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Burnet et al. (2010) afirmam que o neurotransmissor mais conhecido por sua capacidade de aumentar a motivação e excitação sexual é a dopamina (DA). O sistema dopaminérgico tem papel central no mecanismo excitatório da reposta sexual (PFAUS, 2009; GIULIANO et al., 2010) e três principais sistemas contribuem para a excitação e o desejo sexual (FIG. 13): 1) o sistema dopaminérgico diencefálico hipotalâmico, com terminais na área pré-óptica medial (MPOA) do hipotálamo anterior; 2) o sistema mesolímbico e mesocortical dopaminérgico, respectivamente, com terminais no núcleo accumbens (Nacc) e área incerto hipotalâmica, a região medial do córtex pré-frontal, (MPFC) região implicada no controle executivo e inibição do comportamento (ROTH e ELSWORTH, 1995, apud PFAUS, 2009) e, 3) o sistema nigroestriatal, com terminais no corpo estriado dorsal (núcleo caudado e putâmen) (FIG. 13). Esses sistemas participam do controle da atenção e da motivação para estímulos sexuais, do controle de respostas em relação a esses estímulos e das eferências autonômicas que controlam a ativação dos sistemas simpático (no coração) e parassimpático (aumento de fluxo sanguíneo genital). O sistema dopaminérgico tuberoinfundibular controla a liberação de hormônios hipofisários a partir da porção anterior da hipófise ou adenohipófise (PFAUS, 2009).

O núcleo accumbens é a área do cérebro em que a dopamina facilita a motivação e excitação sexual (SESACK e PICKEL, 1992 apud BURNETT et al., 2010). Ratos expostos a uma fêmea receptiva inacessível mostram, frequentemente, ereções sem contato e episódios de ereção peniana dependentes de ferohormônio indistinguíveis de ereções, induzidas por drogas e / ou neuropeptídios (BURNETT et al., 2010).

Drogas que se ligam a receptores de dopamina D1, receptores adrenérgicos, receptores de ocitocina, receptores opióides ou receptores para GABA (ácido gama- aminobutírico), em certas regiões hipotalâmicas, podem aumentar a lordose em ratas ovariectomatizadas (KOW, MOBBS e PFFAF, 1994 e PFFAF, 2001 apud LUE

et al., 2004). A lordose em ratas é um sinal de desejo e consequente excitação sexual. As fêmeas solicitam a cópula e depois fogem; depois disso, elas têm uma postura estrogênio-estacionária, chamada “lordose” que é intensificada quando o macho monta. Após a montagem com intromição do pênis na vagina e movimentos pélvicos que estimulam o clitóris, o macho desmonta e a fêmea foge. Isso ocorre sucessivas vezes até que ele ejacula. E ele a persegue até que ela cesse com a postura de lordose (PFAUS, 2009).

FIGURA 13 - Sistemas encefálicos dopaminérgicos.

Corpos neuronais do sistema mesolímbico DA localizam-se na área tegmentar ventral e projetam difusamente para diferentes estruturas límbicas e corticais (núcleos da amígdala, núcleo accumbens, tubérculo olfatório e córtex piriforme, septo lateral). As projeções mesocorticais de fibras DA dirigem-se, em grande parte, para o córtex pré- frontal medial (MPFC), Corpos neuronais do sistema nigroestriatal localizam-se na substância negra e se projetam para o núcleo caudado e o putâmen (corpo estriado). Projeções DA para a área pré-ótica medial se originam na zona incerta sob o tálamo (MOORE e LOOKLINGLAND, 1995). (apud PFAUS, 2009). VTA = área tegmentar ventral; MPFC = córtex pré-frontal medial, SN = substância negra; MPOA = área pré- óptica medial, núcleo accumbens = Nacc.

Estudos mostram uma relação positiva entre o amor, o desejo e o orgasmo (COSTA e BRODY, 2007; KOMISARUK e WHIPPE, 1998; ORTIGUE e BIANCHI- DEMICHELI, 2007 apud ORTIGUE, PATEL e BIANCHI-DEMICHELI, 2010). Isto significa que algumas das alterações comportamentais (e seus substratos neurobiológicos) que ocorrem no sentimento de amor podem, potencialmente, também interagir (inibir ou facilitar) com os substratos neurobiológicos que medeiam respostas sexuais, como a excitação e o desejo sexual (LOVING, CROCKETT e PAYSON, 2009 e FISHER, 2000 apud ORTIGUE, PATEL e BIANCHI-DEMICHELI, 2010). Os estímulos relacionados com o amor induzem a ativação de áreas do cérebro ricas em dopamina que medeiam os estados motivacionais e de recompensas. Esses resultados se encaixam bem com as teorias de longa duração do amor que define o amor como motivação central para a união monogâmica entre seres humanos (ORTIGUE e BIANCHI-DEMICHELI, 2008 e ARON, ARON e FUDOR, 2004 apud ORTIGUE, PATEL e BIANCHI-DEMICHELI, 2010). Seria o amor um dos componentes responsáveis pelo desejo sexual responsivo, proposto por Basson? A área tegmentar ventral, localizada no mesencéfalo e coincidente com as áreas ricas em receptores para dopamina, ocitocina e vasopressina é considerada como uma “plataforma” central para a sensação de prazer e união monogâmica. A dopamina pode contribuir para a modulação da atividade de neurônios secretores de ocitocina do núcleo paraventricular hipotalâmico, cujas projeções ativam neurônios da área tegmentar ventral, favorecendo a motivação sexual e a recompensa (BURNETT et al., 2010). No núcleo caudado também se observa ativação (através de fMRI), associada à representação de objetivos, à detecção de recompensa, à expectativa e à preparação para a ação. Os resultados sugerem que a paixão é uma emoção positiva complexa e é também uma motivação baseada em meta dirigida para um parceiro específico. O estudo sistemático da modulação dos circuitos dopaminérgicos em áreas específicas do cérebro de indivíduos apaixonados, ou seja, áreas relacionadas com o amor, como a área tegmentar ventral e o núcleo caudado, pode ser útil para melhorar a compreensão das modulações motivacionais (aumento/diminuição) que podem ocorrer em casais nas relações de longa duração (ORTIGUE, PATEL e BIANCHI-DEMICHELI, 2010).

Efeitos pró-sexuais da bupropiona têm sido relatados em vários estudos (MODELL et al., 1997). Bupropiona é um agonista indireto da dopamina e noradrenalina, mas não tem efeito significativo sobre a serotonina (LÓPEZ, WURZEL e REGEN, 2007) ou seja, aumenta a neurotransmissão dopaminérgica e noradrenérgica. Associado a outros medicamentos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (SSRIs), ele recupera a função sexual – desejo e orgasmo, piores efeitos colaterais dos SSRIs em relação à sexualidade. A droga já demonstrou eficácia em mulheres na pós- menopausa e, recentemente, foi publicado o primeiro estudo sobre o uso oral de bupropiona em mulheres na pré-menopausa e que apresentam transtorno do desejo sexual hipoativo, demonstrando significativa melhora no quadro (apud SAFARINEJAD et al., 2010).

Drogas capazes de aumentar a atividade deste circuito neural seriam estratégicas para o tratamento HSDD. No entanto, considerações contra estas drogas são as propriedades eméticas de agonistas D2 e seu potencial de produzir dependência acentuada e dependência a partir da aumentada liberação da dopamina (por exemplo, drogas com anfetaminas) ou inibindo recaptação de dopamina (por exemplo, drogas como a cocaína) em sinapses centrais ( BURNETT et al., 2010).

Benzer Belgeler