Em um livro intitulado “Nunca fomos modernos”, Latour (1994) apresenta, através de uma polêmica protagonizada na Inglaterra do século XVII, a construção ideológica que fundamenta a modernidade. Esta construção trará amplas conseqüências à relação médico-doente, pois estender-se-á à figura da autoridade. Latour trata do confronto entre as idéias de Robert Boyle (1627-1691) e de Thomas Hobbes (1588-1679), com os
desdobramentos posteriores, quanto às noções de Deus, religião, política e ciência, no pensamento dito moderno e pós-moderno.
Boyle foi um filósofo natural que, entre outras coisas, estudou a natureza do ar, notadamente a câmara de vácuo e a bomba de ar. Hobbes foi um matemático, teórico, político e filósofo, autor de Leviatã. Nesta obra, explanou seus pontos de vista sobre a natureza humana, sobre governos e sociedades e, junto com seus seguidores, criou os principais conceitos que dispomos atualmente para falar do poder: representação, soberania, contrato, propriedade e cidadãos.
A tensão entre o que defendiam esses dois homens localizava-se nos meios de se alcançar o que ambos almejavam: um rei, um parlamento, uma Igreja dócil e unificada. Ambos eram adeptos da filosofia mecanicista; para ambos, a linguagem do poder era a do conhecimento. Não será possível expor aqui toda a argumentação de Latour. Resumidamente, o que ele demonstra é que Boyle não criou simplesmente um discurso científico e Hobbes não criou apenas um discurso político.
“... Boyle criou um discurso político de onde a política deve estar excluída, enquanto Hobbes imaginou uma política científica da qual a ciência experimental deve estar excluída. Em outras palavras, eles inventaram nosso mundo moderno, um mundo no qual a representação das coisas através do laboratório encontra-se para sempre dissociada da representação dos cidadãos através do contrato social.” (LATOUR, 1994, p.33, grifos nossos)
Também aqui observamos a dissociação homem-natureza. Latour questiona se os cientistas são os representantes escrupulosos dos fatos: “quem fala quando eles falam?”
“Em si, os fatos são mudos, as forças naturais são mecanismos brutos. Os cientistas, porém, afirmam não falar nada: os fatos falam por si mesmos. Estes mudos são portanto, capazes de falar, de escrever, de significar dentro da redoma artificial do laboratório...(...) Pequenos grupos de cavalheiros fazem com que as forças naturais testemunhem, e testemunham uns pelos outros que eles não traem, mas antes traduzem o comportamento silencioso dos objetos.” (ibid., 1994, p.34)
A Constituição moderna inventou uma separação entre o poder científico, encarregado de representar as coisas, e o poder político, encarregado de representar os sujeitos, reafirmando o método da divisão dos objetos para melhor conhecê-los e, assim, acreditar que se fala sobre eles a verdade.
Latour cita três garantias da Constituição moderna e afirma que “como para qualquer Constituição, é preciso medir as garantias que ela oferece”. Finalmente, ele acrescenta uma quarta garantia, conseqüência das anteriores, que particularmente nos interessa
neste trabalho, pois fará deslocar a autoridade de seu lugar. Na figura 2, retirada de Latour (1994, p.37), são apresentados dois paradoxos fornecidos pela controvérsia Boyle/Hobbes e três, dentre as garantias oferecidas pela Constituição:
Figura 2 – Paradoxos na controversa Boyle/Hobbes e garantias da Constituição moderna Primeiro paradoxo
A natureza não é uma construção nossa: ela é transcendente e nos ultrapassa infinitamente
A sociedade é uma construção nossa: ela é imanente à nossa ação
Segundo paradoxo Nós construímos artificialmente
a natureza no laboratório: ela é imanente
Não construímos a sociedade, ela é transcendente e nos ultrapassa infinitamente Constituição
1ª garantia: ainda que sejamos nós que construímos a natureza, ela funciona como se nós não a construíssemos
2ª garantia: ainda que não sejamos nós que construímos a sociedade, ela funciona como se nós a construíssemos 3ª garantia: a natureza e a sociedade devem permanecer absolutamente distintas; o trabalho de purificação deve permanecer absolutamente distinto do trabalho de mediação
Estas três grandes visões de conjunto irão permitir a mudança de escala do homem moderno. Através deste conjunto de garantias será possível aos modernos
“fazer com que a natureza intervenha em todos os pontos na construção de suas sociedades sem deixar, com isso, de atribuir-lhe sua transcendência radical; poderão tornar-se os únicos atores de seu próprio destino político sem deixar, com isso, de sustentar sua sociedade através da mobilização da natureza.” (ibid., 1994, p.38)
Então, será possível ao homem fazer tudo sem estar limitado por nada.
A quarta garantia virá resolver a questão de Deus, “afastando-o para sempre da dupla construção social e natural, deixando-o ao mesmo tempo apresentável e intercambiável”. (ibid., 1994, p.38)
“Ninguém é realmente moderno se não aceitar afastar Deus tanto do jogo das leis da natureza quanto das leis da República. Deus tornou-se o Deus suprimido da metafísica, tão diferente do deus pré-moderno dos cristãos quanto a natureza construída em laboratório o é da antiga physis ou quanto a sociedade o é do velho coletivo antropológico todo povoado por não-humanos.”(ibid., 1994, p.38)
Não que Deus seja, a partir daquele momento, suprimido inteiramente, mas pode-se aplicar a Ele o mesmo desdobramento aplicado à natureza e à sociedade: ao mesmo tempo que Deus está afastado, paradoxalmente ainda pode ser invocado em caso de conflito entre as leis da natureza e da sociedade.
“O homem moderno podia ser ateu ao mesmo tempo em que permanecia religioso. Podia invadir o mundo material e recriar livremente o mundo social, sem com isso sentir-se um órfão demiurgo abandonado por todos.” (ibid., 1994, p.38)
Assim, completa Latour, todas as possibilidades estariam fechadas numa redoma onde as garantias serviriam umas às outras: “nós não criamos a natureza; nós criamos a sociedade; nós criamos a natureza; nós não criamos a sociedade; nós não criamos nem uma nem a outra, Deus criou tudo; Deus não criou nada; nós criamos tudo” (ibid., 1994, p.39).
“... a quarta garantia constitucional estabelece como árbitro um Deus infinitamente distante que é ao mesmo tempo completamente impotente e juiz soberano.”(ibid., 1994, p.39)
A ideologia da modernidade estaria fundada nesses paradoxos e o fato do Pai ainda existir como figura, mas não como lei, trará profundas conseqüências ao homem moderno e pós-moderno. Uma das evidências será encontradas nos desdobramentos que se darão na medicina e no lugar do médico, como também nos lugares do doente e da doença.
5.3. ALGUMAS CONSEQUÊNCIAS DO DECLÍNIO DA FUNÇÃO