix (Idem, ibidem, p. 134-136) desenvolve o conceito que denomina “novo corporativismo” que ele identifica com as posições da social-democracia europeia que teria praticado uma política de sustentação de regimes “estáveis”, em colaboração com a patronal, mas baseado num acordo em torno de grandes temas, de macro-políticas estatais, tais como o pleno emprego, a redução da desigualdade, a implementação de políticas sociais distributivas, a manutenção da vida democrática, etc. Tal corporativismo de novo tipo adquiria as características democráticas, distinto, portanto, das versões medieval, fascista, clerical ou de teor durkheimiano, pois assentado numa macro-negociação balizada pelos grandes temas de interesse da sociedade no seu conjunto.
O autor reconhece que o alicerce de um tipo de pacto desses só pode ser o Estado, no caso europeu, o Estado de Bem-Estar que, há trinta anos vem retrocedendo, pondo em xeque os pactos sociais celebrados desde então, sendo os mais emblemáticos os pactos espanhóis de La Moncloa83, e dando lugar a uma sucessão de governos,
83 Os Pactos de La Moncloa foram um conjunto de negociações que resultaram no acordo que viabilizou,
159 conservadores ou socialdemocratas, que se dedicam a confiscar todas e cada uma das conquistas sociais dos trabalhadores daquele continente.
Esse recuo do Estado como escoadouro das macronegociações estaria levando, no momento em que o autor escreve meados dos anos de 1990, à emergência de atores “menores” nos processos de negociação, deslocando o centro decisório do aparelho estatal (como tanto no corporativismo autoritário, como naquele de teor social- democrata) para instâncias da sociedade civil, mesmo que a figura do Estado não desapareça em função disso, mas assuma novo papel:
Como alertou Schimitter, o Estado moderno, para melhor cumprir suas funções, e sob certas circunstâncias, tende a dividir seu poder de definição das políticas públicas com associações de interesse – que detêm informação e conhecimento – através de estruturas
institucionalizadas (Arbix, op. cit., 135, itálicos nossos).
Retenhamos o que está grifado nessa citação, pois nos vai ser útil quando discutirmos as implicações da “divisão” de atribuições entre o Estado e as “associações de interesse” através de “estruturas institucionalizadas”. Mas, por enquanto, o trecho nos basta como descrição das diferenças entre o velho e o novo corporativismo.
Para nosso otimista autor, superar-se-ia por essa via a velha característica do corporativismo tradicional que aspirava à absorção das instituições da sociedade civil pelo Estado, ao mesmo tempo em que assentaria o mercado capitalista em pressupostos que não seriam de mercado (Idem, ibidem, p. 135). Tal distinção seria de tal ordem que autoriza o autor a adotar um neologismo “emprestado” do inglês para denominá-lo, “corporatismo” (Idem, ibidem, p. 136). Como queremos demonstrar, entretanto, o novo corporativismo vai renovar os processos de constituição de um Estado total ou integral, ao contrário da superação do integralismo tradicional na qual Arbix acredita.
É assim que Arbix vai enxergar uma distinção central entre os corporativismos novo e velho: o fato de que naquele, fenômeno das sociedades modernas multifacetadas,
democrático, ao cabo de 40 anos de ditadura. Demolidas pela ação das massas, as instituições franquistas derrotadas abriam a via para as reivindicações operárias. Esse processo, entretanto, foi interrompido pela política de reconciliação nacional que visava a operar a preservação dos interesses da burguesia, fortemente identificadas com as instituições derrotadas, no bojo da transição para o regime democrático. Os Pactos de La Moncloa, negociados entre 1977 e 1981, cobriram desde o ordenamento político- institucional do país até a política de empregos, objeto do último pacto celebrado em 1981. La Moncloa não teria sido possível sem a caução dada pela participação das organizações tradicionais da classe operária espanhola, em particular o Partido Socialista Obrero Español (PSOE), o Partido Comunista Español (PCE), a Confederación General del Trabajo (CGT) e as Comisiones Obreras (CC OO). Desde
160 avultam os “mecanismos emergentes na sociedade capitalista”, sendo designado por isso de “societal”, enquanto neste, os mecanismos de agregação corporativista nasceriam das entranhas do Estado, e assim constituiriam um corporativismo “estatal”. Isso levaria a uma nova distinção entre eles, o fato de um, o “societal”, se basear na autonomia das associações gestadas na sociedade, e o outro, “estatal” se apoiar na autoridade do Estado e em sua identificação com a sociedade. Arbix (Op. cit., p. 137) não nega, porém, que sem Estado não há corporativismo, mas vê na variedade “societal” um sistema de troca e intercâmbio recíprocos entre o Estado e a sociedade civil.
De qualquer modo, partindo dos escritos de Schmitter84, Arbix vai reconhecer o arranjo neocorporativo como um mecanismo que liga “os interesses organizados da sociedade civil com as estruturas de decisão do Estado”. A partir desse aspecto conceitual, Arbix (Idem, ibidem, p. 138) desenvolve a concepção de outros autores, colocando o acento tônico nos processos de concertação social, mas mantendo o essencial da concepção contida na frase acima citada, isto é, a ideia de que há uma interdependência entre os grupos em conflito na sociedade e, assim, concebendo um modelo de trocas de entre eles que, a nosso ver, nada mais é do que um sistema de colaboração de classes, preservada a base da propriedade privada.
Nessa concepção, os arranjos corporativistas designam tanto um sistema não político, quanto os processos que, e o autor não afirma isso, desaguam nesse sistema. Assim, a concertação evoluiria de uma troca de experiências e expectativas entre os atores envolvidos, passando a uma negociação de trocas entre as partes, ou seja, a um sistema de acordos onde as partes ganham e cedem vantagens, chegando a um terceiro nível, onde nós vemos um salto de qualidade, que seria a institucionalização, não só dos resultados dos acordos, como dos mecanismos para a sua obtenção, ou como afirma Arbix (Idem, ibidem, p. 139), a concertação “só ganharia estabilidade a partir do estabelecimento de relações de longo-prazo entre o Estado e a sociedade”.
Todo esse processo estaria fundado na observância das “exigências sistêmicas da economia nacional”, quer dizer da economia capitalista vigente que funciona como horizonte último do arranjo neocorporativo.
então, la Moncloa tem sido apresentada como uma concertação social exitosa (com informações de SECCO, 2003, p. 11-18).
84 O autor se utiliza, para essa passagem, do artigo Still the Century of Corporatism?, de Philippe C.
161 Os autores apresentados por Arbix remontam suas idéias a um axioma tradicional do corporativismo, o da substituição do sistema de livre mercado, com o fim de reduzir ou eliminar a competição entre as várias componentes, retórica que historicamente encobre o objetivo de impedir que os trabalhadores usufruam de independência para lutar por seus interesses próprios.
Para além do fato de que, embora a competição seja impossível de abolir por meios institucionais, o capitalismo se caracterizar, desde o princípio do século XX, como um sistema que tende ao monopólio e à centralização dos recursos produtivos e dos lucros, o chão dos arranjos corporativos segue sendo a propriedade privada dos meios de produção, objeto precípuo da existência do Estado. Ou seja, o fundamento do neocorporativismo segue sendo (e o lugar ocupado pelo Estado em seus arranjos atesta isso) os mesmos que estiveram na raiz de seu surgimento como sistema de Estado a partir dos escritos de Durkheim e de seus teóricos da virada do século XIX para século XX.
Curiosamente, ao apresentar outro autor, Alan Cawson, Arbix avança a ideia do novo corporativismo como um sistema regulador e, nesse caso, oposto aos traços característicos do que se convencionou chamar de neoliberalismo. O lugar do Estado se situaria justamente aí, no momento da institucionalização dos acordos alcançados. Da mesma forma, Arbix considera que o neocorporativismo representaria um triunfo da política, do debate sobre a naturalização da economia trazida pelo discurso “neoliberal”. Um teórico de outra coloração política, Francisco de Oliveira, vai na mesma direção, ao considerar o chamado “acordo das montadoras”85 como um deslocamento de aspectos da política econômica da esfera privada para a pública, permitindo assim, a expressão da vontade dos trabalhadores cuja voz houvera sido historicamente interditada. Diz-nos o autor (OLIVEIRA, 1997, 74-75):
Enquanto isso, as classes dominadas tentam, por todos os meios, construir a política, fazer a política. Uma das formas mais exemplares a esse respeito foi construída pela experiência da câmara
85 Como também ficou conhecida a Câmara Setorial da Indústria Automotiva, no início dos anos de 1990.
Como resultado do “acordo das montadoras”, o automóvel sofreu uma redução de preços de 22%, fruto de um arranjo em que as empresas anunciaram uma redução de lucros de 4,5%, o setor de autopeças, de 3,0% e as concessionárias, de 2,5%, mas tudo amparado numa redução de IPI e de ICMS que alcançava a fantástica cifra de 12%. Aos trabalhadores se deu uma manutenção do nível de emprego por alguns meses e a garantia de reajuste conforme a inflação. Em 1993, o acordo foi renovado com a promessa de ampliação dos reajustes salariais em 20% até 1995, novo período de manutenção do índice de emprego, com a criação de 91 mil empregos (FREDERICO, 1994, p. 94). Essa segunda parte do acordo não encontrou apoio no governo FHC, eleito em 1994 e se cumpriu apenas em parte (Arbix, op. cit., p. 127- 128; OLIVEIRA, 79-81).
162 setorial da indústria automotiva (...) os três atores principais modificaram os termos da câmara setorial para compromissos de aumento de produção, renovação tecnológica, garantia de emprego e salários (...) uma agenda de discussões e de objetivos que constituía uma verdadeira revolução nas relações capital-trabalho no Brasil.
De outro lado, toma posição Alves (1999). O autor enxerga as manifestações neocorporativas justamente como instrumentos do que chama “reestruturação produtiva”, onde a defesa dos interesses próprios da classe se vê substituída pela
participação dos trabalhadores assalariados no processo decisório da reestruturação produtiva setorial ou por empresa, buscando no mundo da produção, uma convergência de interesses entre capital e trabalho assalariado (ALVES, op. cit., p. 2. Destaques do autor).
Alves enxerga ainda um recuo de um corporativismo social-democrata clássico, de tipo societal ou estatal, em qualquer dos casos, implicando uma ação de horizonte geral, para um corporativismo setorial, vinculado exclusivamente ao ramo econômico onde se viabiliza o arranjo, tendo efeitos mais amplos apenas indiretamente. Tal modelo reduziria a margem de manobra da classe trabalhadora, limitada aos imperativos daquele dado setor da economia.
Segundo o autor (Idem, ibidem, p. 5):
O novo padrão de ação sindical, sustentado na lógica corporativa setorial é, portanto, a própria síntese propositiva da captura da subjetividade do trabalho tal como se propõe – e impõe – os dispositivos organizacionais (e ideológicos) da nova forma produtiva (o toyotismo).
Isto porque, para Alves, as novas formas de corporativismo que os anos de 1990 vão conhecer devem ser entendidos, para além (mas sem deixar de considerá-la) da vontade subjetiva (política) das forças sociais em presença, como imposições do fundamento do sistema capitalista. Alves, então, busca as razões do neocorporativismo no terreno ontológico, onde repousam tanto as formas organizacionais da produção quanto as modalidades de colaboração entre as classes. Assim como o toyotismo aparece como “ideologia orgânica” do capital no período em tela, também o neocorporativismo teria um cariz orgânico no contexto do capitalismo de fim de século.
Alves parte da premissa de que há uma relação entre a conjunção crise do Estado-crise do capital e as novas formas organizacionais assumidas pela indústria. A
163 erosão de direitos que, no limite, inviabilizaram as forma precedentes de colaboração corporativista (especialmente aquela praticada pela social-democracia europeia) se combinou com as alternativas de produção just in time ou toyotista, inaugurando formas de corporativismo setoriais ou parciais, tornando obsoletos conceitos como universalidade de direitos e regulações, e constituindo um tipo de administração de cariz descentralizador.
Evidentemente, já vimos estes processos ocorrerem igualmente na esfera do Estado, ao nosso ver, inaugurando uma outra “universalidade”, uma “universalidade da diferença”, ou da “equidade”, numa gestão universalmente descentralizada.
Para o autor, a instabilidade que marca a valorização do capital e a fluidez do mercado exigiriam a incorporação da flexibilidade na acumulação capitalista como traço orgânico das saídas para a crise de valorização, o que é o mesmo que falar em flexibilização das condições sociais da produção.
Sendo assim, o neocorporativismo que plasma as políticas estatais, inclusive as educacionais, desde os anos de 1990 devem ser examinadas à luz das mudanças verificadas no sistema produtivo hegemônico. Até porque, como já observado na análise das posições de Arbix, os arranjos neocorporativos verificados nesse interregno histórico incidiram sobre o lugar do Estado e, como temos assinalado ao longo deste trabalho, incidiu na reconfiguração do próprio aparelho estatal. Daí considerarmos pertinente a frase de Gramsci que encima este item, “a hegemonia começa na fábrica”. Usada pelo autor para ilustrar a intervenção da organização produtiva fordista na vida social, ela cabe bem aqui para ressaltar que as formas de dominação estatal contemporâneas também encontram na base do sistema produtivo suas raízes.
Ressalvando que Alves enxerga nas novas formas assumidas pelo processo produtivo uma “nova etapa do desenvolvimento capitalista”86 (Idem, ibidem., p. 6), retemos do autor a ideia fecunda de que é na gestão, ou seja, na organização da produção que reside as principais alterações no sistema produtivo para torná-lo
86 Não é este o lugar para desenvolver esta polêmica, mas, por razão de honestidade intelectual,
sublinhamos nossa diferença com Alves neste aspecto, posto que, como desenvolvido no primeiro capítulo da presente tese, julgamos que as saídas encontradas pelo sistema do capital nas últimas décadas para a contradição entre o desenvolvimento da produtividade (crescente acúmulo, não apenas de mercadorias, mas de capitais) e a retração relativa do consumo, no que pesem alívios imediatos e localizados, preparam sempre uma “nova etapa”, isto sim, de aprofundamento da crise do capital. Reconheça-se aqui que Alves (Op. cit., p. 6) destaca, com razão, o caráter artificial destas saídas ao atribuir lugar central ao que chama, acompanhando Chesnais, de financeirização da acumulação capitalista, ou seja, uma acumulação baseada na especulação em detrimento da produção e da circulação efetivas.
164 funcional à chamada acumulação flexível. Para Alves (Op. cit., p. 6), “a construção do toyotismo como um “modelo ontológico” da produção capitalista ocorreu a partir de uma prática gerencial”. O autor conclui a seguir: “O nexo essencial da acumulação flexível não reside em dispositivos tecnológicos, mas sim em dispositivos organizacionais.
A nós interessa, especificamente, o desdobramento desse processo que nosso autor assinala, o fato de que o novo gerencialismo engendra um novo corporativismo, onde o essencial é, dentro de um modelo de avaliação por resultados, incorporar o trabalhador como “colaborador ativo do capital no campo da produção” (Idem, ibidem, p. 7). Dito com outras palavras pelo próprio autor, trata-se da
necessidade “radical” da produção capitalista de instaurar uma nova hegemonia do capital na produção, integrando, através da captura da subjetividade do trabalho, o pólo antagônico do capital (Idem, ibidem, p. 8).
O autor ressalta, com razão, que não interessa ao capital nenhuma das formas historicamente constituídas da organização da classe trabalhadora, quer dizer, não interessa as formas de colaboração de classe que reconhecem a bipolaridade da sociedade. A descrição que Alves faz desse novo cenário é perturbadora mas reveladoramente semelhante aos pilares da “reforma” gerencial do Estado, como veremos:
Não interessa ao capital o sindicato com política socialdemocrata no sentido clássico, (...) O que é exigido é um tipo de sindicalismo de empresa, com atuação restrita e setorial; (...) Por isso a ideia de “concertação social” que incorpora o espírito da colaboração ativa entre capital e trabalho e da participação dos próprios trabalhadores assalariados (...) na implementação das estratégias produtivas (Idem, ibidem, p. 9, itálico nosso).
De resto, de perspectivas diferentes, tanto Arbix quanto Alves, como vimos, olhando, como veremos, para teorizações que remontam a Drucker (1964), descrevem um processo que se afasta da integração societal das organizações dos trabalhadores, para uma integração em nível setorial, apenas para retomar a incorporação desta organizações ao aparelho estatal, agora como corpo intermediário que se constitui ao lado do empresariado como “corporação” por ramo econômico, mas no âmbito de um plano global-estatal imposto pelas novos imperativos da crise do capitalismo.
165 Souza (2001) apresenta alguns aspectos desse processo em que a hegemonia começada na fábrica se expande como hegemonia social e, como tal, obrigatoriamente como hegemonia exercida através do poder de Estado, o que para nós é essencial tendo em vista que advogamos que a “reforma” do aparelho de Estado no Brasil, no interior da qual vem se operando a “reforma” do sistema educacional, tomando as palavras de Alves, essencialmente “reside em dispositivos organizacionais”, com o fim de integrar, “através da captura da subjetividade do trabalho, o pólo antagônico do capital”.
Souza (Op. cit., p. 47), apoiada em Freitas, considera que a descentralização da administração pública, “característica integrante das reformas educacionais propostas pelos organismos multilaterais”, se deu no âmbito de uma clara divisão entre gerenciamento interfuncional e gerenciamento da rotina, categorias pertinentes e que acolhemos em nossa análise. Segundo Freitas, citada por nossa autora, o primeiro pode ser comparado à cabine de comando de um navio, onde se decide o rumo da nave, as formas de comando e de controle da tripulação, enquanto o segundo se assemelha ao trabalho dos marujos da casa das máquinas, capazes de otimizar a navegação, mas sempre dentro do plano traçado na cabine de comando. Ainda de acordo com essa autora:
A rotina é o sistema gerencial das pessoas da casa das máquinas, enquanto que o gerenciamento interfuncional é aquele do