BÖLÜM IV BULGULAR VE TARTIŞMA
4.1 Pomolojik Analizler
A testemunha é a figura-chave no relato das atrocidades que marcaram a Era das catástrofes – como Eric Hobsbawn (1995) denominou o período de horrores inaugurado pela Primeira Guerra Mundial (1914-1919) e intensificado, vinte anos depois, com a Segunda Guerra (1939-1945) e o Holocausto. Em Os afogados e os sobreviventes (1990), Primo Levi conta que, quando a Batalha de Stalingrado deixou claro que o Reich alemão não poderia mais vencer, os nazistas se mobilizaram para apagar os rastros do massacre. Nos campos de concentração, dias antes da chegada dos aliados, a maioria dos arquivos havia sido destruída. Os prisioneiros ainda vivos foram obrigados a desenterrar os mortos e queimá-los em estado de decomposição (apud GAGNEBIN, 2006, p.116). Não fossem os livros de Levi e outros sobreviventes, essas e outras iniquidades teriam, de fato, caído no esquecimento.
Na América Latina, como nota Beatriz Sarlo (2005, p.63), os testemunhos continuam a ser a principal fonte sobre os crimes cometidos pelas ditaduras militares – que, somente na
Argentina, resultaram no desaparecimento de mais de 30 mil pessoas, segundo estimativas oficiais. Sem o depoimento de vítimas e testemunhas, até hoje ninguém teria sido condenado (idem, p.24). “Desde antes das transições democráticas, mas acentuadamente a partir delas, a reconstrução desses atos de violência estatal por vítimas-testemunhas é uma dimensão jurídica indispensável para a democracia”, afirma a ensaísta (idem, p.13).
Na literatura, o testemunhal passou a ser estudado como um gênero à parte, fortemente associado a situações de trauma, mas não restrito a elas. No contexto latino-americano, o testimonio desenvolveu uma vertente particular, de cunho social, servindo no mais das vezes de veículo para setores excluídos, como indígenas, trabalhadores pobres, ex-escravos, entre outros. Mabel Moraña (1995, p.488) definiu-o como uma “literatura de resistência”, que tende a “lançar luz sobre as contradições do sistema reinante, a rebelar-se contra o status quo e a solidarizar-se com reivindicações ou lutas populares que questionam a ‘ordem’ de sociedades autoritárias, discriminatórias e excludentes”. Numa outra tentativa de síntese, René Jara disse que: “o testemunho é uma narração de urgência que nasce naqueles espaços em que as estruturas de normalidade social começam a desmoronar por uma razão ou outra” (apud PRADA OROPEZA, 2001, p.14).
Mas, apesar de sua relevância, o testemunho nem sempre é suficiente, como mostra Los informantes. Em determinados casos, deixa inclusive de ser possível, conforme observou Berta Waldman em recente artigo (2009). De acordo com a professora, 66 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, tornou-se cada vez mais raro o relato direito das testemunhas, quase todas mortas. Com isso, segundo ela, a memória do Holocausto está saindo da alçada dos sobreviventes para consolidar-se na ficção, sem afetar em nada, em sua análise, a permanência do tema. Desta inevitável transição, emerge, no lugar da memória testemunhal, uma memória que o professor norte-americano James Young (2000) denominou de “vicária” – ou seja, exercida por quem não viveu diretamente as experiências recordadas. Outra
categoria surgida para designar praticamente o mesmo é a de “pós-memória”, proposta por Marianne Hirsch (1997). Refere-se, em linhas gerais, à memória dos filhos sobre a memória dos pais.37
Waldman encarrega-se de exemplificar:
Sabe-se que fatos não experimentados podem ser lembrados se fizerem parte de um cânone de memória familiar, escolar, individual, política (lembro que meu pai lembrava..., lembro que na escola ensinavam..., lembro que aquele monumento lembrava... etc.), e se traduzem num discurso distante de quem exerce a memória a partir da experiência vivida. (WALDMAN, 2009).
Embora Young e Hirsch não façam essa restrição, Waldman insere essa memória essencialmente no plano ficcional (chama-a de “memória ficcionalizada”), mas pondera que, mesmo no testemunho, ocorre a interferência de “um grão da memória vicária” (idem), pois ele acaba extrapolando a experiência pessoal. Primo Levi, por exemplo, lembra que, após o fim da Segunda Guerra Mundial, os dados sobre as deportações e o massacre nazista não estavam disponíveis e tampouco era fácil determinar seu alcance e sua especificidade. Segundo o escritor italiano (1990, p.6, apud WALDMAN), a maioria das testemunhas, tanto de defesa como de acusação, desapareceu, e as que concordaram em testemunhar dispunham de lembranças “cada vez mais desfocadas e estilizadas frequentemente, [...] lembranças influenciadas por notícias havidas mais tarde, por leituras e narrações alheias”.
Diante disso, Paul Ricoeur se pergunta até que ponto o testemunho é confiável (2007, p.171-172). Um primeiro fator de dúvida são as experiências feitas pela psicologia judiciária em que várias pessoas assistem à mesma cena (gravada por uma câmera) e depois, instadas a narrar o que viram, produzem versões não apenas divergentes entre si, mas discrepantes, em vários aspectos, do capturado pela câmera. Além da má percepção, da má retenção e da má reconstituição apontadas frequentemente por esses experimentos, há outras fontes de
37 Não entrarei aqui nas críticas, bastante severas, que Beatriz Sarlo (2005) faz aos dois acadêmicos e suas conceituações teóricas.
incerteza, como o tempo decorrido entre o acontecimento vivido e o ato de testemunhar, que pode levar ao que Freud chamou, na Interpretação dos sonhos, de “elaboração secundária”, ou seja, uma remodelação do sonho (neste caso da lembrança), a fim de torná-lo, entre outras coisas, mais coerente e compreensível. Ricoeur também questiona um dos pilares da credibilidade do testemunho: a ideia de que estabelece uma fronteira supostamente bem marcada entre realidade e ficção. “A fenomenologia da memória confrontou-nos muito cedo com o caráter sempre problemático dessa fronteira”, alerta o filósofo (idem, p.172).
Qualificando as discussões sobre memória como uma tarefa sensível mas ao mesmo tempo indispensável na América Latina redemocratizada, Beatriz Sarlo propõe uma análise crítica sobre a transformação do testemunho no recurso mais importante para a reconstrução do passado. A ascendência, neste caso, não tem a ver com inexistência de outras fontes, mas se refere à confiança quase irrestrita nos discursos em primeira pessoa, “no imediatismo da voz e do corpo” (2005, p.23). Graças a isso, o testemunho se tornou um “ícone da Verdade”, como descreve Sarlo, situando o fenômeno no âmbito da revalorização da subjetividade promovida nas últimas décadas pelas ciências humanas – as mesmas que, nos anos 1960, haviam decretado “a morte do sujeito”.
“Só uma confiança ingênua na primeira pessoa e na lembrança do vivido pretenderia estabelecer uma ordem presidida pelo testemunhal. E só uma caracterização ingênua da experiência reclamaria para ela uma verdade mais alta”, afirma Sarlo (2005, p. 63).
A ensaísta ressalva, contudo, que alguns momentos históricos exigem a abstenção – ou o diferimento – da aplicação de dúvidas metodológicas nos testemunhos, como nos depoimentos prestados após as ditaduras militares na Argentina, quando as declarações das vítimas diziam respeito não apenas a elas, mas constituíam “a matéria-prima da indignação e o impulso para as transições democráticas” (idem, p.61). Sarlo adverte, no entanto, que o imperativo da crença se verifica hoje não apenas em situações-limite – como a de ex-presos
políticos e sobreviventes do Holocausto – mas em testemunhos corriqueiros e completamente banais. “Todo testemunho quer ser acreditado e, no entanto, não carrega em si mesmo as provas pelas quais sua veracidade pode ser comprovada” (idem, p.47).
Sobre este ponto, Ricoeur observa que, por se manifestar sempre diante de alguém, a testemunha estabelece uma relação de diálogo que tem na confiança um dos requisitos imediatos. Segundo o filósofo,
[...] a testemunha pede que lhe deem crédito. Ela não se limita a dizer: ‘Eu estava lá’, ela acrescenta: ‘Acreditem em mim.’ A autenticação do testemunho só será então completa após a resposta em eco daquele que recebe o testemunho e o aceita [...] (RICOEUR, 2007, p. 173).38
Ricoeur afirma haver em nível social uma “confiabilidade presumida” nos testemunhos, advinda, em primeiro lugar, da asserção da realidade factual do acontecimento (isto é, da garantia de que ele realmente ocorreu) e, em segundo, do fato de a declaração ser autenticada pela própria experiência do autor (atesta-se ao mesmo tempo a veracidade da ocorrência e a presença do narrador no local). Essa confiabilidade torna-se maior com a disponibilidade de a testemunha reiterar seu depoimento, disponibilidade com a qual o testemunho se aproxima da promessa – “mais precisamente, da promessa anterior a todas as promessas, a de manter sua promessa, de manter a palavra” (idem, p. 174).
Segundo Ricoeur (idem), a estrutura estável da disposição a testemunhar faz do testemunho um fator de segurança no conjunto das relações constitutivas do vínculo social. Da mesma forma, a confiabilidade de uma proporção importante dos agentes sociais o torna uma instituição. O filósofo considera “uma regra de prudência” começar a confiar na palavra de outrem e só depois duvidar, caso fortes razões inclinem a isso (idem, p.174-175). Sendo o
38 Sobre a necessidade de um ouvinte atento que dê crédito às declarações da testemunha, o maior exemplo é o sonho recorrente de Primo Levi no campo de concentração, sonho que, ele descobriu, era sonhado por quase todos os outros prisioneiros. Nele, o escritor voltava para casa com a felicidade imensa de contar aos outros o horror passado e o fato de estar vivo; mas, no meio da narrativa, percebe com desespero que ninguém o está escutando, que todos se levantam e vão embora, indiferentes.
“ato fundador do discurso histórico” (idem, p.504) – ou seja, o momento de transposição da memória para a história, da oralidade para a escrita – é natural que o testemunho possa ser posteriormente questionado e confrontado com outros depoimentos. “A história pode ampliar, completar, corrigir, e até mesmo refutar o testemunho da memória sobre o passado, mas não pode aboli-lo”, salienta Ricoeur (idem, p. 505).
Valendo-se principalmente da memória alheia, mas adotando procedimentos historiográficos, como o amparo em documentos, a confrontação de dados e a transposição do discurso oral para o regime escrito, o personagem narrador de Los informantes depara-se, no curso de suas investigações, com a dupla condição da testemunha – ao mesmo tempo essencial e insuficiente – e aproveita essa e outras inquietações para refletir sobre as sinuosidades da memória, conforme veremos no próximo capítulo.
Após um longo percurso dedicado a considerações de ordem teórica, passo agora à tarefa principal deste trabalho: a análise de Los informantes sob a ótica do deslocamento e da memória.