3. Kosova‟da Din Eğitimi
3.1.2. Kosova‟da Din Eğitimi Veren Camiler
3.1.2.1. PriĢtine Camileri
Mesmo se consideramos negativamente certos aspectos críticos na fundamentação
257 JONES, Gareth S. Op. cit., p.379.
258 Posições recorrentes no comentário a respeito dos textos militares com foco no regime soviético, segundo a leitura de totalitarismo interpretado como o resultado necessário de uma orientação política a partir da obra de Marx e Engels.
histórica de Engels, ainda assim, ao pensarmos sobre as organizações militares, é possível notarmos aspectos originais progressivamente mais interessantes sobre a guerra. Aspectos que apresentam em sua exposição, com algumas diferenças e confirmações em relação aos problemas de método anunciados por Engels no começo do livro.
Uma das reflexões mais importantes e originais sobre a guerra presentes no capítulo sobre a violência do Anti-Dühring que diz respeito ao que Engels observava as implicações sociais sobre o desenvolvimento do armamento, em particular, no caso do avanço representado pelo uso do fuzil Dreyse needle-gun260 pelas tropas prussianas, explicado não
apenas sob o aspecto tecnológico, mas sob os termos de um desenvolvimento organizativo que permitiu seu uso eficaz nos campos de batalha. Este desenvolvimento foi visto como um avanço técnico que resultou no desenvolvimento das formas da infantaria terrestre quando puderam somar o uso deste novo tipo de arsenal aos avanços trazidos pela forma de organização resultante dos exércitos da Grande Armée da Revolução Francesa.
Outro aspecto notável é a descrição do “duelo entre a blindagem dos navios e o alcance dos canhões” 261 que envolveu parte do raciocínio criticado por Lukács, mas que,
mesmo assim apresentava algo relativamente válido ao tratar das questões que emergiram daquilo que Engels acreditou ser o termo de uma forma de armamento (o material
armamento), disponível como arsenal de guerra e cujo desenvolvimento se relaciona com o
desenvolvimento industrial e a tecnologia fruto da ciência impulsionada pelo iluminismo. A ciência e as relações econômicas que permitiram o desenvolvimento da produção a partir de outros domínios, aparentemente distintos, estimularam a crítica de Engels ao entendimento sobre a guerra de inspiração liberal que acreditava que a economia seria uma instância autônoma em relação à guerra, que era sustentado naquela ocasião pelos proudhonianos e no argumento de Eugen Dühring.
Contra um juízo sobre a divisão entre duas instâncias que atribuiriam à economia, uma natureza imanentemente pacífica contra a guerra, pensada como uma dimensão social separada, Engels utiliza em sua crítica um argumento que se apoia no desenvolvimento dos modernos artefatos de guerra, como produtos da indústria.
O revólver triunfará da espada e até a criatura mais cheia de axiomas terá de
260 Vide nota 50.
261 ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring: filosofia, economia política, socialismo. Rio de Janeiro: paz e Terra, 1979, p. 150. O ataque e defesa, manifestos como conflito entre artilharia e blindagem se relacionam certamente às outras formas de armamento (em particular às chamadas “bocas de fogo,” que são as armas de artilharia destinadas a disparar granadas através de um tubo como as peças de artilharia, obuseiros, morteiros e canhões).
reconhecer que, neste caso, a violência não é um mero ato de vontade, pressupondo, pelo contrário, condições prévias bastante reais para o seu exercício, a saber: instrumentos, entre os quais, o mais perfeito esmaga o mais imperfeito. Estes
instrumentos, que não brotam do solo por si sós, tiveram de ser produzidos, o que
equivale a dizer que o produtor dos mais perfeitos instrumentos de violência, que são as armas, triunfa sobre o produtor dos mais imperfeitos. Daí temos de reconhecer, em resumo, que a vitória da violência se reduz à produção de armas e que esta, por sua vez, se reduz à produção em geral, e, portanto, ao “poderio econômico,” à “situação econômica,” aos meios materiais colocados à disposição da vontade de violência (no original em negrito) 262
Há um pressuposto material que Engels quer demonstrar de modo irrefutável em seu relato sobre os meios e modos de se fazer a guerra: a eficácia. Longe de representar uma relação imediata entre o meio material, representado pelo arsenal, o material armamento, e o
material humano, visto como a capacidade de disposição do soldado como meio material de
se fazer a guerra, ou seja, abstraído como homem, para focar-se apenas em seu objetivo. O uso eficaz dos meios materiais produzidos pelo sistema da guerra desenvolve-se no tempo produzindo uma marca indelével, o de ser capaz de ser mais destrutivo, ou “mais perfeito” (vollkommnereem) em relação ao fim para o qual é produzido e, deste modo, caso seja este processo seja entendido a partir de algo como uma “essência da arma,” esta poderia ser pensada a partir de um desenvolvimento que buscaria se constituir de modo perfeito, ou seja, que pressuporia um desenvolvimento em que seria capaz de suplantar os “meios materiais” (materiellen Mitteln) que se tornam ultrapassados, demonstrando assim uma marca do tempo que transforma o modo de se fazer a guerra. 263
Esta ideia do armamento inserido dentro da dialética e pensada em relação aos princípios da sociedade moderna também é presente em Hegel (na terceira parte das Linhas
Fundamentais da filosofia do Direito, terceira seção §328), onde a forma da arma de fogo está
voltada à relação entre a guerra e aquilo que ela pressupõe no combate como abstração do combate de um indivíduo singular voltado contra um único oponente. Deste modo, pensado como princípio dedutivo a partir de uma relação de alienação de si (Entäußerung selbst) esta relação remeteria ao “elemento mecânico de uma ordem externa ou serviço,” em outros termos, à disciplina e a hierarquia, onde estaria em questão “a obediência total e a abolição do próprio opinar e raciocinar, a ausência do próprio espírito e a presença de espírito e a resolução instantâneas as mais intensas e compreensivas.” Esta situação resultaria para Hegel idealmente em um agir objetivamente “o mais hostil” possível para o aspecto pessoal, e em direção a uma disciplina que imponha um sentido objetivo de modo a que mesmo em combate, o guerreiro possa se projetar contra “indivíduos, num estado de ânimo
262 Idem, p. 145. 263 Idem, p. 145.
completamente indiferente, até mesmo bom, em face deles como indivíduos.”
O princípio do mundo moderno, o pensamento e o universal, deu à bravura militar a figura mais elevada, consistindo em que a sua externação (Äußerung) parece ser mais mecânica e não aparece “mais” como feito desta pessoa particular, mas somente como “feito do” membro de um todo, em que [,igualmente,] essa bravura não está voltada contra pessoas singulares, mas contra um todo inimigo em geral “e em que”a coragem pessoal aparece, por conseguinte, como uma coragem não pessoal. É esse princípio que inventou, por isso, a arma de fogo, e não é a invenção acidental dessa arma o que transformou a figura meramente pessoal da bravura numa figura mais abstrata. 264
O que insere a arma de fogo em outro sentido que não o do acaso de sua descoberta, mas numa condição de desenvolvimento da própria ideia de combate, portanto, o que permitiria “deduzir” ou derivar a forma do armamento do seu pressuposto essencialmente determinante que é a própria realização do combate enquanto se está a “serviço do Estado” (§329) e segundo um ideal coletivo. Esta situação se diferencia da coragem individual por ser uma alienação dos fins particulares para se realizar “não apenas para si, e somente para os outros.”265 (Para Hegel, o “estamento militar é o estamento da universalidade, ao qual
compete a defesa do Estado e que tem o dever de trazer a própria idealidade em si à existência, quer dizer, sacrificar-se,” onde a relação com este fim mais geral, em função do universal que modificaria a expressão social deste conflito, relacionando-o também à ideia.
Não a bravura pessoal, mas a inserção no universal é, aqui, o que há de mais importante. Na Índia quinhentos venceram a vinte mil, que não eram covardes, mas que somente não tinham disposição de ânimo de atuarem cerrados em união com os demais. 266
Assim uma disposição de ânimo pessoal se liga à constituição dos fins mais gerais do Estado resultando na mudança da “forma particular” como “processo” em direção à uma “forma social” que realiza os fins mais gerais do Estado e onde cada indivíduo é apenas “um entre muitos.” Neste contexto, onde é citado o que parece o exemplo da falange macedônica (por se referir ao pressuposto organizativo da falange como coordenação), destaca-se o modo como o princípio organizativo deu vazão à formação cerrada que permitiria coordenar o ataque coletivo em um nível superior à forma de combate individual, repondo esta ação a serviço de um conceito único que daria ensejo a uma forma conjunta de combate, que serviria, neste caso, de suporte à construção de um único objetivo mais eficaz.
264 HEGEL, Georg. Linhas fundamentais da filosofia do direito ou direito natural e ciência do estado
em seu traçado fundamental. O Estado. Trans. M. L. Müller. (M. L. Müller, Trans.). Campinas SP:
IFCH/UNICAMP. v. 32, 1998, p.63. 265 Idem, p.62-63.
Em Engels, há um sentido similar à exposição de Hegel sobre a arma de fogo (assim como outro, distinto, que tratamos também a seguir), a guerra ganha um novo sentido quando é pensada sob as coordenadas gerais da sociedade, libertando-se dos pressupostos da análise militar e relacionando-a em parte à lógica da economia política segundo a análise da produção de valores de uso. A guerra, assim como a violência organizada torna-se ligada à economia contra a forma de abordagem dos liberais que se manteve viva em parte do pensamento socialista combatidos em nome de uma especificidade do pensamento que se apresenta como “marxista.”
Que vem a ser, atualmente, a violência? São os exércitos e os navios de guerra, e ambos custam, como já tivemos ocasião de aprender, por gloriosa experiência, “um montão de dinheiro. Mas, que saibamos, a violência não é capaz de criar dinheiro. A única coisa que ela sabe é arrebatar o que já foi criado, o que também de pouco nos servirá, como já sabemos pela pungente experiência dos famosos cinco mil milhões da França. Em última análise, é sempre a produção econômica que subministra a quantidade necessária de dinheiro. Voltamos a nos encontrar, aqui, com a ideia de que a violência está condicionada pela situação econômica, da qual ela deve receber os meios necessários para se equipar com instrumentos, bem como para conservá- los. E não termina aqui a nossa história. Nada pode depender tanto dos fatores econômicos como o exército e a marinha. O armamento, a composição, a tática e a estratégia, dependem, antes de tudo, do grau de produção imperante e do sistema de comunicações. Não foram as “criações livres da inteligência de chefes geniais que revolucionaram a estratégia militar, mas a invenção de armas mais perfeitas e as mudanças sofridas pelo material humano. O máximo que um estrategista genial pode fazer é adaptar os métodos de luta às novas armas e aos novos lutadores.267
Do mesmo modo, Engels nota a correlação entre as armas como pressupostos da guerra e a economia, a partir do fato de que a “introdução da pólvora e das armas de fogo não foi precisamente um ato de violência, mas um progresso industrial e, portanto, um progresso econômico,” o que daria força a seu argumento.
A indústria não perde o seu caráter de indústria por se destinarem os seus produtos a destruir e não a criar os objetos. E a adoção das armas de fogo não somente revolucionou os métodos de guerra, como também as instituições políticas de poderio e de dominação. Para conseguir pólvora e armas de fogo, faziam falta indústria e dinheiro, e ambos estes elementos estavam em mãos da burguesia das cidades. 268
Algo curioso neste processo é o modo como Engels confronta a análise da relação entre o desenvolvimento do armamento e o seu uso, pois longe de representar um determinismo das relações sociais aplicadas à guerra pelo desenvolvimento tecnológico do armamento, em sua análise, Engels nota como as armas de fogo “desenvolveram-se com grande lentidão [...] Eram soldados mercenários, recrutados pelos príncipes, não poucas vezes
267 ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring: filosofia, economia política, socialismo. Rio de Janeiro: paz e Terra, 1979, p. 146.
à força, entre os prisioneiros de guerra inimigos, e a única forma de luta na qual podiam estes soldados utilizar o novo fuzil era a tática de linha, que alcançou a sua máxima perfeição sob o comando de Frederico II.”269 Portanto, o desenvolvimento das formas de organização social
lidava com uma técnica própria ao controle e organização eficaz do modo como eram organizadas as tropas, em paralelo ao desenvolvimento da produção de armamentos, como se fossem processos históricos distintos que só posteriormente são envolvidos em um mesmo processo.
Outra questão envolvida era parte daquilo que ocupou o centro das preocupações de Engels sobre a guerra, a relação entre o desenvolvimento das técnicas militares e a estrutura de classes, através da conscrição. Uma marca, já enunciada do desenvolvimento que se apresenta pela eficácia ou “maior perfeição” que permitiria a uma determinada formação de combate continuar a existir sob pena de se tornar ineficaz, e a partir daí, desaparecendo da história. Com o tempo, mesmo esta forma mais perfeita em um dado momento e segundo determinadas condições históricas particulares “foi tornada impotente e teve de sucumbir frente a um inimigo invisível e inatacável. E surgiu a tática dos atiradores: uma tática nova, fruto de um novo material humano.”270 Foi sobre este novo “material humano” que remeteria
ao que tratou Engels a respeito das formações de guerrilha, isto é, quanto à entrada do povo nas revoluções e nas guerras nacionais.
Um elemento notável nesta narrativa é o do impacto do desenvolvimento da organização militar como sentido de destruição correlato com o desenvolvimento da indústria, o que atesta o desenvolvimento do uso da arma de fogo, um sentido que permite colocar numa mesma organização de modo eficaz a arma e o soldado. Esta associação possui outras implicações, pois ela se realiza como a presença conjunta de uma massa de soldados originados de diversas classes sociais que coincide com este desenvolvimento conjunto entre meios da guerra, sociais e materiais, resultando em uma questão seguindo a narrativa de Engels.
Como este desenvolvimento armado, que coloca classes opostas, a nobreza, como as classes de oficiais hereditários, burguesia como técnicos, e o campesinato como soldados, todos armados não teria resultado até então em um arranjo instável que alterasse o curso das guerras em uma guerra civil logo no início dos combates, assim que estivessem de posse das armas, permanecendo assim um sistema armado em pleno desenvolvimento durante o século
269 Idem, p. 146. 270 Idem, p. 147.
XIX?
Parte da resposta a esta pergunta pode ser encontrada em autores contemporâneos como Michel Foucault (que comentamos mais a frente) ao tratar do desenvolvimento da disciplina dos exércitos como uma forma de tecnologia de organização que se relaciona com os sistemas de pensamento desde o século XVIII, período que coincide com os pontos principais do texto de Engels sobre o desenvolvimento da infantaria.