BÖLÜM V SONUÇ
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O romance de Juan Gabriel Vásquez mostra, numa esfera predominantemente privada, a tensão entre lembrar e esquecer que marca países com traumas não superados. Se o consenso buscado pelo Estado inclui políticas para apagar lembranças tidas por inconvenientes, as desavenças do passado subsistem na memória dos que as viveram. Entre estes, porém, há os que desejam desesperadamente vê-las esquecidas e os que aguardam a vida inteira por uma oportunidade de evocá-las.
Os personagens Gabriel Santoro pai e Sara Guterman representam, respectivamente, esses dois extremos. Renomado professor de retórica, repleto de condecorações dadas pelo
governo, Gabriel carrega em silêncio a culpa de ter traído Konrad, pai de seu amigo Enrique, delatando-o, injustamente, por manter relações com nazistas. Sem jamais referir-se àqueles tempos, cuidando até mesmo de afastar vestígios da juventude em seu apartamento, Gabriel se refugia nos grandes oradores da antiguidade e demonstra permanente desprezo com o jornalismo e outras atividades preocupadas com o contemporâneo (VÁSQUEZ, 2004, p.62).
Sara, ao contrário, empenha-se em preservar a memória desde a adolescência, quando procurava reconstituir os dias de sua chegada à Colômbia com perguntas aos familiares. Guarda documentos em diferentes pastas, organizadas por cores e outras distinções. Ao notar que Gabriel faria de tudo para esquecer os episódios que levaram à morte de Konrad, assume para si a responsabilidade de lembrá-los. “Quando ficou óbvio que ele ia esquecer tudo, [...] ocorreu-me essa ideia tão idiota de ser a memória de uma outra pessoa, e a ideia ficou enfiada em minha cabeça, não saiu mais” (idem, p.117). Seus anseios de rememoração, contudo, são tolhidos pelos próprios filhos, que a impedem de contar aos netos os episódios testemunhados. “Eu era e talvez ainda seja essa coisa tão terrível: uma memória que está proibida de dizer que se lembra” (idem, p.118).
A Colômbia recriada no livro pende inegavelmente para o esquecimento. Apontadas por Ricoeur (2007) como uma das práticas mais frequentes de manipulação da memória, as comemorações nacionais – que muitas vezes não passam da evocação coletiva das glórias pátrias – proliferam a ponto de constituir uma tradição (VÁSQUEZ, 2004, p.25). Os arquivos públicos são tratados com desleixo, e importantes documentos históricos, como as cartas familiares buscadas por Enrique, acabam se transformando em lixo. “O funcionário que me deu a carta me confessou a verdade. Estes papéis eram cortados em tiras e postos ao lado da mesa dos trâmites, para que as pessoas que tiravam as impressões digitais pudessem limpar os dedos” (idem, p.316).
Neste ambiente avesso a recordações – em que a memória, tantas vezes, é apenas uma mercadoria descartável44 –, não é de se admirar que Gabriel pai figure quase como um herói, objeto de culto da elite e cidadão modelo para o poder. Erigida sobre um discurso oco – em que o manejo exímio das palavras contrasta com o veemente desprezo pelos significados –, sua glória se sustenta, necessariamente, no desconhecimento de sua vida pregressa. Quando o filho publica a biografia de Sara, Una vida en el exilio, remexendo no passado que o pai gostaria de ver sepultado, sua reação beira o desespero. Desqualifica o livro publicamente, diz que o tema já está superado e apregoa o esquecimento coletivo dos episódios relatados. “A memória não é pública”, esbraveja (idem, p.74).
No antagonismo entre pai e filho, emerge a tensão entre oralidade e escrita que marca todo o romance. Mestre do discurso falado, Gabriel pai tem como material “as palavras pronunciadas e lidas, mas nunca escritas por sua mão” (VÁSQUEZ, 2004, p.24). Já Gabriel filho, jornalista e escritor, acredita na capacidade ordenadora das palavras redigidas (idem, p.34). Uma primeira leitura para este embate pode estar na noção de maior durabilidade da escrita, em oposição à fugacidade da palavra oral (GAGNEBIN, 2006, p.11)45. Optar exclusivamente pela palavra oral, como faz Gabriel pai, pode significar, em certa medida, a opção pelo esquecimento46. Na retórica oficial, nos elogios públicos e até mesmo no sermão de consolo do padre – que apura às pressas, com um bloquinho de repórter, informações sobre
44 O comentário de Sara exemplifica: “Hoje em dia podemos sair e comprar memória na esquina, não é mesmo? Meus netos, pelo menos, já fizeram isso. Tomam um táxi e vão até a loja de computadores e compram memória [...]” (idem, p.118). 45 Faço uma menção deliberadamente superficial a um debate amplo e imemorial para a filosofia. Matizes, ressalvas e contextualizações são dadas, exemplarmente, pela própria Gagnebin na obra citada. 46 Chama atenção que um mesmo episódio – o suicídio de Konrad e, especificamente, o ataque ordenado por Enrique – determine tanto seu desejo de esquecimento coletivo como sua virtual impossibilidade de escrever. Após a mutilação, Gabriel pai tem de aprender a redigir com a mão esquerda, mas jamais o faz de maneira satisfatória: “[...] escrever era um atestado de sua invalidez, de seu defeito, de sua vergonha” (idem, p.24).
o defunto que enaltecerá –, as palavras faladas são copiosas e tantas vezes gratuitas no universo descrito por Vásquez.
Mas, para Gabriel pai, a impossibilidade de esquecer está inscrita em seu próprio corpo, nos quatro dedos da mão arrancados a faca em um ataque ordenado por Enrique. Com exceção de Sara – sua confidente na época, que o socorreu depois do incidente –, todos creem numa versão fictícia que criou para explicar a mutilação. Porém, para ele, a ausência dos dedos será sempre um memorando indelével de sua traição. “Eu matei o velho, Sara. Ferrei com a vida deles. Sou o culpado de tudo”, confessa, após ser atacado pelos homens enviados por Enrique (idem, p.181).
Ao castigo imposto pelo ex-amigo – mais que os dedos decepados: a impossibilidade de esquecer –, Gabriel pai acrescenta um voluntário esforço de lembrança, mantendo sempre ao alcance o mesmo disco que Konrad conservou até o último dia de vida e que penhorou, justamente, para comprar o veneno que o matou. “‘Tem de adiantar, saber que carreguei esse peso estes anos todos, que teria podido esquecer tudo mas que não esqueci. Lembrei-me, Enrique, não saí do inferno que é lembrar-se’”, diz, tentando sensibilizar o amigo traído (idem, p.306).
Enquanto o suicídio de Konrad, em 1946, representa para Gabriel pai o nascimento do sentimento de culpa – essa experiência “fundamentalmente solitária”, como definiu Ricoeur (2007, p.470) –, a operação cardíaca a que é submetido, em 1991, marca o início de sua busca por uma memória feliz, apaziguada e reconciliada, para seguir nos termos do filósofo francês. Bem-sucedida, a cirurgia lhe incute a crença na possibilidade de uma segunda vida, na qual os erros cometidos no passado poderiam ser corrigidos. Reconcilia-se com Gabriel filho, permite-se lembrar com júbilo de experiências há muito soterradas (pela primeira vez canta em alemão na frente do filho) e, após algumas semanas, decide empreender a última e crucial medida para se ver definitivamente livre do peso que o esmaga há décadas: pedir perdão a
Enrique. Mas o amigo de juventude não está disposto à reconciliação: “‘Foi nesta mesma vida que tudo aconteceu, Gabriel, e você está querendo fingir que foi em outra diferente. Mas não, não é possível. Olhe, vou lhe dizer a verdade: prefiro que a gente deixe tudo como está.’” (VÁSQUEZ, 2004, p.308).
Enrique finge ter esquecido certos fatos (idem, p. 299), mas não convence Gabriel filho. Sua relação com a memória situa-se num ponto intermediário entre o silêncio de Gabriel pai e o anseio de rememoração de Sara. Enquanto Gabriel mantém em segredo suas lembranças (além de Sara, contara-as apenas à mulher já falecida), Enrique divide as suas não apenas com a esposa, mas também com o filho Sergio, a quem mostra documentos e dá os dois livros de Gabriel filho. O objetivo, segundo ele, é que Sergio o entenda, que intua como foram as coisas naquele período. “A gente quer que os outros vivam o que aconteceu há cinquenta anos. E como se faz isso? Deve ser impossível. Mas a gente tenta, inventa estratégias”, justifica Enrique (idem, p.297).
Um dos riscos da tarefa está na postura agressiva de Sergio, que transfere para Gabriel filho a mesma cólera que, ao ler seus livros e inteirar-se da traição, sentira por Gabriel pai. “A questão também é comigo, não é só com o meu pai”, vocifera o filho de Enrique, tão logo vê o jornalista assomar-se à porta de sua casa (idem, p.292). Gabriel filho, por sua vez, tampouco deixa de se considerar um herdeiro e observa a permanência, inelutável, dos episódios que separaram seus pais.
Era possível afirmar, em nosso caso, que o tempo se mexera? Que diferença fazia o momento exato em que o erro e a delação haviam ocorrido, o momento exato em que certa mão fora amputada? Os fatos estavam presentes; eram atuais, imediatos, viviam entre nós; os feitos de nossos pais nos acompanhavam. (...) (idem, p.293-294).
Diante disso, não lhe passa despercebida a ironia de ser hospedado pelo homem que se recusara a perdoar seu pai e que o impedira, inclusive, de entrar em sua casa: “[...] a mesma vida que negara a meu pai a única redenção possível, e que consequentemente me negara o
direito de herdar a redenção, agora determinava que eu, o deserdado, fosse hóspede por uma noite daquele que se negara a nos redimir” (idem, p.319).
Ao entrar na casa de Enrique, Gabriel filho descobre um zeloso colecionador de documentos, que guarda em fichários as cartas escritas por Konrad, as cartas que a mãe enviou pedindo ajuda a senadores (e que obteve, facilmente, em um arquivo público) e a notícia de jornal sobre a inclusão do pai na lista negra dos imigrantes do Eixo. Ao contrário de Sara, porém, Enrique descarta a possibilidade de divulgá-las.
Talvez seja por pudor, talvez por uma questão de privacidade, chame como quiser. Eu tenho muito apreço por essas cartas, e parte do apreço é saber que ninguém mais as tem, que elas são minhas, que ninguém mais as conhece. Se fossem públicas, alguma coisa se perderia, Gabriel, uma coisa muito grande se perderia para mim, não sei se isso faz sentido para você. (idem, p.321).
Mas Gabriel Filho se apropria das cartas, assim como transformara em livro episódios da vida pessoal do pai. Cabe a ele, no romance, levar adiante o dever de memória, vasculhando intimidades, garimpando documentos e – sobretudo – fixando no papel lembranças que, do contrário, não venceriam as interdições privadas e tenderiam a desaparecer com o passar do tempo. Sua principal testemunha, Sara, muitas vezes aparece como coautora – e até mesmo idealizadora – de algumas empreitadas, como uma série de conferências sobre os 50 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. O objetivo seria revelar fatos excluídos de sua biografia cuja discussão, em meio às comemorações, tornava-se, “mais do que permissível, pertinente e necessária” (idem, p.266). Entre eles, textos “injustamente ignorados até agora” (idem), como os que comprovam o declarado antissemitismo do chanceler colombiano durante a Segunda Guerra Mundial, Luis López de Mesa.
Na justificativa que apresenta para a escrita de Los informantes (idem, p.260-261), Gabriel filho afirma que, com a morte do pai, herdou não apenas suas faltas (e sua possibilidade de redenção), mas também a obrigação de descobri-lo, interpretá-lo e averiguar
quem foi na realidade. “Sou sucessor, sou executor e sou também fiscal, mas antes fui arquivista, fui organizador”, define-se (idem, p.95).
Sem reduzir a uma alegoria, pode-se entender a figura paterna como uma extensão, em certa medida, da própria nação colombiana – ambas familiares, mas desconhecidas ao mesmo tempo47.
[...] depois de ter estado em lugares nos quais já estivera milhares de vezes e mesmo assim ter a sensação de não os conhecer, de jamais tê-los visto, lugares que me pareciam tão opacos e duvidosos quanto a vida do primeiro Gabriel Santoro –, foi depois de tudo aquilo, repito, que a ideia deste informe me ocorreu pela primeira vez. (idem, p.260).
Nesta dupla perspectiva – familiar e desconhecido, próximo e distante, dentro e fora – nota-se ainda mais a presença do escritor deslocado, o colombiano radicado na Europa, que o leitor já vinha pressentindo nos movimentos dos personagens e em várias observações nas quais o narrador realça a percepção de que vem de fora o olhar que conduz a obra48. No romance, tal como observa Abril Trigo em relação à memória em deslocamento (2003, p.93), o passado ganha novo significado a partir das novas circunstâncias do presente – o que ocorre tanto nas reminiscências de Sara (que, no “aqui-agora” da Colômbia, começa a ver o “então- lá” da Alemanha com outros olhos) como nas investigações de Gabriel filho, que passa a ler seu primeiro livro de outra forma depois de saber da participação do pai entre os delatores das listas negras. Nos dois casos, a releitura só é possível após um distanciamento de uma referência de origem – para Sara, a Alemanha; para Gabriel, seu pai, de quem se afasta por três anos depois de publicar Una vida en el exilio.
47 Longe de ser uma novidade, investigações sobre a figura paterna têm sido um caminho recorrente para escritores latino‐americanos interessados em examinar o passado de seus países. Entre os numerosos exemplos recentes, podemos acrescentar o romance “Bosque quemado” (2007), do chileno Roberto Brodsky, e as memórias “El olvido que seremos” (2006), do colombiano Héctor Abad. 48 Quando avança, por exemplo, nas conjecturas sobre os rumos de Enrique e se refere à “clareza dos desterrados”, à tristeza dos que ficam e à impossibilidade de regressar (idem, p.217). Ou quando fala que em seis meses Bogotá pode se tornar irreconhecível para quem deixou de viver na cidade (idem, p.251).
Além de resgatar, nas décadas de 1930 e 1940, um episódio excluído da “história oficial” – conclamando, com isso, ao dever de memória –, Juan Gabriel Vásquez leva para o romance o país convulsionado que viveu nos anos 1980 e 1990: a nação encurralada pelo narcoterrorismo que chegou a gerar, entre numerosos frutos literários, um novo gênero da ficção contemporânea: a chamada novela de sicarios, notabilizada, entre outras obras, pelos romances La virgen de los sicarios (1994), de Fernando Vallejo, e Rosario Tijeras (1999), de Jorge Franco. Curiosamente, a ação de Los informantes termina em 1995, um ano antes da partida de Vásquez para a Europa – o que reforça, nos que atentarem a este detalhe, a crença no caráter pessoal de boa parte das impressões deixadas sobre o país ao longo da obra49. Referindo-se a uma cena de 1980, quando acabara de fazer 18 anos, Gabriel filho observa: “O tempo das bombas e dos atentados, uma década inteira em que vivemos com plena consciência de que voltar para casa à noite era questão de sorte, estava longe ainda” (VÁSQUEZ, 2004, p.20). Mais adiante, quando recebe de Sara a notícia do acidente do pai, o jornalista conta que “a escutava com uma certa distração e uma efêmera lástima altruísta, que é como costumamos escutar a notícia de uma morte alheia na Colômbia” (idem, 97).
Violência, hipocrisia e esquecimento coletivo são alguns dos traços que, à distância, Vásquez evoca do país que deixou há 15 anos. “Recordar”, disse ele recentemente, “é um ato moral” (VÉLIZ, 2011). Ao mesmo tempo em que se lança a essa tarefa, ele faz de sua própria matéria-prima – a memória – um rico tema de reflexão, como veremos a seguir.
49 Em seu romance mais recente, El ruido de las cosas al caer (2011), o protagonista é um jovem advogado atingido acidentalmente num ataque a um narcotraficante. Nas entrevistas de divulgação, Vásquez qualificou o livro como o seu mais autobiográfico, por tratar da insegurança que experimentou pessoalmente na Colômbia.