• Sonuç bulunamadı

O Serviço de Violência Familiar de Coimbra foi criado como um dos serviços do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra53, unidade Sobral Cid, pelo Dr. João Redondo, psiquiatra. Este serviço vai ao encontro das ideias da Organização Mundial da

52

Cada serviço que compõe a Rede de Proteção tem seu fluxograma.

53

Saúde (2002) que enfoca a “violência como um problema mundial de saúde pública” (p. 1).

O Serviço de Violência Familiar iniciou suas atividades em abril de 2005. Seu objetivo é dar respostas, ao longo do ciclo vital, às várias problemáticas da saúde mental associadas à violência intrafamiliar, por meio dos atendimentos às vítimas, agressores e famílias, envolvendo por vezes as suas redes de suporte.

A estratégia adotada pelo serviço é de intervenção multidisciplinar, multissetorial; sempre que necessário são envolvidas as redes de suporte dos atendidos.

A equipe do serviço é composta pelo Dr. João Redondo, psiquiatra e coordenador do serviço, pelo Dr. Henrique Vicente, psicólogo, pela Dra. Inês Pimentel, psicóloga, pela Dra. Generosa Morais, assistente social, e pela Sra. Izilda, secretária.

O coordenador do Serviço de Violência Familiar de Coimbra dizia que não era qualquer profissional que tinha condições psíquicas e emocionais para trabalhar nessa área. Como precondição para a realização do trabalho, o profissional tinha que ter suas questões emocionais minimamente resolvidas, bem como um suporte familiar e profissional que sustentasse, física e emocionalmente, os desgastes causados pelo trabalho. Diante dessas exigências, o próprio coordenador selecionava as pessoas para trabalhar na sua equipe.

O Dr. João procurou, no processo de seleção, equilibrar a quantidade de homens e mulheres na equipe, pois acreditava que o atendimento de um casal feito por profissionais de ambos os sexos poderia proporcionar uma referência simbólica quanto à relação interpessoal, envolvendo questões de gênero e pautada no respeito, na parceria e na não violência.

O equilíbrio etário também era apontado pelo coordenador como um aspecto interessante a ser considerado nos atendimentos. Na equipe havia dois profissionais com cerca de 45 anos e outros dois de 30 anos aproximadamente. Esse não era um critério para seleção dos profissionais, mas a equipe acabou por se configurar dessa maneira.

O coordenador dizia que muitos agressores se colocavam numa postura mais agressiva quando a psicóloga era mais jovem; porém quando se via diante de um profissional mais velho, a relação era de respeito, sem agressividade.

A assistente social (45 anos) também afirmava ter uma relação com os agressores bastante interessante. Ela conta que, às vezes, os agressores tinham mais dificuldades em estabelecer vínculo com o coordenador, o que não acontecia quando

eram atendidos por ela. Acreditava que isso acontecia por ela assumir uma postura mais acolhedora, mais maternal.

As consultas de acolhimento do SVF são realizadas em duas ou três sessões, por dois profissionais, geralmente: um do sexo masculino (psiquiatra ou psicólogo) e outro do feminino (psicóloga ou assistente social).

Neste procedimento de diagnóstico e avaliação, os profissionais fazem a avaliação psiquiátrica e psicológica das pessoas envolvidas na situação de violência, avaliam também os riscos associados a essa situação, o impacto da violência na vida dessas pessoas, a dinâmica familiar e o potencial das redes de suporte.

Em alguns casos, a avaliação é feita conjuntamente com outras instituições. Por exemplo, nos casos que têm processos judiciais devido à violência intrafamiliar, a avaliação é feita com os técnicos do DIAP e da DGRS.

Nesses casos, o Ministério Público geralmente solicita a essas instituições uma avaliação do agressor com intuito de obter informações que subsidiem a aplicação ou não da medida de “Suspensão Provisória do Processo”. Como a violência intrafamiliar em Portugal é considerada como crime público, a constatação da mesma acarreta na prisão do agressor; mas se a vítima não quiser se separar do companheiro agressor essa medida pode ser aplicada.

Assim, com base nas informações oferecidas na avaliação feita pelos serviços, DIAP, DGRS, SVF, conjuntamente, o Ministério Público decide se cabe ou não aplicar a medida de “Suspensão Provisória do Processo”. Quando o parecer dos serviços é favorável ao tratamento do agressor, a medida é aplicada. Caso o agressor não aceite o tratamento, terá que cumprir a pena pelo crime de violência intrafamiliar54 na prisão. Além disso, se num primeiro momento o agressor aceitar o tratamento, mas por algum motivo deixar de submeter-se a ele, imediatamente passará a cumprir sua pena na prisão.

Paula Garcia (2009, p. 20-1) argumenta sobre o motivo pelo qual esse tipo de medida foi formulada em nível judicial.

Porque, subjacente a esta criminalidade estão intrincadas relações familiares, com os afectos corroídos e com os medos e os ódios sedimentados, numa ambivalência de sentimentos difícil de gerir, importa também uma intervenção com o agressor. Intervenção que, ao favorecer a sua mudança no sentido da adopção, em continuidade,

54

Vale lembrar que, desde 2000, a violência intrafamiliar, em Portugal, é considerada como crime público (ver capítulo 1).

de comportamentos não agressivos e de respeito para com o outro, permita a não desestruturação dos núcleos familiares. Frequentemente se diz que não basta aplicar uma pena criminal para que um problema de violência familiar se resolva, como num passe de mágica. E, na verdade, se não formos às causas, se não explicarmos a violência, não para a justificar, mas para a perceber e resolver, se possível, não conseguiremos nem reabilitar o agressor, nem proteger e apoiar a vítima.

Nos casos em que há crianças e adolescentes envolvidos, a avaliação do SVF é feita em conjunto com técnicos da CPCJ. Nestas avaliações, também podem ser necessárias a realização de perícias psiquiátricas (desses casos, participa também o INML), bem como avaliação psicológica que requer a aplicação de testes específicos.

Em todos os casos, os profissionais são orientados a preencher um formulário, que norteia o procedimento de diagnóstico e avaliação do SVF. As informações coletadas no formulário são: indicadores sociodemográficos; a proveniência e motivo do pedido de ajuda e encaminhamento para o SVF; início, natureza e tipo de violência; indicadores de risco para a vítima; relacionamento vítima e autor da violência; risco de homicídio do agressor pela vítima; avaliação da situação clínica da vítima; avaliação da qualidade de vida; genograma; mapa de rede; encaminhamento e avaliação do grau de satisfação do utente.

O genograma será aqui explicado com base no referencial teórico adotado pelo Serviço de Violência Familiar.

O genograma é utilizado em diversos contextos, na formação de terapeutas familiares (HARDY e LASZLOFFY, 1995), por profissionais da saúde (REVILLA, 1994), em pesquisas (WENDT e CREPALDI, 2008).

Esse instrumento tem o formato de uma árvore genealógica e compreende informações sobre a história, a estrutura e a dinâmica familiar. A construção do genograma com as famílias possibilita a visualização por parte destas, e também do profissional, das relações familiares afetivas, conflituosas, de eventos marcantes, entre outras sinalizações que possam ser apresentadas. Essa construção dinâmica pode trazer à tona conteúdos psíquicos tanto agradáveis, como desagradáveis e, consequentemente, gerar reações afetivas ou agressivas. Por isso, é também importante perceber até que ponto essa construção está fortalecendo ou não o vínculo terapêutico.

Revilla (1994) fala sobre a importância da construção do genograma enquanto prática clínica do médico da família. Afirma tratar-se de uma forma gráfica de registrar

os elementos clínicos pessoais e familiares que permite ao médico visualizar, de maneira fácil e rápida, o paciente, suas relações familiares e seu contexto comunitário.

McGoldrick e Gerson (2005) apontaram para a falta de acordo na configuração e interpretação do genograma. Desta forma, os profissionais que se utilizavam desse instrumento passaram a padronizar os símbolos e seus significados (ver Anexo VI), minimizando as discrepâncias na sua interpretação. A padronização não tinha o objetivo de enrijecer a forma como se constrói o genograma, mas sim facilitar a comunicação entre os profissionais que necessitavam compartilhar as informações. Caso novos elementos precisassem se inseridos, isso pode ser feito tranquilamente, desde que o novo símbolo e seu significado sejam compartilhados entre os profissionais que necessitem dessa nova informação.

A importância do genograma como instrumento utilizado pelos médicos da família, segundo Revilla (1994), se estende por programas de especialidade na área da medicina familiar no Reino Unido, nos Estados Unidos, no Canadá e na Espanha.

O Serviço de Violência Familiar utiliza também como intrumento, o mapa de rede (SLUZKI, 1996), com o objetivo de coletar informações sobre as redes primárias e secundárias dos pacientes. Esse mapa (ver Anexo VII) é dividido em quatro quadrantes: família; amigos; relações do trabalho e relações comunitárias e de serviços.

Na dimensão desses quadrantes, apresentam-se três áreas. Essas áreas são compostas por um círculo interno que corresponde às relações mais próximas, geralmente, a família e os amigos; um círculo intermediário que são as relações pessoais com menor grau de afinidade - familiares intermediários, relações sociais ou profissionais -; por último, um círculo externo, que corresponde as relações mais distantes - colegas do trabalho, da escola, vizinhos.

Em Coimbra, a maioria dos serviços da Rede de Proteção contra a Violência Intrafamiliar utiliza o genograma e o mapa de rede como instrumentos facilitadores na avaliação dos casos. Segundo os profissionais, esses instrumentos facilitam a comunicação entre os técnicos da rede no que diz respeito, principalmente, à compreensão do caso e à reflexão sobre as estratégias a serem adotadas.

Para os procedimentos terapêuticos, o SVF oferece consultas psiquiátricas de acompanhamento do utente e de monitoramento da prescrição; acompanhamento psicológico do utente; psicoterapia individual de abordagem psicanalítica55 ou

55

sistêmica; psicoterapia familiar; psicodrama para agressores e vítimas; espaço de suporte para grupos de vítimas; terapia de mediação corporal individual ou em grupo realizada por uma enfermeira; intervenção social realizado pela assistente social e intervenção em rede.

O grupo com agressores é constituído tanto por pessoas que estão cumprindo a medida de “Suspensão Provisória do Processo”, como por pessoas que participam espontaneamente.

A equipe se reúne periodicamente para discutir os casos e, conforme a demanda, faz reuniões com a rede de serviços e de suporte do utente. Desta maneira, as dúvidas e as angústias sobre o caso são compartilhadas, bem como são discutidas as estratégias a serem adotadas em cada caso. Isso fortalece a equipe dos serviços e a própria Rede de Proteção.

Quanto ao perfil dos atendidos no serviço, observou-se que 65% são do sexo feminino e 35% do masculino e que a maioria dos atendidos estão na faixa etária entre 41 e 50 anos (32%) e 25% têm entre 31 e 40 anos.

A violência mais frequente notificada foi a conjugal (94%). Quanto ao estado civil, 61% estavam casados, 14% divorciados e 13% estavam solteiros. Das famílias atendidas pelo serviço, 56% tinham filhos dependentes e 24% tinham filhos maiores. Esses dados chamam atenção, pois, ao retratar o perfil da família portuguesa, vemos que a maioria não tem filhos dependentes. Isso nos leva a questionar se a presença de crianças dependentes é mais um fator catalisador da violência intrafamiliar. Ou se a presença dessas crianças deixa a família mais exposta às instituições protetoras, diminuindo o pacto do silêncio nestes casos.

Quanto a escolaridade, percebeu-se a mesma quantidade de pessoas que estudaram até o 5º ano (16%) e até o 9º ano (16%). Diminuiu-se pela metade a percentagem de pessoas com licenciatura (8%). Observou-se também duas pessoas com mestrado e/ou doutorado.

Quanto à profissão, a maioria estava desempregada (13%), o que reforça a reflexão sobre o nexo entre a violência estrutural e violência intrafamiliar. Dado interessante, 6% dos indivíduos atendidos eram profissionais intelectuais e cientistas, reforçando o que Winnicott (1967/1990) fala sobre a relação intelecto e saúde. “[…] não se pode dizer do intelecto que, nele, saúde seja maturidade e maturidade seja saúde. Não há, de fato, nenhum vínculo entre os conceitos de saúde e de intelecto”. (p. 32)

Quanto a medicação, 39% dos pacientes tomavam algum tipo de medicação psiquiátrica e 58% não o faziam.

No Serviço de Violência Familiar, a maioria dos casos era discutida nas reuniões de equipe, mas quando necessário havia o apoio de professores da Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra para realização de supervisões.

Para ilustrar as ações terapêuticas do Serviço de Violência Familiar de maneira mais pormenorizada, três casos serão descritos e analisados no capítulo VII.

Outros Projetos e Intervenções

Durante o período de realização desta pesquisa, pude assistir a inúmeras ações do Serviço de Violência Familiar com outras instituições. Segue abaixo a descrição de algumas ações e projetos desenvolvidos com outros serviços da Rede de Proteção.

Em 2010, o Serviço capacitou, por meio do Projeto de Intervenção em Rede (PIR), profissionais da área da saúde de todo país, para um programa de sensibilização, formação, supervisão e fortalecimento das redes de serviço da saúde.

Em parceria com as escolas, o Serviço desenvolveu oficinas para pais, alunos, professores, funcionários do contexto escolar e comunidade em geral. Nessas oficinas, foram tratados temas sobre violência de gênero, violência no namoro, violência na família, entre outros.

Outra ação do Serviço de Violência Familiar desenvolvida com as escolas foi por meio do Projeto Bullying, em que, primeiramente, foi feita uma pesquisa quanto à percepção e repercussão deste tipo de violência nas escolas. Com base nessa pesquisa foi elaborado um projeto de intervenção em cada escola.

Um outro projeto também estava sendo desenvolvido em parceria com as escolas, a CPCJ, a saúde e a saúde mental. O objetivo desse projeto era sensibilizar e capacitar os vários profissionais do contexto escolar para que conseguissem identificar, sinalizar, avaliar o risco e encaminhar para a rede de serviços de violência intrafamiliar bem como enfatizar a perspectiva multidisciplinar, multissetorial e em rede (família, redes primárias e secundárias), na leitura, compreensão e intervenção de cada situação.

O Serviço também havia realizado algumas pesquisas no âmbito da violência e, com base nos resultados, iniciou-se a elaboração de um formulário de recolha de informação junto às vítimas, agressores, suas respectivas famílias e outras redes de suporte, visando caracterizar a “situação-problema”. Esse formulário tem por escopo

englobar a dimensão multidisciplinar e multissetorial da problemática em tela, bem como avaliar o potencial de risco e recursos disponíveis, a fim de contribuir para reflexão e definição da estratégia de intervenção no caso-a-caso. Depois de concluído, formulário deverá ser utilizado em diversos serviços que trabalham diretamente com o problema.

A questão da violência intrafamiliar nas empresas também passou a ser discutida no país e o SVF, como serviço de referência, foi convidado para participar das discussões e para promover ações. Além disso, a equipe foi convidada, durante o período desta pesquisa, para apresentar o serviço em inúmeros eventos nacionais e internacionais56.

No âmbito artístico, o Serviço e o grupo de teatro Bonifrates, em parceria,

elaboraram um peça de teatro chamada Estilhaços, que vem realizando espetáculos por

todo o país. A peça teve o intuito de enfatizar a violência intrafamiliar como um crime que deve ser denunciado para ser minimizado.

Benzer Belgeler