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Postmodernizmle İç İçe Geçen Sanatların Romanı

2. TÜRKİYE’DE DİJİTALLEŞME OLGUSU

2.3 Dijitalleşmenin Edebiyata Etkisi

2.3.1 Postmodernizmle İç İçe Geçen Sanatların Romanı

Seguindo o primeiro eixo, da repetição, as categorias encontradas foram: o contexto de sofrimento e luto associado à PGR; a demanda de filho como preenchimento de uma falta; o circuito de perdas (historicizado e rememorado numa série numérica); e os excessos. As categorias se associam, mas localizamos o que nos apresentou de forma marcante nos discursos.

1.5.7.1.1 – O contexto de sofrimento e luto associado à PGR

Estrutura-se um contexto carregado de sofrimento, continuamente falado e amplificado de sentido pelas pacientes com PGR, sendo caracterizado como intenso e abrangente na vida. Isso se apresenta consoante com o lugar e o investimento que uma mulher pode reservar para o objetivo de ser mãe, mas, evidentemente, incluindo as contradições, semblantes e máscaras frente ao seu modo de ser mulher e frente à maternidade. Tanto a literatura científica como as narrativas das entrevistas e atendimentos trazem a intensidade e centralidade de um sofrimento que chega a “parasitar” os relatos e comentários. Dessa forma, as contradições são inevitáveis quando lidamos com pacientes que demandam uma gravidez bem-sucedida, mas sem dizer ou dar conta de subjetivar um lugar para o filho/criança em seu discurso. Os estudos nos mostram uma repetição dos aspectos psicológicos e a relevância de considerá-los nos acompanhamentos a essas mulheres. Lembramos que a pesquisa pioneira e a implantação da assistência do TLC nasceu pela falta de palavras dos profissionais diante de uma dor psíquica, de um luto frente à frustração ou perda de um precioso projeto chamado ser

mãe. A própria Lesley Regan24 confessou que não sabia o que dizer, que procurou nos livros o que fazer. Vemos que o componente subjetivo também presente nos profissionais comparece nessa trama, onde já se espera encontrar a tristeza e a insatisfação no contato com essas pacientes. Uma busca por algo que possa superar a suposta imensa frustração. Na fala de um profissional em nossa entrevista:

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Independent (Journal) – Saturday (22/10/2011). Disponível em: www.independent.co.uk/life-style/birth-of-a- prof-1312866.html, recuperado em 21/11/2015.

Eu gostaria de acrescentar que é extremamente triste... não é um desejo... a gente não tem este desejo de cuidar... a gente gostaria de cuidar da pessoa com o bebê... é um fato consumado, não tem retorno, assim, naquele momento... então, eu acredito que nós precisamos nos instrumentalizar pra ver com mais amor, com mais respeito, essa paciente que ela não é... ela se sente castigada... se sente impotente, e nós também nos sentimos impotentes, sem preparo, sem conhecimento. O que você vai falar, qual a palavra positiva, qual a palavra, qual o cuidado? (Profissional/Sujeito1).

1.5.7.1.2 – A demanda de filho como preenchimento de uma falta

Demandar uma gravidez se descola de demandar um filho; nem toda mulher deseja realmente uma gravidez que resulte numa criança a ser inserida simbolicamente em sua história. Essas contradições ligadas à demanda de filho como possível preenchimento da falta inerente à mulher aparecem nas respostas que colocam o filho preenchendo um vazio da mulher, ela que “vai ter que ser mãe de alguma forma”. Isso também se apresenta nas narrativas de profissionais, ainda que estes possuam maior abertura para admitir que a maternidade pode não se constituir um desejo obrigatório ou uma garantia de satisfação para todas as mulheres. Nos estudos da literatura e nas narrativas se repete esse imperativo da demanda de filho (bebê em casa), traduzido em gravidez bem sucedida. Entendemos este imperativo, que insiste na fala das pacientes, como o mais exigente a ser alcançado e satisfeito pelos profissionais e equipes de medicina reprodutiva. O filho é apresentado como algo que preencheria uma necessidade das mulheres, numa perspectiva de que a ausência da representação da falta feminina ocupa um lugar por essa via (um vazio contornado). Frente a essa repetição, consideramos que o que conta é a vida pulsional que está articulada ao linguístico. Entendemos que o falo tão buscado pode carrear um “significante dominante” (e tudo na vida do sujeito tende a girar em torno disso). Seguindo esse raciocínio, observamos a repetição das falas contornando repetidamente o filho, bordejando esse vazio e dando consistência a ele, uma forma de presentificar o nada, ou “justificar o injustificável”, ou “estou protestando Deus” (Cf. Paciente/sujeito 4). Algumas expressões que tendem a mostrar isso evocam tristeza e até revolta:

Por que que eu que tenho essa visão que não é assim que se cria um ser humano, não posso ter, enquanto em contrapartida uma desorientada que não tem nem financeira, nem psicológica, nem social e tem aquele monte? [...] ou Deus está me livrando de ter um filho que vai me trazer desgosto no futuro (Cf. Paciente/sujeito 4).

A autocobrança das mulheres aparece em alguma medida tanto para pacientes como para profissionais, mas as queixas e demandas se dirigem com maior intensidade aos profissionais e cientistas que “devem” se apropriar, no sentido de uma missão, da busca por satisfazer a demanda de filho dessas mulheres. Porém, no caso da paciente que manteve o atendimento, com o decorrer dos encontros, ela desloca-se para uma posição mais intensa de autocobrança, buscando se ajustar à demanda do parceiro para resgatarem uma situação “ideal” que uma vez vivenciaram: quando ela estava em suporte psicológico, que se iniciou após uma primeira perda gestacional, conseguiram uma gravidez que foi bem-sucedida (Cf. registros da Paciente/sujeito 6).

1.5.7.1.3 – O circuito de perdas (historicizado e rememorado numa série numérica)

Outra unidade de sentido que localizamos é a existência de um circuito historicizado e rememorado das perdas gestacionais, que engendra um espiral interno incessante de tentativas enumeradas e onde se perde “tudo” ou quase tudo a cada perda. A conotação de sacrifício (bens materiais, corporais e psíquicos envolvidos), presente no quadro de PGR, é apreendida nos relatos de pacientes, profissionais e textos, remetendo-nos a um ritual de tribos antigas, que possui essa característica de desgaste e doação, mas com igual exigência de alguma retribuição/reconhecimento de quem recebe/acolhe. Toda a dedicação, cuidado, dinheiro investido, incluindo lágrimas que podem ou “não podem sair” (cf. Paciente/Sujeito 4), nos remete ao antigo ritual de potlatch, termo que, na língua corrente dos índios de Vancouver, significa alimentar ou consumir – é um ritual presente em várias tribos e descrito pelo antropólogo Marcel Mauss (1950/2013). No potlatch dois elementos são nitidamente atestados: o da honra e o do prestígio, que se traduzem pela riqueza (que vai muito além da material) e pela obrigação absoluta de retribuir as dádivas, sob pena de perder toda a riqueza. Nessa descrição, Mauss (1950/2013) divide entre bens uterinos e bens masculinos as configurações apresentadas por determinadas comunidades no potlatch. Interessa-nos pontuar nessa referência que a criança de qualquer idade era um bem uterino e o seu nascimento implicava numa grande perda de riquezas (porque os parentes da criança tinham que se desfazer dos bens por causa dela). Por outro lado, com aumento de prestígio inerente igualmente à criança, a mesma criança se mantinha como canal de facilitação de circulação de bens da família uterina com os da família masculina, fazendo com que os pais recebessem

algo de volta dos que estão ao seu redor. Havia uma circulação de bens em torno da mesma criança, uma dádiva. A rivalidade, o combate e a destruição compõem essa rede de sentido do

potlatch (Mauss, 1950/2013, p. 194-196). O psicanalista Éric Laurent (1999) também associa

um potlatch amoroso à ideia da desvastação feminina. O potlatch inclui uma dimensão de risco, pois se trata de uma luta que possui a perda como aspecto crucial do combate. O que há de mais notável aí é o princípio de rivalidade e antagonismo que domina essas práticas. A obrigação que é contraída por meio da dádiva é um aspecto fundamental. "Estas prestações e contraprestações eram acertadas de uma maneira voluntária, através de dádivas, presentes, embora fossem, no fundo, rigorosamente obrigatórias, sob pena de guerra privada ou pública" (Mauss, 1924/1950, p. 151).

Enfim, as repetições condensadas na ideia de um sofrimento, da demanda de preencher uma falta, do circuito numérico de perdas e da dádiva/filho, que vai e vem como no potlatch (troca, perdas, ganhos), condensam outras inúmeras articulações. Entretanto, reduzimos o contexto de deslimite que se repete em uma quarta unidade, que são os excessos captados no material narrativo e no contexto de estudos e da prática nessa clínica médica.

Para lidar com as mulheres que estruturalmente são não-todas, incompletas, estamos alertas de que não há abordagem que possa ser toda-boa. Ou seja, na consideração de aspectos subjetivos, temos que provocar os contextos que podem se fechar, ainda que reconheçamos seu valor no âmbito da assistência e no que ela comparece com o objetivo da medicina. Ela parece interferir e se ligar a algum elemento que para muitas pacientes tem efeito de interrupção da série de repetições das perdas e dos excessos observadas na PGR. Mas é preciso novamente pontuar nossa atitude de cautela frente ao que perdura e insiste, sem haver possibilidade de intervenção ou remédio. Pois mesmo quando a gravidez subsequente à série de perdas é bem sucedida, cada mulher ainda estará em um percurso a ser construído, de se haver com o real da sua experiência de ser mãe, não sem enfrentar a sua particularidade enquanto sujeito feminino.

1.5.7.1.4 – Os excessos

Algumas palavras e sinônimos comparecem insistentemente na tentativa de explicar o

ser mulher, o ser mãe, e, ainda, o “encontro-desencontrado” entre as pacientes e os

medicina reprodutiva. Trata-se de um mosaico de excessos e até de pares de opostos: perda, sofrimento, escuta, respostas, atenção, ressentimento, carinho, humanização, cuidado, afeto, explicações, procedimentos, tentativas, tecnologia, medicação, esperança, luto. Enfim, excesso ou impossível ligado à posição do ser mãe. Nossa leitura das repetições nos direciona a uma exigência presente nas falas acerca da melhor ação que os profissionais deveriam empregar na atenção a essas pacientes: seria uma forma simbólica de pensar nessa ação que parece ser demandada e seria uma ação similar à que culturalmente denominamos de “materna?” Constatamos, realmente, que os profissionais são convocados continuamente a atuarem numa ação maternal. Vamos então para as convergências que as repetições começaram a nos apresentar.

Benzer Belgeler